terça-feira, 28 de julho de 2015

Póvoa

Conhecia aqueles azulejos todos, um por um. Já não os via há anos, ou melhor, já não olhava para eles há anos. E eles lá estavam (deveria agora adjetivar com magníficos, mas não o faço) à minha espera, um pouco mais gastos, é certo, mas resistindo à oxidação das coisas e das pessoas, despoletando memórias como uma paisagem à qual, inquestionável, se retorna. Na Póvoa. Na mal amada póvoa que se esquece por força do consenso da má arquitetura e dos banhistas de má arquitetura. E achei absurdo esse desprezo, esse consenso de tal forma unânime que se deverá errar por ser tão mansamente consentido. A póvoa, a minha póvoa do mar bravo (que não espreitei) com a cova onde os mais incautos perdem o pé, outros a compostura, às vezes a vida, acontecia. A póvoa da maresia intensa que procurava furar a impermeabilidade dos azulejos coloridos, das tardes de nevoeiro que me atiravam para o cinema, para os filmes do Bud Spencer e para as comédias italianas de uma sexualidade (aparentemente) casta. Mas foi exatamente na Póvoa onde descobri que além dos filmes havia cinema. O touro enraivecido do Scorsese no Póvoa-Cine e a primeira discussão cinematográfica a preto e branco entre os zips amarelos e a mostarda amarela do predileto, ou melhor do predilecto. A póvoa e os poveiros sempre desconfiados dos banhistas e da arrogância de quem vai a banhos, uma arrogância burguesa, uma arrogância operária, mas sempre arrogância.

E foi no bar da praia, provavelmente no meu décimo sexto ano de póvoa, que conheci a sério os primeiros poveiros, bons de bola e bons de música, que reencontro hoje com o mesmo prazer daqueles fins de tarde para uma partida de bola na areia, um banho, e um fino e tremoços num bar que não resistiu ao tempo como os azulejos.








quarta-feira, 22 de julho de 2015

A Celebração



A Coleção de Fotografia da Muralha (CFM) é composta por 5646 clichês fotográficos de vidro, que se encontram devidamente acondicionados no Arquivo Municipal de Alfredo Pimenta, através de protocolo próprio entre a Muralha, Associação de Guimarães para a Defesa do Património e a Câmara Municipal de Guimarães, votado unanimemente em reunião de Câmara em Março de 2014.
A história da CFM é longa, não é meu objetivo abordá-la em profundidade aqui, e contou com o dedicado empenho de muitos dirigentes da Muralha que a adquiriram, estudaram e trataram, sendo hoje um dos mais interessantes acervos da nossa história comum que abrange, fundamentalmente, a última década do século XIX e as primeiras décadas do século XX em Guimarães.
A maior parte das fotografias são atribuídas ao fotógrafo Domingos Alves Machado (1882-1957) que foi proprietário das casas fotográficas Foto Eléctrica Moderna e Foto Moderna e acompanha, não só, a evolução urbana de Guimarães, como as nossas tradições, os nossos momentos marcantes enquanto comunidade e as nossas gentes enquanto personificações meticulosas para o ato da fotografia, durante cerca de meio-século. Não há na fotografia de Domingos Alves Machado apenas a preocupação profissional do registo, da encomenda destinada a perpetuar-se digna num qualquer salão, não. Há mais do que isso, há uma alma forte e propositada naquelas imagens que nos fazem, cem anos depois, olhá-las sempre de forma diferente a cada novo olhar, nas horas e minutos de hoje.



Como qualquer boa história, a CFM teve o seu ponto de viragem que nos levou a um caminho diverso e surpreendente do que seria expectável. E essa viragem (como um ato de revelação fotográfica) dá-se precisamente em 2011 no âmbito da Capital Europeia da Cultura (CEC), sendo este um projeto que sobreviveu e cresceu para além do evento. Com o projeto Reimaginar Guimarães todas as imagens da CFM foram devidamente digitalizadas e, sobre a base de informação pré-existente, começou a ser feito um trabalho de estudo e de arquivo minucioso e com base nas melhores e mais rigorosas práticas disponíveis.
Não seria possível sem o envolvimento da CEC e sem o auxílio de muita gente fazer-se o que se fez, mas seria, da minha parte, injusto, com base na generalização agradecida, não destacar o Eduardo Brito que com a sua criatividade contida no rigor exigível, foi o Martim Moniz que deixou a porta aberta para aquilo que a CFM hoje prossegue. Felizmente, ao contrário do cavaleiro de D. Afonso Henriques, pode hoje participar no futuro da CFM.

A exposição A Celebração que se inaugura na próxima sexta-feira às 18h30, no Guimarãeshopping, ao lado da FNAC, faz parte de uma nova direção da CFM, que está a crescer e a atingir novos públicos, estratégia iniciada no ano transato com a exposição O Trabalho. Agora procura-se, dentro da CFM, o lado festivo da comunidade: as festas e romarias, a música, as efemérides, os almoços e piqueniques, os casamentos, os exercícios de bombeiros e outras manifestações, nomeadamente as encenações em exterior ou no estúdio fotográfico de Domingos Alves Machado. Esta exposição, pensada há cerca de um ano, e trabalhada há vários meses contou com a colaboração de muita gente e procurará que as pessoas que a visitam possam dar também o seu contributo, na identificação mais precisa das imagens expostas ou simplesmente através da sua opinião. A ideia é a de que a CFM tenha um caráter eminentemente vivo e dinâmico, aberto à cooperação no enquadramento de rigor com que, desde o início, se assumiu. Os textos e legendas da exposição resultaram da colaboração com António Amaro das Neves, António José Oliveira, Francisco Brito, Helena Pinto, Maria José Queirós Meireles e Rosa Saavedra, todos eles ligados à História, e em particular à nossa, dos escritores Carlos Poças Falcão e João Almeida, de uma instituição vimaranense unipessoal (António Emílio Ribeiro) e de um curioso (eu).


Esta exposição resulta de uma parceria entre a Muralha e o Cineclube, e conta com o imprescindível apoio do Guimarãeshopping, Oficina e Câmara Municipal de Guimarães, assentando, imponderável, nos ombros sólidos e criativos de Alexandra Xavier, Miguel Oliveira e Nuno Vieira. À imagem do ano anterior.


Publicado in O Comércio de Guimarães (22.07.15)

Cartaz da exposição.