terça-feira, 16 de setembro de 2014

E se eles jogassem sozinhos?



O desporto de alta competição é acima de tudo, além de um popular entretenimento, um negócio. Há por isso gente inteligente que sabe que a competitividade das modalidades traz mais emoção ao desporto e que tudo faz para que ela efetivamente exista. Assim acontece na popularíssima NBA nos EUA ou atualmente no campeonato de futebol alemão. Tanto uma como outra competição têm um enquadramento que lhes garante uma competitividade saudável. Nos EUA as piores equipas de basquetebol de uma determinada época têm o direito de escolher os melhores novos jogadores para a época seguinte, na Bundesliga, a liga de futebol com mais assistência ao nível mundial, o dinheiro que ela gere é distribuído equitativamente para que as equipas menos apetrechadas possam ir construindo melhores equipas que, de uma forma geral, reforçam a atratividade do campeonato alemão.

Em Portugal existem efetivamente dois campeonatos. Um do Porto, Benfica e Sporting, onde se escalpeliza até à náusea os problemas ou feitos dessas equipas e um outro campeonato com as outras equipas que mais não são que uma espécie de “paus de cabeleira” cuja função pretendida é a de, fundamentalmente, não atrapalhar o percurso das referidas três equipas. Quando porventura atrapalham, como sucedeu no último jogo do Vitória, cai o “Carmo e a Trindade”.



Parece-me evidente que esta perspetiva vem sido construída há anos e os espíritos mais volúveis não resistem a esta lógica mediática plantada pelos sargentos de ocasião e escolhem, inevitavelmente, torcer por um dos três clubes referidos. Infelizmente, à exceção do Vitória, a maior parte dos clubes tem adeptos que não resistem em ter um dos três clubes como segunda opção, ou por vezes ser o clube da sua terra a segunda opção. Daí que por exemplo se tenha assistido o ano passado na final da Taça os bilhetes que pertenciam ao Rio Ave foram, por iniciativa dos próprios sócios do clube de Vila do Conde, parar à mão de ocasionais benquistas.



Mesmo assim seria preferível dividir a liga portuguesa em duas. Uma importante com três clubes a – digamos – 10 voltas, onde eles poderiam discutir à vontade os fora de jogo, as incontinências verbais dos seus treinadores, as rixas de ocasião. E outra liga – a liga má, sem troféu não fossem os três ficar ciumentos – onde o resto de Portugal se poderia divertir sem que a comunicação social instrumentalizada rasgasse as vestes a qualquer contrariedade.

Já agora, para que os três não sofressem de ocasionais sentimentos de culpa,  proibiam-se na liga boa os jogadores nacionais. Assim talvez conseguíssemos construir uma seleção nacional minimamente decente e os três continuassem a alimentar, na liga boa, com particular competência e generosidade, as grandes seleções argentina, brasileira, colombiana, argelina e outras que se achasse por bem fomentar.



Fotos em:


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O eterno retorno




Começou ontem Paredes de Coura e já poderia, até, ter acabado... apesar do excelente cartaz deste ano prometer ainda muito.

Janelle Monáe é um encanto absoluto. Uma menina poderosa. Uma electric lady perfeita.


À parte disso a energia contagiante dos Cage the Elefant e a elegância eletrónica de uns senhores que se dão pelo nome de Public Service Broadcasting.



Spitfire é um vício.




Paredes de Coura deve ser dos poucos festivais de música em que mais de metade dos "clientes" estão a prestar, efetivamente, atenção à música. Sempre assim o foi.

Fotos: Rita Carmo do Blitz (Janelle) e minha (PBS).


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Vitória: à procura de um rumo



A época de futebol está prestes a começar. Não há, no Vitória, excitantes contratações, e ainda bem. Devido à situação débil em que o Vitória ainda se encontra a aposta na “prata da casa” continua a ser uma solução que eu desejaria que fosse uma firme convicção. Temos, como já se provou, o treinador ideal para um projeto de longo prazo que passe pela afirmação de novos valores portugueses, um treinador com qualidades humanas e técnicas para manter motivados os jogadores, como aliás se viu no tempo em que tem estado ao serviço do clube.

O facto de o Vitória ser hoje um caso à parte no futebol português, em termos da fidelidade dos seus sócios e simpatizantes, leva a que o clube seja um apetecível alvo a abater. A nossa devoção causa inveja aos “grandes” sempre raivosos pela inexpugnabilidade de Guimarães, e aos nossos outros rivais uma dor de cotovelo absolutamente descomunal que culminou com a má disposição de muita gente aquando d’ O DIA V. O recente episódio do Gil Vicente é disso o mais novo testemunho, a maneira como somos tratados quando nos deslocámos aos vários campos do país é o espelho de uma animosidade que, sabemos, esconde no fundo uma inconfessável admiração pela forma como sentimos o clube como parte integrante da nossa cultura e da nossa identidade, em que os resultados desportivos são meras contingências e não a razão de sermos vitorianos.



Apesar da paixão pelo clube ser transversal em relação à esmagadora maioria dos vimaranenses temos vivido tempos conturbados em que as discussões sobre o clube têm sido reféns de gente sem nível, com demasiada acrimónia e sem ideias concretas e motivadoras. As assembleias gerais têm sido um mau exemplo de um clube que não consegue mobilizar os seus melhores elementos no universo associativo para discussões sérias. É penoso, a maior parte das vezes, a elas assistir. Afastei-me, consciente e cobardemente, durante anos dessas reuniões pois ficava desiludido e isso afetava sempre a maneira como interiormente considerava os meus consócios; aquilo que assisti no final do mandato de Vítor Magalhães e em algumas do mandato de Emílio Macedo da Silva, abalaram profundamente a minha convicção romantizada sobre os “melhores adeptos do mundo”, que rapidamente retomaram o seu curso nos anos em que subimos de divisão ou nas finais da Taça que disputámos, isso sim era o meu Vitória e os adeptos que o construíam. Tenho ido às assembleias deste mandato sem grande prazer. As reuniões não são tão más – longe disso – como as anteriormente referidas, mas o grau de interesse que elas despertam é muito reduzido. Não me estou a referir, obviamente, ao cuidadoso trabalho de explicação de contas que tem sido levado a cabo pela atual direção – destaco especialmente as intervenções do vice-presidente Francisco Príncipe e do presidente do conselho fiscal Eduardo Leite – mas às intermináveis discussões que se seguem, sem que nelas se vislumbre o mínimo de interesse para o futuro do clube.



Eu compreendo o afastamento dos sócios das assembleias gerais do clube, provavelmente não iria se não fosse conselheiro vitoriano pois as horas de discussão resumem-se a nada, ou a praticamente nada. Chega a ser confrangedor estar horas refém das esquizofrenias habituais, dos membros das claques, e de um reiterado desrespeito pelo trabalho dos membros da direção que, não imunes à crítica, são no mínimo tributários de respeito pelo seu trabalho, mesmo que eventualmente não se concorde com o rumo. Discuta-se então o rumo e não as pessoas. Sou um grande adepto da discussão livre, democrática, crítica, assertiva, mas estes adjetivos não caracterizam, infelizmente, as assembleias do meu clube, de quem muitos bons vitorianos se afastaram para não serem, uma vez mais, insultados pelos jacobinos de ocasião. Seria contudo importante que a imensa comunidade vitoriana “esquecesse” o passado e contribuísse, nem que seja apenas com a sua presença, para elevar o debate.

O futebol português está pelas “ruas da amargura” e os “grandes” vão rapidamente começar a pagar a sua megalomania alicerçada numa imprensa servilista que lhes dá uma importância distorcida da realidade. A grave crise financeira do Vitória deu-nos, ironicamente, alguma vantagem em termos da construção de um futuro novo. A dedicação apaixonada dos nossos adeptos são a base que qualquer clube não desdenharia ter mas, efetivamente, não tem. É importante que todos nós contribuamos para consolidar e melhorar o rumo de aposta na juventude e na formação.



Que grau de empenhamento temos nós, sócios, nesta aposta? O que discutimos nós até agora sobre esse rumo? Queremos um Vitória longe das contratações milionárias mas respeitador dos seus compromissos? Ou não? Queremos mais e melhores olheiros? Temos a tranquilidade suficiente para apoiar incondicionalmente o Tomané e o Areias, sem ambicionar por um avançado estrangeiro?

Sei da minha convicção, não saberei a dos meus consócios…


Que venha entretanto o campeonato e que o nosso apoio à equipa seja, absolutamente, incondicional. E que a nossa diferença seja, no mínimo, essa. Afirmar a diferença pela positiva, com um rumo novo aguentando percalços e desilusões sem mudar de direção a cada contrariedade. É isso que eu espero e, já agora, felicidades a jogadores “nossos”, como o Ricardo e o Paulo Oliveira, que ajudaram a vislumbrar pelo seu inquestionável mérito e dedicação um novo Vitória. Fazem-nos falta, mas ... que apareçam outros.


Fotos: O DIA V  organização: Muralha/Cineclube/Conselho Vitoriano
Sobre fotografias de Miguel Oliveira, Ricardo Leite e Ricardo Rodrigues

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O trabalho







“A coleção de imagens recolhidas há trinta anos pela Associação Muralha define uma espécie de paisagem redentora desse resgate: são milhares de clichês de vidro que nos relançam no labirinto de uma memória que deseja dialogar connosco.”
João Lopes. A Cidade da Muralha. 2011.








Está a decorrer no Guimarãeshopping (piso inferior) a exposição “O Trabalho na coleção fotográfica da Muralha” organizada pela Muralha e pelo Cineclube de Guimarães e integrada nas Festas Gualterianas deste ano. Esta é uma exposição de fotografias antigas de Guimarães, e da região, só que selecionadas segundo o critério de mostrar o trabalho numa época que vai desde o final do século XIX até às primeiras décadas do século XX. São quase nove dezenas de fotografias expostas pertencentes a uma coleção de 5646 clichês fotográficos inteiramente digitalizados no âmbito do projeto Reimaginar Guimarães, integrado na Capital Europeia da Cultura de 2012.



Os negativos das fotografias da exposição são clichês de vidro dos quais, certamente, a maioria esmagadora de nós nem sequer se lembra, pois nunca os viu. Estamos a falar de uma realidade com 100 anos, numa altura em que a técnica fotográfica tinha por base o vidro que alojava um preparado gelatinoso de brometo de prata que era foto sensibilizado através da fotografia. Estavam ainda longe as películas de acetato e ainda mais distante fotografia digital que hoje é tão comum. Alguns exemplares desses clichês fotográficos, hoje à guarda do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, estão também em exposição para que os visitantes se apercebam dos suportes fotográficos iniciais, cuja produção comercial acabou em 1940.
Os clichês fotográficos pertenciam à Foto Moderna e à sua antecessora Foto Elétrica Moderna, propriedade de Domingos Alves Machado (1882-1957) ao qual se atribui grande parte das fotografias e que revelam aspetos da cidade, da vida, dos costumes e dos ofícios de Guimarães, constituindo um importante património coletivo que a Muralha, em boa hora, comprou na década de 80 do século passado e que vem revelando, como agora, aos olhares mais curiosos e interessados.





A distância técnica encerra também uma distância de tempo e de costumes, que se procura, nesta exposição, resgatar pela luz que iluminou as pessoas dessa época. A perspetiva da exposição é um olhar sobre o trabalho e os trabalhadores, cuja concepção esteve nas mãos e na cabeça de Miguel Oliveira e Nuno Vieira, ambos pertencentes à Secção de Fotografia do Cineclube de Guimarães, com o elegante design de Alexandra Xavier. Este é um olhar sobre os ofícios e os artífices que construindo a sua vida pessoal davam a forma à sua comunidade moldando-a pelo trabalho. Uma visão de época que não esconde, pelo extraordinário silêncio das imagens, uma certa angustia pela redução do trabalho, hoje, a um custo de produção e não a uma afirmação coletiva da capacidade das comunidades. 
Esta exposição revisita Guimarães, as indústrias que a marcaram até aos dias de hoje (curtumes, cutelarias, têxtil), mas também o trabalho do campo, o artesanato, os serviços, a escola, a ferrovia, entre outros ofícios. 







Não é comum este género de exposições ser feita num espaço privado de fruição pública e com objetivos comerciais como é o Guimarãeshopping. No entanto a aposta nesse espaço tem a ver com duas razões fundamentais: a necessidade da cultura sair dos espaços comuns de exposição chegando a mais pessoas e conquistando novos públicos e, por outro lado, a percepção da sensibilidade e profissionalismo da equipa diretiva do Shopping que desta forma, e mais uma vez, apoia a cultura no meio em que se insere. Este caminho é novo e, estou certo disso, é um caminho com futuro.
Integrada nas Festas Gualterianas esta exposição conta ainda com o apoio da Oficina, com a datação fotográfica do Francisco Brito e Miguel merecendo, certamente, e pela excecional recepção na inauguração, uma ou mais idas, pois o nosso olhar irá certamente encontrar novas perspetivas a cada visita. Merecerá cada minuto em que se olha e cada minuto será, seguramente, pela força das imagens, diferente do anterior.



Publicado in O Comércio de Guimarães  (05.08.14)

Fotos: Paulo Pacheco

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Anos de casado



"Naquela tarde quebrada/contra o meu ouvido atento/eu soube que a missão das folhas/é definir o vento.”
Ruy Belo. Aquele Grande Rio Eufrates . 1961.





A expressão “fazer anos de casado” é, julgo, muito mais comum na linguagem corrente do que “aniversário de casamento”. Penso que isso fará algum sentido. Fazer anos de casado tem uma sonoridade bastante mais guerreira do que o frugal e festivo aniversário de casamento.
Durante muito tempo desdenhei dessa mesma sonoridade. Parecia-me então que os casais a entendiam mais como uma prova de resistência do que, pensava, uma prova de amor. Fazia-me lembrar mais uma condecoração do tempo do que a volatilidade inquantificável de uma paixão. Fazia, já não é (para mim que fiz há pouco 21) assim agora.



Durante a primeira década e meia de casado raramente me lembrei da data. Felizmente a minha mulher também se esqueceu algumas vezes. Não fosse o dia de aniversário da Inês (filha de amigos nossos) e a data passaria, muitas vezes, sem particular lembrança. Quando porém isso não acontecia e era eu o inevitável esquecido lá tinha então, pobre espécime masculino, que gramar com a superioridade moral das mulheres para datas. Suponho ser no hemisfério cerebral das datas que nós, homens, guardamos as fundamentais memórias dos jogos de futebol ou o nome das bandas inglesas e as letras das músicas dos Talking Heads, daí que com o passar dos anos, como nos computadores velhos, temos que jogar fora as coisas menos importantes como datas de casamento ou aniversários, de que as mulheres sempre nos lembram de uma forma cortante e cínica.
No entanto agora lembro-me sempre. Não porque à socapa, como tantas vezes aconteceu, a vá ler, como numa cábula, no interior da aliança, não. O que acontece é que percebo – ao fim de tanto tempo – o que é “fazer anos de casado”. Sinto finalmente a leveza do seu peso cronológico e lembro-me agora do dia em que faço anos de casado. Não que faça qualquer coisa de especial – este ano juntamos uma aula de ginástica, um filme (o surpreendente Capital Humano) e um menu Big Mac a meias – mas porque a data existe e se repete como uma estrela. Ali, a cada ano, naquele quadrante do céu noturno e naquela posição temporal.



Fazer anos de casado pede a força de um verbo forte: fazer. Fazer com o mesmo desvelo com que se faz um texto ou uma sardinhada, mas durante muito mais tempo e, certamente, com uma exigência e uma delicadeza diferentes. Uma sardinhada é uma circunstância, um texto provavelmente um pouco mais que isso, é mais motivacional do que circunstancial, os anos de casado podem ser a soma de tudo isso, de sardinhadas e de textos com uns milhões de outras parcelas igualmente somadas na aritmética dos anos e talvez, no fundo, a mais perfeita prova científica da inoxidabilidade do amor.



O tempo dá-nos (maldoso) uma cara que nos surpreende cada vez que nos barbeamos com mais calma, mas dá-nos igualmente as certezas que nos angustiavam na altura em que estas não existiam. Do tempo em que as certezas eram simples e sofridas abstrações.
Amar é afinal tudo. Com casamento ou sem ele. Cada minuto em que se ama é um minuto em que somos obrigados a sair fora de nós mesmos, são as merecidas férias do nosso individualismo acessório. Amar é o Santo Graal na mesinha de cabeceira, o tão procurado, e afinal tão claro, sentido da vida. Amar é suspender o tempo e deixá-lo julgar que se soma.





FOTOS: Alexandre Coelho Lima  IMAGENS: One from the heart. Francis Ford Coppola. 1982.

Publicado in O Comércio de Guimarães. 09.07.14.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Extraordinário


É certo que o melhor Mundial é sempre o último Mundial.
Mas este, valha-me Deus, está a ser absolutamente extraordinário, pela garra inacreditável das equipas que passaram aos oitavos de final.


Caíram como autênticos campeões a Grécia, os Estados Unidos, o México, o Chile, a Argélia, e mesmo o Uruguai, a Suíça e a Nigéria. Este está a ser o Mundial da vontade, do querer, da determinação. Cada jogo é uma surpresa, mesmo os jogos mais fracos são grandes jogos pela emoção.



Este é o Mundial em que Portugal caiu, com estrondo, do pedestal onde Scolari colocou a seleção. Fomos arrumados, não por sermos piores que os outros, mas por querermos menos, por não termos alma, por muitos jogadores se terem acostumado a um jeito mercenário de ser, que retira a ambição e o caráter.



Em contraponto, quando vi uma equipa velha e modesta como a Grécia jogar, vi-os resgatando um orgulho ferido. Quando li que os prémios de jogo dos jogadores foram integralmente para ajudar à construção de um novo centro de estágio - “Não queremos prémios extra ou dinheiro, jogamos apenas pela Grécia” - consegui-me iludir, uma vez mais, sobre o futebol. E a vida.








Fotos in Gazzetta dello Sport

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O mundial






" É gooooooooool na garganta florida/rouca exausta, gol no peito meu aberto/gol na minha rua nos terraços/nos bares nas bandeiras nos morteiros/ (...) na chuva de papeizinhos picados celebrando/por conta própria no ar: cada papel,/riso de dança distribuído/pelo país inteiro em festa de abraçar/e beijar e cantar(...)”
Carlos Drummond de Andrade. Jornal do Brasil. 1970.











E aí está mais um mundial de futebol, visitando-nos a cada quadriénio como um cometa celestial que não se engana no espaço, nem no tempo, nem no propósito. Agora é no Brasil, um país que resgatou, durante décadas, a sua (estranha) frustração interior com a alegria da arte do futebol na vitória dos seus craques.
Todas as guerras deveriam ser assim. Toda a necessidade de confronto, de afirmação e de domínio que caracterizam os povos, deveria ficar eternamente encarcerada num relvado de 110 metros por 75. Esta é uma guerra compreensível, entendível, desejável. Esta é a XX Guerra Mundial do Futebol, uma guerra da qual, felizmente, Portugal tem feito parte nas últimas edições (esta é a nossa sexta guerra: a quarta consecutiva!).
Umas caneladas, umas malandrices, um golo gritado do fundo da alma e o olhar perdido de um guarda-redes, são as munições inesgotáveis desta guerra. Um arsenal feito pela arte de meninos grandes que gastaram na rua, com uma bola, o seu precioso tempo de criança para o deleite dos adeptos.





Os campeonatos Europeus são interessantes, mas os Mundiais são outra coisa. Têm o Brasil e a Argentina e o exotismo de futebóis de outros continentes. Recordo com estranha facilidade os mundiais de futebol desde o ano de1978. Gravaram-se sem dificuldade na memória a vergonhosa derrota do Perú com a Argentina por 6-0 que afastou o Brasil da final, a justíssima e gloriosa vitória da Itália de Paolo Rossi por 3-2, no estádio do Sarriá em 1982, perante  a mais talentosa equipa canarinha, a mão do deus Maradona em 1986, o estádio de San Paolo na guerra Itália-Argentina de 1990, o falhanço de Baggio no penálti decisivo da final de 1994 nos Estados Unidos, o dramático Portugal-Inglaterra resolvido, uma vez mais, a penalties na vontade do guarda-redes Ricardo em 2006, a belíssima África do Sul e a arte de Ronaldo há quatro anos atrás. Ou o xeque do Kuwait que anulou um golo à França em 1982, ou o roubo de bola do camaronês Milla ao tonto guarda-redes Higuita da Colômbia em 1990, ou a cabeçada de Zidane em Materazzi em 2006, ou a defesa do avançado Suarez a um remate da equipa do Gana, o que garantiu ao Uruguai a continuidade da prova em 2010. O Mundial tem muito mais do que futebol, o que já seria suficiente. O Mundial tem o mundo todo em 32 equipas, e quem não tem lá a sua seleção de nascimento adopta uma, e sofre por ela e filia-se nos golos que falam o idioma do futebol.




O mundial é democrático. Toda a gente participa. Toda a gente quer ver e discute as jogadas. Mesmo quem está geralmente arredado destes fenómenos e da epifania diária de um jogo de futebol, dá também o seu contributo em termos da emoção. Estas guerras mundiais pintam cenas indescritíveis e bizarras. Distribuem choro e alegria de forma desproporcionada. Venha então o mundial e o sofrimento prazenteiro de acompanhar a nossa seleção. Venha então o desespero e o riso contidos nos pés de um Ronaldo.
A irracionalidade desta guerra faz bem aos espíritos mais contidos. Desembrulha-os, pelo menos de quatro em quatro anos.




Por falar em coisas bizarras a situação política no pós-eleições europeias em Portugal é de uma excentricidade surpreendente. Enquanto em França ou na Inglaterra o resultados foram seriamente assustadores, Portugal manteve-se “certinho”. O Marinho Pinto é mais uma fraqueza pimba do que um fenómeno. Espero eu. No entanto França ou Inglaterra mantiveram-se (estupidamente) serenos enquanto Portugal virou bagunça. Quem ganhou entrou numa luta fratricida, quem perdeu achou-se com coragem para enfrentar tudo e todos.
Prefiro, claramente, a irracionalidade da bola: Portugal, Portugal, Portugal!



Publicado in O Comércio de Guimarães (11.06.14)