quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Alívio

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Obama ganhou com o apoio decisivo e esmagadoramente maioritário dos negros e latinos americanos, mas ganhou.

Apesar das clivagens marcadas dos eleitores americanos entre o conservadorismo e o liberalismo, que garantem sempre votações consideráveis nos candidatos republicano e democrata, esta eleição foi renhida. A eleição não foi muito equilibrada do ponto de vista dos grandes eleitores (cerca de 100 de diferença) mas foi-o naquilo que representa o voto do povo (52% contra 48%).

Romney foi de longe o melhor dos candidatos republicanos apresentados nas primárias. Apesar da sua falta de coerência (mudou de posição de acordo com as plateias) ele era o mais “central” dos candidatos apresentados pelo Partido Republicano.

Obama tem mais uma oportunidade para mostrar o que vale. Para transformar em política a sua brilhante retórica. Esperemos que o consiga.

 

Foto_NYT

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O elevador

 

Desde que me conheço sempre tive uma relação muito tensa com a altitude. Não chega a ser pavor - graças a Deus – mas apenas um formigueirozinho de medo que me leva, ao que penso fazer de forma disfarçada, a não me abeirar com particular entusiasmo das varandas altas. Por isso desenvolvi a estratégia de, quando estou num local alto, olhar para o horizonte ignorando de forma profilática o chão mais próximo. Há quem diga que a vertigem resulta de uma vontade doentia de nos atirarmos, nunca pensei nisso assim, apenas relaciono a vertigem com a possibilidade de cair e isso é já suficiente assustador para eu ficar na defensiva.

Não disfrutei da vista de Nova Iorque, como deveria, do topo do Empire State Building, nem inalei com o olhar, como se imporia, o majestoso Atlântico da Torre de Hércules na Corunha. Deixei de ver, com a calma que a beleza inspira, muita coisa, quando a visão implica a perspetiva abrangente de uma altura. E, pasme-se, também não vou particularmente confortável à Penha de teleférico. Mas vou, temos a obrigação de contrariar os nossos medos. Não estico muito a corda mas faço sempre o esforço para ir, nem que à força de alguns suores frios. O único sítio em que perdi a noção da altura foi na tropa, em Mafra, pois aí estava entalado entre o medo e a chacota do instrutor e dos camaradas. Aí já fui capaz de deixar em segundo plano a vertigem; há que ser bravo quando as circunstâncias não nos deixam outra opção que não o ridículo. E o ridículo, ou a ideia que eu faço de ridículo, é, para mim, mais desditosa que o medo.

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Os elevadores como um instrumento da altura merecem-me, também, algum respeito, mas apenas a partir do 5º ou 6º pisos. Consigo acomodar sem grande dificuldade menos que isso. Na esmagadora maioria dos elevadores, e relativamente à altura, o medo resulta de uma abstração pois não conseguimos ver para fora deles. Sentimos que estamos a subir pelo som do elevador, pelo tempo que ele demora a elevar-se, ou até pela concreta certeza dos números digitais no mostrador de serviço.

O jornal i, num dos seus interessantes artigos, citou na passada semana um curioso estudo de um tal Lee Gray, norte-americano investigador da Universidade da Carolina do Norte, sobre as relações sociais nos elevadores. Um aspeto curioso sobre o qual nunca tinha pensado …

Há efetivamente um conjunto de normas de conduta que resultam de medos diferentes daquele a que me vinha referindo. Desde logo a colocação das pessoas no elevador; um novo elemento coloca-se na posição diametralmente oposta ao elemento que já lá estava, um terceiro forma um triângulo e o quarto um quadrado, cuja norma é sempre a mesma a do máximo afastamento possível entre as pessoas. Um quinto elemento vai ter de ocupar a desconfortável posição central pois mais ninguém se move do seu canto durante a viagem.

Na verdade as companhias de elevador são invariavelmente companhias indesejadas. Afastamo-nos o mais possível, evitamos o contacto visual e geralmente fixamos o mostrador para evitar constrangimentos. Existe um protocolo de silêncio pois qualquer conversa seria inútil no tempo que demoramos dentro do elevador e todos os ocupantes, com chatas exceções, levam o protocolo muito a sério para evitar mais embaraços.

O elevador Portugal está-se a tornar mais do que embaraçoso. Está a ficar demasiado apinhado para que nos seja impossível evitar o contacto visual com os parceiros do lado e a ficar também demasiado pesado para nos dar a esperança de alcançar o piso que desejamos. Fechados dentro de uma caixa de alumínio começamos a perder a perceção do que se passa lá fora, e, mais grave do que isso, a perder a noção do piso para onde queremos ir.

No meio de um espaço sem referências o elevador Europa poderia levar-nos bem alto se o construíssemos e usássemos solidariamente nesta altura difícil. Mas não. Começa-se a construir o elevador Catalunha, o elevador Flamengo, e outros pequenos elevadores sem a dimensão de um verdadeiro e mobilizador projeto. Talvez o Nobel da Paz nos saiba mostrar tudo o que de bom se construiu até aqui e perspetive o quanto é ainda desejável construirmos no futuro. Em conjunto.

in Comércio de Guimarães

Fotos: darkroastedblen.com +  Buster Keaton (Safety Last, 1923) + s3.amazonaws.com

domingo, 14 de outubro de 2012

Com amigos destes…

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Foto_Público

Berta Cabral, candidata do PSD às eleições regionais dos Açores, que hoje se realizam, foi a mandatária de Passos Coelho na sua região aquando da candidatura do Primeiro-Ministro à liderança do PSD. Hoje trata-o como um leproso e distancia-se da ação governativa do homem que de forma tão visível apoiou.

É isto compreensível? Até o poderá ser, agora que não é bonito não o é. Na política como na vida devemos ser compreensivos com os nossos amigos e apoia-los precisamente quando eles mais necessitam. Poderia, na minha modesta opinião, ganhar com a coerência aquilo que pretende ganhar com o calculismo político.

Uma das coisas que sempre mais gostei no meu partido é a sua liberdade. Não vemos no PS, nem os vislumbramos sequer, militantes como Pacheco Pereira que arrasam a ação governativa sem que nada lhes aconteça do ponto de vista partidário, e ainda bem. A liberdade é um valor fundamental da Democracia. A desconfiança do comentador em relação àqueles que sempre viveram nos corredores do partido foi verbalizada na corrida à liderança do PSD e é hoje por ele jogada na sua análise para explicar a fragilidade políca do governo.

Uma das coisas que sempre me irritaram no PSD – e nos outros partidos – é a falta de solidariedade, a falta de coerência em relação aos princípios e às pessoas.

Ovo de Colombo

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A atribuição do Nobel da Paz à União Europeia é de uma justiça tão clara que até dói. A Academia viu, este ano de 2012, o óbvio que tem escapado a quase toda a gente …distingui a União Europeia pelo seu contributo para a paz.

Este prémio surge, curiosamente, quando a União dá sinais claros de fraqueza, divisão e incerteza.

O grande projeto europeu que nos protegeu da guerra nos últimos 60 anos não pode morrer, nem definhar. Basta saber olhar para trás.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Já chega

 

FUTEBOL - makelele(esq)da academica durante o jogo entre as equipas Academica-V.Guimaraes da 6™ jornada da liga zon sagres no estadio efapel cidade de coimbra, dom. 07 Out 2012 FERREIRA SANTOS / ASF

Foto_VSC

A vitória do Vitória ontem em Coimbra foi merecida, não obstante a forma como o segundo golo foi obtido e a minha vontade de ver a minha equipa vencer. Coube ao Vitória as melhores oportunidades e um querer superior ao dos academistas, nem sempre acompanhado, é certo, por uma técnica compatível com a determinação apresentada.

O que me continua a deixar triste é a forma raivosa se vê hoje o futebol. O facto das claques serem, regra geral, instrumentos de ódio que ontem em Coimbra culminou com ataques às camionetas de Guimarães.

Tenho uma relação muito forte com Coimbra – a cidade onde estudei – e durante anos acompanhei o meu Vitória no meio dos adeptos da Académica sem que alguma vez tivesse qualquer tipo de problema. E foram vários os encontros que vi. Não me converti à Académica – algo que não passa pela cabeça de qualquer vitoriano – e nem por isso deixei de ver futebol em Coimbra (mesmo com a Académica na segunda lembro-me de um jogo da taça em que fomos por ela eliminados).

Depois do caso N´Dinga as coisas mudaram. E num ano em que no campo a Académica ficou atrás do Vitória criou-se um estúpido mito que ainda hoje perdura em algumas cabeças mais tontas. E o ódio de muitos adeptos da Académica ao Vitória tornou-se um sentimento dogmático e nos últimos anos saí sempre do “calhabé” com a sensação que poderia ter terminado mal o jogo; não pelo resultado mas pela minha integridade física.

Por estas e por outras raramente acompanho hoje a minha equipa fora de casa. Já não vejo o Vitória em Coimbra há dois anos, este que é certamente um estádio onde mais vi jogar fora o meu clube. Não tenho paciência para o insulto, a ameaça, a agressão. E tenho pena que a Académica não fuja também a esta estranha anormalidade que, dia a dia, se torna normal e que corrompe o futebol que deveria de ser, acima de tudo, um espetáculo.

sábado, 6 de outubro de 2012

O teatro

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Foto-Público

Perdi, infelizmente, o meu habitual otimismo no país e esse dia foi quando o Primeiro-Ministro anunciou as medidas da TSU. Não pelas medidas em si mas pela falta de envolvimento do país nessa decisão. Voltou atrás mudou as medidas e o país também não se envolveu … deixou-o sozinho a assumir as responsabilidades que são de todos.

Aquilo que eu chamei greicização está a acontecer. Dia após dia. As pessoas perdem facilmente a compostura que se lhes conhece e em períodos difíceis começam a disparatar em todas as direções e a fazer figuras tristes e a contribuir para o espetáculo de degradação da nossa vida cívica e política.

A começar pelos deputados do PC e do BE chamam-se de gatunos pessoas como Aguiar Branco, Paulo Macedo ou Vítor Gaspar com o ódio jacobino que as frustrações individuais sempre levantam em situações extremas. Aliás é verdadeiramente aí – nas situações difíceis – que se conhecem as pessoas, não é na farra ou na facilidade nova-rica que nos fez perder. E este é o ponto em que o caos começa e não demorará muito se os Aguiares Branco, os Macedos ou os Gaspar mandarem passear a cambada do ódio. Alguém duvida que isso lhes passa pela cabeça quando têm de fugir de um homem em aparente descontrolo que chama filho deste ou filho daquele a pessoas que desconhece, só para aparecer no telejornal?

Alimentamo-nos hoje deste espetáculo todos os dias. Não se discorda, agride-se. Não se contrapõem, esmaga-se. Como se tivéssemos liberdade para fazer escolhas inteligentes e sensatas…

O verdadeiro sofrimento não recorre à treta, esconde-se. Esconde-se envergonhado de um país sem solução, de um país de gente boa onde os malcriados ganham relevo … ou com novas e sempre frescas soluções daqueles que ainda há bem pouco sustentavam Sócrates como um deus.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Malta porreira

 

Não é difícil perceber as responsabilidades e erros do atual governo na condução política das medidas de austeridade. Mas não é igualmente difícil perceber que a situação insustentável a que chegamos em Portugal requer medidas concretas e difíceis e que pela sua dimensão não serão certamente isentas de erros. Não as tomar significará, suponho, o isolamento de Portugal em termos políticos, sociais e económicos com a eventual saída do euro e da união europeia.

Por isso espanta-me a candura dos responsáveis políticos quando dizem que não se pode cortar no apoio fundações, não se pode privatizar a Caixa ou a RTP, não se podem aumentar impostos, não se pode isto ou aquilo. E, estou certo, que quando o Governo começar (e terá que o fazer) a cortar nas PPP (apesar do imbróglio jurídico que tal decisão acarretará), virá sempre um “responsável” político de um planeta distante dizer que é absurdo cortar-se naquela PPP pois irá prejudicar seriamente a população de Saturno.

Assim não dá.

Louva-se no entanto a postura serena, realista e cooperante de alguns parceiros institucionais como a UGT que consegue ver para além da luta político-partidária.

sábado, 22 de setembro de 2012

Dérbie minhoto?

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Foto_Guimarães Digital

 

A vitória do Vitória ontem em Moreira foi um resultado mais importante do que aquilo que seria espectável. À quarta jornada o Vitória, equipa frágil apesar de promissora, precisava de uma vitória para receber o Braga com outro ânimo e conforto. Consegui-o. De forma difícil, pois o Moreirense tem uma boa equipa que espelha a sua excelente organização e o bom trabalho de Vítor Magalhães, mas inteiramente justa.

Irrita-me chamarem, como a comunicação social o fez, a um dérbie vimaranense um dérbie minhoto. Talvez a partir de hoje começem a designar o Sporting-Benfica como um dérbie da Estremadura e não como desafio lisboeta.

Haja paciência para tanta ignorância, parte dela, diga-se, inteiramente propositada no sentido de fragilizar o Vitória e o trabalho hercúleo que está a ser feito. Um trabalho que só dará frutos se todos ajudarmos. A situação financeira é muito pior do que aquilo que o mais pessimista dos vitorianos possa imaginar. União, paixão e responsabilidade é o que se nos pede.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O difícil equilíbrio

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A histeria que se estabelece no mundo islâmico sempre que algum palerma decide achincalhar Maomé é uma verdadeira loucura.

Há uma semana atrás, em Bengazhi na Líbia, o embaixador norte-americano e mais três elementos do consulado foram brutalmente assassinado por uma turba de facínoras que emboscaram a representação norte-americana.

O pretexto foi um filme, com o qual os EUA nada têm a ver.

A intolerância tende a gerar intolerância e compreendo que, no Ocidente, tal selvajaria e a miríade de manifestações no Egito, na Indonésia, e noutros países muçulmanos, gere sentimentos de náusea perante tão primárias manifestações.

 

Mas vamos ter que ter paciência para nada fazer que “dê razão” aos promotores do ódio contra o ocidente. Tenho a certeza que a larga maioria dos muçulmanos são gente decente que espreita a oportunidade de viver em sociedades mais democráticas, livres e justas. Qualquer erro ocidental, mesmo que compreensível, isola-os.

E é esta paciência e uma infinita diplomacia que deve guiar, a Europa ou os EUA, neste campo de minas que existe hoje entre o Ocidente e o Oriente.

O tão criticado Bento XVI fez, no Líbano, uma parte simbólica, mas importante, na conciliação entre povos e religiões.

 

 

Foto_http://globalvoicesonline.org

Paixão

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O beijo Gustav Klimt (1908-09)

A paixão é uma palavra demasiadamente feia para encerrar tão forte e importante significado. É uma palavra com sonoridade de caixão ou puxão, ambas também horríveis. Uma língua tão bonita quanto a língua portuguesa não teve aqui a arte de arredondar delicadamente o termo latino passio para a rendilhada passione como fizeram os italianos, ou a delicada passion dos franceses. Já os espanhóis carregaram-na de intensidade na pásion, como é aliás seu hábito.

Não tivemos em conta a paixão dos gregos (pathe), que era o de sentir, seja lá o que fosse, e seguimos estritamente a passio latina que quer dizer sofrimento. Daí a aspereza da palavra.

No entanto enquanto povo latino que somos nunca consideramos a paixão como um mal. O sofrimento que ela induz é bom, é necessário. Achamos nós ser uma ventura imensa apaixonarmo-nos, mesmo que isso implique sofrer. Mesmo que isso nos desassossegue permanentemente. Tenho dúvidas até que se possa arrumar a paixão na classe dos sentimentos: o sentimento é uma consciência íntima, enquanto a paixão é uma inconsciência declarada.

A paixão tem prazo de validade. Se chegarmos a uma altura adiantada da nossa vida e nunca nos tivermos verdadeiramente apaixonado por ninguém, é melhor esquecer. O cinismo que se ganha forçadamente com a idade impede-nos de sentir a paixão. Torna-nos impermeáveis à loucura. Um afeto tão violentamente arrebatador exige uma perfeita forma física e uma imperfeição nas regras de comportamento. É uma pena, eu sei, mas é mesmo assim. A paixão tendo mais de doença – uma doença boa – que de sentimento. A paixão é sarampo, pois como o sarampo só se apanha uma vez. Fica-se imune aos restantes ataques. Condescendo aqui um pouco para duas, três em casos raros de grandes corações, mais do que isso não é paixão o que dizem sentir. É amor piegas. Serão afetos talvez, coisas quantificáveis portanto, nada mais que isso.

 

E se somos daqueles cuja sorte ou arte nos permite hoje trocar olhares com a nossa paixão, fiquemos aí. Pois passada a borrasca caótica da paixão, sente-se ainda, cuidadosamente, por baixo da aparência mundana, com várias mãos de tempo, o sorriso, o olhar, o recanto de pele, a expressão nos lábios que um dia julgámos que nos matariam … só de os olhar.