“(...) é inimaginável qualquer fase da
vida mais adiantada do que a nossa. Às vezes já vamos a meio da fase seguinte
antes de darmos conta que entrámos nela.”
Philip Roth. O animal moribundo. 2006.
A idade pode trazer
muitas coisas, umas úteis, outras arreliadoras, pode trazer experiência, pode
dar uma perspetiva mais suave sobre as coisas, pode sedimentar a cultura e o
gosto, pode gastar a vista ou a agilidade, mas a sua característica mais
desconcertante é ser sempre inesperada. A idade é uma espécie de festa surpresa
a que vamos – a partir de certa altura visivelmente contrariados - todos os
anos. Mesmo sem o querermos o tempo encarrega-se de a preparar. Sem
contemplações.
E o que mais arrelia
no passar dos anos é termos ainda fresca a ideia daquilo que pensávamos dos
outros que a certa altura eram mais velhos que nós, aquela distância tolerante e
cínica com que olhávamos para as coisas e para as pessoas que eram mais velhas.
Por isso é frequente carregarmos connosco preconceitos dos tempos em que éramos
mais novos. Na área do emprego isso é incrivelmente claro, já que há uma
resistência de chumbo em empregar gente mais velha.
É evidente que
a atual situação não tem piedade de ninguém, sejam mais novos ou mais velhos,
mas um dos factos mais claros neste domínio do emprego é que os empregadores
torcem sempre o nariz quando lhes aparece alguém com mais de 40 anos a
candidatar-se a um emprego. Muitos dos anúncios estabelecem, frequentemente, um
limite de idade (normalmente os 35 anos!). E será que já alguém pensou
verdadeiramente na razão pela qual se estabelecem esses limites? Desde que não
seja para carregar pesos ou proceder à armação de relógios não vislumbro o
porquê da limitação. Dirão alguns que serão os vícios a grande restrição. Os
vícios? Há preguiçosos de todas as idades e quanto aos vícios relacionados com
dependências de maus hábitos também não me parece fazer grande sentido. Pelo
menos os meus vícios foram gloriosamente apreendidos na juventude, e a idade
não os tendo eliminado pelo menos refinou-os. É na juventude que se testam os
corpos, que se levam ao limite as nossas capacidades para ver até onde a
máquina aguenta. Depois de gloriosamente conhecidos os limites é só mantê-la a
funcionar.
O preconceito
da idade é, a este nível, uma tolice. A aprendizagem tem a ver não só com as
capacidades de cada um mas também, fundamentalmente, com aquilo que se aprendeu
com os erros cometidos. E quem mais errou estará certamente mais capacitado
para evitar novos erros, mas essa é uma asserção frequentemente desprezada.

Pertenço a uma
minoria de portugueses que gosta de Cavaco Silva. Aprecio-lhe a constância –
mesmo a do erro – e a serenidade prospetiva e equilibradora com que ele olha
para Portugal. A grande parte dos seus discursos (escritos) têm-se constituído
como peças políticas consistentes que vale a pena ler, mas que ninguém lê pois
acabam geralmente destruídas por graçolas políticas pouco inteligentes e
aparentemente jovens. Arrumaram-no, infelizmente, na estante dos velhos e o país
não aproveita a sua experiência enquanto político e enquanto homem. Também na
política se criou a ideia de que é necessário ser jovem, para (pelo menos,
digo-o eu) se fazerem asneiras com convicção e sem arrependimento. O episódio do
referendo à co-adopção por casais do mesmo sexo, liderado pela JSD, é mais uma
peça no monumento da asneira fresca e jovem. Pertenço ainda a outra minoria,
distinta da primeira, que acha notável o empenhamento de Mário Soares. Malgrado
algumas opiniões mais desabridas e disparatadas, acho digno de consideração que
um homem se desloque no dia do seu aniversário, o octogésimo nono, para apoiar
a luta dos operários de Viana do Castelo. Era mais fácil ficar em casa ou na
Aula Magna, mas não, o homem achou que devia tomar posição e tomou-a. Acabei
por achar também uma certa graça (perdoem-me) ao facto de Soares ter remado
contra a recente onda de “canonização” do Eusébio.

A idade é hoje muitas
vezes, tal como a orientação sexual ou a religião, forte objeto de preconceito.
A idade aparece frequentemente como argumento no combate a uma ideia diferente
da nossa. E isso é tanto mais estúpido quanto ser preconceituoso com a
juventude acarreta, geralmente, uma grande dose de hipocrisia e, por outro
lado, ser preconceituoso com alguém mais velho é, muitas vezes, sinónimo de uma
preocupante e egocêntrica ingenuidade.
Fotos de pinturas de Vicent van Gogh.
De cima para baixo: Carteiro Joseph Roulin, Armand Roulin, Augustine Roulin e bebé Marcelle e Camille Roulin (todos pintados em 1888).