quarta-feira, 1 de abril de 2015

A migração das palavras

“Se não há homens insubstituíveis, há palavras que são insubstituíveis. Elas, de resto, não exprimem nunca o conflito, mas o seu fantasma; e o fantasma de uma realidade está subordinado à escolha estrita das palavras.”
Agustina Bessa Luís. Dicionário imperfeito. 2008.











Já deverão com certeza ter notado a minha preocupação em escrever segunda as normas do novo acordo ortográfico. Se eu fosse um cronista de renome pediria até - em rodapé - a indicação Rui Vítor escreve de acordo com a nova ortografia. E porquê? Por snobismo contra os snobes, fundamentalmente.
O que me deixa realmente preocupado não são as regras e mudanças, mas as palavras em si. Sobretudo as que desaparecem da linguagem comum no emagrecimento lexical da nossa língua, que vai, por estes dias, desperdiçando e esquecendo os seus termos mais ou menos coloridos.



Tenho saudades do estrugido e do burnir, tão típicos da nossa zona. O estrugido tem a sonoridade do azeite quente enquanto o refogado é demasiado macio para a vibração culinária. O burnir, ou brunir, tinha um asseio diferente do passar a ferro, era engomar com desvelo. É capaz de ter desaparecido pois já ninguém sabe burnir como burnia.
Não se encontram na rua hoje mulheres desesperadas gritando “gandulo!” a um rapazote mais atrevido ou ao moço mais desbocado. Podia, porventura, ir-se um bocadinho mais além e chamar-lhe mesmo estupor, não era preciso dizer-se um palavrão para insultar. Até o insulto precisa de fugir ao facilitismo vulgar do palavrão. Há palavras para tudo. Relembro assim o Sr. Monteiro, dono de uma mercearia – outra palavra em desuso, engolida pelos mercados super e depois hiper –, no início da rua D. João, que uma vez gritou “o estupor do rapaz caiu-me ao lago”. Era eu e mereci o desabafo pela trabalheira que, incauto, lhe dei.
A bucha desapareceu e a merenda vai também a caminho, substituída pelo anglicista lanche. Mantém-se (ainda) o kispo que adotou desde os anos setenta o “k” muito antes do novo acordo ortográfico. A minha geração, que inicialmente os usou, preservou a marca e deu-lhe a consistência de uma palavra que ainda hoje as novas gerações usam para designar os blusões de penas. Era quentinho e impermeável e assentava sempre em fortes, apesar de primitivos, reclames televisivos. Reclame foi outra palavra que voou e nunca mais voltou, ficando a palavra anúncio, grave como uma pomba gorda que não migra mais de trinta metros entre a torre de S.Pedro e o transeunte que de forma irresponsável a alimenta no Toural.




Apesar do galicismo adoro a palavra chofer. Tem um tom distinto, não carregando o desconforto proletário da palavra motorista. Sr. chofer por favor meta o pé no acelerador dizia-se ao condutor da camioneta no passeio escolar, longe do politicamente correto das normas securitárias. O chofer da furgoneta também ganhava uma pintinha de sangue azul no seu desalinho, até chegarmos ao topo da classe: o chofer de praça. Se hoje se cultiva alguma má vontade relativamente aos taxistas, o mesmo não se poderia ter para com um linguisticamente aprumado chofer de praça ... no Toural das pombas cada vez mais ociosas, onde já não circula o malotinha vendendo cautelas. Os malotas desapareceram, não sei se por força dos corcundas ou do sistema nacional de saúde, e a cautela (o vigésimo de um bilhete de lotaria) também, e com ela a poesia que a matemática fração nunca terá. Comprava-se uma cautela pela cautela de não desbaratar o dinheiro num bilhete inteiro. Faz-me falta o deferente vossemecê da minha avó por contraponto à boçalidade do você. Faz-me falta o escangalhado, a serigaita, o lingrinhas, a chanca, os auscultadores e o biscoito. Não me fazem assim tanta falta as ceroulas – sempre fui quente – nem as remelas, nem a trepa.



E se as palavras migraram e se cansaram de voltar à boca das pessoas, outras aves lexicais apareceram sem particular proveito para a língua. Não me socorrendo da vulgaridade efémera das palavras do ano, não posso deixar de mostrar o meu desagrado pelo visualizar que vai engolindo o verbo ver, pelo realizar em vez do perceber, e sobretudo por essa pomba sebosa e cobarde que é a palavra inverdade.

E para aqueles que não concordarem com esta minha ornitologia das palavras poderei sempre dizer-lhes, de ombros tensos e sobrolho franzido: ora essa?



Cartazes do filme Os Pássaros. Hitchcock.1963.


Artigo publicado in O Comércio de Guimarães (01.04.15)

quarta-feira, 4 de março de 2015

Memórias do segundo sexo


“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, económico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.”
Simone de Beauvoir. O segundo sexo. 1949.



The big sleep/À beira  do abismo.  Howard Hawks. 1946.

Enquanto criança sentia um enorme prazer em ser rapaz. Na lotaria da concepção havia-me saído a condição de macho e isso era para mim profundamente reconfortante. O mundo estava feito, pensava eu, para os homens. Desdenhava das brincadeiras das meninas, dos floreados, das casinhas, e achava que a violência gratuita das brincadeiras com os meus colegas rapazes – apesar de eu não estar intimamente talhado para a coisa – é que era a vida. Talvez não errasse em achar isso. O mundo era efetivamente mais de tiros, mais de cotoveladas nos colegas, mais de palavrões, do que a placidez organizada do mundo feminino que me era possível vislumbrar.

No entanto rapidamente me apercebi que aquele mundo masculino, omnipotente, que a televisão e a algazarra alarve dos homens me transmitia era, efetivamente, aparente. Criado no meio de mulheres foi quase intuitivo perceber que o domínio masculino contra o qual Beauvoir e tantas outras se haviam alevantado, era já apenas um conceito arqueológico, e não uma realidade, ao qual as mulheres davam um silencioso – ou mesmo talvez desdenhoso - assentimento. Os senhores de gravata e chapéu continuavam a ocupar os lugares da frente, mas o poder de decisão residia cada vez mais nas mulheres, e isso iria naturalmente ter as suas consequências.


Mamma Roma.  Pasolini. 1962.


A educação é, sem dúvida, o principal barómetro do desenvolvimento, quer consideremos a sociedade ou o indivíduo. Por isso não constitui para mim qualquer surpresa que em Portugal, comparados por exemplo os últimos quatro anos, e para uma população jovem que tem ligeiramente mais rapazes do que raparigas (51% para 49%), as matrículas no ensino superior para esse período tenham sido claramente mais femininas do que masculinas (56% para 44%). Ou seja, as raparigas vão claramente na frente, o que para mim, que lido com os jovens nestas idades, não constitui qualquer surpresa. E só não me alongo em mais comentários não vão os meninos, coitados, ficarem deprimidos ao perceberem que a realidade não é um facto mas uma construção. Eu sei que me vão dizer que os homens continuam a ocupar os lugares-chave. Claro que sim, por comodidade das mulheres que não gostam de se expor demasiado. Só em casos graves como o da Finlândia, um dos primeiros países a ser devastado pela crise em 2008, com dívidas superiores a 1000% do seu PIB e uma moeda que desvalorizou 85% face ao euro! Aí, perante tal gravidade, entraram as mulheres e mandaram os homens novamente para a pesca, com os espantosos resultados económicos e sociais que hoje se conhecem. Chegaram ao cúmulo, vejam lá, de eleger uma primeira-ministra homossexual, não fosse ela ter qualquer nefasta influência masculina, à cautela. Recuperaram o país e foram-se novamente embora. Mas estão de olho.



A escolha de Sofia.  Alan J.Pakula. 1982.


Impõem-se então medidas. E urgentes! O aquecimento global não é um problema quando comparado com este. Por mim sugiro já algumas simples medidas profiláticas.
Continuar a ressonar e bem alto se possível. Não nos podemos deixar enredar naquela argumentação de que incomoda. Nada de pensos e muito menos operações. Ressonar alto e incomodar é um statement masculino, ineludível. Cremes, nem pensar neles! É assim que vamos perdendo a nossa credibilidade. Desodorizante e água de colónia, e com parcimónia. Banir os programas dos comentadores de futebol. Nada afeta mais a nossa credibilidade do que essas peixeiradas televisivas. Elas não percebem nada de futebol, é-lhes inacessível essa bênção, mas os programas desportivos, em bom rigor,  arrasam a magia que o futebol (ainda) tem e dão-lhes a percepção da nossa infinita infantilidade. E há que pensar noutros. E já.

E quando recuperarmos finalmente, após denodado esforço, o nosso domínio, vamos, eu sei, perdê-lo novamente. Assim - Há nos teus ombros turbulentos/cintilações, pressentimentos.../Os nossos corpos descerão/ para que  abismos lamacentos? - na rendição absoluta de um poema de David Mourão-Ferreira.

Mas nunca desarmar, nunca, por mais desarmantes que elas sejam. E são-no.


Publicado in O Comércio de Guimarães. 04.03.2015.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Profissão masculino





Sniper Americano é um bom filme. De Clint Eastwood espera-se quase sempre um bom filme e ele raramente falha (tirando aquela coisa dos espíritos...). Sniper não é o melhor que ele fez mas cimenta, com qualidade, a sua notável carreira.

Além do mais é um filme de um homem a sério sobre homens a sério.

Por mais liberal que eu seja (e sou!), por mais que apoie (como apoio!) todas as causas que respeitem a liberdade de opção sexual e os direitos que a devem reconhecer e sustentar estou, devo-me confessar, um bocadinho farto das mariquices com que o cinema e as séries têm obcecadamente vivido num tempo recente.


Faltam hoje homens a sério no cinema como John Ford. Este filme cheira mal debaixo dos braços e isso é bom ou pelo mínimo: saudável.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

7 mandamentos analógicos para a era digital


“Há sempre uma última vez para tudo, só que não sabemos. Portanto há que fazer tudo como sendo pela última vez.”
Diálogo num filme de Wim Wenders. Palermo Shooting. 2008.

Deus não enviou a Moisés um SMS, podia tê-lo feito: era Deus! Mas não, escreveu de um jeito bem analógico, na pedra e bem fundo, os Mandamentos. Dez por sinal. Eu atrevo-me a sugerir 7 por uma questão de economia. O restante é IVA ... e eu não vos maçaria com um imposto.

1. Não chamarás de conversa a nada que tenha gente a uma mesa e, simultaneamente, telemóveis. É profundamente patético conversar-se enquanto se olha esgazeado para o telemóvel. E os que assim procedem deveriam ser banidos da mesa por responderem a mensagens, e digitarem e-mail´s, e espreitarem o facebook. Estar ao lado alguém assim ou de um vaso é precisamente a mesma coisa. Estão, sem perceberem, na antecâmara da solidão. Não o vaso, claro.



2. Não ligarás o telemóvel nem na missa nem no cinema. Há qualquer coisa de absolutamente desarmante, especialmente nos mais velhos, em deixarem ligado o toque do telemóvel, geralmente bastante chamativo, nas cerimónias em que participam. Andaram quase quarenta anos, outros cinquenta e sessenta anos, sem utilizarem o telemóvel, mas quando ele agora toca têm desesperadamente de o atender. Nunca se sabe se o Obama lhes telefona e lhes anuncia, em primeira mão, o começo da terceira guerra mundial, ou se o Papa Francisco os questiona sobre em que parte da cerimónia estão. Estou num funeral filha, liga mais tarde, beijinho, gostei muito de te ouvir, os restantes enlutados mandam-te cumprimentos, adeus. Já os mais novos, como nunca viram um filme do princípio ao fim, entram no cinema e ligam o holofote pessoal para ver o que se passa no mundo antes do artista matar o vilão. E o cinema enche-se de pirilampos. Eles não têm a mínima noção do que incomodam, mas não se lhes pode perdoar apesar de não saberem o que fazem. Desligue lá isso por favor e eles olham para nós como se pedíssemos que se despissem.

3. Farás, de vez em quando, e se tiveres idade e memória para isso, as contas em escudos e verás que não será em vão. Ao tomares o pequeno almoço perceberás que aquilo tudo te ficou a 600$00 e comprarás então mais pão e leite para casa. Ao ires ao cinema concluirás que o teu bilhete e as pipocas te ficaram a um conto e quatrocentos e far-te-ás, finalmente, sócio do Cineclube de Guimarães ... mesmo que eles agora só passem em digital.



4. Ainda com o mandamento anterior em mente não meterás 16 contos de gasolina no carro e andarás então a pé na tua belíssima cidade. Cumprimentarás uma pessoa na rua com um aperto de mão ou um beijinho, consoante a situação, e dir-lhe-ás sem erros gramaticais visíveis aquilo que lhe dizes nas redes sociais. Vais ver que a coisa melhora. Talvez te apaixones, quem sabe, de forma bem analógica e real.

5. Mudarás de agulha e a agulha para ouvires o teu disco de vinil antigo. Aquele crepitar tem a tua história e o som analógico é mais vivo e poderoso que o digital. Está gravado mecanicamente no plástico, com arte e força, como um mandamento.



6. Se fores médico tira os olhos do ecrã do computador e olha o teu doente; se fores professor esquece a grelha 534 que te obrigam a preencher e fala com o teu aluno. Quer o doente, quer o aluno são tão analógicos como os teus olhos, e só eles podem perceber a dor e o desconforto daqueles que te querem olhar. O teu doente pode ter uma hérnia e o teu aluno uma incompreensão e o computador não to dirá certamente.



7. Não te mates a tentar conquistar a imortalidade digital. Aceita o teu ser analógico e contínuo como o são os dias, as horas, o vento e a voz que lá do fundo te chama. Ó porra! É um credor, apaga-te então da vista dele. Esvaziar o lixo. Desligar.



Ao Talecas - um dos mais analógicos dos meus amigos - que me inspirou o artigo.

Publicado in O Comércio de Guimarães 04.02.2015