A MORTE DA MELANCOLIA
A depressão ocupou o espaço da melancolia. Matou-a como predadora implacável que é e recorreu aos fármacos para esquecer tão vil assassinato. Eu sou de uma geração ainda dada à melancolia, ao vazio sereno que ela convoca. Os escritores do século XIX, em especial os franceses, construíam os seus romances à volta de personagens melancólicas. Os poetas portugueses do início do século XX, o Pessoa, o Sá-Carneiro, transbordavam de melancolia e a sua poesia tinha essa indefinição de alma. Creio que quando as sociedades se foram tornando progressivamente febris, do tudo ou do nada, do sim ou do não, sem qualquer espaço para a nuance, sem espaço para o talvez, para o não sei, a raça humana perdeu a paradoxal força poética da melancolia. A febre da realidade, ou pelo menos de como a realidade é percecionada, leva a estados antagónicos em que a febre domina: a excitação febril da certeza ou a funda depressão do ser-se incompreendido, do ser-se só. O utrora, por paradoxal...


