A GAVETA
S into que tenho a sorte do tempo. Passar a adolescência com a revolução do 25 de abril a iniciar-me nessa categoria etária e terminá-la no auge da louca e transformadora década de 1980 não é um privilégio arduamente conquistado, é um acaso feliz. Uma sorte que só a militante boa-disposição de quem viveu esses anos fez por merecer. A adolescência continua a ser uma idade maravilhosa de descoberta, sempre o foi, mas igualmente um período problemático em que nos construímos a nós próprios e nos queremos encaixar no sítio certo. O atual excesso de informação, a maior parte dela meramente especulativa e mentirosa, providencia um conjunto de gavetas morais e de identificação que alteram a saudável inconsequência e laxismo normativo do adolescente. Na minha altura as gavetas seriam muito poucas e triviais, alto/baixo, gordo/magro, alternativo/beto, caberiam num daqueles móveis montáveis do IKEA, dos mais pequenos. No momento atual penso que a Biblioteca de Alexandria não teria estantes...


