quarta-feira, 1 de maio de 2013

I fanfaroni





Sempre gostei do cinema italiano do pós-guerra e tive a sorte de ver em sala de cinema muitos desses grandes filmes do Rosselini, do Vittorio De Sica, do Visconti, a que se designou por neorrealismo italiano. Atualmente é praticamente impossível vê-los nesse enquadramento. E o dvd e a televisão plastificam o cinema, roubando-lhe a sua dimensão cénica e emotiva.
Noutra linha paralela surge o cinema do grande Fellini, com títulos que me ficaram na cabeça pela sua sonoridade como I vitelloni (1953) ou I clowns (1971). Para os italianos a letra “i” tem a força de um plural, aprendi-o nas aulas de italiano que frequentei na Faculdade de Letras de Coimbra, roubando tempo à minha química inorgânica ou ao meu eletromagnetismo, bem menos excitantes e renascentistas. I vitelloni (traduzido para português como Os inúteis, como o poderia ter sido para Os malandros) é um desses filmes arrebatadores que retrata e troça de forma apiedada de um grupo de jovens cuja alma não cabe na terra que os viu nascer. Assim aconteceu com Felinni relativamente a Rimini. No entanto esses malandros são boa gente, são fanfarrões simpáticos bem longe dos fanfarrões que hoje nos entram pelos olhos dentro dia após dia e sobre os quais Felinni teria também hoje, na sua querida Itália, barro suficiente para novas comédias sob o cinismo cortante da sua arte.




Na televisão ou nos jornais portugueses deixou-se há muito tempo de se fazer jornalismo de investigação. Seja pela justiça inoperante ou pela força do poder instalado, foram caindo, um a um, os jornalistas que com coragem costumavam denunciar os atropelos. Hoje quando sabemos pormenores escabrosos sobre algo ou sobre alguém é porque a situação se revelou tão podre que foi já impossível disfarçar o cheiro.
Para substituir o vazio assim criado contratam-se hoje, até à náusea, os comentadores, os politólogos, os especialistas – sem esquecer os indispensáveis populares para condimentar a insípida sopa informativa – que, regra geral, são encartados fanfarrões. Estes fanfarrões modernos, de impecável retórica e moralidade rasteira, nada se assemelham aos inócuos fanfarrões do Felinni. Infelizmente.




Perdemos há pouco o Relvas que demorou mais a sair que um grosso pingo de gordura na roupa clara. Fanfarrão impecável saiu, não de mansinho como recomendaria o bom senso ou a vergonha, mas com o estrondo de quem se julga imprescindível. Disse-nos que a história o julgará, como se daqui a uns anos a história ficasse reduzida à irrelevância. Esperemos que não.
No entanto deixou-nos algo para nos divertirmos: o Miguel Gonçalves e, em mais uma brilhante jogada política que só a tal história julgará, um outro fanfarrão, o inefável Sócrates. Chegou-nos limpinho e aprumado criticando a austeridade que ele mesmo cavou e assinou, como um turista que desdenha a vida e os modos dos autóctones que visita. Teve o condão de acordar os acólitos, encartados fanfarrões, que juram que o nosso profundo estado de necessidade é afinal um engano e que podemos, sem qualquer espécie de constrangimento não pagar a quem devemos, não cumprir o que nos obrigamos a cumprir, e retomar sem demora os comportamentos que nos conduziram à situação desesperada a que chegamos.
Valha-nos pelo menos o divertimento de o ouvir dizer que se sentia ofendido quando comparavam a sua licenciatura à de Relvas. José Diogo Quintela resumiu muito bem essa profunda divergência filosófica entre fanfarrões: “todas as licenciaturas legítimas se parecem umas com as outras; cada licenciatura manhosa é manhosa à sua maneira”.




No futebol a fanfarronice não é defeito mas feitio. Tanto que por cá a venda de jogadores vitorianos acicatou a fanfarronice indígena. Preço de saldo disseram. Apesar da prazenteira época da nossa equipa os problemas de tesouraria continuam reais dada a miserável situação herdada. Fazem-se então orelhas de mouco e louvam-se os atletas e treinadores profissionais que, malgrado assédios e tentações, honram a história do clube e a paixão dos seus adeptos, permanecendo fiéis e compreensivos ao titânico e extraordinário esforço dos dirigentes que mantêm o clube vivo e ativo, com futuro.






O problema dos fanfarrões não está apenas na ingénua e ignorante credulidade de quem os segue mas, sobretudo, na ausência de escrúpulos sobre a qual constroem a sua interior e manhosa inculpabilidade.




Fotos do filme I vitelloni
Crónica publicada in O Comércio de Guimarães / Guimarães Digital

terça-feira, 30 de abril de 2013

Caça


O cinema tem ainda a estranha capacidade de surpreender. Quando o cinema começa, em nós, a mostrar a sua confortável (mas também aborrecida) faceta exclusiva de entretenimento, há sempre alguém a furar esta pacatez. Thomas Vinterberg, com A caça, fez isso.



O Cineclube trouxe-o no passado domingo. Quem o perdeu que o procure ... nem que seja em dvd.

sábado, 27 de abril de 2013

Swamp




A determinação de não deixar passar em claro os negócios ruinosos que as empresas do Estado fizeram na última década - quer quanto aos responsáveis, quer relativamente à situação dos empréstimos - é uma grande notícia. Não só se moraliza as relações entre o Estado e a Selva, como também parece mudar agora (a ver vamos...) o paradigma de irresponsabilidade em que temos vivido.


Foto Raquel Almeida Correia (Público)

domingo, 7 de abril de 2013

Meu querido Philip Roth




Sabático. Brasil.
2010.



The Guardian. 2012. Curta e curiosa história de McEwan a propósito de Roth.

sábado, 6 de abril de 2013

O PRIMADO DA LEI






É reconfortante perceber que no meio da barafunda e do ruído ainda há instituições e pessoas a cumprirem de forma diligente o seu dever. Esta semana houve dois casos fundamentais: Nuno Crato  a propósito da licenciatura de Relvas e o Tribunal Constitucional e a sua decisão sobre normas orçamentais.

Se no primeiro caso me ficou agora o conforto de ver coragem e determinação, ao contrário da vergonha nacional, acobertada pelo clã socialista, que revestiu as abafadas suspeitas sobre a lisura da licenciatura de Sócrates, no segundo caso, e pese as pressões e as inclinações políticas dos juízes, o Tribunal Constitucional tomou uma decisão corajosa depois da cautela (em jeito de aviso) do ano anterior. A Constituição não está suspensa disse-o ontem, alto e claro, o presidente da República a que ninguém liga e que, frequentemente, diz coisas acertadas e necessárias.


Foto: Rui Gaudêncio in Público

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O desastre ambulante


Relvas sai finalmente do Governo onde nunca deveria ter entrado e  de onde (depois do que aconteceu) deveria ter saído há muito.

A esta altura do campeonato, quando os estragos já estão feitos e consolidados, o ato já não revela uma atitude cívica e profilática que esperaríamos, mas meramente uma atitude paliativa. Caso se confirme a especulação de que Ministério da Educação se prepara para anular a sua licenciatura passaremos rapidamente para o patético o que, bem vistas as coisas, é coerente com a personagem.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Que fazer com esta tristeza?




“Ou será que rimos da natureza – incluindo a eternidade – por ela pensar que nos pode derrotar a nós e à força da esperança? Ná, não, creio. Nunca nos derrotará.”
As aventuras de Augie March. Saul Bellow. 1953.

A tristeza em doses moderadas pode ser, por vezes, uma extraordinária força criativa. Em momentos de euforia coletiva a tristeza particular tem esse poder. O ato de remar ao contrário do coletivo permitiu ao longo da história da humanidade novas visões artísticas, políticas, poéticas ou estritamente pessoais, que conseguiram abrir caminhos diferentes e perspetivas revigorantes.
Contudo hoje, em Portugal, a tristeza alastrou como um cancro ao coletivo. Não a tristeza criativa de que falava no primeiro parágrafo, mas uma tristeza paralisante e pesada, uma tristeza feita de impotência, resignação e medo.

Os portugueses vendem há séculos a ideia de que são um povo triste. Vendem-na através do fado, da sua extraordinária literatura, dos lutos perpétuos e da poderosa palavra saudade que encerra e funde o amor e a distância. Mas a verdade é que nunca o fomos. Gostamos que assim nos vejam, que se apiedem da nossa velhice, mas a nossa alma é uma alma de romaria e festa que tão diligentemente os nossos governantes cortaram em uns dias não fosse parecermos demasiadamente alegres às almas luteranas que nos vigiam.
É um facto que como país estamos melhor que há umas décadas atrás. Somos mais instruídos, globalmente menos pobres, e a segurança social vai funcionando. No entanto penso que não haverá nas últimas décadas uma conjugação tão diabólica de fatores – desemprego, incapacidade, desilusão – como hoje. E isso está-nos a tornar verdadeiramente tristes enquanto povo.




Como velha nação que somos não nos foi particularmente difícil perceber os erros cometidos e aceitámos de forma voluntária e corajosa viver um pouco pior para reparar excessos e desmazelos. No entanto a maior parte dos indicadores diz-nos que o espartano esforço deixa antever pouca luz. Cumprimos direitinho a receita que de fora nos impuseram para que houvesse dinheiro nos cofres de um estado exaurido por anteriores excessos e loucuras criminosas, e nada.
Se na nossa casa a desilusão é muita, da Europa em que mergulhámos sem pestanejar só vemos experimentalismo, descontrolo, pouca política, pouca ação e um conjunto patético de líderes europeus. A sul vemos a desesperança, a norte a arrogância fanfarrona que nos pode levar à cisão. E esperar pelas eleições alemãs em setembro como ponto de viragem é tão patético como esperar por um messias à soleira da porta.
O atual modelo europeu pode estar esgotado mas a Europa enquanto espaço de paz e democracia não o poderá estar, sob a pena de se acordarem os velhos demónios que ciclicamente infernizaram os povos europeus e lhes causaram ignomínia e dor.




Caminhamos em direção ao quê? Olhamos para o lado e vemos jovens a emigrar, vemos pessoas válidas no desemprego sem qualquer esperança de voltar ao mercado de trabalho, vemos o comércio a olhar para a rua na esperança de encontrar alguém, vemos os empresários a consumir o seu tempo em sobreviver, vemos os estudantes questionando o seu próprio esforço, vemos os professores atarefados com o concreto ano letivo sem quererem pensar no incerteza do seguinte.
De um modo geral a Europa encontra-se desorientada face ao facto de contarmos cada vez menos no panorama global. Em vez de encontrarmos uma estratégia comum distribuem-se à vez punições sem critério e sem sentido...

A Europa não pode ser o problema: tem de ser a solução. E para isso acontecer precisamos daquilo que temos a tendência de rejeitar: a política! Uma política, não necessariamente partidária,  em que todos nos envolvamos mais, em que sejamos mais criteriosos e exigentes do que até aqui. Uma política que consiga a simplicidade complexa do governo sonhado por Lincoln: “o governo do povo, pelo povo e para o povo”. E nós, os portugueses, temos hoje a superioridade moral para o exigir.



Publicado in Comércio de Guimarães

Fotos de Alexandre Coelho Lima

sexta-feira, 29 de março de 2013

Perto da perfeição





Heaven on the ground, do magnífico José James, que estará em Guimarães no CCVF a 7 de maio (jácomprei bilhetes!), é um tema notável!! Não me canso de o ouvir.



A voz feminina é da americana Emily King.