terça-feira, 16 de julho de 2013
Rui tour de force
A etapa 16 do centésimo Tour de France foi, com inteiro mérito, para o ciclista português Rui Costa. Ganhar no Tour não é apenas ganhar uma etapa, é muito mais do que isso. Há ciclismo e há o Tour no topo desse popular desporto.
Rui Costa ganha a sua segunda etapa na mítica corrida francesa e o futuro certamente dirá de forma afirmativa que este poveiro poderá passar o número de vitórias de Acácio Silva (3) ou de Joaquim Agostinho (4, uma foi-lhe retirada por acusar doping).
O Público tem feito um excelente trabalho ao nos trazer, dia a dia, histórias destes 100 anos. Para quem não compra o jornal diariamente poderá ver algumas dessas histórias aqui.
Foto: Pascal Guyot/AFP
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Tenham juízo (?)
O Presidente da República, ao contrário das elaboradas e
esquizofrénicas teorias da conspiração que tenho lido, tomou ontem uma decisão
sensata.
Apesar de muita gente não querer dar conta disso o estado
de necessidade do país é total, temos contas a pagar, temos compromissos a
cumprir, temos uma credibilidade a recuperar, temos prazos e temos propósitos
escritos, assumidos, necessários. E esse deverá ser o nosso objetivo comum,
depois de tudo o que já passamos. O PSD e o CDS perderam infantilmente o
crédito dado nas eleições, o PS está deslumbrado com o brinquedo novo mas
assinou a situação em que nos encontramos, o PC e o BE perseguem com a
coerência do costume a albanização do nosso país.
Cavaco arriscou por sensatez e poderá perder por falta dela
nos partidos políticos sempre excitados com o poder mas pouco focados nas
pessoas, nas empresas, no futuro do país.
A única coisa que falta perceber é se o juízo que Cavaco
reclama aos partidos, tendo em conta os sacrifícios e dificuldades dos
portugueses, existe mesmo.
terça-feira, 9 de julho de 2013
quarta-feira, 3 de julho de 2013
A situação
Uma
notícia secundária no jornal i de hoje prendeu-me a atenção pois ele corrobora
a situação de degradação moral e de inimputabilidade a que o país chegou. Nela
se relatava que há duas semanas o cidadão Vítor Gaspar acompanhado da mulher,
numa ida às compras ao supermercado, sem serem acompanhados por seguranças,
foram insultados e cuspidos por “populares”. O episódio revela muito mais do
que um ato de má criação. Revela que um ministro, com uma sólida reputação
académica e inatacável percurso profissional, que não precisaria de ser
governante para ter uma vida impoluta e tranquila, não pode aguentar tudo. Não
me custa imaginar que mesmo que o ministro se visse investido numa missão que
abraçou com sacrifício a mulher lhe tivesse dito que chega. Chega de
sacrifícios pessoais, chega de humilhações.
A
par disto o facto de um reputado e inteligente jornalista ter chamado “palhaço”
ao mais alto dignitário da nação perante o alheamento da justiça e o frémito
prazenteiro de muitos portugueses, completa o quadro. Aliás os agentes da justiça
comportam-se em muitos casos como atores e não como árbitros (e não falo obviamente da decisão do Tribunal Constitucional cuja opinião aqui deixei). Relembro que é
dada ordem de prisão a um indivíduo que protesta por um juiz “dar o golpe” numa
caixa de multibanco, mas chamar “palhaço” não é ofensa. Sê-lo-ia para qualquer
um de nós, mas para Cavaco Silva não pode ser porque quem é chamado a decidir
não gosta do Presidente da República. Tão simples e irracional quanto isso.
Chegamos
a uma situação socialmente insustentável. Em democracia o voto, o protesto
civilizado, a greve, a opinião, são direitos inalienáveis que muitos
portugueses – cultos ou incultos – têm exercido com responsabilidade, enquanto
a notícia são aqueles que desbaratam esses mesmos direitos em manifestações de
jacobinismo inaceitável, prontamente saudados no exercício de ódio coletivo em
que as redes sociais se vêm transformando. Aliás a comunicação social perde
mais tempo em ouvir o popular arranhado pelo polícia do que em pôr a nu o ódio
irracional e a necessidade de protagonismo dos “populares”.
A
inabilidade de Passos Coelho ou o oportunismo maquiavélico de Portas não ajudam
agora, neste quadro, a encontrar um rumo. Apesar de eu ter a noção que as
eleições antecipadas seriam uma solução, apesar de má e penalizadora do país,
compreendo que o Primeiro Ministro defenda que não pode ser ele a provocá-las
e que é na Assembleia da República que a
sustentabilidade do Governo deve, ou não, assentar. Agora o que duvido é que
neste caso de euforia destruidora alguém, com juízo e retidão, se disponha a
ser insultado, vilipendiado e maltratado
por gente com responsabilidade na opinião pública ou pela imensa massa de justiceiros
inimputáveis que grassa nos fóruns e redes sociais, ou até nos supermercados.
É
ver alguns inacreditáveis comentários dos “bravos” comentadores que peroram sobre a
notícia do jornal i.
A
queda no poço ainda vai a meio.
Foto: i
Etiquetas:
Governo PSD,
Portugal
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Reconhecimento de Guimarães
Guimarães é hoje agraciada pelo Presidente da República (PR) como membro honorário da Ordem de Sant'Iago da Espada (ver aqui), uma distinção que visa reconhecer o mérito de Guimarães enquanto cidade com memória e preocupações com o património, bem como celebrar as suas potencialidades enquanto cidade de cultura e de futuro.
Apesar de ter sido em Guimarães que começou a estranha mania de se assobiar o PR, desconhecendo a generalidade dos vimaranenses o seu particular empenho para que não faltassem a Guimarães as verbas assumidas para a Capital Europeia da Cultura, Cavaco Silva não se deixou guiar pelas emoções ou pelo ensimesmamento de que é, minuto a minuto, acusado. Reconheceu pela razão o mérito a Guimarães.
Bem haja por isso.
Foto: Daniel Rocha (Público)
Etiquetas:
Guimarães
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Os saldos
“(...) se
queremos tirar do atoleiro em que está uma geração inteira, de gente
potencialmente digna de aproveitamento, temos que tomar a educação não como uma
verba a mais, mas como um princípio de vida, e uma sensibilidade pátria.”
Agustina Bessa-Luís. Dicionário Imperfeito. 2008.
Das coisas que eu não percebo
há uma que me dá uma angústia especial: os saldos. Mas das coisas que eu não
entendo essa será porventura a mais acessível ao meu entendimento. Apesar disso
a zona do meu córtex cerebral que deveria processar a informação relativa ao
assunto em causa permanece com a atividade característica de um pedaço de
betão. Desconheço ainda hoje quais as épocas de saldos, qual a lógica a que a
elas preside, qual a dimensão e significância percentual da coisa.
Admito que ter sido criado
por um magnífico trio de tias comerciantes que nunca promoveram um saldo na
vida pode ter ajudado à minha presente desqualificação. Contudo a lógica
consumista das últimas décadas deveria ter-me dado ferramentas para não me
sentir perdido, e quantas vezes intimidado, em época de saldos.
Ainda a passada semana
precisei de uma camisa e entrei numa loja em saldos. A primeira coisa que se
nota é a maior afluência de clientes e aquela sensação desconfortável de
transporte público apinhado. Como eu permaneço a destempo, apesar da idade, com
os ensinamentos que me deixaram na infância, para dar lugar aos mais velhos e
às senhoras nos autocarros, acabo por me deixar ludibriar com alguma facilidade
no processo implacável dos saldos. De repente a camisa que escolhi está nas
mãos de uma senhora. Pousei-a apenas uns breves segundos enquanto, cheio de
vontade em aprender, dava uma vista de olhos noutros artigos. E lá vai a
camisa, desabotoada e enorme, nas mãos de uma senhora pequenina que parece ter
ganho a loteria nacional. Só me resta adaptar e esperar que ela largue a presa
e eu solte a hiena que há em mim atacando no momento certo.
Se a minha infância não me
preparou para a selva dos saldos o meu presente deveria tê-lo feito. Tenho uma
mulher que sente no ar a vibração dos saldos, à imagem da volúpia animada do
cheiro de comida no cinema de animação. Já assisti à sua chegada à loja pouco
depois dos cartazes de saldos terem sido afixados. Às vezes fico com a sensação
que a minha mulher sabe dos saldos antes das funcionárias e, eventualmente,
antes dos concessionários. É possível que as mulheres, algumas mulheres como a
minha, tenham não só um sexto, mas também um sétimo sentido para estas coisas
de compras e saldos. Nunca a acompanho nas gloriosas jornadas dos saldos porque
não aguento a pressão mas também, suponho, porque iria atrapalhar os movimentos
felinos de uma mulher talhada para a oportunidade, que chega a casa estourada
mas feliz imersa nos despojos de guerra. A minha mulher é uma profissional que
já não se contenta com o saldo vulgar mas vai ao limite da possibilidade máxima
do saldo, como um mergulhador que entra em apneia para além das suas
possibilidades físicas. E se eu nunca sei o meu número de calças ou de camisa,
hesitação fatal no mundo predatório dos saldos, ela consegue saber o de todos e
para todos trazer qualquer coisa arrancada das profundezas do preço
irresistível. Para se ser bom em saldos é importante ter técnica e intuição e
estar no topo, como os bons profissionais do desporto, das capacidades físicas
e psicológicas. Eu não tenho, reconheço com alguma mágoa, nenhuma dessas
qualidades.
A educação está em saldo há
tempo demais neste glorioso país que, sem riquezas naturais que o salvem,
conseguiu por breves momentos históricos estar à frente quando apostou no
conhecimento e no saber. Já se fizeram os saldos dos 20%, já lá vão os dos 50%,
e este Governo apostou agora nos 80%. É
o arrumar da coleção sem perspetivas de uma nova. É a liquidação total da loja
e dos funcionários que, bravamente, se recusaram por estes dias a fechá-la. E
apesar de alguns clientes vociferarem, mais por patética ignorância do que por
maldade ou recalcamento, é possível ainda travar as consequências da loja vazia
e sem futuro. A começar por mim, militante do PSD, que não se revê na deriva
ideológica de um partido fundado noutros valores e com uma gerência desadequada
aos seus princípios e à sua história. A estes saldos seguramente não irei, nem
participarei com o meu silêncio.
Publicado in O Comércio de Guimarães
Fotos Alexandre Coelho Lima
Etiquetas:
Crónicas
Subscrever:
Mensagens (Atom)





