terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Não Habemus Papam

O extraordinário gesto de renúncia de Bento XVI, deixou meio mundo boquiaberto com a decisão mas, ao mesmo tempo, com a empatia que se deve aos grandes homens. O outro meio mundo que pintou de forma intolerável negra este papa – um homem de cultura e sensatez – está hoje ocupada a retomar fôlego para engendrar uma qualquer teoria da conspiração que torne maléfico, e não humano, este gesto de profundo significado (só o encontramos, na Igreja Católica, há 6 séculos atrás! ). É só dar uns dias para que aparecem várias teorias.

 

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Prefiro pensar, de forma simples, que Bento XVI viu o filme de Moretti e compreendeu, como ninguém, a sua própria inquietação. Naquele filme o indigitado Papa foi interpretado magnificamente pelo grande Michel Piccoli.

 

Foto: AFP

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Coisas que sem importância importam

"O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha? O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal? O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?"
Vinicius de Moraes

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Foto_SICNotícias/Lusa
O futebol, ao contrário do sol, não nasce para todos da mesma forma. A uns aquece e ilumina a outros apenas dá conversa, o que é, diga-se, uma colateral consequência apenas.
O futebol necessita, ao contrário de outras “artes”, de uma boa dose de fanatismo e um clube, claro, por quem torcer (os brasileiros aplicaram o verbo certo, pois há algo de tortuoso neste sentido de pertença que só este vocábulo “torcer” consegue colorir).
O futebol pode ter graça ou não mas isso não depende dele, mas dos olhos que o vêem. Desde logo porque o encanto do futebol exige o oposto das qualidades que admiramos noutras situações. O futebol não é democrático: o clube a que se pertence é uma ditadura no coração. A serenidade no futebol é mau presságio e a racionalidade torna-o chato. Tudo ao contrário do suposto.
Ser adepto de futebol apenas pelo espetáculo é insosso. Mesmo quando o nosso clube não joga é fundamental “ser por alguém”; é impensável um bom adepto de futebol não ter um clube favorito na liga espanhola, inglesa ou até mesmo turca; precisamos de pequenos amores enquanto o grande descansa à espera pelo próximo jogo … e frequentemente à espera, como nós esta semana, da redenção.

Nascer em Guimarães significa, como em nenhum outro sítio, nascer adepto do clube da cidade. Já o é assim há décadas e, felizmente, continua a sê-lo ainda hoje. Ser vimaranense e vitoriano são, quase sempre, duas faces da nossa moeda local, com algumas (raras) exceções que confirmam a regra. O Vitória, independentemente da sua dimensão, tem por via desta tradição educativa a marca da paixão que move outros clubes profundamente identitários como o Barcelona, o Atlético de Bilbao, o Nápoles, entre outros, que identificam de forma orgulhosa a terra a que pertencem. Daí que, pessoalmente, não acompanhe o agastamento de muitos vitorianos sobre o facto de outros designarem por Guimarães o nosso clube; é uma ignorância desculpável e, sobretudo, uma ignorância benigna. Vitória e Guimarães confundem-se.

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Foto-OlavoV in flickr
O destino de torcer indefetivelmente, e sem concessões de espécie alguma, por um clube fora da troica dos chamados “três grandes”, dá-nos uma infindável coleção de tristezas. Sofre-se mais do que é suposto, como nos grandes e verdadeiros amores. Sofre-se com as finais da Taça, com a desfaçatez de António Garrido no verão de 1975, com a descida de divisão em 2006, com a do inacreditável jogo de desempate contra o Estrela da Amadora para a Taça em 1990, ou com o golo contra o Basileia mal invalidado ao Roberto. Tudo isto ocupa, no meu caso, demasiado espaço na memória. Suavizada apenas com as lembranças da época gloriosa de 86/87 com Marinho Peres, em que jogámos o melhor futebol nacional daquela época e uma excelente prestação internacional, com a arte do talentoso Jeremias, com a tomada da Luz em 1986 no tempo do Morais, e mesmo a recente festa no Jamor há dois anos atrás, ou com a inesquecível romaria ao extinto Riopele em finais dos anos 70. E todos estes episódios só viraram acontecimentos pois neles houve uma marca especial que os adeptos apaixonados do Vitória conseguiram deixar, tornando-os assim momentos especiais e inesquecíveis.

Não sei se por sorte ou arte, ou mesmo por uma combinação das duas, nos calhou este ano uma equipa que dá gosto acompanhar e que criou uma empatia com o público vitoriano como há muito não se via. Só isso explica a ovação após o final do último jogo em que fomos goleados. A rapaziada humilde, trabalhadora e talentosa merece-o; e o facto de os jogadores estarem praticamente imunes às tatuagens e às crinas dá-lhes um toque de seriedade - e não de circo - que lhes assenta bem. O treinador Rui Vitória continua a pairar por cima do humor colérico e precoce que o futebol dá às coisas e por mim pode ficar até que a idade o sabote.
Sabemos, infelizmente, que todo este gosto não nos livra da situação miserável que a atual direção procura hoje obviar e combater. Precisamos de retribuir e de retornar ao jogo em massa e, se possível, tornarmo-nos sócios da SAD. Talvez agora, e de uma vez por todas, consigamos eliminar a vertiginosa “vocação pelo erro” que, como o Botafogo, nos acompanha. E a lenta jabuticabeira dê frutos mais cedo que o esperado…

Publicado in Comércio de Guimarães

domingo, 27 de janeiro de 2013

Rodrigo Leão

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Foto_Gustavo Machado

 

Já ouvi Nyman e cansei, uso Mertens em doses cuidadas … ao contrário de Rodrigo Leão que posso ouvir sempre. Ontem no Vila Flor, infelizmente despido de Beth Gibbons, Neil Hannon ou Scott Mathew, o seu som permanece universalmente esplêndido.

Devo a este homem os Sétima Legião - o som de Manchester em Lisboa – e agora isto. É demais…

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O minuto 120

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O minuto que ontem me deu mais gozo foi o minuto 120. Sim, o falhanço de Custódio – uma espécie de tiro ao meco – teve em mim um significado especial. Se por um lado esse minuto o poupou de fazer mais uma cena lamentável empalideceu em mim uma das cenas mais tristes que vi um jogador de Guimarães exibir.

Independentemente da injustiça que a sua segunda passagem pelo Vitória se pode ter revestido, Custódio mostrou um caráter de mercenário pimba que nunca mais quem viu poderá esquecer.

O futebol não é tudo, é apenas um jogo. Mas a dignidade de quem o pratica é um valor importante que se vê também dentro de um campo. Ontem continuaram a ser dignos os nossos jogadores e a assistência foi-o também sem que o recurso estúpido ao insulto prevalecesse sobre a emoção. A vingança é um prato que se serve frio e espero que a sua digestão seja longa e dolorosa.

Smile

Smile though your heart is aching

Smile even though it's breaking.

When there are clouds in the sky

you'll get by.

(do filme Tempos Modernos, Chaplin 1936)

 

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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Mulheres #1

4 mulheres 4 .

Lianne la Havas, St. Vincent, Cat Power e Nite Jewel

 

 

 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Coisas boas

LIANNE Album new

 

Esta inglesa de 23 aninhos (pai grego+mãe jamaicana; bendita miscigenação) tem uma estreia de arromba (Is your love bigh enough?).

 

O dueto com o americano Willy Mason é um dueto dos grandes …

No room for doubt

 

… só à altura de um Tom Waits+Crystal Gayle.

Coisas que não deveriam parecer mal em 2013


“(…) amanhã trarei gafanhotos para o teu território. Eles encobrirão de tal modo a superfície do solo que não se poderá ver o chão. Comerão o resto que sobrou, poupado pelo granizo, devorando todas as árvores que crescem no campo. Encherão tuas casas (...) como nunca o viram teus pais, nem teus avós, desde que começaram a existir sobre a terra até hoje”
Livro do Êxodo.




2012 foi um ano difícil para Portugal. Foi mais um ano de troica com as consequências que conhecemos e com alguns matizes particularmente irritantes. O principal foi o de que passamos agora uma espécie de castigo pelo mau comportamento passado. Ora, se há coisa que não mobiliza é a culpa. Pode tornar-nos mais lúcidos mas não nos faz correr para o futuro. Por isso neste ano temos que trocar as voltas ao que parece correto fazer-se ou dizer-se, optando pelo contrário. Assim, parece-me importante:



Rir alto. A gargalhada é catártica e revigorante. Pode haver quem se sinta incomodado pela alegria de quem ri. Quem o ache desajustado. Não faz mal, pois se há quem lhe seja imune mais haverá quem se deixe contagiar por uma praga tão benigna como a alegria.

So rare to see them laughing!
Beijar em público. O beijo é um dos mais encantadores gestos humanos. Os primeiros beijos então marcam como tinta a nossa memória. Raramente um primeiro beijo não revela, logo ali, a mulher que se beija. Sabe-se logo se vale ou não a pena. O beijo precisa de ser reinventado e mostrado com parcimonioso contentamento. De O’Neill: É uma ave estranha: colorida, /Vai batendo como a própria vida, /Um coração vermelho pelo ar/E é a força sem fim de duas bocas, /De duas bocas que se juntam, loucas! /De inveja as gaivotas a gritar...

kiss
Não dizer mal do Governo. Não é preciso dizer bem; basta respeitar o esforço e a tarefa.

Fazer de conta que a CEC não acabou. Ir ver o espetáculo, o teatro, a exposição, o cinema, como se não soubéssemos fazer mais nada. O saudável vício da cultura que nos torna melhores.

Comprar jornais. Abandonar a leitura de notícias online e contribuir para que a imprensa escrita tenha a dignidade que merece e possa ser livre, crítica e atenta.


Inventar um novo fim do mundo. Vamos continuar a alimentar as palermices apocalíticas e descobrir um novo fim do mundo pela leitura enviesada dos sinais de culturas antigas. Escolhamos agora os assírios, os celtas ou os persas, e experimentemos novamente o alívio humorado da previsão feita de medo. E aliviemos assim os dias que passam e continuam a passar.

Dizer bem dos alemães. Vamos continuar europeus mas pró-germânicos, não por qualquer síndrome de Estocolmo mas porque toda a gente deles diz mal. Os bravos ingleses estão num estado comatoso de hipocrisia europeia e os franceses são os totós do costume. Dos italianos não precisamos de dizer bem mas de os imitar, agora que parece definitivamente estripada a pústula berloscuniana. Escolhamos então um amigo improvável que, mesmo mal disposto, nos tire da monotonia do politicamente correto.

Fumar. Não é possível aguentar a ideia de que o fumo é a origem de todos os males. Desde os cigarros aos salpicões tudo é amaldiçoado pelo fumo. Retiremos do baú a sensitividade do cigarro, o seu tonto ritual e como Álvaro de Campos sigamos o fumo (…) como uma rota própria,/ E [gozar], num momento sensitivo e competente, /A libertação de todas as especulações /E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

smoke

Respeitar o acordo ortográfico. Sempre e cada vez melhor como homenagem a uma língua viva, falada por mais de 200 milhões de pessoas, que tem mais futuro do que a rezinga dos “puristas”.

Vamos fazer com que valha a pena 2013, trocando as voltas às coisas, ao que parece mas não é. Talvez assim se quebre este feitiço pesado que se abateu sobre o país e talvez o ano que se anuncia terrível iluda o seu próprio peso no humor de um desalinhar consciente.


Fotos in Pinterest
Publicado in Comércio de Guimarães

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A pessoa do ano

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A revista Time escolhe no final de cada ano, desde 1927, uma figura planetária a que dá o título de pessoa do ano. A história começou com a necessidade da revista semanal dar ao piloto Charles Lindberg o destaque que não lhe haviam dado, por erradas opções editoriais, nesse ano de 1927.

A tradição consolidou-se e ganhou o estatuto que hoje conhecemos. A escolha deste ano não é particularmente feliz quando tinham uma short list bem mais interessante. Eu teria escolhido o Bossão de Higgs ou mesmo Fabiola Gianotti como a revista preferiu.

No entanto a revista foca-se, quase sempre, na política americana e é usual que os presidentes, como é o caso, sejam eleitos, pelo menos uma vez, como personalidades do ano.

 

No entanto os acontecimentos também permitiram escolher ao longo destes anos outras “pessoas” (talvez as mais interessantes escolhas):

O computador: 1982.

 

O utilizador: 2006.

 

A terra ameaçada: 1989.

 

E grandes figuras:

Gandhi: 1930.

TIME Magazine Cover: Konrad Adenauer, Man of the Year -- Jan. 4, 1954

Konrad Adenauer: 1953.

 

Martin Luther KIng: 1963.

 

 

 

Gorbachev: 1987.

 

 

 

Churchill: 1940 e 1949 (personalidade do meio-século)

 

 

Ditadores:

TIME Magazine Cover: Adolf Hitler -- Apr. 14, 1941

Hitler: 1938.

 

TIME Magazine Cover: Joseph Stalin, Man of the Year -- Jan. 1, 1940

Stalin: 1939 e 1942.

 

Khomeini: 1979.

 

Até coisas mais mundanas como Wallis Simpson (1936) ou temas mais abrangentes e politicamente relevantes no globo como:

A revolta húngara (1956).

A luta dos operários polacos (1981)

 

Ou os protestos que marcaram 2011:

 

 

Ou os jovens americanos (1966):

 

sábado, 15 de dezembro de 2012

O escultor de Guimarães

 

martins sarmento

 

António de Azevedo foi um notável escultor que marca a paisagem citadina da nossa cidade como nenhum outro. São dele as delicadas esculturas do jardim da Alameda com o Fauno (1934) e a Rapariguinha que a ele se junta 8 anos mais tarde, permanecendo juntos desde então naquele espaço, continuando a dar um toque de beleza e harmonia ao jardim recentemente renovado. É dele o busto a Martins Sarmento, e todo o enquadramento em granito, no Largo do Carmo (1934) ao lado da casa do arqueólogo. É dele o monumento e o alto-relevo de Alberto Sampaio no Largo dos Laranjais (1956) e a estrutura em que assenta o medalhão de António Teixeira Lopes à memória do Gravador Molarinho na Feira do Pão (1935), bem como o medalhão a Torres Carneiro que encima a escadaria da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães. É dele ainda, em espaço público, o busto de Luís de Pina na Penha ou de Francisco Inácio da Cunha Guimarães em Pevidém. De modo particular as principais figuras de cidade nos anos 30, 40, 50 e 60 são esculpidas pelas mãos e sensibilidade do artista.

As esculturas de António Azevedo em Guimarães fazem mais do que marcar a nossa cidade, caracterizam-na e unem no olhar todas as gerações que conviveram e convivem com a sua obra plástica.

 

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O escultor é natural de Vila Nova de Gaia, adotando o Modernismo como escola, depois de ter vivido em Paris (1911-1914), uma cidade especial, sedenta de modernidade a que uma elite artística deu corpo.

A vinda do artista para Guimarães deve-se ao facto de, em 1931, ter sido convidado para ser professor e dirigir a Escola Industrial e Comercial de Guimarães, hoje Escola Francisco de Holanda. António Azevedo foi seu diretor durante os 27 anos seguintes ajudando a construir a reputação da Escola e a sua importância na vida económica e social de Guimarães.

Durante todos estes anos Azevedo não é apenas mais um, e desde cedo participa em Comissões independentes (não remuneradas) que marcam a vida cultural e estética da cidade. Pelas comissões que o escultor integrou passaram algumas decisões em momentos marcantes da cidade – tão importantes como o ano que agora acaba com Guimarães como Capital Europeia da Cultura – como o foram as Festas Centenárias de 1940 ou as Festas Milenárias de 1953.

 

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A importância deste homem na vida da cidade e da sua paisagem urbana será contudo pouco conhecida, pelo menos em termos de identificar as obras com o autor, apesar de a sua obra ser facilmente reconhecida pelo olhar de quem aqui vive, ou mesmo de quem nos visita.

Por isso, no âmbito do programa constelações (CEC 2012) a Muralha, associação de Guimarães para a defesa do património, o Cineclube de Guimarães e a Assembleia de Guimarães, decidiram pegar na obra do escultor, estudá-la e divulgá-la. Aliás, uma das instituições, a Assembleia de Guimarães é quem promove, a 26 de Junho de 1965, uma homenagem pública a António de Azevedo: a mais importante que em vida do escultor se lhe fez.

Assim a iniciativa promovida pelas três associações referidas - uma boa troica - pretende constituir-se como um novo olhar sobre a obra de António Azevedo, um olhar atento e admirado, que por agora se atém à publicação de um livro, um belo livro diga-se, escrito com carinho e rigor pela historiadora Rosa Maria Saavedra e olhado pela câmara fotográfica e sensibilidade artística de outro vimaranense, José Pastor, que interpreta em fotografia a obra do escultor, da qual se fará uma exposição.

O livro será apresentado de sábado a oito dias (dia 22 de Dezembro) no magnífico espaço da Assembleia de Guimarães, pelas 17h30min.

A entrada é livre e o preço de lançamento do livro será especial para o primeiro dia da sua apresentação. O livro é para quem se interessa por Guimarães e pela sua história e poderá constituir-se como um belo e oportuno presente.

António Azevedo, a sua mestria e sensibilidade, merecem o novo olhar que agora se estende pela sua magnífica obra.

 

 

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FOTOS por JOSÉ PASTOR