Coisas que já não se usam, mas que deveriam usar-se

 


Há muito tempo que faço um esforço para que o meu passado seja, em mim, um museu e não propriamente uma discoteca. Para que o meu passado seja algo que se visita, que se consulta para perspetivar o presente, e não propriamente um propósito de festiva saudade.

Tal voluntário e consciente esforço, leva-me, frequentemente, a abraçar a novidade com uma força exagerada. Pelo-me por uma música nova, por um realizador jovem, por uma novidade tecnológica que deu à costa no presente e que devo conhecer e dominar. Às vezes fico até tonto no propósito pois o meu tempo de ócio é, hoje, extremamente limitado. 

E o ócio é sem dúvida, pelo menos para mim, o mais criativo e libertador espaço de tempo. Vou ao museu do passado e tenho uma discotequeira saudade das alturas em que não sabia bem o que fazer. E quando não se sabe bem o que fazer é o ócio que nos guia e nos apresenta soluções fantásticas, inesperadas, para o que fazer do tempo e, no fundo, o que fazer de nós mesmos.

 


No entanto o museu do passado é, em cada um de nós, sempre marcante. Por mais que o queiramos apenas informativo ou, até, contemplativo, ele acaba sempre por mexer connosco e despoletar o gatilho de sensações perdidas.

Tive isso há muito pouco tempo quando recebi uma carta de um jovem amigo. Sim, uma carta. O meu amigo é tão jovem que o envelope era (ainda) daqueles envelopes que se usavam para o correio que era enviado por avião. No tempo em que os gramas se convertiam, se nos descuidássemos, em escudos suplementares. A beleza do envelope foi, logo, estonteante. Já não via um envelope daqueles há décadas, com as bordas simetricamente atravessadas por pequenos traços oblíquos, alternadamente azuis e vermelhos. O aspeto do sobrescrito era, desde logo, um tratado de bom gosto. Ainda me detive alguns largos segundos a observá-lo. Na parte de dentro uma missiva simpática, exagerada, uma opinião sobre algo que escrevi e de que o meu amigo gostou.

Decifrar a caligrafia de alguém, hoje, parece um ato de profunda arqueologia. Mas essa tarefa, de tão inusual, chega a ser surpreendente. Quando lemos uma letra de tipografia ela não tem segredos, é aquilo. Quando lemos a letra escrita ela diz sempre mais qualquer coisa. Inclina-se, suaviza-se, altera-se e hesita, zanga-se como nós nos zangamos por vezes. As palavras não são apenas palavras, mas uma extensão viva de quem as escreve e de como as escreve. O meu jovem amigo, médico reformado, tem, afinal, uma letra de médico que não despacha, que acaricia, novamente, como quando, em criança, ia ao seu consultório médico.

Numa particular gaveta guardo a correspondência de anos, que resistiu a todas as decisões de arrumação. Cartas de amor, cartas de amigos, cartas de nós por cá todos bem, espero que por aí também. Ao revisitá-las sinto, sempre, a essência do tempo e a ternura que ele, por vezes, encerra.

 



No passado sábado, na Pastelaria Ribela, assisti a uma iniciativa cujos vestígios da sua existência são tão arqueológicos como as cartas escritas. O coletivo que pensou e organizou conversas sobre a cidade, o seu passado, e sobretudo o seu futuro, foi buscar ao baú do tempo uma ideia simples: convidar pessoas e pô-las a conversar sobre um tema específico. Trocar ideias.

Na conversa estavam comerciantes vimaranenses que falaram sobre a cidade, sobre as suas perspetivas, desilusões, anseios. Que discordaram, que concordaram, que deram a sua perspetiva sobre um presente que se inebria com distinções, esquecendo que essência desses títulos vem da história de quem constrói a cidade e não de quem a normaliza e a torna igual a tantas outras. Estava a alma da cidade rebelando-se, por vezes, contra o corpo que se modifica e que a esquece, como se o corpo pudesse prevalecer sobre a alma. Estava lá quem constrói a cidade, quem resiste, pelo seu trabalho, em manter vivo o comércio que a singulariza. 

Aprendi muito nessa hora. Aprendi, sobretudo, que me devo deixar de armar em moderninho e fazer a minha parte enquanto consumidor, ajudando a cidade a ser cidade e não uma girândola de lojas que se encontram em qualquer lado. Aprendi que há muito a fazer, e depressa, antes que tudo isto seja uma lembrança e não a realidade.

Aprendi, sobretudo, que a conversa e a discussão fazem muito mais sentido, e tem sobretudo mais propósito e eficácia, do que o lixo ou a futilidade que nos ocupa os sentidos através das redes sociais.

E há que rapidamente valorizar aquilo que nos torna humanos, antes que o nosso grande amigo e confidente seja um robot IA do Elon Musk, made in China.



“... lembro-me que julgava poder arrumar metodicamente os meus desejos e os meus sofrimentos, como se arrumam objetos na gaveta de um móvel. Há na renúncia dos vinte anos uma embriaguez amarga.”

Marguerite Yourcenar. Alexis. 1929.


Pinturas (de cima para baixo):

Jovem Marinheiro (1906) . Matisse.

Bartolomeo Bianchini (1943-45). Francesco Francia.

Conversa (1935). Anton Lakhovsky

 

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