quarta-feira, 19 de março de 2014

Remédios & Culpa





"(...) Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,/ Porque o presente é todo o passado e todo o futuro (...)".
Álvaro de Campos. Ode Triunfal. 1914 (há 100 anos!).








Algumas pessoas que eu conheço têm por hábito desejarem ter pertencido a outra época. Muitas delas suspiram por outros tempos que conhecem dos livros, dos filmes. Sentem saudades da placidez imaginada de um séc. XIX, pela igualmente imaginada calma e lentidão desses tempos, se bem que na perspetiva de uma classe dominante, mesmo que para olhar os rios e as pedras e a paisagem ... mas de uma mais confortável perspectiva, suponho. Eu não. Sinto-me confortável na época que me calhou viver, o que será para mim, no mínimo, tranquilizante.
Tranquiliza-me o excesso de informação e  rapidez tecnológica que envolve este tempo. Não certamente da mesma forma que os rios e as pedras e a paisagem possam tranquilizar, não. Mas na verdade sinto um certo poder anestesiante na velocidade, na necessidade quase esquizofrénica da adaptação. Se isso resulta de uma virtude do tempo ou de um vício do tempo, isso não consigo eu perceber. Mas não importa. Aceito-o com um certo prazer.
Contemplo assim o tempo que vai abrindo sucessivas portas que permitem ir percebendo como chegámos até aqui. Contemplo as imagens e o sons digitalizados que, como livros, abrem caminhos e resgatam memórias de coisas que não vivemos. Dou vivas aos motores, à radiação que nos cerca e que tem o segredo da nossa existência, ao eletrão que existe nas pedras e nos rios e no ecrã do meu computador que regista, impecável, uma tradução aproximada dos meus pensamentos. Dou vivas ainda à variedade e acutilância dos medicamentos.








Admito que o último período do parágrafo anterior me tenha colocado, mesmo que erradamente, na classe dos hipocondríacos. Não o sou. Pode-se admirar o efeito terapêutico dos medicamentos, pode apreciar-se a variedade de soluções químicas que os tão mal-amados laboratórios farmacêuticos diligentemente produzem, sem ter a mania das doenças. Aliás os bons “apreciadores” de medicamentos usam-nos, não abusam deles. Tal como o vinho que pode ser um prazer ou, se abusado, uma prisão.
Folgo não correr o risco de morrer hoje de uma infeção ou de outra maleita que há bem pouco era uma condenação. Folgo igualmente por todas as horas que diligentes farmacêuticos devotaram a perceber qual o elemento químico cuja deficiência nos põe irritados, ou tristes, ou quebrados. E não me choca perceber que a nossa espiritualidade depende, fundamentalmente, do corpo que a suporta.
Folgo de forma regular pela existência do aspegic, pela sua eficácia no desentupimento da minha cabeça através da ação miraculosa do acetilsalicilato de lisina. Gosto dos xaropes para a tosse, desde miúdo, e das pastilhas contra a gripe. Gosto do milagre acelerado da penicilina e do simpático gurosan para reparação de danos. Gosto, ocasionalmente, do cloridrato de propranolol e de complementos de magnésio dos quais perdi o nome. Gosto desta diversidade e, sobretudo, da possibilidade de.









Infelizmente não há medicamentos para a culpa, e sobretudo para a culpa que não deveríamos ter e no-la venderam com particular habilidade. Não estou a falar da culpa pesada e verdadeira, mas da culpa distribuída de forma abusivamente democrática. Não falo da culpa que prescreve alarvemente nos tribunais, nem da culpa dos enormes rombos financeiros conhecidos, nem da culpa daqueles que nos dão semanalmente, através da televisão, receitas para a crise que eles próprios cavaram, não. Não falo dessa culpa real, mensurável, palpável. Estou a falar da culpa que carregamos hoje enquanto povo. A culpa de sermos ocasionalmente felizes, a culpa de sair do trabalho a horas e não depois do horário estabelecido, a pesada culpa de termos vivido acima das possibilidades e termos, provavelmente, exagerado no queijo ou no fiambre, a culpa por este maravilhoso sol que agora volta qual filho pródigo. Sim, essa terrível culpa de sermos portugueses.
Mas talvez tudo isto não passe afinal de um desequilíbrio – esperemos que ocasional - dos meus eletrólitos no organismo.






Fotos: netdoctor.co.uk/pharmapieces.com/http://librarytypos.blogspot.pt/eightface.com




Publicado in O Comércio de Guimarães. 19.03.14.

terça-feira, 4 de março de 2014

Grande Tijuca





A Escola de Samba mais portuguesa do Rio de Janeiro, a Unidos da Tijuca, é também desde há muito uma das mais imaginativas e respeitadas escolas.




Fundada em 1931, no bairro da Tijuca, a famosa e apetecida Barra, teve na sua origem os operários das fábricas vizinhas de têxteis e cigarros.



A Unidos da Tijuca é uma das escolas mais criativas no sambódromo; este ano decidiu homenagear o piloto Ayrton Senna.


Este ano com Juliana Alves como rainha da bateria a Unidos da Tijuca ... esperando uma vitória.


Fotos: TV Globo

segunda-feira, 3 de março de 2014

Elegância Resnais


Os primeiros filmes que nos fazem perceber a dimensão do cinema marcam para sempre. Assim foi e é a minha relação com Alain Resnais.
Os primeiros filmes que dele vi foram precisamente as suas primeiras duas longas-metragens: Hiroshima meu amor (1959, baseado num magnífico livro de Marguerite Duras, com Emmanuele Riva a atriz de Amor) e o incrível O último ano em Marienbad (1961).





Nem as suas belas obras mais "mediáticas" como Providence (1977) e  O meu tio da América (1980) foram em mim tão fundamentais como os referidos filmes a preto e branco.


Alain Resnais não filmou muito. Filmou bem. Filmou com uma elegância que permanecerá tão eterna como o cinema.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ginásios



"Nunca fumei, fiz sempre exercício físico e durmo bem todas as noites" afirma Montgomery. Churchill responde: "Pois eu cá, o meu segredo é que sempre fumei, nunca fiz exercício físico e só durmo bem à tarde".


(Winston Churchill com o Marechal Montgomery em 1945 em www.nam.ac.uk)



Entrei para o ecossistema dos ginásios já bastante tarde na minha vida, por volta dos 40. Entendi mal, durante muito tempo, a expressão “tratar da saúde”. Entendia-a até muito tarde pelo lado irónico e não pelo lado literal. E perante a epifania de entendimento de que “tratar da saúde” era efetivamente cuidar dela e não dar cabo da dita, inscrevi-me então num ginásio.
Poderá parecer, a quem não os frequenta, que há uma certa uniformidade na clientela, mas não há. Um ginásio é um ecossistema de saúde e preocupações com o corpo onde convivem indivíduos completamente diferentes que, com o tempo, se vão agrupando em comunidades distintas. E essa realidade diversa é uma das suas virtudes, pelo menos para mim que gosto de faunas diversas.





A fauna autóctone mais vistosa é a do pessoal dos pesos, e quem não frequenta ginásios tem a errada noção de que o pessoal que está lá dentro pertence todo a essa comunidade. Mas não. Existem mas não dominam, têm aliás uma pequena área de influência. O facto de não serem nómadas confina-os. O pessoal dos pesos é constituído maioritariamente por homens que sonham ganhar a configuração de um armário, outros, mais ambiciosos, a de um guarda-vestidos daqueles antigos com três portas. É pessoal de conversa dirigida para a musculatura. Falam dos seus bíceps e peitorais como se de filhos se tratassem. Encontram-se geralmente, no seu estado nativo, organizados em tribos de gente vermelha e de carótidas salientes. Olham para os outros machos que lhes disputam, ocasionalmente, as máquinas com um profundo desprezo. Movem-se erectos como bonecos das Gualterianas. Muitas vezes deixo-os desviarem-se da máquina para reduzir o peso a 1/4 daquilo que eles testaram previamente. Agora já nem lhes disputo nada, sou um fã de aulas de ginástica. Não gosto de fazer, gosto que me digam o que fazer. Não tenho, a este nível, uma vontade própria muito ginasticada.





O pessoal das aulas constitui uma outra comunidade, à qual pertenço de forma tímida e controlada. A única altura em que verdadeiramente corremos é em direção às aulas, pois o atraso dos alunos que as frequentam é uma característica indelével desta tribo. Têm geralmente professores fantásticos que parecem ter bebido há minutos um litro de café. Nutro por eles uma reverência muito parecida à dos miúdos para com as suas professoras da primária. Admiro-os e acredito em tudo que dizem. São inesgotáveis em energia e paciência, enfrentando com um sorriso as hordas de alunos com a coordenação corporal de uma marioneta.
Como o mundo dos ginásios é mais complexo do que o que parece, temos aulas para tudo. Mais espirituais (yoga, pilates), mais musculadas (body pump, e outras coisas com body), mais amaneiradas (geralmente tudo que tem a ver com dança).
Prefiro geralmente as aulas mais “espirituais”, diz mais comigo. Fujo geralmente de tudo que seja amaneirado,  pois não tenho maneiras.





Mais discreta é a tribo da passadeira. Não gostam de pesos, não estão para suportar aulas, mas caminham até ao infinito sem sair do sítio. Por vezes sentem-se os seus pensamentos acima da música. Ouvem-se no ar os ensimesmamentos, as preocupações, a resolução de questões domésticas e profissionais. São uma fauna que gosta de isolamento porque está contrariada. Estão lá porque tem de ser e quanto mais rapidamente perderem calorias melhor. Têm a convicção forçada dos condenados.

No topo da pirâmide estão os profissionais que fazem de tudo. Passadeira, pesos, aulas. São espécimes absolutamente fundamentais no ecossistema, ligam todas as tribos. Eu, por exemplo, dificilmente sobreviveria sem os seus conselhos e opiniões, sem a precisão suíça dos seus horários. A aprovação deles é fundamental! São a opinião pública dos ginásios e por isso mesmo são temidos pelos profissionais.





O meu corpo é, geralmente, uma maçada. Gostaria de ter um para usar em casa e outro para usar na rua. Como isso não é, infelizmente, possível, dou-lhe uma espanadela ocasional no ginásio. Mas não demais, para não o puir.



Publicado in O Comércio de Guimarães (19.02.14)

Fontos (de cima para baixo): http://yorktown.lohudblogs.com, http://www.california-gym.hr, Sol, lifting weights

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A noite de cristal do disco sound


Em 12 de julho de 1979, ainda no auge da música disco, o DJ Steve Dahl promove uma manifestação contra a música disco no estádio de baseball dos White Sox de Chicago que se revela um autêntico sucesso ... de imensa confusão.





Aproveitando a promoção de bilhetes (98c) dos White Sox contra os Tigers milhares de pessoas acorrem ao estádio para a loucura total: invasão de campo, queima de singles enquanto fumavam marijuana ... no tempo em que fumar era permitido nos estádios.




Steve Dahl de 24 anos havia sido despedido de uma estação radiofónica pois o seu rock deixou de ter espaço e vingou-se de forma poderosa



Steve Dahl de 24 anos havia sido despedido de uma estação radiofónica pois o seu rock deixou de ter espaço e vingou-se de forma poderosa e aproveitou a euforia imprevisível das massas...


Foto: The history rat

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Listas para: PLAY

Everything But The Girl (1996)


Lorde (2013)


Haim (2013)


Lykke Li (2011)



Eleanor Friedberg (2013)



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A vitória das renováveis



Os números da produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis em Portugal tem sido uma das grandes notícias para amenizar o desconforto do mau tempo.

Em 2013 os números já haviam sido muito bons:

58% ENERGIAS RENOVÁVEIS
37% COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS
5% IMPORTAÇÃO


Em janeiro de 2014 os números são impressionantes: 91% da energia elétrica foi produzida por uma via renovável.

Ver notícia do Público
Ver relatório da APREN






Em termos nacionais, segundo a APREN, o aumento de produto de energia elétrica, fundamentalmente pela via hídrica e eólica, permitiu ao país a poupança de cerca de 850 milhões de euros.

Boas notícias por isso.

Há que trabalhar, de futuro do ponto de vista tecnológico, nas possibilidades de armazenamento da energia elétrica que permita uma melhor versatilidade nas eólicas.


Foto_Raquel Esperança (Público)
Gráfico_Público

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os ladrões de corações




Ser vigarista do coração é uma espécie muito própria do género mais alargado dos vigaristas (que tem em Alves dos Reis um notável exemplo), ligando-se por taxonomia à família mais vasta - e pouco recomendável -  dos criminosos.

Ao ler a notícia do Público de hoje não fiquei particularmente espantado pela postura dos acusados:


‹Durante sete anos e três meses, o então foragido à Justiça Lorosa de Matos terá conseguido enganar as duas ex-magistradas do Ministério Público com quem se envolveu, sem que estas tivessem percebido a sua verdadeira identidade. Lorosa de Matos, que foi ouvido nesta quinta-feira no tribunal em Lisboa, garante que as antigas procuradoras nunca fizeram pesquisas por ele, nem lhe entregaram dados confidenciais. “Elas foram sempre iludidas”, defendeu, alegando que a única pessoa que estava a par de todas as identidades falsas seria um amigo que entretanto também se envolveu com uma das ex-magistradas.
(...)
Apesar de continuar a ser ouvido para a semana, Lorosa de Matos tentou justificar que, embora tenham partilhado hotéis, viagens e computadores, as antigas procuradoras nada sabiam. “O falso convencimento delas advém duma grande mentira, uma grande história, porque necessitava dela e pela forma como lhes eram transmitidas as coisas”, disse. E acrescentou: “Se calhar às vezes duvidavam que alguma coisa não batia certo.” Porém, Lorosa de Matos e o amigo tentavam contornar a situação. “Se em algum momento souberam, então enganaram-me bem elas a mim”, afirmou. As ex-magistradas pensariam que se chamava Vasco Chambel e seria inspector da Interpol. Este foi apenas um dos nomes usados, outros foram Eduardo Carqueja e Ricardo Moreira.›


Os vigaristas do coração encarnam normalmente a mentira que engendram. São verdadeiros na mentira que criam, daí serem tão profundamente eficazes. Quando, finalmente descobertos, são confrontados com a verdade, recuperam a ética que (só por momentos, assim o julgam) perderam.




Fotos_Rudolfo Valentino (wikipedia)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Europa Verde





O espaço da União Europeia (UE) tem sido, ao longo da sua existência enquanto comunidade, um espaço de responsabilidade aos mais diversos níveis. A paz que ela providenciou na Europa - e que este ano se lembra a propósito dos cem anos do início da I Grande Guerra Mundial - é frequentemente esquecida por questões menores e por ideias que, procurando a popularidade interna, utilizam a UE como bode expiatório para males próprios.

Ao nível do ambiente a UE é, de longe, o espaço mais confiável e cumpridor das metas estabelecidas. Na passada semana a UE estabeleceu, após intensas negociações, as suas metas para 2030 no que diz respeito ao clima e às políticas energéticas, depois de em 2007 o ter feito para 2020.





Independentemente das críticas, sempre passíveis de serem feitas e muitas vezes desejáveis para melhor compreensão de todos, estabeleceram-se os seguintes princípios:

● 40% de redução das emissões de CO2, no espaço da UE em 2030, face aos valores registados em 1990 (habitual ano de referência).

- ao ritmo de redução atual só se atingiriam os 28%;
- os 15 Estados-Membros que se comprometeram com uma redução de 8% até 2012 conseguiram uma redução de 12,2%.


 27% do consumo global de energia em 2030 deve ser de origem renovável.

- atualmente a UE está nos 13% tendo-se comprometido, até 2010, uma taxa de 20% de energia de fontes renováveis;
- Portugal defendeu 40% em linha com os nossos esforços (em 2011 tínhamos 25% e poderemos, sem grande dificuldade, atingir os 31% em 2020):
- Da energia elétrica consumida em Portugal (uma parte da energia total) quase 60% tem origem em fontes renováveis 2013).



Na eficiência energética não foi possível conseguir nenhum compromisso entre os Estados Membros, estabelecendo-se apenas metas não vinculativas (para 2020 o objetivo é o de aumentar 20% da eficiência energética face a 1990), o que é sempre de lamentar.


Fontes:


Fotos:
Oliver Hoslet (EPA) e Yves Herman (Reuters)