quarta-feira, 3 de abril de 2013

Que fazer com esta tristeza?




“Ou será que rimos da natureza – incluindo a eternidade – por ela pensar que nos pode derrotar a nós e à força da esperança? Ná, não, creio. Nunca nos derrotará.”
As aventuras de Augie March. Saul Bellow. 1953.

A tristeza em doses moderadas pode ser, por vezes, uma extraordinária força criativa. Em momentos de euforia coletiva a tristeza particular tem esse poder. O ato de remar ao contrário do coletivo permitiu ao longo da história da humanidade novas visões artísticas, políticas, poéticas ou estritamente pessoais, que conseguiram abrir caminhos diferentes e perspetivas revigorantes.
Contudo hoje, em Portugal, a tristeza alastrou como um cancro ao coletivo. Não a tristeza criativa de que falava no primeiro parágrafo, mas uma tristeza paralisante e pesada, uma tristeza feita de impotência, resignação e medo.

Os portugueses vendem há séculos a ideia de que são um povo triste. Vendem-na através do fado, da sua extraordinária literatura, dos lutos perpétuos e da poderosa palavra saudade que encerra e funde o amor e a distância. Mas a verdade é que nunca o fomos. Gostamos que assim nos vejam, que se apiedem da nossa velhice, mas a nossa alma é uma alma de romaria e festa que tão diligentemente os nossos governantes cortaram em uns dias não fosse parecermos demasiadamente alegres às almas luteranas que nos vigiam.
É um facto que como país estamos melhor que há umas décadas atrás. Somos mais instruídos, globalmente menos pobres, e a segurança social vai funcionando. No entanto penso que não haverá nas últimas décadas uma conjugação tão diabólica de fatores – desemprego, incapacidade, desilusão – como hoje. E isso está-nos a tornar verdadeiramente tristes enquanto povo.




Como velha nação que somos não nos foi particularmente difícil perceber os erros cometidos e aceitámos de forma voluntária e corajosa viver um pouco pior para reparar excessos e desmazelos. No entanto a maior parte dos indicadores diz-nos que o espartano esforço deixa antever pouca luz. Cumprimos direitinho a receita que de fora nos impuseram para que houvesse dinheiro nos cofres de um estado exaurido por anteriores excessos e loucuras criminosas, e nada.
Se na nossa casa a desilusão é muita, da Europa em que mergulhámos sem pestanejar só vemos experimentalismo, descontrolo, pouca política, pouca ação e um conjunto patético de líderes europeus. A sul vemos a desesperança, a norte a arrogância fanfarrona que nos pode levar à cisão. E esperar pelas eleições alemãs em setembro como ponto de viragem é tão patético como esperar por um messias à soleira da porta.
O atual modelo europeu pode estar esgotado mas a Europa enquanto espaço de paz e democracia não o poderá estar, sob a pena de se acordarem os velhos demónios que ciclicamente infernizaram os povos europeus e lhes causaram ignomínia e dor.




Caminhamos em direção ao quê? Olhamos para o lado e vemos jovens a emigrar, vemos pessoas válidas no desemprego sem qualquer esperança de voltar ao mercado de trabalho, vemos o comércio a olhar para a rua na esperança de encontrar alguém, vemos os empresários a consumir o seu tempo em sobreviver, vemos os estudantes questionando o seu próprio esforço, vemos os professores atarefados com o concreto ano letivo sem quererem pensar no incerteza do seguinte.
De um modo geral a Europa encontra-se desorientada face ao facto de contarmos cada vez menos no panorama global. Em vez de encontrarmos uma estratégia comum distribuem-se à vez punições sem critério e sem sentido...

A Europa não pode ser o problema: tem de ser a solução. E para isso acontecer precisamos daquilo que temos a tendência de rejeitar: a política! Uma política, não necessariamente partidária,  em que todos nos envolvamos mais, em que sejamos mais criteriosos e exigentes do que até aqui. Uma política que consiga a simplicidade complexa do governo sonhado por Lincoln: “o governo do povo, pelo povo e para o povo”. E nós, os portugueses, temos hoje a superioridade moral para o exigir.



Publicado in Comércio de Guimarães

Fotos de Alexandre Coelho Lima

sexta-feira, 29 de março de 2013

Perto da perfeição





Heaven on the ground, do magnífico José James, que estará em Guimarães no CCVF a 7 de maio (jácomprei bilhetes!), é um tema notável!! Não me canso de o ouvir.



A voz feminina é da americana Emily King.



quarta-feira, 6 de março de 2013

A mira técnica

 

“A melhor maneira de gozar a adolescência é sem inibições, mas, infelizmente, as inibições são o principal sintoma da adolescência”

A zona de desconforto. Jonathan Franzen.2012.

 

 

 

Tenho alguma dificuldade em criticar as crianças e os adolescentes de hoje no que diz respeito à sua proverbial falta de cultura. O meu prazer pelos livros ou a minha intensa dedicação a um conjunto de memoráveis bandas britânicas só foi possível dado o tempo disponível sem muita televisão, sem internet ou playstation por perto; havia poucas aulas e eu tinha que encher o tempo que sobrava das futeboladas. Mesmo o cinema apareceu-me, por acaso, ao ver o Touro Enraivecido do Scorsese numa daquelas mecânicas sessões de cinema no Póvoa-Cine quando a praia estava impraticável. Desde então não me largou mais, até hoje. Claro que o meu feitio mais ensimesmado ajudou à “tarefa” de sentir prazer pelas coisas da cultura o que, diga-se, se veio a revelar mais decisivo do que eu poderia esperar no relacionamento com o sexo oposto.

Atualmente tudo está feito para que os jovens não tenham tempo para nada; as aulas ocupam a quase totalidade das horas do dia, o estudo exige uma dedicação extrema que não se compadece apenas com a “simples” inteligência, os meses de aulas e exames estão a ver se, com algum jeito, ainda devoram o agosto, e o que sobra de tempo é dedicado, pelos pais, a tirar os filhos da rua e de casa para os colocar em atividades das quais apenas uma pequena percentagem tira efetivo prazer.

 

mira tecnica

Se hoje não consigo resistir a uma novidade tecnológica como poderia eu, se fosse jovem, resistir ao escape de estar permanentemente online, ou de devorar o meu tempo com um conjunto de excitantes inutilidades?

E logo eu que sempre fui fascinado pela televisão. Por isso degluti sem pestanejar as aulas de francês da telescola, as aulas de latim do propedêutico, o TV Rural e os problemas do míldio hoje recolocados na agenda política televisiva. Mesmo não havendo programação oficial, que ocupava o estonteante espaço das 18h30 às 23h30, fiquei muitas vezes hipnotizado pelas miras técnicas inventadas para sintonizar televisões e cuja música associo sempre às baladas ciciantes dos Manhattan Transfer e a uma forma bovina de olhar o mundo. Mesmo a mira técnica era para mim televisão! Até as habituais interrupções com os problemas técnicos (com o aviso: pedimos desculpa por esta interrupção o programa segue dentro de momentos) eram para se ver, não fosse o programa começar de repente ou uma revolução ter-se dado enquanto a animação checa ou polaca do Vasco Granja não chegava ao seu fim, ou melhor ao seu koniec.

 

mensurado

O mundo está hoje feito para que o tempo seja escasso e aquele que sobra é, compreensivelmente, utilizado em coisas simples que distraiam. Ou então para as multifunções: aquela capacidade alucinante de, ao mesmo tempo, ver um filme, fazer os trabalhos de casa e, também em simultâneo, comunicar através de sms. Aliás a ortopedia clínica deveria rever hoje o seu conceito clássico de dedo para falange, falanginha, falangeta … e telemóvel, de tal forma é ele hoje uma extensão das próprias mãos. Como está bom de ver só se consegue perceber o filme se ele requerer baixa inteligência e atenção, se os trabalhos de casa forem de cruzinhas e se o interlocutor das mensagens perceber os hieróglifos enviados.

 

 

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A cultura formada pelas várias artes e pelo conhecimento sobrevive mal a esta forma de estar. A cultura exige o tempo de perceber as coisas, o que é bem mais complicado do que o que parece. Será porventura um paradoxo mas a arte ensina-nos a ver o que está debaixo do nosso nariz. Decompõe e perspetiva de tal forma a natureza ou a realidade que nos permite sempre novos olhares sobre as coisas e as situações que julgávamos óbvias. Os jovens e adolescentes que hoje conseguem ver acima das modas e das tendências são verdadeiras máquinas de saber viver, e serão mais tarde senão mais felizes pelo menos mais sábios e consequentemente mais tranquilos com a vida e o destino.

O mundo tecnológico e da comunicação fácil é natural e compreensivelmente excitante; necessita apenas, como o vinho ou a gordura, de limites que resguardem o prazer. Mas ao mesmo tempo dá uma sensação de falsa liberdade que engana. É fácil eu ler, no facebook, coisas que “amigos” não me diriam em conversa. Não existem segundas adolescências, apenas o desejo que assim pudesse ser e o registo escrito dessa tonta fraqueza.

 

 

Publicado in O Comércio de Guimarães 06.03.13

segunda-feira, 4 de março de 2013

Para alguns felizardos

Passou algo desapercebido o concerto do último sábado no CCVF que colocou lado a lado o Pierre Aderne e o Vinícius de Cantuária. Quem viu o concerto assistiu a um momento feliz de génio musical e a uma íntima reunião entre dois excecionais músicos e o público.

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O Fado dos Barcos, uma extraordinária música de Aderne, foi cantado pela Ana Bacalhau. Aqui por Cuca Roseta:

 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sem cinema comercial

O Comércio de Guimarães noticiou algo que já se esperava: vamos ficar sem cinema comercial em Guimarães.

Nada que já não se estivesse à espera dada a degradação continua do tratamento que o cinema tinha nesses espaços. Pessoal mal preparado, que tinha que fazer tudo e mais alguma coisa, descurando aspetos essenciais como o som, a qualidade da imagem e o cumprimento de horários.

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Foto de blogue

 

Como estava a Castello Lopes não vai fazer falta nenhuma, pois o cinema merece mais consideração e profissionalismo. Esperemos que a ZON se interesse pelos espaços agora disponíveis e a cidade possa contar novamente com uma programação regular de cinema.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Não se pode

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Hollywood e os seus óscares têm algumas particularidades curiosas que, regra geral, se tornam desilusões irritantes. Em relação à atriz principal não se pode nomear Emmanuelle Riva e não se lhe dar o óscar. Mais valia não ter sido nomeada. Amour é, sobretudo, ela … que sobrevive gloriosa à tendência de Michael Haneke pelo abismo.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ursos divertidos

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O duo londrino 2 Bears (Joe Goddard e Raphael Rundell) é das boas novidades dançáveis com o seu álbum de estreia BE STRONG.

Work é talvez o mais interessante dos temas:

 

Profissão: autarca

Não me parece que a Lei que limita a recandidatura dos presidentes de Câmaras Municipais ou Juntas de Freguesia os impeça de se candidatarem por outras autarquias diferentes daquelas por onde foram eleitos, de forma sucessiva, em 3 ou mais mandatos. A lei é simples e lê-se bem.

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Foto: Presidente de Câmara de Murça in Terra Quente

Fica neste caso “apenas” a questão ética.
Saltar de autarquia para autarquia - qual jogador de futebol – retira credibilidade ao cargo e vulgariza-o.
Saúdam-se por isso todos aqueles que resistiram ao impulso suicida da profissão autarca.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Não Habemus Papam

O extraordinário gesto de renúncia de Bento XVI, deixou meio mundo boquiaberto com a decisão mas, ao mesmo tempo, com a empatia que se deve aos grandes homens. O outro meio mundo que pintou de forma intolerável negra este papa – um homem de cultura e sensatez – está hoje ocupada a retomar fôlego para engendrar uma qualquer teoria da conspiração que torne maléfico, e não humano, este gesto de profundo significado (só o encontramos, na Igreja Católica, há 6 séculos atrás! ). É só dar uns dias para que aparecem várias teorias.

 

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Prefiro pensar, de forma simples, que Bento XVI viu o filme de Moretti e compreendeu, como ninguém, a sua própria inquietação. Naquele filme o indigitado Papa foi interpretado magnificamente pelo grande Michel Piccoli.

 

Foto: AFP

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Coisas que sem importância importam

"O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha? O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal? O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?"
Vinicius de Moraes

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Foto_SICNotícias/Lusa
O futebol, ao contrário do sol, não nasce para todos da mesma forma. A uns aquece e ilumina a outros apenas dá conversa, o que é, diga-se, uma colateral consequência apenas.
O futebol necessita, ao contrário de outras “artes”, de uma boa dose de fanatismo e um clube, claro, por quem torcer (os brasileiros aplicaram o verbo certo, pois há algo de tortuoso neste sentido de pertença que só este vocábulo “torcer” consegue colorir).
O futebol pode ter graça ou não mas isso não depende dele, mas dos olhos que o vêem. Desde logo porque o encanto do futebol exige o oposto das qualidades que admiramos noutras situações. O futebol não é democrático: o clube a que se pertence é uma ditadura no coração. A serenidade no futebol é mau presságio e a racionalidade torna-o chato. Tudo ao contrário do suposto.
Ser adepto de futebol apenas pelo espetáculo é insosso. Mesmo quando o nosso clube não joga é fundamental “ser por alguém”; é impensável um bom adepto de futebol não ter um clube favorito na liga espanhola, inglesa ou até mesmo turca; precisamos de pequenos amores enquanto o grande descansa à espera pelo próximo jogo … e frequentemente à espera, como nós esta semana, da redenção.

Nascer em Guimarães significa, como em nenhum outro sítio, nascer adepto do clube da cidade. Já o é assim há décadas e, felizmente, continua a sê-lo ainda hoje. Ser vimaranense e vitoriano são, quase sempre, duas faces da nossa moeda local, com algumas (raras) exceções que confirmam a regra. O Vitória, independentemente da sua dimensão, tem por via desta tradição educativa a marca da paixão que move outros clubes profundamente identitários como o Barcelona, o Atlético de Bilbao, o Nápoles, entre outros, que identificam de forma orgulhosa a terra a que pertencem. Daí que, pessoalmente, não acompanhe o agastamento de muitos vitorianos sobre o facto de outros designarem por Guimarães o nosso clube; é uma ignorância desculpável e, sobretudo, uma ignorância benigna. Vitória e Guimarães confundem-se.

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Foto-OlavoV in flickr
O destino de torcer indefetivelmente, e sem concessões de espécie alguma, por um clube fora da troica dos chamados “três grandes”, dá-nos uma infindável coleção de tristezas. Sofre-se mais do que é suposto, como nos grandes e verdadeiros amores. Sofre-se com as finais da Taça, com a desfaçatez de António Garrido no verão de 1975, com a descida de divisão em 2006, com a do inacreditável jogo de desempate contra o Estrela da Amadora para a Taça em 1990, ou com o golo contra o Basileia mal invalidado ao Roberto. Tudo isto ocupa, no meu caso, demasiado espaço na memória. Suavizada apenas com as lembranças da época gloriosa de 86/87 com Marinho Peres, em que jogámos o melhor futebol nacional daquela época e uma excelente prestação internacional, com a arte do talentoso Jeremias, com a tomada da Luz em 1986 no tempo do Morais, e mesmo a recente festa no Jamor há dois anos atrás, ou com a inesquecível romaria ao extinto Riopele em finais dos anos 70. E todos estes episódios só viraram acontecimentos pois neles houve uma marca especial que os adeptos apaixonados do Vitória conseguiram deixar, tornando-os assim momentos especiais e inesquecíveis.

Não sei se por sorte ou arte, ou mesmo por uma combinação das duas, nos calhou este ano uma equipa que dá gosto acompanhar e que criou uma empatia com o público vitoriano como há muito não se via. Só isso explica a ovação após o final do último jogo em que fomos goleados. A rapaziada humilde, trabalhadora e talentosa merece-o; e o facto de os jogadores estarem praticamente imunes às tatuagens e às crinas dá-lhes um toque de seriedade - e não de circo - que lhes assenta bem. O treinador Rui Vitória continua a pairar por cima do humor colérico e precoce que o futebol dá às coisas e por mim pode ficar até que a idade o sabote.
Sabemos, infelizmente, que todo este gosto não nos livra da situação miserável que a atual direção procura hoje obviar e combater. Precisamos de retribuir e de retornar ao jogo em massa e, se possível, tornarmo-nos sócios da SAD. Talvez agora, e de uma vez por todas, consigamos eliminar a vertiginosa “vocação pelo erro” que, como o Botafogo, nos acompanha. E a lenta jabuticabeira dê frutos mais cedo que o esperado…

Publicado in Comércio de Guimarães