sábado, 22 de junho de 2013

Coimbra


A classificação pela UNESCO da Universidade de Coimbra a Património Mundial é um reconhecimento justo a uma cidade e a uma instituição  que marcou e marca Portugal desde o longínquo ano de 1290.

Este reconhecimento deixa-me muito feliz e espero que Coimbra e a sua Universidade saibam honrar a distinção e o compromisso. Durante os bons anos que lá passei, e em que Guimarães ainda não era Património Mundial mas em que já se respirava a necessidade de preservar o património vimaranense, sempre me fez confusão como se ignorava de forma por vezes escandalosa a benção que a História tinha deixado àquela cidade.

Inicia-se agora um novo começo para um promissor futuro.


Foto: Adriano Miranda in Público

domingo, 16 de junho de 2013

Funky


A música funk surgiu como um grito de revolta contra uma situação de impasse na luta dos direitos civis dos negros americanos nos anos 60/70. No contexto da violência que se gerava na América - Malcom X assassinado em 1965, Luther King, já prémio Nobel, assassinado em 1968- o funk nasceu e impôs-se a partir dessa altura.

A versão de Satisfation dos Stones por Otis Redding é arrasadora ...


... no festival de Monterrey (junho de 1967), meses antes da morte de Otis num desastre de avião.


O grande festival de Wattstax, Los Angeles 72, afirmava a liberdade e o orgulho na raça negra, e permitiu produzir um notável documentário que mostrava, entre outros estilos, a força do ritmo funky (aqui com um colorido Rufus Thomas).




O funk foi o grito de James Brown ...




Ou o delírio on drugs de George Clinton (Parliament) ...






A sua alegria vinda de uma profunda insatisfação ainda hoje faz mexer muita gente. E bem.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A greve - uma questão de desconfiança






Em 20 anos de serviço enquanto professor raramente recorri ao meu direito à greve. Por defeito, ou por feitio, sempre me senti desconfortável enquanto educador ao exigir aos meus alunos a sua dedicação ao estudo e depois faltar, mesmo que esporadicamente, em relação aos meus deveres para com eles.  No entanto nunca critiquei quem agiu de modo diverso do meu pois, acima de tudo, acredito nos valores de um Estado democrático e na importância que eles têm na nossa civilização ocidental. Os valores em que a Europa se funda hoje, malgrado a situação de indefinição que vivemos no seio da União, não caíram do céu nem resultaram de delírios políticos ocasionais, antes foram construídos com muito sangue e muito sofrimento pelos povos europeus, ao longo de séculos. O direito à greve resulta desses valores constitucionalmente consagrados em democracia. A greve pode ser criticada, mas o direito a ela é inalienável.
A questão que agora se colocou a mim e aos meus colegas professores, é a de dar uma resposta afirmativa a uma questão fundamental ao país e que é a qualidade do ensino público, com todas as implicações que tal resposta tem ao nível do futuro de Portugal. O estado a que chegamos enquanto sociedade, por motivos e com responsabilidades que não me atrevo aqui a tentar analisar, criou um estado de ansiedade e incerteza nos portugueses que se agrava pelo descontrolo político visível em muitos daqueles que nos governam.  O Senhor Ministro da Educação é, infelizmente, um desses exemplos, o que me surpreendeu face à imagem dele tinha.



Qualquer português mais atento já percebeu que a greve dos professores e, fundamentalmente, as consequências da greve nos alunos e nas famílias é um assunto sério e fraturante. Como acontece nestas situações a retórica passa com facilidade a demagogia. De um lado e de outro.
Os professores aguentaram, como outras classes profissionais, uma degradação acelerada das suas condições profissionais ao longo da última meia década com o esforço e o brio profissional suficiente que não puseram em causa a qualidade do ensino público. Pelo contrário, recentes indicadores internacionais como o TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study) ou o PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study), dão nota de progressos claros dos nossos alunos. Isto tudo num contexto ainda muito deficitário do nosso sistema de ensino que até 2011 conseguiu qualificar apenas 49,6% dos jovens entre os 20-24 anos com o 12ºano, enquanto a média da União Europeia é de 77,9%, e os objetivos traçados para o espaço comunitário para 2010 eram de 85%. Os professores aguentaram, num contexto de  dificuldades do país e de compromissos internacionais exigentíssimos, uma quebra de salários violenta, o congelamento abusivo das suas carreiras, o aumento significativo de alunos nas suas turmas, um aumento do seu número total de alunos, a patética e confusa avaliação, os ajuntamentos irracionais de escolas e a consequente dificuldade de organização dessas mesmas escolas e de acompanhamento do seu funcionamento, a sua perda de representatividade em órgão centrais das escolas. O que os professores não aguentaram foi o ataque à sua dignidade profissional e o maquiavélico processo de desgaste da sua imagem no tempo da Ministra Maria de Lurdes Rodrigues. O que os professores não aguentam hoje é a indefinição alimentada por perspetivas ora negadas ora reafirmadas. Não aguentam preparar, apesar de tudo aquilo que já perderam, um novo ano letivo com novas regras irracionais e penalizadoras do ensino. Não aguentam que sobre eles se roguem as dez pragas bíblicas para mais à frente dizerem que afinal serão só três ou quatro. Não aguentam que se lance na praça pública um anátema sobre eles, sobre a sua situação profissional, que se ameace a necessária estabilidade para que mais à frente se recue, e depois de recuar se chegue a outubro e face à situação do país seja afinal para cumprir o tal propósito que durante meses se jogou nos jornais. É absolutamente insustentável ficar passivo perante este jogo, perante este propósito tático que põe em causa aquilo que todos consideram fundamental e decisivo para o futuro do país – a educação, e em particular a capacidade e qualidade da escola pública – mas que é frequentemente o cordeiro que prontamente se sacrifica no altar das dificuldades.

Sou militante do PSD e penso continuar a sê-lo durante muito tempo. Sempre achei que a política partidária é um pilar essencial da democracia e desempenhei no meu partido um conjunto de cargos com responsabilidade. Hoje mais afastado da política partidária ativa mantenho-me atento, crítico e colaborante em alguns assuntos que são para mim importantes. Este assunto é-o e não deixarei de vincar a minha opinião. Não vou rasgar agora as vestes partidárias, nem engrossar de forma derrotista as fileiras dos que demonizam a política.

Vou fazer greve na segunda-feira, apesar dos prejuízos que possa causar aos alunos que me esforcei por ensinar ao longo do ano, porque acredito que a educação merece outro tratamento, outra consideração, e uma estabilidade que permita que mesmo com os poucos recursos de que dispomos enquanto país nos continue a aproximar dos níveis de educação dos países mais desenvolvidos e não nos remeta para um sistema que degrade o ensino público e a sua importância no desenvolvimento e futuro do país.
Todas as minhas filhas estão no ensino público e, cada uma no seu nível, têm sido exemplarmente acompanhadas por colegas de profissão. Devo isso ao meu país, ao brio dos professores e aos responsáveis políticos que perceberam a importância da educação. E gostaria acima de tudo que eu, os meus colegas, as minhas filhas, os meus alunos, possam viver e melhorar com a Educação Pública e não, meramente, sobreviver a ela.


Foto: How green is my valley. John Ford. 1941.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A sereia



Lembro-me perfeitamente dos filmes da Esther Williams, há mais de 35 anos atrás, na RTP, provavelmente nas tardes de domingo. Não me lembro que qualquer história ou drama associado, apenas de ficar enfeitiçado com aqueles bailados aquáticos assim como os americanos haviam ficado nos anos 40 e 50.

 
 
Lembro-me desses filmes a preto-e-branco por força das nossas transmissões televisivas, do encantamento embasbacado pela natação sincronizada e do ritmo lento do tempo. Hoje não perderia qualquer tempo, nem por curiosidade arqueológica, a rever esses filmes. Mas a memória difusa da sua terna insignificância é calorosa ... agora que a million dollar mermaid nos deixa.
 


Fotos: IMDB
 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O regresso da religião



Já não falta muito (10 anos apenas) para que passem 100 anos desde a proclamação da República Turca sob a liderança do lendário presidente Mustafa Kemal Ataturk. Desde então a Turquia tem sido uma república democrática constitucional e uma referência de diálogo entre o Ocidente e o Oriente.

A recente violência nas ruas das principais cidades turcas constitui uma reação da população, principalmente as jovens gerações, à progressiva islamização de uma sociedade constitucionalmente laica mas que tem um primeiro-ministro, Erdogan, cada vez mais inspirado pela religião islâmica, principalmente desde que a união europeia lhe virou as costas face à renitência alemã.

O século XX abandonou progressivamente a religião como parte fundamental da política do Estado. O século XXI resgata com força a religião, usada ao longo dos séculos como o principal pretexto para as guerras globais.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Afinal era desta




Às tantas tudo isto esteve sempre escrito e nós não sabíamos de nada.
Às tantas alguém se entreteve a pôr-nos à prova durante décadas para saber se realmente merecíamos ser vitorianos. Às tantas todo este sofrimento teve o propósito de nos criar a ansiedade necessária para que um dia o coração nos saltasse do peito e estalasse, impecável, num fogo de artifício coletivo. Às tantas só nós é que não sabíamos do propósito, e sofremos a não conquista da taça, ano após ano, feitos tolos na ignorância de um destino já traçado.
O Deus de quem toda a gente reclama a linhagem ou outros, mais atrevidos, a preferência, decidiu afinal brincar connosco. Fez do futebol e do Vitória em concreto a sua distração particular, quis ver até onde é que resistiríamos Quis afinal saber se os miúdos que fomos não sucumbiriam às tentações de torcer pelos clubes de que sempre se fala, dos clubes que ganham, dos clubes que distribuem as suas fartas dúzias de comentadores apopléticos pelas rádios, televisões e jornais. Quis saber se resistiríamos ao ulular dos estádios que enfrentamos fora de Guimarães, sem vacilar. Quis saber se nos manteríamos inamovíveis perante a humilhação da segunda divisão, se as lágrimas choradas no momento não iriam secar e fazer secar a paixão. Quis saber se o gozo que tivemos nas nossas grandes equipas - que nos arrastaram pelas estradas de Portugal durante décadas - conseguiria destruir a nossa resistência ao mau futebol que também por vezes acolhemos. Quis saber se todo o orgulho na terra e no clube – motivo superlativo de inveja para gente que não resiste ao sofrimento, como nós, sem recorrer a anestesias alheias – era verdadeiro e sólido.
E se o quis saber assim o soube. Então talvez cansado, mas interiormente satisfeito pela nossa heroica resiliência, chamou o destino e simplesmente deu-nos a taça … não valeria a pena torturar-nos mais … nós merecíamo-la desde há muito muito tempo.

E ao olhar o Jamor percebemos que a brincadeira do destino não valeria mais a pena. Era só olhar e ver a imensidão de jovens vitorianos, a sua fé inabalável e a sua confiança no futuro do Vitória. Ao vê-los era fácil perceber que a paixão iria continuar acesa e firme mesmo que perdêssemos a final que não queríamos de forma alguma perder novamente. O sofrimento envolveu-nos mais ao longo destes anos e forjou-nos um caráter que hoje todos reconhecem, a começar pelos técnicos e jogadores que por aqui passam. O destinou exagerou-se em nós. Fez-nos passar por provas a mais; provavelmente fez o mesmo a outros mas nós resistimos. Não gostámos da brincadeira mas percebemos que tal devaneio divino nos tornou inquebrantáveis.

A ironia da coisa foi tudo isto ter acontecido exatamente no ano em que, do que me recordo, mais perto estivemos de implodir por via da irresponsabilidade de quem nos fez chegar até esta miserável situação fiscal e económica e sobre a qual não se pode continuar a “assobiar para o ar”. Não bastasse o facto de toda a gente nos apontar o dedo, acresceu a vergonha de, como adeptos, assistirmos a atletas profissionais mendigarem aquilo que o clube assumiu de livre vontade perante eles, no futebol, no basquete ou no voleibol que têm engrandecido de forma exemplar o nome do Vitória. A grande maioria dos atletas conseguiu ter particular dignidade na situação de vergonha que a atual direção procurou combater falando finalmente a verdade. A situação, sem grandes escândalos na praça pública, acabou mesmo assim por ser conhecida, com desagrado e incómodo, por todos.
O grupo de jovens que aguentou de forma estoica essas mesmas dificuldades só poderia ganhar-nos tão almejado troféu. Eram melhores jogadores que os do Benfica? Claro que não. Tiveram as mesmas condições de tranquilidade e segurança financeira do que a armada internacional que joga no Benfica? Nem pensar. Foram mimados pela imprensa? Longe disso, sempre a trocar-lhes os nomes. Então o que fez a diferença? O caráter, a vontade, a comunhão com os adeptos, este tonto sentimento de pertença revestido a fé que nos moveu e move, em Guimarães ou em qualquer parte do mundo onde haja um vitoriano. Quis o destino que o mago que apurou a fórmula fosse mais um vitoriano, do Ribatejo, com o premonitório apelido de Vitória.



Foto de Miguel Oliveira. O Miguel Oliveira foi um dos fotógrafos convidados para a exposição que a Muralha, o Conselho Vitoriano e o Cineclube irão organizar sobre os adeptos do Vitória, em data e local a anunciar brevemente, e que contará, entre outros, com o apoio da Capital Europeia do Desporto e da Oficina.

Artigo publicado n´O Comércio de Guimarães

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A lógica da batata


O jornal Público relata hoje, citando a revista eLife, que foi identificado ao nível genético a estirpe do fungo Phytophthora infestans  responsável pela grande fome na Irlanda em 1845, com consequências catastróficas nos anos seguintes.










A relação entre irlandeses e ingleses nunca primou pela amizade. Em meados do século XIX os irlandeses eram governados por ingleses  (ou pelas suas marionetas). As famílias protestantes, ou misturas anglo-irlandesas, dominavam a economia da ilha sendo a batata a base alimentar da grande parte dos irlandeses. A praga de 1845 matou cerca de um milhão de irlandeses e forçou outros tantos a emigrarem para países como os Estados Unidos. A insuficiente e insensível maneira como o governo inglês lidou com a dura realidade irlandesa perdurou no espírito dos irlandeses. Conseguiram a independência de grande parte da ilha 3/4 de séculos depois (1921) e a diáspora irlandesa não se coibiria de apoiar, quase até às portas do séc.XXI, a luta armada na Irlanda do Norte.

A Europa está mergulhada nesta e noutras histórias. Em termos continentais os alemães têm-nas com fartura com seus vizinhos, e os vizinhos entre eles próprios. Por mais distantes que alguns factos pareçam estar, em tempos de crise ou de lideranças indesejadas os acontecimentos históricos são a campainha de Pavlov capaz de libertar ódios incontroláveis. Veja-se, recentemente, a loucura jugoslava. Acho que, mesmo com todas as descobertas científicas, a verdadeira praga da batata ainda é, para os irlandeses, a Rainha Vitória.


Foto 
http://www.wikihook.com/wp-content/uploads/2012/02/Family_evicted_by_their_landlord_during_the_Irish_potato_famine.jpg

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Kiwanuka




Michael Kiwanuka é um músico inglês que agora lança um brilhante primeiro álbum: Home Again. Do que havia feito antes conta-se apenas a participação, como guitarrista, na digressão 2011 de Adele.








Vai ser impossível de o desligar tão cedo...



O bom vizinho


A entrevista de ontem, na RTP, a Miguel Esteves Cardoso conseguiu sobreviver à jornalista que a realizou. É muito difícil aproveitarmos de forma plena o brilhantismo caótico e incoerente do MEC quando do lado de quem pergunta se buscam certezas e se aplana a conversa. No entanto valeu a pena.




O MEC já não tem o encanto de outros tempos. Envelheceu como quem agora lhe aponta o encanto perdido. No entanto o humor continua lá e a capacidade de se rir de si mesmo está intocável. É bom que continue a aparecer nestas "férias grandes" ... e que elas se prolonguem enquanto houver bom tempo.


Fotos: RTP

quarta-feira, 1 de maio de 2013

I fanfaroni





Sempre gostei do cinema italiano do pós-guerra e tive a sorte de ver em sala de cinema muitos desses grandes filmes do Rosselini, do Vittorio De Sica, do Visconti, a que se designou por neorrealismo italiano. Atualmente é praticamente impossível vê-los nesse enquadramento. E o dvd e a televisão plastificam o cinema, roubando-lhe a sua dimensão cénica e emotiva.
Noutra linha paralela surge o cinema do grande Fellini, com títulos que me ficaram na cabeça pela sua sonoridade como I vitelloni (1953) ou I clowns (1971). Para os italianos a letra “i” tem a força de um plural, aprendi-o nas aulas de italiano que frequentei na Faculdade de Letras de Coimbra, roubando tempo à minha química inorgânica ou ao meu eletromagnetismo, bem menos excitantes e renascentistas. I vitelloni (traduzido para português como Os inúteis, como o poderia ter sido para Os malandros) é um desses filmes arrebatadores que retrata e troça de forma apiedada de um grupo de jovens cuja alma não cabe na terra que os viu nascer. Assim aconteceu com Felinni relativamente a Rimini. No entanto esses malandros são boa gente, são fanfarrões simpáticos bem longe dos fanfarrões que hoje nos entram pelos olhos dentro dia após dia e sobre os quais Felinni teria também hoje, na sua querida Itália, barro suficiente para novas comédias sob o cinismo cortante da sua arte.




Na televisão ou nos jornais portugueses deixou-se há muito tempo de se fazer jornalismo de investigação. Seja pela justiça inoperante ou pela força do poder instalado, foram caindo, um a um, os jornalistas que com coragem costumavam denunciar os atropelos. Hoje quando sabemos pormenores escabrosos sobre algo ou sobre alguém é porque a situação se revelou tão podre que foi já impossível disfarçar o cheiro.
Para substituir o vazio assim criado contratam-se hoje, até à náusea, os comentadores, os politólogos, os especialistas – sem esquecer os indispensáveis populares para condimentar a insípida sopa informativa – que, regra geral, são encartados fanfarrões. Estes fanfarrões modernos, de impecável retórica e moralidade rasteira, nada se assemelham aos inócuos fanfarrões do Felinni. Infelizmente.




Perdemos há pouco o Relvas que demorou mais a sair que um grosso pingo de gordura na roupa clara. Fanfarrão impecável saiu, não de mansinho como recomendaria o bom senso ou a vergonha, mas com o estrondo de quem se julga imprescindível. Disse-nos que a história o julgará, como se daqui a uns anos a história ficasse reduzida à irrelevância. Esperemos que não.
No entanto deixou-nos algo para nos divertirmos: o Miguel Gonçalves e, em mais uma brilhante jogada política que só a tal história julgará, um outro fanfarrão, o inefável Sócrates. Chegou-nos limpinho e aprumado criticando a austeridade que ele mesmo cavou e assinou, como um turista que desdenha a vida e os modos dos autóctones que visita. Teve o condão de acordar os acólitos, encartados fanfarrões, que juram que o nosso profundo estado de necessidade é afinal um engano e que podemos, sem qualquer espécie de constrangimento não pagar a quem devemos, não cumprir o que nos obrigamos a cumprir, e retomar sem demora os comportamentos que nos conduziram à situação desesperada a que chegamos.
Valha-nos pelo menos o divertimento de o ouvir dizer que se sentia ofendido quando comparavam a sua licenciatura à de Relvas. José Diogo Quintela resumiu muito bem essa profunda divergência filosófica entre fanfarrões: “todas as licenciaturas legítimas se parecem umas com as outras; cada licenciatura manhosa é manhosa à sua maneira”.




No futebol a fanfarronice não é defeito mas feitio. Tanto que por cá a venda de jogadores vitorianos acicatou a fanfarronice indígena. Preço de saldo disseram. Apesar da prazenteira época da nossa equipa os problemas de tesouraria continuam reais dada a miserável situação herdada. Fazem-se então orelhas de mouco e louvam-se os atletas e treinadores profissionais que, malgrado assédios e tentações, honram a história do clube e a paixão dos seus adeptos, permanecendo fiéis e compreensivos ao titânico e extraordinário esforço dos dirigentes que mantêm o clube vivo e ativo, com futuro.






O problema dos fanfarrões não está apenas na ingénua e ignorante credulidade de quem os segue mas, sobretudo, na ausência de escrúpulos sobre a qual constroem a sua interior e manhosa inculpabilidade.




Fotos do filme I vitelloni
Crónica publicada in O Comércio de Guimarães / Guimarães Digital