quinta-feira, 11 de julho de 2013

Tenham juízo (?)





O Presidente da República, ao contrário das elaboradas e esquizofrénicas teorias da conspiração que tenho lido, tomou ontem uma decisão sensata.

Apesar de muita gente não querer dar conta disso o estado de necessidade do país é total, temos contas a pagar, temos compromissos a cumprir, temos uma credibilidade a recuperar, temos prazos e temos propósitos escritos, assumidos, necessários. E esse deverá ser o nosso objetivo comum, depois de tudo o que já passamos. O PSD e o CDS perderam infantilmente o crédito dado nas eleições, o PS está deslumbrado com o brinquedo novo mas assinou a situação em que nos encontramos, o PC e o BE perseguem com a coerência do costume a albanização do nosso país.

Cavaco arriscou por sensatez e poderá perder por falta dela nos partidos políticos sempre excitados com o poder mas pouco focados nas pessoas, nas empresas, no futuro do país.

A única coisa que falta perceber é se o juízo que Cavaco reclama aos partidos, tendo em conta os sacrifícios e dificuldades dos portugueses, existe mesmo.

terça-feira, 9 de julho de 2013

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A situação




Uma notícia secundária no jornal i de hoje prendeu-me a atenção pois ele corrobora a situação de degradação moral e de inimputabilidade a que o país chegou. Nela se relatava que há duas semanas o cidadão Vítor Gaspar acompanhado da mulher, numa ida às compras ao supermercado, sem serem acompanhados por seguranças, foram insultados e cuspidos por “populares”. O episódio revela muito mais do que um ato de má criação. Revela que um ministro, com uma sólida reputação académica e inatacável percurso profissional, que não precisaria de ser governante para ter uma vida impoluta e tranquila, não pode aguentar tudo. Não me custa imaginar que mesmo que o ministro se visse investido numa missão que abraçou com sacrifício a mulher lhe tivesse dito que chega. Chega de sacrifícios pessoais, chega de humilhações.
A par disto o facto de um reputado e inteligente jornalista ter chamado “palhaço” ao mais alto dignitário da nação perante o alheamento da justiça e o frémito prazenteiro de muitos portugueses, completa o quadro. Aliás os agentes da justiça comportam-se em muitos casos como atores e não como árbitros (e não falo obviamente da decisão do Tribunal Constitucional cuja opinião aqui deixei). Relembro que é dada ordem de prisão a um indivíduo que protesta por um juiz “dar o golpe” numa caixa de multibanco, mas chamar “palhaço” não é ofensa. Sê-lo-ia para qualquer um de nós, mas para Cavaco Silva não pode ser porque quem é chamado a decidir não gosta do Presidente da República. Tão simples e irracional quanto isso.
Chegamos a uma situação socialmente insustentável. Em democracia o voto, o protesto civilizado, a greve, a opinião, são direitos inalienáveis que muitos portugueses – cultos ou incultos – têm exercido com responsabilidade, enquanto a notícia são aqueles que desbaratam esses mesmos direitos em manifestações de jacobinismo inaceitável, prontamente saudados no exercício de ódio coletivo em que as redes sociais se vêm transformando. Aliás a comunicação social perde mais tempo em ouvir o popular arranhado pelo polícia do que em pôr a nu o ódio irracional e a necessidade de protagonismo dos “populares”.

A inabilidade de Passos Coelho ou o oportunismo maquiavélico de Portas não ajudam agora, neste quadro, a encontrar um rumo. Apesar de eu ter a noção que as eleições antecipadas seriam uma solução, apesar de má e penalizadora do país, compreendo que o Primeiro Ministro defenda que não pode ser ele a provocá-las e  que é na Assembleia da República que a sustentabilidade do Governo deve, ou não, assentar. Agora o que duvido é que neste caso de euforia destruidora alguém, com juízo e retidão, se disponha a ser insultado, vilipendiado e  maltratado por gente com responsabilidade na opinião pública ou pela imensa massa de justiceiros inimputáveis que grassa nos fóruns e redes sociais, ou até nos supermercados.

É ver alguns inacreditáveis comentários dos “bravos” comentadores que peroram sobre a notícia do jornal i.

A queda no poço ainda vai a meio.


Foto: i

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Reconhecimento de Guimarães



Guimarães é hoje agraciada pelo Presidente da República (PR) como membro honorário da Ordem de Sant'Iago da Espada (ver aqui), uma distinção que visa reconhecer o mérito de Guimarães enquanto cidade com memória e preocupações com o património, bem como celebrar as suas potencialidades enquanto cidade de cultura e de futuro.

Apesar de ter sido em Guimarães que começou a estranha mania de se assobiar o PR, desconhecendo a generalidade dos vimaranenses o seu particular empenho para que não faltassem a Guimarães as verbas assumidas para a Capital Europeia da Cultura, Cavaco Silva não se deixou guiar pelas emoções ou pelo ensimesmamento de que é, minuto a minuto, acusado. Reconheceu pela razão o mérito a Guimarães.

Bem haja por isso.


Foto: Daniel Rocha (Público)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Os saldos



“(...) se queremos tirar do atoleiro em que está uma geração inteira, de gente potencialmente digna de aproveitamento, temos que tomar a educação não como uma verba a mais, mas como um princípio de vida, e uma sensibilidade pátria.”
Agustina Bessa-Luís. Dicionário Imperfeito. 2008.



Das coisas que eu não percebo há uma que me dá uma angústia especial: os saldos. Mas das coisas que eu não entendo essa será porventura a mais acessível ao meu entendimento. Apesar disso a zona do meu córtex cerebral que deveria processar a informação relativa ao assunto em causa permanece com a atividade característica de um pedaço de betão. Desconheço ainda hoje quais as épocas de saldos, qual a lógica a que a elas preside, qual a dimensão e significância percentual da coisa.





Admito que ter sido criado por um magnífico trio de tias comerciantes que nunca promoveram um saldo na vida pode ter ajudado à minha presente desqualificação. Contudo a lógica consumista das últimas décadas deveria ter-me dado ferramentas para não me sentir perdido, e quantas vezes intimidado, em época de saldos.
Ainda a passada semana precisei de uma camisa e entrei numa loja em saldos. A primeira coisa que se nota é a maior afluência de clientes e aquela sensação desconfortável de transporte público apinhado. Como eu permaneço a destempo, apesar da idade, com os ensinamentos que me deixaram na infância, para dar lugar aos mais velhos e às senhoras nos autocarros, acabo por me deixar ludibriar com alguma facilidade no processo implacável dos saldos. De repente a camisa que escolhi está nas mãos de uma senhora. Pousei-a apenas uns breves segundos enquanto, cheio de vontade em aprender, dava uma vista de olhos noutros artigos. E lá vai a camisa, desabotoada e enorme, nas mãos de uma senhora pequenina que parece ter ganho a loteria nacional. Só me resta adaptar e esperar que ela largue a presa e eu solte a hiena que há em mim atacando no momento certo.

Se a minha infância não me preparou para a selva dos saldos o meu presente deveria tê-lo feito. Tenho uma mulher que sente no ar a vibração dos saldos, à imagem da volúpia animada do cheiro de comida no cinema de animação. Já assisti à sua chegada à loja pouco depois dos cartazes de saldos terem sido afixados. Às vezes fico com a sensação que a minha mulher sabe dos saldos antes das funcionárias e, eventualmente, antes dos concessionários. É possível que as mulheres, algumas mulheres como a minha, tenham não só um sexto, mas também um sétimo sentido para estas coisas de compras e saldos. Nunca a acompanho nas gloriosas jornadas dos saldos porque não aguento a pressão mas também, suponho, porque iria atrapalhar os movimentos felinos de uma mulher talhada para a oportunidade, que chega a casa estourada mas feliz imersa nos despojos de guerra. A minha mulher é uma profissional que já não se contenta com o saldo vulgar mas vai ao limite da possibilidade máxima do saldo, como um mergulhador que entra em apneia para além das suas possibilidades físicas. E se eu nunca sei o meu número de calças ou de camisa, hesitação fatal no mundo predatório dos saldos, ela consegue saber o de todos e para todos trazer qualquer coisa arrancada das profundezas do preço irresistível. Para se ser bom em saldos é importante ter técnica e intuição e estar no topo, como os bons profissionais do desporto, das capacidades físicas e psicológicas. Eu não tenho, reconheço com alguma mágoa, nenhuma dessas qualidades.




A educação está em saldo há tempo demais neste glorioso país que, sem riquezas naturais que o salvem, conseguiu por breves momentos históricos estar à frente quando apostou no conhecimento e no saber. Já se fizeram os saldos dos 20%, já lá vão os dos 50%, e este Governo apostou agora nos  80%. É o arrumar da coleção sem perspetivas de uma nova. É a liquidação total da loja e dos funcionários que, bravamente, se recusaram por estes dias a fechá-la. E apesar de alguns clientes vociferarem, mais por patética ignorância do que por maldade ou recalcamento, é possível ainda travar as consequências da loja vazia e sem futuro. A começar por mim, militante do PSD, que não se revê na deriva ideológica de um partido fundado noutros valores e com uma gerência desadequada aos seus princípios e à sua história. A estes saldos seguramente não irei, nem participarei com o meu silêncio.



Publicado in O Comércio de Guimarães
Fotos Alexandre Coelho Lima