quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O dia de anos







“(…) Ele deixará a tabuleta e eu deixarei os versos/ A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também/ Depois a certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,/ E a língua em que foram escritos os versos./ Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. (…) ”
Álvaro de Campos. Tabacaria. 1928.



Escrevo este artigo no meu dia de anos. Na quinta-feira que precedeu a publicação desta crónica. E sinto-me ligeiramente confortado por, no dia de anos, ter tempo e disposição para falar do meu dia de anos.

Sinto, talvez desde que completei 30 anos, uma certa surpresa pela quantidade de anos que cada meu aniversário traz. Trinta e quatro, meu deus, trinta e nove, já (?), quarenta e três, não é possível, e por aí adiante até aos quarenta e nove. E recordo hoje com saudade a surpresa numérica dos aniversários anteriores, desejo-a de forma tonta e irresponsável. A angústia do tempo dá à barriga um friozinho de aflição. Molda-a ao susto na cadência dos aniversários. No entanto isso é bom: significa que podemos sentir. Haverá um dia em que isso não acontecerá e isso é que será realmente mau. Apesar de “em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente/ Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas (...)”. Mas não serei eu e isso é o bastante para ser, no mínimo, inoportuno.

Apesar de tudo o que possa incomodar na passagem dos anos continuo com o desejo infantil de os comemorar. Através de uma histriónica festa,  de um jantar mais íntimo, de uma conversa mais alargada, tudo deverá ser uma bom meio de enformar o pretexto que os aniversários nos oferecem. Agora que os aprendizes de Lutero que nos governam já arrumaram com uma data de feriados que comemoravam datas importantes como a implantação da República e a restauração da nossa independência, é bom termos um feriado só para nós. Mesmo trabalhando nesse dia podemos cortar a fita do monumento que de nós fizemos e pôr a nossa banda musical interior a tocar a nossa marcha, sincopada e ordenadamente. Merecemos um feriado pessoal por ano. É uma boa cadência. Desde que nasci a Terra deu já 49 voltas ao Sol. Nada mau. Se vivesse em Júpiter ter-me-ia comemorado apenas 4 vezes, em Saturno estaria apenas a caminho do segundo aniversário o que seria, notoriamente, um tremendo aborrecimento.



A expressão “fazer anos” é deliciosa. Dá-nos o controlo absurdo do tempo. “Fazer” como se o fizéssemos, como se trabalhássemos a idade que temos, como se a construíssemos. A ilusão de “fazer” é por isso boa e o melhor é persistir nesse erro. “Fazer anos” como se faz um filho, ou um cabrito assado, ou uma crónica, é suficientemente reconfortante para não deixar de se fazer. Daí que a opressão numérica da idade, as falhas visíveis que o tempo cava no corpo, o facto de nos lembrarmos de coisas que outros já sabem apenas através dos livros de História, não é algo que nos deva preocupar pois ainda nos estamos a “fazer” e esse é um trabalho que não pode ficar incompleto e que exige a nossa mais absoluta dedicação, sem angústias. A ilusão de nós fazermos o tempo e não deste nos fazer a nós é algo que não podemos desperdiçar, já que tudo é relativo. Até o tempo o é.

Espero vir a ter saudades de quando fiz quarenta e nove anos e pensar, como um fraco, de como era feliz então.
No dia de hoje, que não é efetivamente o hoje de quem me lê, antecipo apenas em alguns anos essa ideia de felicidade. Transporto-a para hoje, recusando-me a espartilhá-la em duodécimos de felicidade futura.
Parabéns para quem hoje faz anos. Seja qual for o hoje.



Publicado in Comércio de Guimarães

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Uma cidade especial



O Porto é uma cidade especial no contexto político autárquico nacional. Elegeu Rui Rio contra todas as previsões, penalizando a arrogância de Fernando Gomes que se julgava omnipotente. Manteve Rui Rio contra uma campanha contínua e raivosa do F.C.Porto, privilegiando o rigor e a seriedade ao circo à costumeira hipocrisia dos interesses. Ontem foi coerente e deitou pela borda fora os prometidos eldorados para eleger Rui Moreira. O Porto é por isso um extraordinário exemplo de bom senso democrático.


Foto_CMPorto


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Não vale a pena



Não vale a pena lamentarmos a derrota pela habilidade do árbitro que nos calhou. Não vale a pena perdermos tempo a discutir as atitudes do treinador do Benfica e as cenas lamentáveis da claque que ele tão diligentemente defendeu. Nada de substancial lhes acontecerá pois como se viu pela atitude pedagógica dos “polícias” pareciam eles os prevaricadores e não o treinador do Benfica ou os índios que nos desbastaram, uma vez mais, as cadeiras do D.Afonso Henriques. Guardará a PSP, apesar dos comunicados, para mim ou para si toda a autoridade quando nos atrevermos a estacionar mal a viatura. Na tarde de domingo guardaram a autoridade bem fundo para não incomodar a “nação benfiquista”. Quanto a Jorge Jesus continuará a reinar, como um rei pimba, grosseiro, grotesco e intelectualmente indigente, sem que nada lhe aconteça pois é do Benfica e nós não.

Valerá a pena ter cautela e sermos frios e inteligentes, pois depois do roubo a que o Porto foi sujeito este domingo nós somos o apetecível pato para que o Porto se tranquilize já na próxima sexta. Valerá a pena falar com o Addy e perceber se a ingenuidade e inabilidade demonstradas são um acidente ou uma característica. Valerá a pena apostar na juventude e equilíbrio do jovem Luís Rocha e incentivá-lo como nunca. Valerá a pena pôr novamente a roda trituradora que engoliu o Rijeka novamente em marcha e não perder tempo com os outros. Podemos melhorar e isso é o que deve motivar quem tão bem tem trabalhado em prol do Vitória. O resto são jornais desportivos e tretas tão desinteressantes como aquelas que os alimentam. Somos demasiadamente interessantes para não nos concentrarmos em nós próprios.


Foto_Guimaraes Digital

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Fauve ≠





De França ... outra vez bom vento. Blizzard um dos seis temas de um refrescante EP.

De tronco nu


Na importante e feliz vitória deste fim de semana André André, após um golo de bela execução, tirou a camisola para festejar. Apanhou o competente amarelo e, por ser atleta da minha equipa, não pude deixar de me incomodar com a estupidez do gesto.

De há uns anos a esta parte criou-se, em algumas criaturas, este incompreensível hábito. Mesmo com a penalização do castigo disciplinar é difícil erradicar o hábito, a não ser que os clubes internamente também o comecem a fazer. O exagero de André André, deu para perceber, pretendeu soltar a raiva que a condição de suplente lhe causou. Ora o sucesso desportivo do ano passado, a extraordinária união do grupo, dependeu de um fator importante que convém não se perder: a humildade.


Foto_VSC

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O DIA V




“O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.”
Álvaro de Campos. Poesias. 1928.


A possibilidade de pensarmos uma ideia é algo de fantástico. Afastarmo-nos do nosso lado animal e instintivo, das características gregárias e comuns tributárias de milhares de anos de evolução, é algo de particularmente excitante e sempre novo. A ideia, ter uma ideia, desenvolvê-la, concretizá-la, partilhar essa ideia e reconstruí-la na combinação de várias criatividades, é um arbítrio de alma. Assim surgem os melhores exemplos musicais, as mais profundas descobertas científicas, a roda ou o fogo, os melhores pratos, a teoria de Darwin ou a poesia de Pessoa, a moda, a arte ou o jogo, o cinema, o ser-se romântico, ou seja grande parte daquilo que, a par da beleza natural das coisas, faz valer a pena o biológico ato de existir.

O DIA V, exposição fotográfica que se inaugura na próxima sexta-feira, pelas 18h00, no Palácio do Centro Cultural de Vila Flor, é uma ideia, certamente não tão grandiloquente e determinante como as referidas no parágrafo anterior, mas uma ideia nova e fresca sobre um tema possivelmente estafado como o do futebol e dentro deste, em particular, sobre um clube: o Vitória. A novidade foi a de deslocar, no glorioso dia da final da Taça de Portugal, o interesse fotográfico do campo para as bancadas e para os adeptos. As estrelas da exposição fotográfica, e do magnífico livro que a irá suportar, não são os que estão no campo a construir pelos golos e pelo esforço o resultado, mas aqueles que fora do campo o sentem, o perseguem, o choram. De certa forma também o construíram e também o determinaram com a sua paixão e dedicação, com uma esperança sem limites que encheu o ar do estádio nacional de um sentimento ao mesmo tempo de pertença e de desejo. O foco da exposição é também a viagem, o farnel, o convívio que apesar do nervoso miudinho também se fez, e o regresso mais feliz da nossa história como vitorianos. A vitória nunca foi o propósito da ideia inicial, nem o poderia ou deveria ter sido. A vitória foi um bónus feliz do destino que se quis, assim, associar à exposição d’ O DIA V.
Os fotógrafos Miguel Oliveira, Ricardo Leite e Ricardo Rodrigues trabalharam a sua arte de frente para os adeptos e de costas para o relvado. Não fotografaram o óbvio nem o acessório, nem qualquer coisa que ficasse no meio disso, fotografaram “apenas” aquilo que muitas vezes queremos explicar e não conseguimos quando falamos em paixão. Fotografaram o que está muitas vezes escondido das palavras, o infotografável friozinho na barriga, o sentimento de comunhão,  a lágrima interior, o ser-se vitoriano.
O jogo da final da Taça foi apenas um pretexto feliz para a ideia ambiciosa de guardar em imagem uma benigna doença com mais de nove décadas de existência. Implacavelmente genética e deliciosamente incurável.

Espero que a força da ideia trabalhada e partilhada por muita gente corresponda à sua materialização em exposição e em livro, e agrade às pessoas para a qual foi pensada e realizada. A tentativa fugir à vulgaridade e ao óbvio foi uma marca fundamental que agora se testará. Chegou a altura da ideia, com a provecta idade de três meses, nascer finalmente para a comunidade. A ideia nasceu e cresceu, como se saberá, na confluência das vontades e dos contributos da associação Muralha, do Cineclube de Guimarães e do Conselho Vitoriano. Foi uma soma aritmeticamente impossível. Foi para além das partes.
A ideia original, partilhada no estranho rigor criativo do Eduardo Brito, foi crescendo e derivando com o contributo de novas ideias e propostas, nas quais os fotógrafos se envolveram para além daquilo que se lhes pediu ... o que já era muito. O envolvimento da direção do Cineclube, e em particular do Carlos Mesquita, deu corpo e substância ao que agora se vai começar a mostrar. O apoio da Oficina e da Capital Europeia do Desporto foi também importante para a dimensão pública da ideia a que o meu amigo Júlio Mendes, presidente do nosso Vitória, embarcou com entusiasmo.
O DIA V, a Vénus de Milo ou o binómio de Newton são ideias. O eventual prazer de reparar nelas é nosso.
Não faltem à inauguração, e se faltarem não percam a exposição até 8 de setembro. E o livro! Boas férias.





Publicado in Comércio de Guimarães

terça-feira, 16 de julho de 2013

Rui tour de force



A etapa 16 do centésimo Tour de France foi, com inteiro mérito, para o ciclista português Rui Costa. Ganhar no Tour não é apenas ganhar uma etapa, é muito mais do que isso. Há ciclismo e há o Tour no topo desse popular desporto.

Rui Costa ganha a sua segunda etapa na mítica corrida francesa e o futuro certamente dirá de forma afirmativa que este poveiro poderá passar o número de vitórias de Acácio Silva (3) ou de Joaquim Agostinho (4, uma foi-lhe retirada por acusar doping).

O Público tem feito um excelente trabalho ao nos trazer, dia a dia, histórias destes 100 anos. Para quem não compra o jornal diariamente poderá ver algumas dessas histórias aqui.


Foto: Pascal Guyot/AFP


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Tenham juízo (?)





O Presidente da República, ao contrário das elaboradas e esquizofrénicas teorias da conspiração que tenho lido, tomou ontem uma decisão sensata.

Apesar de muita gente não querer dar conta disso o estado de necessidade do país é total, temos contas a pagar, temos compromissos a cumprir, temos uma credibilidade a recuperar, temos prazos e temos propósitos escritos, assumidos, necessários. E esse deverá ser o nosso objetivo comum, depois de tudo o que já passamos. O PSD e o CDS perderam infantilmente o crédito dado nas eleições, o PS está deslumbrado com o brinquedo novo mas assinou a situação em que nos encontramos, o PC e o BE perseguem com a coerência do costume a albanização do nosso país.

Cavaco arriscou por sensatez e poderá perder por falta dela nos partidos políticos sempre excitados com o poder mas pouco focados nas pessoas, nas empresas, no futuro do país.

A única coisa que falta perceber é se o juízo que Cavaco reclama aos partidos, tendo em conta os sacrifícios e dificuldades dos portugueses, existe mesmo.

terça-feira, 9 de julho de 2013