domingo, 10 de novembro de 2013

O homem



José Albino Silva Peneda, atual presidente do Conselho Económico e Social, é um homem de uma extraordinária capacidade política que não tem, em minha opinião, a visibilidade que mereceria ter. Silva Peneda plana, bem alto, acima dos tecnocratas que servem Governo e a oposição. Tem uma capacidade rara de perceber que qualquer política só se faz com as pessoas e um perfil humanista que caracterizou o PPD e o PSD e que agora se vai, de forma assustadoramente galopante, perdendo.
A sua opinião equilibrada e prospetiva sobre a Reforma do Estado, hoje impressa nas páginas do jornal Público, é apenas mais um dos muitos contributos que tem dado à sociedade portuguesa. Que assim continue.




Foto_ Artur Machado

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Santa aspirina


Depois de um jogo de futebol como o de ontem, em que o que correu mal não era difícil de prever que assim acontecesse, era necessário mudar de tática. Fui ver Chano Dominguez com uma Big Band de Colónia ao CCVF. Não me apetecia nada, mas fui. E ainda bem. Foi fantástica a mistura de jazz, flamengo, swing e música latina. Lindo e competente, taticamente perfeito. Sem substituições tontas. Obrigado Chano por me fazeres esquecer os teus conterrâneos ... e os meus.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Benção de outono



Quando o tempo fica triste - como acontece agora - há alguns bons motivos mesmo assim para o apreciar: o cheiro a lenha e a castanhas ... e o sabor do diospiro. Ou se ama ou se detesta. Faço parte do primeiro grupo e tento guardar o prazer do seu sabor exagerando, agora, no seu consumo.




Foto: http://www.secondskinstyling.com

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A vida sem direção assistida



“… os pobres sonham em ter o suficiente para comer e ficar parecidos com os ricos. E os ricos o que é que sonham? Como perder peso e ficar parecidos com os pobres”
Aravinda Adiga. O tigre branco. 2008.

O meu carro brindou-me, a passada semana, com um problema que me deixou apeado nas situações mais inoportunas. O terror dos carros modernos são os problemas elétricos. E lá vão eles obedientes e silenciosos ao rastreio por computador. Se o computador acusa a maleita é tudo rápido e eficiente, se assim não acontece é ver os mecânicos impotentes tentando adivinhar o que se passa para além da informação digital debitada na célula central. Olhando absortos para os componentes do veículo como olhariam para a carcaça de um ser alienígena que caísse, surpreendente, do céu.
Já não existem mecânicos como dantes. Já não existem homens pintados a negro pela viscosidade dos óleos e fluidos dos carros, com panos imundos pendendo dos macacões igualmente sujos como a pele. Esse quadro é de um tempo que se foi. O raciocínio apurado dos mecânicos, os seus sentidos alerta para detetar um ruído ou uma faísca despropositada, deixaram de fazer sentido pois tudo hoje no mundo da mecânica é asséptico e depende de ligações estudadas entre os componentes do carro e um computador que diz, quando diz, o que está a funcionar mal. A avaria não se deteta pelos sentidos, nem se adivinha, imprime-se em papel.

Voltei por necessidade a um carro com “ar” (poético propósito este!). E “puxei o ar” ao carro, arrancando-o à imobilidade e ele roncou de prazer e encheu de gasolina os meus pulmões. Voltei a rodar o volante com muita força como se conduzisse um barco, ou pelo menos a ideia que eu faço do que seja operar o leme de um barco. Nos carros antigos por mais pequenos que sejam, e este era-o, tudo é duro, másculo, vibrante, muito mais próximo da condução de um animal, ou pelo menos da ideia que eu faço do que será conduzir um animal. A marcha no carro que usei para substituir o meu é mais lenta e nervosa e as curvas “desfazem-se” mesmo, tal a força utilizada para as “fazer”. O paralelo comunicou-me diretamente com os ossos e a condução passou a ser um exercício físico, musculado e ostensivo como se operasse uma pandeireta gigante, ou pelo menos a ideia que eu faço do que será tirar som de uma pandeireta gigantesca.




Quando o meu carro regressou, envergonhado e cabisbaixo, de mais uma operação electrónica eu já não o sabia conduzir tão bem. Pareceu-me estranho e desajustado, grande e tão leve que dei por mim a exagerar nas curvas, tentava “desfazê-las” quando a direção assistida, agora de volta, apenas queria que eu as contornasse, suavemente. Havia-me habituado, afinal, e mais decisivamente do que eu pensara, ao desconforto.

Perdemos, por vezes, na vida a direção assistida. Por mais sólido que nos pareça o carro em que caminhamos pelo tempo adentro há sempre qualquer coisa, inesperada, à nossa espera. Não devemos, nunca, viver no terror do inesperado, mas deveremos, humildes, viver na incerteza do possível. É mais cómodo e avisado.





Ao que parece o meu carro não sofria afinal de nenhuma impossibilidade electrónica profunda. Oxalá tudo se tenha resumido, como me disseram, a um fio mal conetado com o motor de arranque. Uma avaria simples, prosaica e entendível, até por mim, mas que escapou impune ao software da viatura. Quando o carro, ou a vida, pára ao peso de um fio lasso tudo é, confortavelmente, mais simples e entendível. É só ligar.


Imagens_Ladrões de bicicletas___Vittorio De Sica_1948



Publicado in Comércio de Guimarães. 30.10.13.

domingo, 27 de outubro de 2013

Cercado


Fotos: Marca


Iniesta é um excecional jogador de futebol, ontem no clássico com o Real Madrid em Camp Nou (2-1 para o Barça) tornou a sê-lo, muito mais em jogo que Messi ou Xavi.

As fotos são a prova plástica do terror e atenção dos adversários quando o mago pega na bola: o seu escudo invisível contra o mundo.

Iniesta é jogador do Barcelona desde os doze anos.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O dia de anos







“(…) Ele deixará a tabuleta e eu deixarei os versos/ A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também/ Depois a certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,/ E a língua em que foram escritos os versos./ Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. (…) ”
Álvaro de Campos. Tabacaria. 1928.



Escrevo este artigo no meu dia de anos. Na quinta-feira que precedeu a publicação desta crónica. E sinto-me ligeiramente confortado por, no dia de anos, ter tempo e disposição para falar do meu dia de anos.

Sinto, talvez desde que completei 30 anos, uma certa surpresa pela quantidade de anos que cada meu aniversário traz. Trinta e quatro, meu deus, trinta e nove, já (?), quarenta e três, não é possível, e por aí adiante até aos quarenta e nove. E recordo hoje com saudade a surpresa numérica dos aniversários anteriores, desejo-a de forma tonta e irresponsável. A angústia do tempo dá à barriga um friozinho de aflição. Molda-a ao susto na cadência dos aniversários. No entanto isso é bom: significa que podemos sentir. Haverá um dia em que isso não acontecerá e isso é que será realmente mau. Apesar de “em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente/ Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas (...)”. Mas não serei eu e isso é o bastante para ser, no mínimo, inoportuno.

Apesar de tudo o que possa incomodar na passagem dos anos continuo com o desejo infantil de os comemorar. Através de uma histriónica festa,  de um jantar mais íntimo, de uma conversa mais alargada, tudo deverá ser uma bom meio de enformar o pretexto que os aniversários nos oferecem. Agora que os aprendizes de Lutero que nos governam já arrumaram com uma data de feriados que comemoravam datas importantes como a implantação da República e a restauração da nossa independência, é bom termos um feriado só para nós. Mesmo trabalhando nesse dia podemos cortar a fita do monumento que de nós fizemos e pôr a nossa banda musical interior a tocar a nossa marcha, sincopada e ordenadamente. Merecemos um feriado pessoal por ano. É uma boa cadência. Desde que nasci a Terra deu já 49 voltas ao Sol. Nada mau. Se vivesse em Júpiter ter-me-ia comemorado apenas 4 vezes, em Saturno estaria apenas a caminho do segundo aniversário o que seria, notoriamente, um tremendo aborrecimento.



A expressão “fazer anos” é deliciosa. Dá-nos o controlo absurdo do tempo. “Fazer” como se o fizéssemos, como se trabalhássemos a idade que temos, como se a construíssemos. A ilusão de “fazer” é por isso boa e o melhor é persistir nesse erro. “Fazer anos” como se faz um filho, ou um cabrito assado, ou uma crónica, é suficientemente reconfortante para não deixar de se fazer. Daí que a opressão numérica da idade, as falhas visíveis que o tempo cava no corpo, o facto de nos lembrarmos de coisas que outros já sabem apenas através dos livros de História, não é algo que nos deva preocupar pois ainda nos estamos a “fazer” e esse é um trabalho que não pode ficar incompleto e que exige a nossa mais absoluta dedicação, sem angústias. A ilusão de nós fazermos o tempo e não deste nos fazer a nós é algo que não podemos desperdiçar, já que tudo é relativo. Até o tempo o é.

Espero vir a ter saudades de quando fiz quarenta e nove anos e pensar, como um fraco, de como era feliz então.
No dia de hoje, que não é efetivamente o hoje de quem me lê, antecipo apenas em alguns anos essa ideia de felicidade. Transporto-a para hoje, recusando-me a espartilhá-la em duodécimos de felicidade futura.
Parabéns para quem hoje faz anos. Seja qual for o hoje.



Publicado in Comércio de Guimarães

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Uma cidade especial



O Porto é uma cidade especial no contexto político autárquico nacional. Elegeu Rui Rio contra todas as previsões, penalizando a arrogância de Fernando Gomes que se julgava omnipotente. Manteve Rui Rio contra uma campanha contínua e raivosa do F.C.Porto, privilegiando o rigor e a seriedade ao circo à costumeira hipocrisia dos interesses. Ontem foi coerente e deitou pela borda fora os prometidos eldorados para eleger Rui Moreira. O Porto é por isso um extraordinário exemplo de bom senso democrático.


Foto_CMPorto


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Não vale a pena



Não vale a pena lamentarmos a derrota pela habilidade do árbitro que nos calhou. Não vale a pena perdermos tempo a discutir as atitudes do treinador do Benfica e as cenas lamentáveis da claque que ele tão diligentemente defendeu. Nada de substancial lhes acontecerá pois como se viu pela atitude pedagógica dos “polícias” pareciam eles os prevaricadores e não o treinador do Benfica ou os índios que nos desbastaram, uma vez mais, as cadeiras do D.Afonso Henriques. Guardará a PSP, apesar dos comunicados, para mim ou para si toda a autoridade quando nos atrevermos a estacionar mal a viatura. Na tarde de domingo guardaram a autoridade bem fundo para não incomodar a “nação benfiquista”. Quanto a Jorge Jesus continuará a reinar, como um rei pimba, grosseiro, grotesco e intelectualmente indigente, sem que nada lhe aconteça pois é do Benfica e nós não.

Valerá a pena ter cautela e sermos frios e inteligentes, pois depois do roubo a que o Porto foi sujeito este domingo nós somos o apetecível pato para que o Porto se tranquilize já na próxima sexta. Valerá a pena falar com o Addy e perceber se a ingenuidade e inabilidade demonstradas são um acidente ou uma característica. Valerá a pena apostar na juventude e equilíbrio do jovem Luís Rocha e incentivá-lo como nunca. Valerá a pena pôr novamente a roda trituradora que engoliu o Rijeka novamente em marcha e não perder tempo com os outros. Podemos melhorar e isso é o que deve motivar quem tão bem tem trabalhado em prol do Vitória. O resto são jornais desportivos e tretas tão desinteressantes como aquelas que os alimentam. Somos demasiadamente interessantes para não nos concentrarmos em nós próprios.


Foto_Guimaraes Digital

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Fauve ≠





De França ... outra vez bom vento. Blizzard um dos seis temas de um refrescante EP.

De tronco nu


Na importante e feliz vitória deste fim de semana André André, após um golo de bela execução, tirou a camisola para festejar. Apanhou o competente amarelo e, por ser atleta da minha equipa, não pude deixar de me incomodar com a estupidez do gesto.

De há uns anos a esta parte criou-se, em algumas criaturas, este incompreensível hábito. Mesmo com a penalização do castigo disciplinar é difícil erradicar o hábito, a não ser que os clubes internamente também o comecem a fazer. O exagero de André André, deu para perceber, pretendeu soltar a raiva que a condição de suplente lhe causou. Ora o sucesso desportivo do ano passado, a extraordinária união do grupo, dependeu de um fator importante que convém não se perder: a humildade.


Foto_VSC