quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Coisas que não deveriam parecer mal em 2013


“(…) amanhã trarei gafanhotos para o teu território. Eles encobrirão de tal modo a superfície do solo que não se poderá ver o chão. Comerão o resto que sobrou, poupado pelo granizo, devorando todas as árvores que crescem no campo. Encherão tuas casas (...) como nunca o viram teus pais, nem teus avós, desde que começaram a existir sobre a terra até hoje”
Livro do Êxodo.




2012 foi um ano difícil para Portugal. Foi mais um ano de troica com as consequências que conhecemos e com alguns matizes particularmente irritantes. O principal foi o de que passamos agora uma espécie de castigo pelo mau comportamento passado. Ora, se há coisa que não mobiliza é a culpa. Pode tornar-nos mais lúcidos mas não nos faz correr para o futuro. Por isso neste ano temos que trocar as voltas ao que parece correto fazer-se ou dizer-se, optando pelo contrário. Assim, parece-me importante:



Rir alto. A gargalhada é catártica e revigorante. Pode haver quem se sinta incomodado pela alegria de quem ri. Quem o ache desajustado. Não faz mal, pois se há quem lhe seja imune mais haverá quem se deixe contagiar por uma praga tão benigna como a alegria.

So rare to see them laughing!
Beijar em público. O beijo é um dos mais encantadores gestos humanos. Os primeiros beijos então marcam como tinta a nossa memória. Raramente um primeiro beijo não revela, logo ali, a mulher que se beija. Sabe-se logo se vale ou não a pena. O beijo precisa de ser reinventado e mostrado com parcimonioso contentamento. De O’Neill: É uma ave estranha: colorida, /Vai batendo como a própria vida, /Um coração vermelho pelo ar/E é a força sem fim de duas bocas, /De duas bocas que se juntam, loucas! /De inveja as gaivotas a gritar...

kiss
Não dizer mal do Governo. Não é preciso dizer bem; basta respeitar o esforço e a tarefa.

Fazer de conta que a CEC não acabou. Ir ver o espetáculo, o teatro, a exposição, o cinema, como se não soubéssemos fazer mais nada. O saudável vício da cultura que nos torna melhores.

Comprar jornais. Abandonar a leitura de notícias online e contribuir para que a imprensa escrita tenha a dignidade que merece e possa ser livre, crítica e atenta.


Inventar um novo fim do mundo. Vamos continuar a alimentar as palermices apocalíticas e descobrir um novo fim do mundo pela leitura enviesada dos sinais de culturas antigas. Escolhamos agora os assírios, os celtas ou os persas, e experimentemos novamente o alívio humorado da previsão feita de medo. E aliviemos assim os dias que passam e continuam a passar.

Dizer bem dos alemães. Vamos continuar europeus mas pró-germânicos, não por qualquer síndrome de Estocolmo mas porque toda a gente deles diz mal. Os bravos ingleses estão num estado comatoso de hipocrisia europeia e os franceses são os totós do costume. Dos italianos não precisamos de dizer bem mas de os imitar, agora que parece definitivamente estripada a pústula berloscuniana. Escolhamos então um amigo improvável que, mesmo mal disposto, nos tire da monotonia do politicamente correto.

Fumar. Não é possível aguentar a ideia de que o fumo é a origem de todos os males. Desde os cigarros aos salpicões tudo é amaldiçoado pelo fumo. Retiremos do baú a sensitividade do cigarro, o seu tonto ritual e como Álvaro de Campos sigamos o fumo (…) como uma rota própria,/ E [gozar], num momento sensitivo e competente, /A libertação de todas as especulações /E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

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Respeitar o acordo ortográfico. Sempre e cada vez melhor como homenagem a uma língua viva, falada por mais de 200 milhões de pessoas, que tem mais futuro do que a rezinga dos “puristas”.

Vamos fazer com que valha a pena 2013, trocando as voltas às coisas, ao que parece mas não é. Talvez assim se quebre este feitiço pesado que se abateu sobre o país e talvez o ano que se anuncia terrível iluda o seu próprio peso no humor de um desalinhar consciente.


Fotos in Pinterest
Publicado in Comércio de Guimarães

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A pessoa do ano

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A revista Time escolhe no final de cada ano, desde 1927, uma figura planetária a que dá o título de pessoa do ano. A história começou com a necessidade da revista semanal dar ao piloto Charles Lindberg o destaque que não lhe haviam dado, por erradas opções editoriais, nesse ano de 1927.

A tradição consolidou-se e ganhou o estatuto que hoje conhecemos. A escolha deste ano não é particularmente feliz quando tinham uma short list bem mais interessante. Eu teria escolhido o Bossão de Higgs ou mesmo Fabiola Gianotti como a revista preferiu.

No entanto a revista foca-se, quase sempre, na política americana e é usual que os presidentes, como é o caso, sejam eleitos, pelo menos uma vez, como personalidades do ano.

 

No entanto os acontecimentos também permitiram escolher ao longo destes anos outras “pessoas” (talvez as mais interessantes escolhas):

O computador: 1982.

 

O utilizador: 2006.

 

A terra ameaçada: 1989.

 

E grandes figuras:

Gandhi: 1930.

TIME Magazine Cover: Konrad Adenauer, Man of the Year -- Jan. 4, 1954

Konrad Adenauer: 1953.

 

Martin Luther KIng: 1963.

 

 

 

Gorbachev: 1987.

 

 

 

Churchill: 1940 e 1949 (personalidade do meio-século)

 

 

Ditadores:

TIME Magazine Cover: Adolf Hitler -- Apr. 14, 1941

Hitler: 1938.

 

TIME Magazine Cover: Joseph Stalin, Man of the Year -- Jan. 1, 1940

Stalin: 1939 e 1942.

 

Khomeini: 1979.

 

Até coisas mais mundanas como Wallis Simpson (1936) ou temas mais abrangentes e politicamente relevantes no globo como:

A revolta húngara (1956).

A luta dos operários polacos (1981)

 

Ou os protestos que marcaram 2011:

 

 

Ou os jovens americanos (1966):

 

sábado, 15 de dezembro de 2012

O escultor de Guimarães

 

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António de Azevedo foi um notável escultor que marca a paisagem citadina da nossa cidade como nenhum outro. São dele as delicadas esculturas do jardim da Alameda com o Fauno (1934) e a Rapariguinha que a ele se junta 8 anos mais tarde, permanecendo juntos desde então naquele espaço, continuando a dar um toque de beleza e harmonia ao jardim recentemente renovado. É dele o busto a Martins Sarmento, e todo o enquadramento em granito, no Largo do Carmo (1934) ao lado da casa do arqueólogo. É dele o monumento e o alto-relevo de Alberto Sampaio no Largo dos Laranjais (1956) e a estrutura em que assenta o medalhão de António Teixeira Lopes à memória do Gravador Molarinho na Feira do Pão (1935), bem como o medalhão a Torres Carneiro que encima a escadaria da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães. É dele ainda, em espaço público, o busto de Luís de Pina na Penha ou de Francisco Inácio da Cunha Guimarães em Pevidém. De modo particular as principais figuras de cidade nos anos 30, 40, 50 e 60 são esculpidas pelas mãos e sensibilidade do artista.

As esculturas de António Azevedo em Guimarães fazem mais do que marcar a nossa cidade, caracterizam-na e unem no olhar todas as gerações que conviveram e convivem com a sua obra plástica.

 

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O escultor é natural de Vila Nova de Gaia, adotando o Modernismo como escola, depois de ter vivido em Paris (1911-1914), uma cidade especial, sedenta de modernidade a que uma elite artística deu corpo.

A vinda do artista para Guimarães deve-se ao facto de, em 1931, ter sido convidado para ser professor e dirigir a Escola Industrial e Comercial de Guimarães, hoje Escola Francisco de Holanda. António Azevedo foi seu diretor durante os 27 anos seguintes ajudando a construir a reputação da Escola e a sua importância na vida económica e social de Guimarães.

Durante todos estes anos Azevedo não é apenas mais um, e desde cedo participa em Comissões independentes (não remuneradas) que marcam a vida cultural e estética da cidade. Pelas comissões que o escultor integrou passaram algumas decisões em momentos marcantes da cidade – tão importantes como o ano que agora acaba com Guimarães como Capital Europeia da Cultura – como o foram as Festas Centenárias de 1940 ou as Festas Milenárias de 1953.

 

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A importância deste homem na vida da cidade e da sua paisagem urbana será contudo pouco conhecida, pelo menos em termos de identificar as obras com o autor, apesar de a sua obra ser facilmente reconhecida pelo olhar de quem aqui vive, ou mesmo de quem nos visita.

Por isso, no âmbito do programa constelações (CEC 2012) a Muralha, associação de Guimarães para a defesa do património, o Cineclube de Guimarães e a Assembleia de Guimarães, decidiram pegar na obra do escultor, estudá-la e divulgá-la. Aliás, uma das instituições, a Assembleia de Guimarães é quem promove, a 26 de Junho de 1965, uma homenagem pública a António de Azevedo: a mais importante que em vida do escultor se lhe fez.

Assim a iniciativa promovida pelas três associações referidas - uma boa troica - pretende constituir-se como um novo olhar sobre a obra de António Azevedo, um olhar atento e admirado, que por agora se atém à publicação de um livro, um belo livro diga-se, escrito com carinho e rigor pela historiadora Rosa Maria Saavedra e olhado pela câmara fotográfica e sensibilidade artística de outro vimaranense, José Pastor, que interpreta em fotografia a obra do escultor, da qual se fará uma exposição.

O livro será apresentado de sábado a oito dias (dia 22 de Dezembro) no magnífico espaço da Assembleia de Guimarães, pelas 17h30min.

A entrada é livre e o preço de lançamento do livro será especial para o primeiro dia da sua apresentação. O livro é para quem se interessa por Guimarães e pela sua história e poderá constituir-se como um belo e oportuno presente.

António Azevedo, a sua mestria e sensibilidade, merecem o novo olhar que agora se estende pela sua magnífica obra.

 

 

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FOTOS por JOSÉ PASTOR

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Felicidade

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Esta magnífica fotografia ilustra a primeira visita de um presidente dos EUA à Birmânia e nela se vê o radiante abraço de Obama à Prémio Nobel da Paz Suu Kyi.

O Público faz dela a sua capa de hoje e bem. Perante tanta desgraça é bom ver o sorriso franco de um presidente feliz e a timidez resistente da extraordinária Suu Kyi. Tudo numa foto de Jason Reed da Reuters.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

América

“(…) cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente - que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção - que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação com a graça de Deus venha gerar uma nova Liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da terra.”

Abraham Lincoln. Discurso de Gettysburg. 1863.

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Os Estados Unidos da América constituem uma das mais fascinantes histórias políticas da modernidade e que merece uma especial atenção de todos os outros povos. As recentes eleições presidenciais americanas e a sôfrega atenção da comunicação social e dos governos dos outros países sobre essas mesmas eleições são a prova dessa asserção.

A América é um caso muito especial de não indiferença.

 

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A América é uma espécie de irmão mais novo da Europa Ocidental. A minha visão sobre a América é paternalista. Provavelmente de forma injusta mas em linha com a visão de muitos europeus que aliam a admiração pela vitalidade e rebeldia desse benjamim, à sobranceria anciã com que se olham essas mesmas qualidades.

Os povos que fundaram a América fundamental são europeus. Esqueço deliberadamente os povos nativos para me concentrar nos condenados ingleses, nos colonos britânicos, nos holandeses, nos franceses ou nos espanhóis que detiveram territórios naquilo que é hoje o estado federal americano. E mais tarde com os emigrantes italianos, irlandeses, portugueses e tantos outros. Uma forte comunidade negra (que só nos anos 60 viu o fim do segregacionismo nos estados sulistas) e uma cada vez mais numerosa comunidade hispânica completam um quadro complexo e fortemente multicultural que se revelou aliás decisivo na reeleição de Obama.

A América fez-se com sofrimento, revoluções e guerras como a maioria dos estados que conhecemos. Um país que fez da liberdade o seu lema e que é desde o final do séc.XIX a maior economia mundial só agora ameaçada pela República Popular da China. Mas, convenhamos, até nisto os americanos sabem escolher os seus rivais. O modelo de desenvolvimento chinês não contempla valores civilizacionais nos quais nos possamos rever.

O único rival económico de respeito seria a Europa comunitária se tivéssemos a energia e a lucidez de perceber na nossa história as potencialidades comuns e não as diferenças que temos. Diferenças essas que os diretórios políticos europeus teimam em eliminar em vez de as aproveitar como diversidades complementares. Ninguém, à exceção dos narcisos, consegue amar alguém igual a si. São as diferenças que nos apaixonam e nos tiram da melancolia pastosa da concordância.

 

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A América plantou-se na cabeça da minha geração não apenas por questões políticas, de defesa da liberdade e da democracia, ou para quem a detesta por questões de controlo político/militar e de liberalismo económico, mas também por questões culturais. O cinema desempenhou aqui um papel fundamental, já que na música (com honrosas exceções como os Talking Heads) a influência foi sempre claramente britânica.

O cinema americano produziu, e continuará a fazê-lo, muito lixo sem utilidade, assim como acontece com outras cinematografias. No entanto o cinema americano deu-nos e dá-nos ainda hoje América de sobra; deu-nos pelo preço de um bilhete a vida da América e a sua história (por Coppola, Scorsese, ou Leone que tiveram o condão de nos empatizar com os mafiosos), deu-nos de forma irrepreensível o caráter das suas gentes (por John Ford, pelo mal amado Elia Kazan dada a sua participação na caça às bruxas de Joseph McCarthy dos anos 40 e 50, ou pelo ultimamente pouco inspirado Clint Eastwood), deu-nos a crítica a si mesmos (Welles, Nicholas Ray, Altman), a beleza e a sensibilidade (Capra, Jarmush ou Paul T.Anderson), o divertimento inteligente (Chaplin, Hitchcock, Spielberg que estreia em Janeiro próximo um filme sobre o presidente Abraham Lincoln) ou mesmo o que está para lá e que não sabíamos (Kubrick), ou até a visão não americana da América (Milos Forman, Wim Wenders, Otto Preminger). O cinema é um dos grandes embaixadores da América e um dos responsáveis por conhecermos tão bem a América e os americanos. O cinema é a janela escancarada da América para a rua.

 

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Se as qualidades e a vitalidade da América são apaixonantes os seus defeitos são geralmente exasperantes. O moralismo hipócrita é um deles. O presidente Bill Clinton foi obsessivamente perseguido pelo seu maroto envolvimento com uma estagiária, as relações extraconjugais e preferências sexuais dos políticos são escrutinados até à náusea. O nosso encantador irmão mais novo, apesar da bazófia, continua ainda sem saber lidar com algo fundamental ao seu equilíbrio: a sua sexualidade.

 

Publicado in Comércio de Guimarães

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Segurança nacional

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Segurança Nacional (Homeland), uma série que passa na Fox, é juntamente com Downton Abbey a hora que vale a pena “perder” em frente à TV.

Segurança Nacional é uma série, já na segunda temporada, inteligente, plausível e a transbordar de suspense por todos os lados. Os atores são fantásticos (Claire Danes não tem adjetivação possível).

Nota: convém ver a temporada 1 de forma ordenada e depois mergulhar na 2!

Alívio

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Obama ganhou com o apoio decisivo e esmagadoramente maioritário dos negros e latinos americanos, mas ganhou.

Apesar das clivagens marcadas dos eleitores americanos entre o conservadorismo e o liberalismo, que garantem sempre votações consideráveis nos candidatos republicano e democrata, esta eleição foi renhida. A eleição não foi muito equilibrada do ponto de vista dos grandes eleitores (cerca de 100 de diferença) mas foi-o naquilo que representa o voto do povo (52% contra 48%).

Romney foi de longe o melhor dos candidatos republicanos apresentados nas primárias. Apesar da sua falta de coerência (mudou de posição de acordo com as plateias) ele era o mais “central” dos candidatos apresentados pelo Partido Republicano.

Obama tem mais uma oportunidade para mostrar o que vale. Para transformar em política a sua brilhante retórica. Esperemos que o consiga.

 

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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O elevador

 

Desde que me conheço sempre tive uma relação muito tensa com a altitude. Não chega a ser pavor - graças a Deus – mas apenas um formigueirozinho de medo que me leva, ao que penso fazer de forma disfarçada, a não me abeirar com particular entusiasmo das varandas altas. Por isso desenvolvi a estratégia de, quando estou num local alto, olhar para o horizonte ignorando de forma profilática o chão mais próximo. Há quem diga que a vertigem resulta de uma vontade doentia de nos atirarmos, nunca pensei nisso assim, apenas relaciono a vertigem com a possibilidade de cair e isso é já suficiente assustador para eu ficar na defensiva.

Não disfrutei da vista de Nova Iorque, como deveria, do topo do Empire State Building, nem inalei com o olhar, como se imporia, o majestoso Atlântico da Torre de Hércules na Corunha. Deixei de ver, com a calma que a beleza inspira, muita coisa, quando a visão implica a perspetiva abrangente de uma altura. E, pasme-se, também não vou particularmente confortável à Penha de teleférico. Mas vou, temos a obrigação de contrariar os nossos medos. Não estico muito a corda mas faço sempre o esforço para ir, nem que à força de alguns suores frios. O único sítio em que perdi a noção da altura foi na tropa, em Mafra, pois aí estava entalado entre o medo e a chacota do instrutor e dos camaradas. Aí já fui capaz de deixar em segundo plano a vertigem; há que ser bravo quando as circunstâncias não nos deixam outra opção que não o ridículo. E o ridículo, ou a ideia que eu faço de ridículo, é, para mim, mais desditosa que o medo.

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Os elevadores como um instrumento da altura merecem-me, também, algum respeito, mas apenas a partir do 5º ou 6º pisos. Consigo acomodar sem grande dificuldade menos que isso. Na esmagadora maioria dos elevadores, e relativamente à altura, o medo resulta de uma abstração pois não conseguimos ver para fora deles. Sentimos que estamos a subir pelo som do elevador, pelo tempo que ele demora a elevar-se, ou até pela concreta certeza dos números digitais no mostrador de serviço.

O jornal i, num dos seus interessantes artigos, citou na passada semana um curioso estudo de um tal Lee Gray, norte-americano investigador da Universidade da Carolina do Norte, sobre as relações sociais nos elevadores. Um aspeto curioso sobre o qual nunca tinha pensado …

Há efetivamente um conjunto de normas de conduta que resultam de medos diferentes daquele a que me vinha referindo. Desde logo a colocação das pessoas no elevador; um novo elemento coloca-se na posição diametralmente oposta ao elemento que já lá estava, um terceiro forma um triângulo e o quarto um quadrado, cuja norma é sempre a mesma a do máximo afastamento possível entre as pessoas. Um quinto elemento vai ter de ocupar a desconfortável posição central pois mais ninguém se move do seu canto durante a viagem.

Na verdade as companhias de elevador são invariavelmente companhias indesejadas. Afastamo-nos o mais possível, evitamos o contacto visual e geralmente fixamos o mostrador para evitar constrangimentos. Existe um protocolo de silêncio pois qualquer conversa seria inútil no tempo que demoramos dentro do elevador e todos os ocupantes, com chatas exceções, levam o protocolo muito a sério para evitar mais embaraços.

O elevador Portugal está-se a tornar mais do que embaraçoso. Está a ficar demasiado apinhado para que nos seja impossível evitar o contacto visual com os parceiros do lado e a ficar também demasiado pesado para nos dar a esperança de alcançar o piso que desejamos. Fechados dentro de uma caixa de alumínio começamos a perder a perceção do que se passa lá fora, e, mais grave do que isso, a perder a noção do piso para onde queremos ir.

No meio de um espaço sem referências o elevador Europa poderia levar-nos bem alto se o construíssemos e usássemos solidariamente nesta altura difícil. Mas não. Começa-se a construir o elevador Catalunha, o elevador Flamengo, e outros pequenos elevadores sem a dimensão de um verdadeiro e mobilizador projeto. Talvez o Nobel da Paz nos saiba mostrar tudo o que de bom se construiu até aqui e perspetive o quanto é ainda desejável construirmos no futuro. Em conjunto.

in Comércio de Guimarães

Fotos: darkroastedblen.com +  Buster Keaton (Safety Last, 1923) + s3.amazonaws.com

domingo, 14 de outubro de 2012

Com amigos destes…

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Berta Cabral, candidata do PSD às eleições regionais dos Açores, que hoje se realizam, foi a mandatária de Passos Coelho na sua região aquando da candidatura do Primeiro-Ministro à liderança do PSD. Hoje trata-o como um leproso e distancia-se da ação governativa do homem que de forma tão visível apoiou.

É isto compreensível? Até o poderá ser, agora que não é bonito não o é. Na política como na vida devemos ser compreensivos com os nossos amigos e apoia-los precisamente quando eles mais necessitam. Poderia, na minha modesta opinião, ganhar com a coerência aquilo que pretende ganhar com o calculismo político.

Uma das coisas que sempre mais gostei no meu partido é a sua liberdade. Não vemos no PS, nem os vislumbramos sequer, militantes como Pacheco Pereira que arrasam a ação governativa sem que nada lhes aconteça do ponto de vista partidário, e ainda bem. A liberdade é um valor fundamental da Democracia. A desconfiança do comentador em relação àqueles que sempre viveram nos corredores do partido foi verbalizada na corrida à liderança do PSD e é hoje por ele jogada na sua análise para explicar a fragilidade políca do governo.

Uma das coisas que sempre me irritaram no PSD – e nos outros partidos – é a falta de solidariedade, a falta de coerência em relação aos princípios e às pessoas.

Ovo de Colombo

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A atribuição do Nobel da Paz à União Europeia é de uma justiça tão clara que até dói. A Academia viu, este ano de 2012, o óbvio que tem escapado a quase toda a gente …distingui a União Europeia pelo seu contributo para a paz.

Este prémio surge, curiosamente, quando a União dá sinais claros de fraqueza, divisão e incerteza.

O grande projeto europeu que nos protegeu da guerra nos últimos 60 anos não pode morrer, nem definhar. Basta saber olhar para trás.