quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Sexogenário





“Já que o coito -diz Morgado-/tem como fim cristalino,/ preciso e imaculado/fazer menina ou menino;/(...)/Sendo pai só de um rebento,/lógica é a conclusão/de que o viril instrumento/só usou -parca ração!-/uma vez. E se a função/faz o órgão -diz o ditado-/consumada essa excepção,/ficou capado o Morgado.”

Natália Correia. Em resposta ao deputado João Morgado. 1982.




Estas minhas crónicas, como será fácil de reparar, não têm nenhuma lógica subjacente. Além, talvez, da lógica de não a ter. Daí que o modo e o tempo como aparecem tenham mais caos que método e não me iniba assim, hoje, de falar de um caso com mais de um mês e meio de existência ... com tanta coisa sumarenta a acontecer.
Relembro: o Supremo Tribunal Administrativo reduziu substancialmente a indemnização a pagar pelo Estado a uma senhora que por erro médico, intervencionada cirurgicamente numa instituição pública para resolver um problema ginecológico, ficou aos 50 anos, entre outras coisas, incapacitada de ter relações sexuais. Na justificação da decisão da sua sentença, e como foi amplamente citada pela comunicação social, podia perceber-se que os argumentos dos juízes se centravam no facto da senhora ter já dois filhos e 50 anos de idade, sendo que, dessa forma, a sexualidade já não teria a importância que é suposto ter.

A quantidade de gente que zurziu na decisão foi imensa. Tão tola argumentação do Tribunal não mereceria, com certeza, outro desfecho. Custa-me contudo acreditar que os juízes não tenham percebido o atoleiro mediático em que se iam meter. Julgo, assim, que o fizeram deliberadamente para alcançarem os seus cinco minutos de fama. Ó Zé e se a gente argumentasse que o sexo já não tem importância a partir dos 50? Eh pá Bernardo isso vai dar uma carrapata das antigas, pá, não achas Joaquina? Eu acho, mas que vai ser falado vai, eu deixava estar como está. E assim se construiu mais um impante monumento da imbecilidade autóctone. Até que, vejam lá, chegou às páginas do New York Times! Bingo, correu melhor que o esperado. Nós, portugueses, temos um paradoxal voyeurismo por quem nos espreita. Nós somos aqueles que quando nos espreitam saímos de cena para espreitar o espreitador. Toma lá. As nossas notícias fazem-se muitas vezes não da notícia que nos alarma, mas do que os outros dizem da nossa notícia. A prisão de Sócrates, por exemplo, ganhou contornos esquizofrénicos quando os nossos noticiários passaram a ocupar largos minutos a sofrer com o que os outros de nós diziam. Que vergonha: o New York Times!



Curiosamente neste caso não nos envergonhamos com o mais óbvio, e que é o tempo que este caso tem já nos tribunais portugueses. A desditosa intervenção à senhora é de 1995! Já passaram vinte anos, a senhora terá agora 70 anos e com mais algumas manobras é bem possível que chegue a uma altura em que a infeliz senhora se não lembre já de que raio afinal o tribunal quer com ela.



Sou - sempre fui - freudiano. Acho, ainda que exageradamente, que o sexo tem a ver com tudo. Que ele marca, ou condiciona, ou assusta, ou liberta ou redime as pessoas que o têm, e da forma como o têm, ou se torna uma mitificação incomodativa nas pessoas que simplesmente não o têm. E que a perturbação psicológica que ele pode infundir, ao contrário das dores nas costas, não é facilmente partilhável. Pode-se até dizer, em público, que o marido é uma besta, mas quanto a deixar a pista de que o marido é um desastre na cama existe um tabu psicológico para deixar escapar tal percepção; é como libertar um cão preso há demasiado tempo, nunca se sabe se o recuperaremos ou se ele vai ferrar alguém. O sexo liberta demasiados e incontroláveis juízos nos outros, por isso assusta. Admito até que a má disposição é mais sexual do que pessoal. Aquele sujeito tem uma personalidade muito difícil pode ser facilmente traduzido por uma expressão brejeira e acertada. Admito mesmo que se as coisas tivessem corrido melhor entre a Eva Braun e o Hitler a história da Europa teria tido outro rumo, e quiçá o Führer tivesse ficado satisfeito (apenas, quem sabe) com a invasão da Polónia.


No entanto os cinco minutos de fama dos juízes permitiram que se tenha falado de sexo e que milhares de “velhinhos” se entretenham ainda hoje, trocistas, a desrespeitar alegremente uma decisão do Supremo Tribunal.




Fotos: 1ª e 2ª de Denise Bellon (a segunda com Henry Miller); 3ª e 4ª de Marna Clarke (site)

Publicado in O Comércio de Guimarães (10.12.14)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Dores de parto



Está a ser absolutamente inacreditável, para mim, assistir ao que se escreve e diz sobre a detenção de José Sócrates. Não é propriamente o vendaval mediático da “Operação Marquês” que me incomoda, mas a poeira que ele, com o seu movimento, faz levantar.
Eu sei que – devo ser sincero – me impressiona até à perplexidade a devoção religiosa que tanta gente tem a Sócrates. Eu estou precisamente do outro lado: sou um feroz agnóstico que sempre o considerou um trapaceiro perigoso, uma espécie de prestidigitador retórico que esconde, invariavelmente, a verdade.

Estivemos na mão dele durante alguns anos com resultados catastróficos para o país, que só o mais fundamentalistas dos devotos não conseguirá ver. A sua vida política foi cheia de casos que os seus fiéis rapidamente transformaram na liturgia da perseguição e numa espécie de dogma intocável que atesta a sua (ineludível) santidade. Não conheci, desde o 25 de abril, nenhum político com tanto desprezo pela liberdade como Sócrates. O modelo venezuelano ter-lhe-ia servido na perfeição, sem ter de prestar contas à justiça, à comunicação social, ao povo que existe além dos seus devotos. Mesmo assim, em democracia, não se coibiu de usar as suas armas para condicionar quem se lhe opunha; e algumas delas continuam, no poder económico, político ou de estado, prontas a ser novamente usadas. Penso que, também por isso, o juiz achou por bem ser a prisão domiciliária a forma que lhe dificultaria mais a tarefa de urdir novamente uma das suas teias.

Apesar do odioso da forma como fomos humilhados começamos a cumprir as obrigações a que (voluntariamente) nos comprometemos, mesmo assim com um indesejável rol de erros, omissões e insensibilidade. A justiça não parece temerosa em enfrentar um conjunto de pessoas com um poder imenso na nossa sociedade portuguesa, sempre habituada a estar de chapéu na mão, incapaz de falar verdade, e tem entrado decidida naquilo que parece podre na política e no sector financeiro. Começaremos, finalmente, a parecermo-nos como um país do primeiro mundo? Até fico arrepiado ao pensar que assim possa ser. Que não aconteça aquilo que os vários diálogos dos Maias entre o Carlos e o Ega retratam – e que João Botelho tão bem traduziu recentemente para cinema – em que se desanca no país para logo, na primeira oportunidade, se ceder aos caprichos da mediocridade.


Eu sei que teria sido do primeiro mundo deixar o caso andar sem ter necessidade de escrever nada, como agora o fiz. Mas que diabo, são (ainda) fraquezas do segundo mundo.


Foto:JN

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

"Entre aspas"





“no dize-tu-direi-eu/havia um que dizia/quer dizer é como quem diz/que o mesmo é não dizer nada/tenho dito.”
Alexandre O’Neill. Discurso em As horas já de números vestidas. 1981.







Cada geração constrói, por preguiça de comunicação, os seus bordões linguísticos. Ataca os novos sem perfilhar, ou reconhecer, os seus.
O “tipo” é o bordão dos mais novos. Eu, tipo, estava a olhar para ela e ela, tipo, a fazer que não me via e eu, tipo, não tirei os olhos dela, tipo. É ridículo, sem dúvida. Mas não o é mais do que o “pá” tão querido por aqueles que agora criticam o “tipo”. Eu, pá, estava a olhar para ela e ela, pá, a fazer que não me via e eu, pá, não tirei os olhos dela, pá.
O tipo e o pá são básicos, procuram manter o equilíbrio da frase, pela repetição, apesar de lhe destruírem a harmonia e, quantas vezes, o sentido. No entanto, através das minhas filhas ou dos meus alunos, vou detetando o aparecimento de alguns bordões mais arriscados. O advérbio “supostamente” é um dos meus preferidos e revela-se, no seu esplendor, quando há algum grau de atrapalhação em quem comunica. Então isto são horas de chegar a casa? Ó pai, supostamente, eu tive de esperar pela Ana e sabes como é, supostamente, atrasei-me. Então a aceleração e a velocidade têm ou não sentidos opostos? Ó professor, supostamente, têm, mas, supostamente, o carro continua em frente. O supostamente é, entre todos, um bordão mais intelectual.
O “entre aspas” é curioso e atinge alguns espécimes independentemente da geração. É o bordão cobarde. Eu, entre aspas, até gosto dela. O senhor está, entre aspas, a mentir. Mas à custa de muito ser usado vem atingindo a insanidade absoluta. Vai entrando nas frases, cada vez mais, sem o mínimo de sentido ou propósito. Eu fiquei, entre aspas, mal disposto. Dei, entre aspas, o meu melhor. A camisola era, entre aspas, amarelada. É estúpido, mas é internacional (in quotes) e atinge o cúmulo do mau gosto quando se faz acompanhar do gesto sincronizado dos dedinhos médio e indicador das mãozinhas marotas que o desenham no ar, não vá a gente não perceber o que são aspas.
O bordão é inevitável para a maioria dos comunicantes. O “quer dizer”, o “não é?”, o “na realidade”, são um pouco menos deselegantes que os anteriores, mas não deixam de ser uma boia de linguagem, usada para que ela flutue e não se afunde em silêncio. Cabe-nos a nós cuidar deles e poupá-los para que não se gastem.





A sopa, pelo contrário, não cansa nem se gasta. A sopa é um dos elementos culinários mais extraordinários da cozinha e, diria mesmo (sem aspas), da cultura portuguesa.
Desde muito pequenos que a sopa é um elemento forte da nossa existência, até porque, vá lá saber-se porquê, o “comer a sopa” é um dos rituais essenciais da nossa infância e marca a personalidade de cada um. O não comer a sopa é assim um dos primeiros atos de profunda rebeldia. Enquanto os miúdos alemães se atafulham de papas doces os nossos, desde muito pequenos, para sua aparente desgraça, são habituados ao sabor gourmet dos vegetais. E nós íamos resistindo até à ameaça do papão ou do cigano ou, de uma forma mais concreta e desesperada, da estalada. Como pais melhorámos a técnica para o “assim não cresces”, mais inteligente e, sobretudo, menos dolorosa. Apela-se ao futuro e à urgência em se sair de um corpo demasiado pequeno para as aspirações de uma criança.
A sopa marca o nosso quotidiano: é ineludível.
Mas o esforço titânico dos pais apopléticos e das crianças birrentas abre, contudo, a porta para um mundo absolutamente fantástico que é o mundo da sopa e da variedade de sopas excelentes que acompanham a extraordinária riqueza da nossa gastronomia nacional.





Temos a estúpida tendência para ver vantagens no estrangeiro, como se sofrêssemos a sina de sermos portugueses. Mas nem a mais elaborada retórica nacionalista é tão assertiva como a comparação das sopas. Aí ganhamos sempre a qualquer país.
Quando se passa algum tempo fora de Portugal começamos a sentir necessidade de uma sopa. Alguns, mais experientes e avisados, substituem o desconforto de não a comer pelo recurso ao excesso de vegetais no acompanhamento dos pratos. Outros mais atrevidos e crentes, como eu, experimentam as sopas estrangeiras. Sempre com péssimos resultados.






Lembro-me particularmente bem de duas terríveis experiências. Uma em Nova Iorque, num restaurante francês, em que me é servida uma sopa igualzinha à mistela de água que se junta ao estrugido antes daquilo receber o arroz. Olhei para aqueles elementos vegetais a boiar na gordura e desliguei os sentidos para a conseguir comer. Comi, mas arrependi-me. Outra vez, numa cidade polaca, desesperado, pedi uma sopa local de cogumelos. Veio uma argamassa castanha que eu engoli, cheio de fome, até metade. Comi e arrependi-me ainda mais do que da primeira vez. E durante três dias consecutivos arrotei, entre aspas, aquela mixórdia, até que uma redentora sopa de nabiças, já em Portugal, leve e saborosa, me resgatou novamente o palato.


Imagens de obras do pintor Amadeu de Souza-Cardoso. 

De cima para baixo: A casita perdida (1915) Sem título (1917) Os cavaleiros (1913) Cozinha de Manhufe (1913)


Artigo publicado in O Comércio de Guimarães (12.11.14)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um espinho no dedo grande do pé direito



“Verbalizara o louco desejo de ele próprio poder conservar-se jovem e de ser o retrato a envelhecer (...) E, todavia, lá estava o retrato diante dele, com um laivo de crueldade nos lábios.”

Oscar Wilde. O retrato de Dorian Gray. 1890.






Sinto saudades dos meus pés. À medida que a minha barriga cresceu, ao longo de muitos anos, fui perdendo a intimidade que com eles tinha. Dantes chegava-lhe facilmente com as mãos, agora, até para apertar os cordões dos sapatos tenho de escolher a melhor posição, tenho de dobrar o meu corpo, meticulosamente, como um acordeão, para cumprir uma tarefa outrora simples e intuitiva.

Quando falo em intimidade não falo obviamente de uma qualquer relação fetichista com os pés, Deus me livre. Ainda para mais com os meus. Aliás de todas as taras possíveis e imaginárias a dos pés é daquelas que mais me custa a entender, nem os pés têm biologia para isso, sempre mal irrigados e por isso pouco sensíveis à carícia, além daquela que alguns pés (poucos) têm com uma bola de futebol. Com tantas partes bonitas e irrigadas que o corpo humano tem, apostar na sensualidade dos pés é uma tolice incompreensível, é uma aposta arriscada no caroço da azeitona esquecendo, deliberadamente, a polpa. Quando falo em intimidade falo em camaradagem com os pés, falo em sentir a sua presença como parte integrante do corpo na qual se repousam abstrações pontuais. Aceno-lhes apenas, diariamente, como o faria com um vizinho a que desconheço o nome mas não devo iludir a sua presença. Boa tarde, bom dia e apenas isso.




Ora a tal relaxamento sentimental forçado, tal distância de olhar, leva a que eles, apesar de presos ao meu corpo, comecem a ter uma vida própria independente da minha. Só isso explica ter descoberto, recentemente, uma pequena farpa de madeira cravada no meu dedo grande do pé direito e que pelo aspeto já lá deveria estar há algum tempo. Não dei por nada, ele aguentou estoicamente a contrariedade sem me incomodar o sistema nervoso. Magoado, talvez, por tantos anos de uma distância convexa, aguentou sem se queixar, estoico. Até que numa aula de Pilates tive que cravar perpendicularmente ao chão os meus dedos grandes no soalho e ele gritou e eu, finalmente, gritei com ele e percebi que o pé, afinal, sofria. Ao olhar, agora com olhos de ver, para o dedo grande do pé direito, percebi um ponto negro profundo que não havia detetado quando, a muito custo, o lavo, ou quando lhe corto a unha sempre contrafeito pela maçada que é cortá-la. A relação higiénica com os meus pés é demasiado fria e distante para que houvéssemos retomado antigas cumplicidades.

Ainda passei uns dias, cobardemente, ignorando o assunto. Afinal só em determinada posição aquele espinho me incomodava, não me atrapalhava o andar e isso era suficientemente cómodo. O meu cérebro - que me conhece bem e sabia que eu era menino para ignorar o pé - começou a apelar ao dramatismo. E se aquilo infeta? E se aquilo gangrena? E se aquilo larga na circulação uma data de bactérias que vão afetar outras partes do corpo? Resolvi então levar-me e levá-lo a um enfermeiro que com um spray milagroso e uma perícia igualmente milagrosa restituiu ao meu pé a dignidade perdida na maleita. Ficamos mais próximos desde então e eu prometi cuidar dele, e do outro, por dias como este em que escrevo.



O tempo que me deu, generoso, esta barriga  e me afastou assim dos meus pés, também plantou na minha cabeça palavras que tendem a desaparecer. Mercurocromo é uma delas.
Quando, em absoluta reconciliação com os meus pés fui à farmácia buscar o material para cuidar deles pedi, intuitivamente, mercurocromo. A jovem farmacêutica que me atendeu revirou, ligeiramente, os olhos como se atendesse naquela farmácia um qualquer personagem de Charles Dickens que àquela hora pedisse petróleo para as suas candeias domésticas. Mercurocromo acho que não temos e fez o gesto de procurar mesmo não procurando. Expliquei-lhe para o que era e ela aconselhou-me o Betadine, uma solução com iodo no lugar do maldito mercúrio que condenou, sei-o agora, o medieval anti-séptico.
E por entre os pingos grossos da chuva senti-me reconciliado com as partes do meu corpo mais distantes. Uns pés que emigraram, há uns bons anos, do meu corpo e que retornaram, por estes dias, à terra natal.



Publicado in O Comércio de Guimarães (15.10.14)