quarta-feira, 11 de junho de 2014

O mundial






" É gooooooooool na garganta florida/rouca exausta, gol no peito meu aberto/gol na minha rua nos terraços/nos bares nas bandeiras nos morteiros/ (...) na chuva de papeizinhos picados celebrando/por conta própria no ar: cada papel,/riso de dança distribuído/pelo país inteiro em festa de abraçar/e beijar e cantar(...)”
Carlos Drummond de Andrade. Jornal do Brasil. 1970.











E aí está mais um mundial de futebol, visitando-nos a cada quadriénio como um cometa celestial que não se engana no espaço, nem no tempo, nem no propósito. Agora é no Brasil, um país que resgatou, durante décadas, a sua (estranha) frustração interior com a alegria da arte do futebol na vitória dos seus craques.
Todas as guerras deveriam ser assim. Toda a necessidade de confronto, de afirmação e de domínio que caracterizam os povos, deveria ficar eternamente encarcerada num relvado de 110 metros por 75. Esta é uma guerra compreensível, entendível, desejável. Esta é a XX Guerra Mundial do Futebol, uma guerra da qual, felizmente, Portugal tem feito parte nas últimas edições (esta é a nossa sexta guerra: a quarta consecutiva!).
Umas caneladas, umas malandrices, um golo gritado do fundo da alma e o olhar perdido de um guarda-redes, são as munições inesgotáveis desta guerra. Um arsenal feito pela arte de meninos grandes que gastaram na rua, com uma bola, o seu precioso tempo de criança para o deleite dos adeptos.





Os campeonatos Europeus são interessantes, mas os Mundiais são outra coisa. Têm o Brasil e a Argentina e o exotismo de futebóis de outros continentes. Recordo com estranha facilidade os mundiais de futebol desde o ano de1978. Gravaram-se sem dificuldade na memória a vergonhosa derrota do Perú com a Argentina por 6-0 que afastou o Brasil da final, a justíssima e gloriosa vitória da Itália de Paolo Rossi por 3-2, no estádio do Sarriá em 1982, perante  a mais talentosa equipa canarinha, a mão do deus Maradona em 1986, o estádio de San Paolo na guerra Itália-Argentina de 1990, o falhanço de Baggio no penálti decisivo da final de 1994 nos Estados Unidos, o dramático Portugal-Inglaterra resolvido, uma vez mais, a penalties na vontade do guarda-redes Ricardo em 2006, a belíssima África do Sul e a arte de Ronaldo há quatro anos atrás. Ou o xeque do Kuwait que anulou um golo à França em 1982, ou o roubo de bola do camaronês Milla ao tonto guarda-redes Higuita da Colômbia em 1990, ou a cabeçada de Zidane em Materazzi em 2006, ou a defesa do avançado Suarez a um remate da equipa do Gana, o que garantiu ao Uruguai a continuidade da prova em 2010. O Mundial tem muito mais do que futebol, o que já seria suficiente. O Mundial tem o mundo todo em 32 equipas, e quem não tem lá a sua seleção de nascimento adopta uma, e sofre por ela e filia-se nos golos que falam o idioma do futebol.




O mundial é democrático. Toda a gente participa. Toda a gente quer ver e discute as jogadas. Mesmo quem está geralmente arredado destes fenómenos e da epifania diária de um jogo de futebol, dá também o seu contributo em termos da emoção. Estas guerras mundiais pintam cenas indescritíveis e bizarras. Distribuem choro e alegria de forma desproporcionada. Venha então o mundial e o sofrimento prazenteiro de acompanhar a nossa seleção. Venha então o desespero e o riso contidos nos pés de um Ronaldo.
A irracionalidade desta guerra faz bem aos espíritos mais contidos. Desembrulha-os, pelo menos de quatro em quatro anos.




Por falar em coisas bizarras a situação política no pós-eleições europeias em Portugal é de uma excentricidade surpreendente. Enquanto em França ou na Inglaterra o resultados foram seriamente assustadores, Portugal manteve-se “certinho”. O Marinho Pinto é mais uma fraqueza pimba do que um fenómeno. Espero eu. No entanto França ou Inglaterra mantiveram-se (estupidamente) serenos enquanto Portugal virou bagunça. Quem ganhou entrou numa luta fratricida, quem perdeu achou-se com coragem para enfrentar tudo e todos.
Prefiro, claramente, a irracionalidade da bola: Portugal, Portugal, Portugal!



Publicado in O Comércio de Guimarães (11.06.14)



quarta-feira, 14 de maio de 2014

IRRITAÇÕES



"Não o amo! Odeio-o! Vou sentada no carro enquanto ele conduz e me diz aos berros que toda a gente está errada excepto ele, e odeio-o e abomino-o do fundo do coração!”
Philip Roth Indignação. 2009.



Tem-se vulgarizado, com inusitada popularidade, a realização de “estudos académicos” com temas bizarros e conclusões absolutamente inúteis para a humanidade, mas que ganham um sólido protagonismo nos órgãos de comunicação social, relegando para segundo plano outros estudos verdadeiramente importantes.
“Os aspetos socioculturais dos sapatos”, “A interação social das vacas”, a descoberta de que as pulgas que vivem nos cães saltam mais alto do que as que vivem nos gatos, a brilhante conclusão de que dizer palavrões alivia a dor ou de que uma massagem com o dedo na região retal faz parar um surto incontrolável de soluços serão, certamente, grandiosas, e quantas vezes dispendiosas, inutilidades. À exceção talvez da dos soluços - se der efetivamente resultado - mas com todo o “perigo” associado ao método clínico.
Tomei recentemente conhecimento, através do interessantíssimo programa da Antena 1 Dias do Avesso, de um outro estudo britânico que fixava nos 38 anos a idade biológica em que os homens ficam velhos. É a partir dessa idade dizia o tal “estudo” que se manifesta claramente os sintomas da velhice nos homens. Entre outros, o adormecer no sofá, o dançar mal, o manter uma atenção constante ao termóstato que regula o aquecimento da casa. Não sei se, levando a sério o trabalho destes “cientistas”, me alegre ou entristeça. Adormeço no sofá e danço mal desde adolescente, o que quererá dizer que sou velho desde aí? Ou, de forma mais benevolente, esses sintomas não se me aplicam; essa asserção em conjugação com o facto de só regular o termóstato da forma bimestral quando me chega a conta da EDPgás dar-me-á assim alguma jovial tranquilidade.





Concordarei eventualmente que a idade trará desinibição bastante para não nos importarmos que nos vejam adormecer no sofá. Continuo contudo a evitar dançar, prefiro “abanar o capacete” em jeito de assentimento e não de performance. A desinibição é uma conquista do tempo. Paciente e metódica, o que dá um gosto especial a quem a conquista progressivamente como quem faz uma escalada. Quem é desinibido desde muito novo passa, quando velho, diretamente para a irritabilidade desbocada. A desinibição tem filtro, a irritabilidade é uma desinibição descontrolada.




Irrito-me pouco, mas mesmo assim mais do que o que desejaria. Por isso fujo à perda de tempo e de recursos que a irritação exige. Não ouço o Camilo Lourenço, tento ignorar as moscas, e espreito cada vez menos no Facebook para ler os arrebatamentos éticos e estéticos dos profetas virtuais. No entanto há pequenas coisas que não consigo evitar. Uma física e outra psicológica. A física e concreta tem a ver com a mania que os pais têm em estacionar à vez o veículo, à porta da escola secundária. Todos os dias, no trajeto para a minha própria escola, tenho que aguardar pacientemente que uma fila enorme de carros deixe, um a um, a conta-gotas, marmanjões de um metro e oitenta mesmo em cima da passadeira. Não vão eles perderem-se ou constiparem-se no trajeto. Como procriei o suficiente sei quanto custa andar com os filhos para trás e para diante, e que o veículo é uma boa forma de suavizar a tarefa. O que ainda não entendo é a falta de empatia generalizada que leva a que cada um se preocupe apenas consigo e não procure minimizar o transtorno dos outros, deixando o filho sair, por exemplo, quando o da frente sai. Mas não, cada um tem de vincar o seu transtorno particular, não vão os outros habituarem-se a exemplares exercícios de cidadania. Enfim. Outra coisa que me irrita, em reuniões, conversas, debates, é a mania que algumas almas têm para discordarem, para acrescentarem, para precisarem, o que outros disseram. Esta irritação de natureza psicológica deve-se ao facto de algumas almas acharem que discordar é um sinal de inteligência e a concordância uma manifestação de falta dela. Nada mais errado, a concordância é, muitas vezes, além de humilde particularmente inteligente. Uma conjugação perfeita nas grandes almas. Mas não, mesmo à beira da apoplexia do meu próprio entendimento, perco (ainda) tempo ouvindo objeções sem sentido de quem e para quem a vida se resume a ficar-se exarado em ata.


Publicado in O Comércio de Guimarães

Fotos do filme 12 angry man de Sidney Lumet (1957)


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Em letras pequeninas






"Ao balcão do Danúbio/ Bebo o café quente da manhã/ Gosto de estar de pé/ Ver quem chega/ E quem parte pelo misterioso/ Capim das ruas(...)".
João Almeida. Canto in As Condições Locais. 2014.

Nos contratos deve ter-se particular atenção às letras pequeninas, aos rodapés onde se amontoam palavras camufladas na sua infinita pequenez. Na vida também. Por trás (ou em baixo) das pessoas e das situações, há sempre um conjunto de letras pequeninas que a nossa hipermetropia (real ou aparente) não alcança. Às vezes não é preciso realmente lê-las. Outras vezes é perigoso não as ler.

As eleições europeias que se aproximam já têm mote nos dois principais partidos. Para o PSD estas eleições servirão para ajustar contas com o recente passado desastroso e para o PS a tarefa será a de erigir o monumento de um presente sem esperança. Entre os tweets de Rangel e os vociferantes comunicados de Assis vamos perder o melhor de cada um e o fundamental das eleições: o que queremos afinal, em comum desta Europa velha, sábia e (ainda) solidária? Que caminhos poderemos trilhar em conjunto? O que poderemos fazer pelo emprego na Europa? Que cidadania europeia queremos? Que política de emigração deveremos construir? Até que ponto resistiremos à demagogia dos que querem destruir a Europa para proteger (dizem) as identidades nacionais?
As letras pequeninas das eleições europeias serão, ao que tudo indica, as grandes questões europeias que ninguém lerá. Infelizmente o ato eleitoral servirá, como num jogo de treino, para rodar argumentos para futuras legislativas em vez de se construírem equipas e, como dizia o comentador desportivo, o necessário fio de jogo.

Como uma oração que toda a gente conhece e repete, deu-se agora, com particular dor e infelicidade de quem o diz, para se falar da atual geração de jovens portugueses como “a geração mais bem preparada”.
Não sou particularmente atreito ao ciúme geracional. Aliás os conflitos geracionais sempre me deram uma seca tremenda, agora e quando era jovem. Sempre me recusei a meter-me na toca da idade pela estúpida incomunicabilidade que ela pressupõem. Daí que este axioma propalado com tanta gravidade me irrite de forma tão solene.
A educação escolar é – e continuará a ser – uma arma fundamental para nos conhecermos plenamente e para extrairmos o melhor das nossas potencialidades. Agora ela não é tudo e muito menos o será enquanto por preguiça e comodidade se atribuírem aos professores o papel de pais, psicólogos, padres, terapeutas, polícias. Como se a profissão não fosse de si já suficientemente complexa e exigente. Mas essa exigência está escrita a letras miúdas.
Uma geração com melhor educação escolar não estará, inevitavelmente, melhor preparada. Desde logo porque a quantidade não significa necessariamente qualidade. Nas letras pequenas que acompanham a educação e formação de cada um vem a palavra humildade a que pouca gente liga. Sabermos que não somos os melhores, sabermos que podemos aprender com gerações “menos bem preparadas”, sabermos que podemos ser melhores, sabermos que a maldita “sociedade” somos nós, são frases em letras muito mas mesmo muito miudinhas. É mais fácil, contudo, ficar pelo título.

Há outras letras pequeninas fatais. A grande Rússia é um desses contratos históricos que prende os países periféricos ao seu domínio, como se verifica agora na Ucrânia. Os ucranianos são mais uma das vítimas das letras pequeninas dos contratos rasgados aquando da queda do Muro. A Rússia e os russos continuam claramente extasiados com a sua “vocação” de domínio e humilhação dos vizinhos. Aliás o comunismo foi, na prática, mais um instrumento imperialista do que uma ideia de sociedade. Que me perdoe o poeta pelo atrevimento já que até poderia “(...) haver alegria na merda da situação/ Aquela que os revoltosos levam/ Nos explosivos/ Na decisão repentina (...)”. Mas não há.



Publicado in Comércio de Guimarães 

Foto http://www.portalisc.net/p.php?s=549

quarta-feira, 19 de março de 2014

Remédios & Culpa





"(...) Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,/ Porque o presente é todo o passado e todo o futuro (...)".
Álvaro de Campos. Ode Triunfal. 1914 (há 100 anos!).








Algumas pessoas que eu conheço têm por hábito desejarem ter pertencido a outra época. Muitas delas suspiram por outros tempos que conhecem dos livros, dos filmes. Sentem saudades da placidez imaginada de um séc. XIX, pela igualmente imaginada calma e lentidão desses tempos, se bem que na perspetiva de uma classe dominante, mesmo que para olhar os rios e as pedras e a paisagem ... mas de uma mais confortável perspectiva, suponho. Eu não. Sinto-me confortável na época que me calhou viver, o que será para mim, no mínimo, tranquilizante.
Tranquiliza-me o excesso de informação e  rapidez tecnológica que envolve este tempo. Não certamente da mesma forma que os rios e as pedras e a paisagem possam tranquilizar, não. Mas na verdade sinto um certo poder anestesiante na velocidade, na necessidade quase esquizofrénica da adaptação. Se isso resulta de uma virtude do tempo ou de um vício do tempo, isso não consigo eu perceber. Mas não importa. Aceito-o com um certo prazer.
Contemplo assim o tempo que vai abrindo sucessivas portas que permitem ir percebendo como chegámos até aqui. Contemplo as imagens e o sons digitalizados que, como livros, abrem caminhos e resgatam memórias de coisas que não vivemos. Dou vivas aos motores, à radiação que nos cerca e que tem o segredo da nossa existência, ao eletrão que existe nas pedras e nos rios e no ecrã do meu computador que regista, impecável, uma tradução aproximada dos meus pensamentos. Dou vivas ainda à variedade e acutilância dos medicamentos.








Admito que o último período do parágrafo anterior me tenha colocado, mesmo que erradamente, na classe dos hipocondríacos. Não o sou. Pode-se admirar o efeito terapêutico dos medicamentos, pode apreciar-se a variedade de soluções químicas que os tão mal-amados laboratórios farmacêuticos diligentemente produzem, sem ter a mania das doenças. Aliás os bons “apreciadores” de medicamentos usam-nos, não abusam deles. Tal como o vinho que pode ser um prazer ou, se abusado, uma prisão.
Folgo não correr o risco de morrer hoje de uma infeção ou de outra maleita que há bem pouco era uma condenação. Folgo igualmente por todas as horas que diligentes farmacêuticos devotaram a perceber qual o elemento químico cuja deficiência nos põe irritados, ou tristes, ou quebrados. E não me choca perceber que a nossa espiritualidade depende, fundamentalmente, do corpo que a suporta.
Folgo de forma regular pela existência do aspegic, pela sua eficácia no desentupimento da minha cabeça através da ação miraculosa do acetilsalicilato de lisina. Gosto dos xaropes para a tosse, desde miúdo, e das pastilhas contra a gripe. Gosto do milagre acelerado da penicilina e do simpático gurosan para reparação de danos. Gosto, ocasionalmente, do cloridrato de propranolol e de complementos de magnésio dos quais perdi o nome. Gosto desta diversidade e, sobretudo, da possibilidade de.









Infelizmente não há medicamentos para a culpa, e sobretudo para a culpa que não deveríamos ter e no-la venderam com particular habilidade. Não estou a falar da culpa pesada e verdadeira, mas da culpa distribuída de forma abusivamente democrática. Não falo da culpa que prescreve alarvemente nos tribunais, nem da culpa dos enormes rombos financeiros conhecidos, nem da culpa daqueles que nos dão semanalmente, através da televisão, receitas para a crise que eles próprios cavaram, não. Não falo dessa culpa real, mensurável, palpável. Estou a falar da culpa que carregamos hoje enquanto povo. A culpa de sermos ocasionalmente felizes, a culpa de sair do trabalho a horas e não depois do horário estabelecido, a pesada culpa de termos vivido acima das possibilidades e termos, provavelmente, exagerado no queijo ou no fiambre, a culpa por este maravilhoso sol que agora volta qual filho pródigo. Sim, essa terrível culpa de sermos portugueses.
Mas talvez tudo isto não passe afinal de um desequilíbrio – esperemos que ocasional - dos meus eletrólitos no organismo.






Fotos: netdoctor.co.uk/pharmapieces.com/http://librarytypos.blogspot.pt/eightface.com




Publicado in O Comércio de Guimarães. 19.03.14.

terça-feira, 4 de março de 2014

Grande Tijuca





A Escola de Samba mais portuguesa do Rio de Janeiro, a Unidos da Tijuca, é também desde há muito uma das mais imaginativas e respeitadas escolas.




Fundada em 1931, no bairro da Tijuca, a famosa e apetecida Barra, teve na sua origem os operários das fábricas vizinhas de têxteis e cigarros.



A Unidos da Tijuca é uma das escolas mais criativas no sambódromo; este ano decidiu homenagear o piloto Ayrton Senna.


Este ano com Juliana Alves como rainha da bateria a Unidos da Tijuca ... esperando uma vitória.


Fotos: TV Globo