quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

7 mandamentos analógicos para a era digital


“Há sempre uma última vez para tudo, só que não sabemos. Portanto há que fazer tudo como sendo pela última vez.”
Diálogo num filme de Wim Wenders. Palermo Shooting. 2008.

Deus não enviou a Moisés um SMS, podia tê-lo feito: era Deus! Mas não, escreveu de um jeito bem analógico, na pedra e bem fundo, os Mandamentos. Dez por sinal. Eu atrevo-me a sugerir 7 por uma questão de economia. O restante é IVA ... e eu não vos maçaria com um imposto.

1. Não chamarás de conversa a nada que tenha gente a uma mesa e, simultaneamente, telemóveis. É profundamente patético conversar-se enquanto se olha esgazeado para o telemóvel. E os que assim procedem deveriam ser banidos da mesa por responderem a mensagens, e digitarem e-mail´s, e espreitarem o facebook. Estar ao lado alguém assim ou de um vaso é precisamente a mesma coisa. Estão, sem perceberem, na antecâmara da solidão. Não o vaso, claro.



2. Não ligarás o telemóvel nem na missa nem no cinema. Há qualquer coisa de absolutamente desarmante, especialmente nos mais velhos, em deixarem ligado o toque do telemóvel, geralmente bastante chamativo, nas cerimónias em que participam. Andaram quase quarenta anos, outros cinquenta e sessenta anos, sem utilizarem o telemóvel, mas quando ele agora toca têm desesperadamente de o atender. Nunca se sabe se o Obama lhes telefona e lhes anuncia, em primeira mão, o começo da terceira guerra mundial, ou se o Papa Francisco os questiona sobre em que parte da cerimónia estão. Estou num funeral filha, liga mais tarde, beijinho, gostei muito de te ouvir, os restantes enlutados mandam-te cumprimentos, adeus. Já os mais novos, como nunca viram um filme do princípio ao fim, entram no cinema e ligam o holofote pessoal para ver o que se passa no mundo antes do artista matar o vilão. E o cinema enche-se de pirilampos. Eles não têm a mínima noção do que incomodam, mas não se lhes pode perdoar apesar de não saberem o que fazem. Desligue lá isso por favor e eles olham para nós como se pedíssemos que se despissem.

3. Farás, de vez em quando, e se tiveres idade e memória para isso, as contas em escudos e verás que não será em vão. Ao tomares o pequeno almoço perceberás que aquilo tudo te ficou a 600$00 e comprarás então mais pão e leite para casa. Ao ires ao cinema concluirás que o teu bilhete e as pipocas te ficaram a um conto e quatrocentos e far-te-ás, finalmente, sócio do Cineclube de Guimarães ... mesmo que eles agora só passem em digital.



4. Ainda com o mandamento anterior em mente não meterás 16 contos de gasolina no carro e andarás então a pé na tua belíssima cidade. Cumprimentarás uma pessoa na rua com um aperto de mão ou um beijinho, consoante a situação, e dir-lhe-ás sem erros gramaticais visíveis aquilo que lhe dizes nas redes sociais. Vais ver que a coisa melhora. Talvez te apaixones, quem sabe, de forma bem analógica e real.

5. Mudarás de agulha e a agulha para ouvires o teu disco de vinil antigo. Aquele crepitar tem a tua história e o som analógico é mais vivo e poderoso que o digital. Está gravado mecanicamente no plástico, com arte e força, como um mandamento.



6. Se fores médico tira os olhos do ecrã do computador e olha o teu doente; se fores professor esquece a grelha 534 que te obrigam a preencher e fala com o teu aluno. Quer o doente, quer o aluno são tão analógicos como os teus olhos, e só eles podem perceber a dor e o desconforto daqueles que te querem olhar. O teu doente pode ter uma hérnia e o teu aluno uma incompreensão e o computador não to dirá certamente.



7. Não te mates a tentar conquistar a imortalidade digital. Aceita o teu ser analógico e contínuo como o são os dias, as horas, o vento e a voz que lá do fundo te chama. Ó porra! É um credor, apaga-te então da vista dele. Esvaziar o lixo. Desligar.



Ao Talecas - um dos mais analógicos dos meus amigos - que me inspirou o artigo.

Publicado in O Comércio de Guimarães 04.02.2015






terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Ambição





É provável, admito, que eu seja pouco ambicioso ao nível daquilo que espero do Vitória. Para esta época não esperava muitos mais pontos daqueles que efetivamente temos, olhando para o plantel composto por jovens, ilustres desconhecidos, e para um dos orçamentos mais contidos da primeira liga. É possível.
É possível ainda, admito, eu ter achado através de várias informações que fui recolhendo que o Vitória esteve mesmo para estourar do ponto de vista financeiro, e que os últimos anos foram um autêntico milagre alicerçado no trabalho incansável de muita gente – direção, equipa técnica, jogadores – que tornaram possível fazerem-se omeletes sem ovos. O desaparecimento do Vitória foi algo que sempre me arrepiou, pois ele é um património insubstituível de Guimarães e do futebol português.
Por isso espanto-me com a capacidade que o Vitória tem demonstrado em vender cada vez melhor os não-ovos do início da época. A venda do Traoré e do Hernâni, a preços bem mais interessantes que aquilo que tivemos de fazer com o Paulo Oliveira, são para mim excelentes notícias para a sustentabilidade do clube, desde que, claro, não se torne a cair no mesmo e se continue a apostar nos jovens talentos e na capacidade de os revelar.
Por outro lado o facto de conservarmos o André é a grande novidade. É possível construir-se uma equipa à volta dele e gostaria de o ver ainda durante uma década aqui. Vê-lo levantar uma outra taça, levar-nos à champions e, se fosse ambicioso, vê-lo capitanear-nos a ganhar um campeonato.

Ou será que estou a ver mal?


Foto: Guimarãesdigital

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Se eu fosse Óscar

Nesta época de início de ano, por influência das nomeações para Oscar e na ressaca da atribuição dos Globos de Ouro e dos prémios europeus de cinema (EFA), o circuito comercial tem uma atividade mais interessante do que o costume. Até o Cineclube de Guimarães, não sujeito a modas, mostrou na sua programação de janeiro um rol de filmes verdadeiramente fantásticos.

Do que vi para já, destacaria:

LOCKE (Inglaterra, Steven Night)




O filme do ano para mim. Passado apenas numa viatura em viagem, com um único ator, é a prova mais completa de que o cinema continua felizmente ainda a distinguir-se por uma boa história (o argumento é do realizador que tem apenas dois filmes).




Grand Budapest Hotel (EUA, Wes Anderson)




O cinema também deve ser reconhecível pelo autor, como o é uma boa voz. Wes Anderson tem desde o início a sua “marca”. Este filme é a mais perfeita das suas festas cinematográficas, com os atores do costume (Bill Murray, Adrien Brody, Jason Schwartzman, Owen Wilson) e outros senhores (Ralph Fiennes, Edward Norton) que no intervalo do seu ganha-pão decidem dar uma mão a este extravagante realizador.


Dois dias, uma noite (França, irmãos Dardenne)



Um drama excecionalmente interpretado por Marion Cotillard (nomeada para oscar e com o reconhecimento de melhor atriz no EFA). A vida e a dignidade que ela pressupõe.


Ida (Polónia, Pawel Pawlikowski)



Um achado de filme. Sereno, simples, profundo, com um preto-e-branco sem mácula. Vencedor de vários prémios no EFA, entre os quais o melhor filme e nomeado para melhor filme estrangeiro.


Boyhood (EUA, Richard Linklater)



Uma belíssima ideia e um projeto bem resolvido cinematograficamente. Surpreendentemente carregadinho de nomeações para os óscares e um dos grandes vencedores dos globos de ouro.


Birdman (EUA, Iñárritu)



Talvez fosse com expectativas demasiadamente altas, apesar de o mexicano Iñárritu sempre me ter irritado um bocadinho com a sua tentação pela grandiloquência (estragou o 21 gramas e o Babel dessa forma). No entanto Birdman é um curioso filme com um notável conjunto de atores e uma boa ideia (infelizmente) não concretizada como mereceria.



Cavalo dinheiro (Portugal, Pedro Costa)



Se eu tivesse conseguido segurar-me, nem que de forma ténue, a uma linha narrativa, talvez tivesse chegado perto de perceber a canonização cinematográfica do filme de Pedro Costa em curso há alguns meses. De qualquer das maneiras aguenta-se bem o peso do filme, e deseja-se até que ele seja ponderável e forte como é.



True Detective (EUA série)




A coisa mais diabolicamente perfeita que vi em série para televisão. Não levou nada nos globos de ouro... talvez por falta de homossexuais, ou transexuais em papel de destaque. Um Woody Harrelson perfeito e um McConaughey sublime, ou melhor, um Marty perfeito e um Rust sublime. E releva, ainda, não os tornarmos a ver juntos.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Estamos em guerra




O 11 de setembro de 2001 marcou uma mudança profunda na nossa vida em sociedade. Um ataque bem planeado mostrou ser possível, de forma espetacular, trazer a guerra para dentro das cidades ocidentais, já que a liberdade de circulação, a complexidade dessas mesmas cidades e alguma confiança no nosso way of life nos descompromete da vigilância necessária. A tudo isto acresce a popularidade demagógica dos cortes sucessivos na segurança policial e militar nos países europeus.

O miserável atentado de Paris, e o falhanço absoluto da segurança do Estado francês, é um dos atentados que se têm verificado na Europa e um de muitos que com certeza se verificarão, pois na Europa existem comunidades organizadas que espalham o ódio aos valores ocidentais e grupúsculos que estão dispostos a espalhar o terror em nome de uma causa que julgam maior.

Poderemos organizar as vigílias necessárias, poderemos exprimir a nossa incontida mágoa nas redes sociais mas o facto é que estamos a ser atacados dia a dia, e o medo vai suplantando a coragem nos povos europeus.

É urgente defender aquilo que nos demorou séculos a construir: a democracia, a liberdade, o estado social. Com determinação! E quanto mais depressa nos apercebamos que estamos efetivamente em guerra melhor será para ganharmos a coragem necessária para defendermos a nossa civilização. A começar, desde logo, por sermos mais solidários entre nós.

Foto: Thomas Samson (AFP)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Melancolia


“Einstein conseguiu mostrar que, por mais que nos esforcemos, nunca conseguimos acelerar além da velocidade da luz. A velocidade da luz era o limite da velocidade final do universo .”
Michio Kaku. O Cosmos de Einstein. 2004.

A passagem dos anos não é particularmente divertida, mas a passagem do ano tem a particularidade de o ser.
Há sempre a esperança, tanta vezes tonta, de que tudo seja melhor do que o ano que passou. Bebe-se, grita-se, comem-se as passas e trocam-se beijos com uma vontade renovada de que tudo seja mais satisfatório. Isto porque temos, quase todos, a estranha melancolia de nos fixarmos naquilo que correu mal e não naquilo que correu bem. Daí a necessidade imperiosa de uma mudança, de se querer ardentemente pulverizar o que incomoda e que nos torna circunstancialmente infelizes.
A infelicidade tem esse arreliante sentido sólido da permanência enquanto a felicidade é, pelo contrário, frágil e volátil. A felicidade é relativa como o tempo que a contém, enquanto a infelicidade é (miseravelmente) absoluta.




O que nos correu mal no ano que se extingue acaba, pela natureza sólida da coisa, por se alojar na alma de forma ponderável. Por defeito de fabrico não damos o devido valor à felicidade, ao prazer das coisas e das pessoas. Adão e Eva ficaram presos à culpa e não ao prazer de terem comido a maçã. O Deus de Adão e Eva suavizou-se entretanto, mas o defeito ficou.
E se aquilo que nos incomoda for mais denso e permanente do que aquilo que nos dá prazer é inevitável cair na maldição de Sísifo. Na mitologia grega Sísifo é um rei castigado pelos deuses a fazer rolar uma pedra de mármore pela encosta acima, que cairá até à base assim que atinge o cume. E Sísifo, um homem de expedientes que enganou a morte e conquistou assim uma imortalidade penosa, vem novamente buscá-la e carregá-la até ela rolar novamente pela encosta oposta. De forma dolorosamente absurda no seu esforço patético e escusado. Eternamente.

Sísifo não leu O’Neill e ficou ali, à volta da montanha, a carregar a pedra sem propósito aceitando o absurdo castigo divino. Ele não leu definitivamente O’Neill: “Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que/ te puseram em cima da cabeça?/ Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da./É provável que te sintas logo muito melhor./Sai, então de baixo da pedra.”.
E qualquer ano, qualquer dia, qualquer segundo é um bom momento para sair (então) debaixo da pedra, de saber exatamente o que fazer da.




Esse é precisamente o meu plano: sair debaixo de todas as pedras.
Por mim os telejornais abririam com a simplicidade grandiosa do Papa Francisco quando no final da sua mensagem de ano novo diz simplesmente “bom almoço”. Há lá algo mais importante que um efetivo bom almoço depois de se ouvir um Papa dizer algo de tão grandioso como “a paz é possível”? A vida pode ser isso, a possibilidade da paz e o almoço como algo de absolutamente compatível.
Sairei assim voluntariamente debaixo da pedra da animosidade obsessiva do Dr. Soares, da pedra do cinismo elegante do Dr. Salgado, do tronco nu do Sr. Putin, da pedra futebolística dos comentadores desportivos, pois terei coisas mais simples e óbvias em que pensar. As pedras noticiosas nunca terão fim pois (julga-se) é o medo aquilo que nos prende às notícias: a sida, a gripe das aves, a legionella, o ébola, a irmandade islâmica, o Bin Laden, os mercados financeiros, o cigarro, a operação Páscoa feliz e o número de mortos nas estradas.




Saúdo por isso 2015 e os belos dias que ainda não nasceram. Saúdo o sol, as conversas que ainda não tive, as músicas que ainda não ouvi, os beijos que darei e todos os poemas a que perceberei (finalmente) o esplendor. Saúdo o Joe Strummer, a sua voz e a sua guitarra aprisionadas a custo num ficheiro digital. Eternamente.

Talvez em 2015 nos deixemos de encantar com as palavras do ano - selfie, troika ou swap - e se descubra a beleza triste de uma palavra absurdamente bela como melancolia.


Fotos:  (1ª e 2ª) Alexandre Coelho Lima  (3ª) in theclashblog.com

Publicado in O Comércio de Guimarães (07.01.15)