quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Estamos em guerra




O 11 de setembro de 2001 marcou uma mudança profunda na nossa vida em sociedade. Um ataque bem planeado mostrou ser possível, de forma espetacular, trazer a guerra para dentro das cidades ocidentais, já que a liberdade de circulação, a complexidade dessas mesmas cidades e alguma confiança no nosso way of life nos descompromete da vigilância necessária. A tudo isto acresce a popularidade demagógica dos cortes sucessivos na segurança policial e militar nos países europeus.

O miserável atentado de Paris, e o falhanço absoluto da segurança do Estado francês, é um dos atentados que se têm verificado na Europa e um de muitos que com certeza se verificarão, pois na Europa existem comunidades organizadas que espalham o ódio aos valores ocidentais e grupúsculos que estão dispostos a espalhar o terror em nome de uma causa que julgam maior.

Poderemos organizar as vigílias necessárias, poderemos exprimir a nossa incontida mágoa nas redes sociais mas o facto é que estamos a ser atacados dia a dia, e o medo vai suplantando a coragem nos povos europeus.

É urgente defender aquilo que nos demorou séculos a construir: a democracia, a liberdade, o estado social. Com determinação! E quanto mais depressa nos apercebamos que estamos efetivamente em guerra melhor será para ganharmos a coragem necessária para defendermos a nossa civilização. A começar, desde logo, por sermos mais solidários entre nós.

Foto: Thomas Samson (AFP)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Melancolia


“Einstein conseguiu mostrar que, por mais que nos esforcemos, nunca conseguimos acelerar além da velocidade da luz. A velocidade da luz era o limite da velocidade final do universo .”
Michio Kaku. O Cosmos de Einstein. 2004.

A passagem dos anos não é particularmente divertida, mas a passagem do ano tem a particularidade de o ser.
Há sempre a esperança, tanta vezes tonta, de que tudo seja melhor do que o ano que passou. Bebe-se, grita-se, comem-se as passas e trocam-se beijos com uma vontade renovada de que tudo seja mais satisfatório. Isto porque temos, quase todos, a estranha melancolia de nos fixarmos naquilo que correu mal e não naquilo que correu bem. Daí a necessidade imperiosa de uma mudança, de se querer ardentemente pulverizar o que incomoda e que nos torna circunstancialmente infelizes.
A infelicidade tem esse arreliante sentido sólido da permanência enquanto a felicidade é, pelo contrário, frágil e volátil. A felicidade é relativa como o tempo que a contém, enquanto a infelicidade é (miseravelmente) absoluta.




O que nos correu mal no ano que se extingue acaba, pela natureza sólida da coisa, por se alojar na alma de forma ponderável. Por defeito de fabrico não damos o devido valor à felicidade, ao prazer das coisas e das pessoas. Adão e Eva ficaram presos à culpa e não ao prazer de terem comido a maçã. O Deus de Adão e Eva suavizou-se entretanto, mas o defeito ficou.
E se aquilo que nos incomoda for mais denso e permanente do que aquilo que nos dá prazer é inevitável cair na maldição de Sísifo. Na mitologia grega Sísifo é um rei castigado pelos deuses a fazer rolar uma pedra de mármore pela encosta acima, que cairá até à base assim que atinge o cume. E Sísifo, um homem de expedientes que enganou a morte e conquistou assim uma imortalidade penosa, vem novamente buscá-la e carregá-la até ela rolar novamente pela encosta oposta. De forma dolorosamente absurda no seu esforço patético e escusado. Eternamente.

Sísifo não leu O’Neill e ficou ali, à volta da montanha, a carregar a pedra sem propósito aceitando o absurdo castigo divino. Ele não leu definitivamente O’Neill: “Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que/ te puseram em cima da cabeça?/ Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da./É provável que te sintas logo muito melhor./Sai, então de baixo da pedra.”.
E qualquer ano, qualquer dia, qualquer segundo é um bom momento para sair (então) debaixo da pedra, de saber exatamente o que fazer da.




Esse é precisamente o meu plano: sair debaixo de todas as pedras.
Por mim os telejornais abririam com a simplicidade grandiosa do Papa Francisco quando no final da sua mensagem de ano novo diz simplesmente “bom almoço”. Há lá algo mais importante que um efetivo bom almoço depois de se ouvir um Papa dizer algo de tão grandioso como “a paz é possível”? A vida pode ser isso, a possibilidade da paz e o almoço como algo de absolutamente compatível.
Sairei assim voluntariamente debaixo da pedra da animosidade obsessiva do Dr. Soares, da pedra do cinismo elegante do Dr. Salgado, do tronco nu do Sr. Putin, da pedra futebolística dos comentadores desportivos, pois terei coisas mais simples e óbvias em que pensar. As pedras noticiosas nunca terão fim pois (julga-se) é o medo aquilo que nos prende às notícias: a sida, a gripe das aves, a legionella, o ébola, a irmandade islâmica, o Bin Laden, os mercados financeiros, o cigarro, a operação Páscoa feliz e o número de mortos nas estradas.




Saúdo por isso 2015 e os belos dias que ainda não nasceram. Saúdo o sol, as conversas que ainda não tive, as músicas que ainda não ouvi, os beijos que darei e todos os poemas a que perceberei (finalmente) o esplendor. Saúdo o Joe Strummer, a sua voz e a sua guitarra aprisionadas a custo num ficheiro digital. Eternamente.

Talvez em 2015 nos deixemos de encantar com as palavras do ano - selfie, troika ou swap - e se descubra a beleza triste de uma palavra absurdamente bela como melancolia.


Fotos:  (1ª e 2ª) Alexandre Coelho Lima  (3ª) in theclashblog.com

Publicado in O Comércio de Guimarães (07.01.15)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Futebol: o rei vai nu



Factos da jornada 13:

FCPorto: 0 portugueses na equipa inicial
Benfica: 1 português na equipa inicial
Braga: 4 portugueses na equipa inicial

Sporting: 6 portugueses na equipa inicial
Vitória: 7 portugueses na equipa inicial

V.Setúbal- Boavista: 1.000 espectadores
Penafiel-Nacional: 815 espectadores
Paços de F.-Arouca: 2.000 espectadores
Belenenses-Braga: 1.500 espectadores
Marítimo-Estoril: 1.500 espectadores (?)
Gil Vicente – Académica: 1500 espectadores

Vitória-Rio Ave: 17000 espectadores (?)
Porto-Benfica: 48 000 espectadores
Sporting-Moreirense: 29.000 espectadores


Ao nível de assistências existe, em casa, basicamente 5 clubes que têm gente no seu estádio. O resto é absolutamente confrangedor, ficando o campeonato português a léguas das assistências dos excitantes campeonatos da Noruega, da Áustria e da Suécia.
Nos campos que têm gente apenas o Vitória e o Sporting jogam habitualmente com mais de metade dos seus jogadores com nacionalidade portuguesa.



Como é possível manter uma seleção com o nível que exigimos se o milagre Ronaldo desaparecer? Não é possível.

O curioso é que sendo o Vitória um exemplo de clube de futebol – tanto ao nível das assistências como ao nível dos jogadores nacionais – é, temos visto, um alvo a abater por qualquer clube. Fazem-se conferências de imprensa depois de um jogo connosco, os treinadores rasgam as vestes a cada decisão arbitral e há os que estão obcecados por ficar à nossa frente. Parece tonto e absurdo, mas é a realidade que vivemos.





O exemplo que o Vitória hoje dá não é alvo de cópia nem de elogio, pelo contrário: há uma demente vontade de nos destruírem, de nos apoucarem, da parte daqueles que nos invejam e também dos "três grandes" que não perdoam a nossa inexpugnabilidade clubística.




Ontem, hoje e amanhã, gastar-se-á muita tinta e muita verve a analisar coisa nenhuma. Em vez de acordarmos e tentarmos mudar este plano inclinado em que o futebol português se vai, cegamente, transformando.



Fotos: Zero a zero/Catarina Martins; worlfootballnet, reflexão portista

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Sexogenário





“Já que o coito -diz Morgado-/tem como fim cristalino,/ preciso e imaculado/fazer menina ou menino;/(...)/Sendo pai só de um rebento,/lógica é a conclusão/de que o viril instrumento/só usou -parca ração!-/uma vez. E se a função/faz o órgão -diz o ditado-/consumada essa excepção,/ficou capado o Morgado.”

Natália Correia. Em resposta ao deputado João Morgado. 1982.




Estas minhas crónicas, como será fácil de reparar, não têm nenhuma lógica subjacente. Além, talvez, da lógica de não a ter. Daí que o modo e o tempo como aparecem tenham mais caos que método e não me iniba assim, hoje, de falar de um caso com mais de um mês e meio de existência ... com tanta coisa sumarenta a acontecer.
Relembro: o Supremo Tribunal Administrativo reduziu substancialmente a indemnização a pagar pelo Estado a uma senhora que por erro médico, intervencionada cirurgicamente numa instituição pública para resolver um problema ginecológico, ficou aos 50 anos, entre outras coisas, incapacitada de ter relações sexuais. Na justificação da decisão da sua sentença, e como foi amplamente citada pela comunicação social, podia perceber-se que os argumentos dos juízes se centravam no facto da senhora ter já dois filhos e 50 anos de idade, sendo que, dessa forma, a sexualidade já não teria a importância que é suposto ter.

A quantidade de gente que zurziu na decisão foi imensa. Tão tola argumentação do Tribunal não mereceria, com certeza, outro desfecho. Custa-me contudo acreditar que os juízes não tenham percebido o atoleiro mediático em que se iam meter. Julgo, assim, que o fizeram deliberadamente para alcançarem os seus cinco minutos de fama. Ó Zé e se a gente argumentasse que o sexo já não tem importância a partir dos 50? Eh pá Bernardo isso vai dar uma carrapata das antigas, pá, não achas Joaquina? Eu acho, mas que vai ser falado vai, eu deixava estar como está. E assim se construiu mais um impante monumento da imbecilidade autóctone. Até que, vejam lá, chegou às páginas do New York Times! Bingo, correu melhor que o esperado. Nós, portugueses, temos um paradoxal voyeurismo por quem nos espreita. Nós somos aqueles que quando nos espreitam saímos de cena para espreitar o espreitador. Toma lá. As nossas notícias fazem-se muitas vezes não da notícia que nos alarma, mas do que os outros dizem da nossa notícia. A prisão de Sócrates, por exemplo, ganhou contornos esquizofrénicos quando os nossos noticiários passaram a ocupar largos minutos a sofrer com o que os outros de nós diziam. Que vergonha: o New York Times!



Curiosamente neste caso não nos envergonhamos com o mais óbvio, e que é o tempo que este caso tem já nos tribunais portugueses. A desditosa intervenção à senhora é de 1995! Já passaram vinte anos, a senhora terá agora 70 anos e com mais algumas manobras é bem possível que chegue a uma altura em que a infeliz senhora se não lembre já de que raio afinal o tribunal quer com ela.



Sou - sempre fui - freudiano. Acho, ainda que exageradamente, que o sexo tem a ver com tudo. Que ele marca, ou condiciona, ou assusta, ou liberta ou redime as pessoas que o têm, e da forma como o têm, ou se torna uma mitificação incomodativa nas pessoas que simplesmente não o têm. E que a perturbação psicológica que ele pode infundir, ao contrário das dores nas costas, não é facilmente partilhável. Pode-se até dizer, em público, que o marido é uma besta, mas quanto a deixar a pista de que o marido é um desastre na cama existe um tabu psicológico para deixar escapar tal percepção; é como libertar um cão preso há demasiado tempo, nunca se sabe se o recuperaremos ou se ele vai ferrar alguém. O sexo liberta demasiados e incontroláveis juízos nos outros, por isso assusta. Admito até que a má disposição é mais sexual do que pessoal. Aquele sujeito tem uma personalidade muito difícil pode ser facilmente traduzido por uma expressão brejeira e acertada. Admito mesmo que se as coisas tivessem corrido melhor entre a Eva Braun e o Hitler a história da Europa teria tido outro rumo, e quiçá o Führer tivesse ficado satisfeito (apenas, quem sabe) com a invasão da Polónia.


No entanto os cinco minutos de fama dos juízes permitiram que se tenha falado de sexo e que milhares de “velhinhos” se entretenham ainda hoje, trocistas, a desrespeitar alegremente uma decisão do Supremo Tribunal.




Fotos: 1ª e 2ª de Denise Bellon (a segunda com Henry Miller); 3ª e 4ª de Marna Clarke (site)

Publicado in O Comércio de Guimarães (10.12.14)