OS PROVÉRBIOS NOSSOS AMIGOS

 


O provérbio, a frase curta e direta nela contido, é algo que atravessa o tempo e caracteriza a humanidade e a cultura própria de cada povo. Há-os portugueses, há-os chineses, egípcios, ingleses e cada cultura terá os seus. O Livro dos Provérbios, que faz parte do Antigo Testamento, é um livro bíblico baseado em frases mais ou menos simples, mas sobretudo marcantes, que tendem a constituir uma espécie de “etiqueta de boas maneiras” e de ensinamentos diretos para aplacar o erro. Diz-se que remontará aos ditos sábios do Rei Salomão e à necessidade de escrever essas sentenças escritas sobre a vida e as legar para a posteridade. Pode ter sido assim. As várias culturas adotaram esse género de comunicação baseada num ou mais ditos que por ter atravessado gerações, incólumes, ganharam um estatuto de verdade.

Atualmente é raro lerem-se ou ouvirem-se provérbios. É uma pena, diria. Eu quando era pequeno fartei-me de os ouvir e, creio, os meus livros da instrução primária estavam pontuados por esses ditos. O provérbio era um conselho e ao mesmo tempo terminava uma lamentação de forma lacónica: meu caro, água mole em pedra dura, tanto dá até que fura, há que continuar a batalhar. O provérbio não estendia a conversa, terminava-a. Apesar dos provérbios serem, entre eles, incoerentes, já que é precisamente da discussão que nasce a luz.

 




O provérbio sempre foi uma espécie de psiquiatra de bolso. Quando não havia ainda muita gente disposta a ouvir os nossos problemas pessoais, e a fazer-se (e bem) pagar por isso, havia sempre um amigo que nos atirava vão-se os anéis, ficam os dedos. Pois, na realidade, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. E não há nada mais direto ou prático do que isto. Para que estou eu aqui a lamentar a minha vida quando é precisamente pela boca que morre o peixe. Se eu falar muito dos meus problemas vou mesmo afundar-me neles pois o cântaro a ir à fonte assim tantas vezes, vai acabar por se partir.

O provérbio é grátis. Acumulou séculos de experiência, foi testado, foi usado nas circunstâncias mais difíceis já que em tempo de guerra não se limpam armas, e resistiu. Mas está a definhar, a desaparecer. Já não se usa tanto. E é pena.




Há provérbios de que gosto muito. O enquanto o pau vai e vem, folgam as costas é dos meus preferidos. Há um cinismo otimista na sentença: concentra-te no alívio e não no martírio! A utilidade prática do mais vale um pássaro na mão do que dois a voar é um ensinamento clássico e tremendamente útil, para não cometermos o erro de termos mais olhos do que barriga. Há muitas vezes humor na apreciação às pessoas, gosto particularmente do desconfia do homem que não fala e do cão que não ladra. Do cão tenho essa experiência ... e do homem também.

Dos chineses há também muitos, bons e vastos provérbios: não compense na ira, o que lhe falta na razão. Bem aplicado a certas correntes políticas atualmente em alta e que se devem combater através de outro provérbio chinês: seja lento na promessa e rápido no desempenho. Mas o melhor dos chineses é a importância que se dá ao exemplo da vida de cada um: ao morrer o leopardo deixa a sua pele, ao morrer o homem deixa o seu nome. Acredito que tal provérbio não seja muito popular nas associações de defesa dos animais...

 




Podiam certamente fazer-se longas e frutuosas conversas só com provérbios, evitando a maçada da retórica própria. Ó Joaquim faz como ele quer, cada macaco no seu galho, se ele quer assim faz assim, albarda o burro à vontade do dono. Tens razão Manel quem sabe calar, evita guerrear, e de mais a mais, há males que vêm por bem, vamos comer e beber qualquer coisa que a vida são dois dias. Peixe não, que peixe não puxa carroça.

No entanto há-os um pouco estranhos, apesar de sobreviverem no tempo. A mulher e a sardinha querem-se da mais pequenina é um deles. Com a sardinha concordo, com a mulher nunca pensei assim pois sigo, coerentemente, o provérbio os homens (e também as mulheres, acrescento) não se medem aos palmos.


 



O provérbio pode não estar na moda, mas a sua utilidade é indesmentível. É prático e simples e deixou de se usar, pois as pessoas acham que conseguem dizer coisas mais importantes do que estas, testadas há séculos e séculos. Mas presunção e água benta, cada um toma a que quer. E eu como sei dos provérbios que vozes de burro não chegam ao céu, guardo-me para daqui a um mês, pois a boda e batizado não se vai sem ser convidado e, meus caros, cada um é (mesmo) para o que nasce.

 



“O sábio escutará e aumentará a sua experiência e o inteligente alcançará competência, para compreender o provérbio e a alegoria (...)

Livro dos Provérbios (1:5)


Publicado in O Comércio de Guimarães a 4 de março de 2026

Imagens de Pinturas de Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918)

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