domingo, 27 de outubro de 2013
Cercado
Fotos: Marca
Iniesta é um excecional jogador de futebol, ontem no clássico com o Real Madrid em Camp Nou (2-1 para o Barça) tornou a sê-lo, muito mais em jogo que Messi ou Xavi.
As fotos são a prova plástica do terror e atenção dos adversários quando o mago pega na bola: o seu escudo invisível contra o mundo.
Iniesta é jogador do Barcelona desde os doze anos.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
O dia de anos
“(…) Ele
deixará a tabuleta e eu deixarei os versos/ A certa altura morrerá a tabuleta
também, e os versos também/ Depois a certa altura morrerá a rua onde esteve a
tabuleta,/ E a língua em que foram escritos os versos./ Morrerá depois o planeta
girante em que tudo isto se deu. (…) ”
Álvaro de Campos. Tabacaria. 1928.
Escrevo este artigo no meu dia de anos. Na quinta-feira que precedeu a
publicação desta crónica. E sinto-me ligeiramente confortado por, no dia de
anos, ter tempo e disposição para falar do meu dia de anos.
Sinto, talvez desde que completei 30 anos, uma certa surpresa pela
quantidade de anos que cada meu aniversário traz. Trinta e quatro, meu deus,
trinta e nove, já (?), quarenta e três, não é possível, e por aí adiante até
aos quarenta e nove. E recordo hoje com saudade a surpresa numérica dos
aniversários anteriores, desejo-a de forma tonta e irresponsável. A angústia do
tempo dá à barriga um friozinho de aflição. Molda-a ao susto na cadência dos
aniversários. No entanto isso é bom: significa que podemos sentir. Haverá um
dia em que isso não acontecerá e isso é que será realmente mau. Apesar de “em
outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente/ Continuará
fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas (...)”.
Mas não serei eu e isso é o bastante para ser, no mínimo, inoportuno.
Apesar de tudo o que possa incomodar na passagem dos anos continuo com o
desejo infantil de os comemorar. Através de uma histriónica festa, de um jantar mais íntimo, de uma conversa
mais alargada, tudo deverá ser uma bom meio de enformar o pretexto que os
aniversários nos oferecem. Agora que os aprendizes de Lutero que nos governam
já arrumaram com uma data de feriados que comemoravam datas importantes como a
implantação da República e a restauração da nossa independência, é bom termos
um feriado só para nós. Mesmo trabalhando nesse dia podemos cortar a fita do
monumento que de nós fizemos e pôr a nossa banda musical interior a tocar a
nossa marcha, sincopada e ordenadamente. Merecemos um feriado pessoal por ano.
É uma boa cadência. Desde que nasci a Terra deu já 49 voltas ao Sol. Nada mau.
Se vivesse em Júpiter ter-me-ia comemorado apenas 4 vezes, em Saturno estaria
apenas a caminho do segundo aniversário o que seria, notoriamente, um tremendo
aborrecimento.
A expressão “fazer anos” é deliciosa. Dá-nos o controlo absurdo do
tempo. “Fazer” como se o fizéssemos, como se trabalhássemos a idade que temos,
como se a construíssemos. A ilusão de “fazer” é por isso boa e o melhor é
persistir nesse erro. “Fazer anos” como se faz um filho, ou um cabrito assado,
ou uma crónica, é suficientemente reconfortante para não deixar de se fazer.
Daí que a opressão numérica da idade, as falhas visíveis que o tempo cava no
corpo, o facto de nos lembrarmos de coisas que outros já sabem apenas através
dos livros de História, não é algo que nos deva preocupar pois ainda nos
estamos a “fazer” e esse é um trabalho que não pode ficar incompleto e que
exige a nossa mais absoluta dedicação, sem angústias. A ilusão de nós fazermos
o tempo e não deste nos fazer a nós é algo que não podemos desperdiçar, já que
tudo é relativo. Até o tempo o é.
Espero vir a ter saudades de quando fiz quarenta e nove anos e pensar,
como um fraco, de como era feliz então.
No dia de hoje, que não é
efetivamente o hoje de quem me lê, antecipo apenas em alguns anos essa ideia de
felicidade. Transporto-a para hoje, recusando-me a espartilhá-la em duodécimos
de felicidade futura.
Parabéns para quem hoje faz
anos. Seja qual for o hoje.
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Crónicas
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Uma cidade especial
O Porto é uma cidade especial no contexto político autárquico nacional. Elegeu Rui Rio contra todas as previsões, penalizando a arrogância de Fernando Gomes que se julgava omnipotente. Manteve Rui Rio contra uma campanha contínua e raivosa do F.C.Porto, privilegiando o rigor e a seriedade ao circo à costumeira hipocrisia dos interesses. Ontem foi coerente e deitou pela borda fora os prometidos eldorados para eleger Rui Moreira. O Porto é por isso um extraordinário exemplo de bom senso democrático.
Foto_CMPorto
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Política
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Não vale a pena
Não vale a pena lamentarmos
a derrota pela habilidade do árbitro que nos calhou. Não vale a pena perdermos
tempo a discutir as atitudes do treinador do Benfica e as cenas lamentáveis da
claque que ele tão diligentemente defendeu. Nada de substancial lhes acontecerá pois como se viu
pela atitude pedagógica dos “polícias” pareciam eles os prevaricadores e não o
treinador do Benfica ou os índios que nos desbastaram, uma vez mais, as cadeiras do D.Afonso Henriques. Guardará a PSP, apesar dos comunicados, para mim ou para
si toda a autoridade quando nos atrevermos a estacionar mal a viatura. Na tarde de
domingo guardaram a autoridade bem fundo para não incomodar a “nação benfiquista”. Quanto a Jorge
Jesus continuará a reinar, como um rei pimba, grosseiro, grotesco e
intelectualmente indigente, sem que nada lhe aconteça pois é do Benfica e nós
não.
Valerá a pena ter cautela e
sermos frios e inteligentes, pois depois do roubo a que o Porto foi sujeito
este domingo nós somos o apetecível pato para que o Porto se tranquilize já na
próxima sexta. Valerá a pena falar com o Addy e perceber se a ingenuidade e
inabilidade demonstradas são um acidente ou uma característica. Valerá a pena
apostar na juventude e equilíbrio do jovem Luís Rocha e incentivá-lo como
nunca. Valerá a pena pôr novamente a roda trituradora que engoliu o Rijeka
novamente em marcha e não perder tempo com os outros. Podemos melhorar e isso é
o que deve motivar quem tão bem tem trabalhado em prol do Vitória. O resto são
jornais desportivos e tretas tão desinteressantes como aquelas que os
alimentam. Somos demasiadamente interessantes para não nos concentrarmos em nós próprios.
Foto_Guimaraes Digital
Foto_Guimaraes Digital
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segunda-feira, 16 de setembro de 2013
De tronco nu
Na importante e feliz vitória deste fim de semana André André, após um golo de bela execução, tirou a camisola para festejar. Apanhou o competente amarelo e, por ser atleta da minha equipa, não pude deixar de me incomodar com a estupidez do gesto.
De há uns anos a esta parte criou-se, em algumas criaturas, este incompreensível hábito. Mesmo com a penalização do castigo disciplinar é difícil erradicar o hábito, a não ser que os clubes internamente também o comecem a fazer. O exagero de André André, deu para perceber, pretendeu soltar a raiva que a condição de suplente lhe causou. Ora o sucesso desportivo do ano passado, a extraordinária união do grupo, dependeu de um fator importante que convém não se perder: a humildade.
Foto_VSC
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quarta-feira, 24 de julho de 2013
O DIA V
“O binómio de
Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por
isso.”
Álvaro de Campos. Poesias. 1928.
A possibilidade de pensarmos
uma ideia é algo de fantástico. Afastarmo-nos do nosso lado animal e
instintivo, das características gregárias e comuns tributárias de milhares de
anos de evolução, é algo de particularmente excitante e sempre novo. A ideia,
ter uma ideia, desenvolvê-la, concretizá-la, partilhar essa ideia e
reconstruí-la na combinação de várias criatividades, é um arbítrio de alma.
Assim surgem os melhores exemplos musicais, as mais profundas descobertas
científicas, a roda ou o fogo, os melhores pratos, a teoria de Darwin ou a
poesia de Pessoa, a moda, a arte ou o jogo, o cinema, o ser-se romântico, ou
seja grande parte daquilo que, a par da beleza natural das coisas, faz valer a
pena o biológico ato de existir.
O DIA V, exposição fotográfica
que se inaugura na próxima sexta-feira, pelas 18h00, no Palácio do Centro
Cultural de Vila Flor, é uma ideia, certamente não tão grandiloquente e
determinante como as referidas no parágrafo anterior, mas uma ideia nova e
fresca sobre um tema possivelmente estafado como o do futebol e dentro deste,
em particular, sobre um clube: o Vitória. A novidade foi a de deslocar, no
glorioso dia da final da Taça de Portugal, o interesse fotográfico do campo
para as bancadas e para os adeptos. As estrelas da exposição fotográfica, e do
magnífico livro que a irá suportar, não são os que estão no campo a construir
pelos golos e pelo esforço o resultado, mas aqueles que fora do campo o sentem,
o perseguem, o choram. De certa forma também o construíram e também o
determinaram com a sua paixão e dedicação, com uma esperança sem limites que
encheu o ar do estádio nacional de um sentimento ao mesmo tempo de pertença e
de desejo. O foco da exposição é também a viagem, o farnel, o convívio que
apesar do nervoso miudinho também se fez, e o regresso mais feliz da nossa
história como vitorianos. A vitória nunca foi o propósito da ideia inicial, nem
o poderia ou deveria ter sido. A vitória foi um bónus feliz do destino que se
quis, assim, associar à exposição d’ O DIA V.
Os fotógrafos Miguel
Oliveira, Ricardo Leite e Ricardo Rodrigues trabalharam a sua arte de frente
para os adeptos e de costas para o relvado. Não fotografaram o óbvio nem o
acessório, nem qualquer coisa que ficasse no meio disso, fotografaram “apenas”
aquilo que muitas vezes queremos explicar e não conseguimos quando falamos em
paixão. Fotografaram o que está muitas vezes escondido das palavras, o
infotografável friozinho na barriga, o sentimento de comunhão, a lágrima interior, o ser-se vitoriano.
O jogo da final da Taça foi
apenas um pretexto feliz para a ideia ambiciosa de guardar em imagem uma
benigna doença com mais de nove décadas de existência. Implacavelmente genética
e deliciosamente incurável.
Espero que a força da ideia trabalhada
e partilhada por muita gente corresponda à sua materialização em exposição e em
livro, e agrade às pessoas para a qual foi pensada e realizada. A tentativa fugir
à vulgaridade e ao óbvio foi uma marca fundamental que agora se testará. Chegou
a altura da ideia, com a provecta idade de três meses, nascer finalmente para a
comunidade. A ideia nasceu e cresceu, como se saberá, na confluência das vontades
e dos contributos da associação Muralha, do Cineclube de Guimarães e do
Conselho Vitoriano. Foi uma soma aritmeticamente impossível. Foi para além das
partes.
A ideia original, partilhada
no estranho rigor criativo do Eduardo Brito, foi crescendo e derivando com o
contributo de novas ideias e propostas, nas quais os fotógrafos se envolveram
para além daquilo que se lhes pediu ... o que já era muito. O envolvimento da
direção do Cineclube, e em particular do Carlos Mesquita, deu corpo e
substância ao que agora se vai começar a mostrar. O apoio da Oficina e da
Capital Europeia do Desporto foi também importante para a dimensão pública da
ideia a que o meu amigo Júlio Mendes, presidente do nosso Vitória, embarcou com
entusiasmo.
O DIA V, a Vénus de Milo ou
o binómio de Newton são ideias. O eventual prazer de reparar nelas é nosso.
Não faltem à inauguração, e
se faltarem não percam a exposição até 8 de setembro. E o livro! Boas férias.
Publicado in Comércio de Guimarães
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Crónicas
terça-feira, 16 de julho de 2013
Rui tour de force
A etapa 16 do centésimo Tour de France foi, com inteiro mérito, para o ciclista português Rui Costa. Ganhar no Tour não é apenas ganhar uma etapa, é muito mais do que isso. Há ciclismo e há o Tour no topo desse popular desporto.
Rui Costa ganha a sua segunda etapa na mítica corrida francesa e o futuro certamente dirá de forma afirmativa que este poveiro poderá passar o número de vitórias de Acácio Silva (3) ou de Joaquim Agostinho (4, uma foi-lhe retirada por acusar doping).
O Público tem feito um excelente trabalho ao nos trazer, dia a dia, histórias destes 100 anos. Para quem não compra o jornal diariamente poderá ver algumas dessas histórias aqui.
Foto: Pascal Guyot/AFP
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Tenham juízo (?)
O Presidente da República, ao contrário das elaboradas e
esquizofrénicas teorias da conspiração que tenho lido, tomou ontem uma decisão
sensata.
Apesar de muita gente não querer dar conta disso o estado
de necessidade do país é total, temos contas a pagar, temos compromissos a
cumprir, temos uma credibilidade a recuperar, temos prazos e temos propósitos
escritos, assumidos, necessários. E esse deverá ser o nosso objetivo comum,
depois de tudo o que já passamos. O PSD e o CDS perderam infantilmente o
crédito dado nas eleições, o PS está deslumbrado com o brinquedo novo mas
assinou a situação em que nos encontramos, o PC e o BE perseguem com a
coerência do costume a albanização do nosso país.
Cavaco arriscou por sensatez e poderá perder por falta dela
nos partidos políticos sempre excitados com o poder mas pouco focados nas
pessoas, nas empresas, no futuro do país.
A única coisa que falta perceber é se o juízo que Cavaco
reclama aos partidos, tendo em conta os sacrifícios e dificuldades dos
portugueses, existe mesmo.
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