QUE ACONTECEU ÀS GRÁVIDAS?
A gravidez é das coisas mais bonitas que há. De repente, quase sem percebemos bem como a coisa funciona, estamos com a nossa mulher grávida e compramos livros sobre o processo. Com conselhos que, diga-se, rapidamente esquecemos se houver alguma aflição.
Eu sou da geração que ficou entalada entre os pais que só se interessavam pelo assunto quando o bebé já tinha nascido e estava limpinho, que mudavam de quarto para não ser incomodados pelo choro da criança, e os novos pais que de tanto acompanharem o processo, chegam a ter depressão pós-parto. Bendigo a sorte de ter estado entre os extremos da indiferença e da esquizofrenia parental.
Mesmo assim, confesso, não me portei à altura conveniente. Desde logo porque a minha primeira filha decidiu nascer quando o jogo Brasil-Holanda (do Mundial de 1994) estava equilibrado e poderia ir a prolongamento. A minha paciente mulher avisava-me que lhe parecia (não tinha a certeza, pois era a primeira vez) que estava na hora e eu pedia-lhe só mais um bocadinho de tempo, pois o jogo estava renhido. Mas ao minuto 81 o defesa Branco marcou o 3-2 e lá fomos nós.
A minha mulher teve azar pois, nesse sábado à noite, não havia epidural. Outros tempos. Teve, assim, que aguentar (com toda a galhardia) as dores completas de um parto natural, logo no primeiro filho para ficar animada para os que viriam a seguir. Eu, entretanto, vim a casa, calmamente, buscar livros para me entreter no processo, julguei poder ler a Montanha Mágica na espera, pois a minha egoísta ignorância achou que aquilo seria para muitas horas. Mas não foi, e quando lá cheguei já tinha um bebé lindo à procura de conquistar o mundo. Uma imagem inesquecível que ainda hoje retenho vívida na minha memória.
Lembrei-me deste assunto, pois estou verdadeiramente preocupado pelas grávidas terem saído das notícias, desde o início da guerra com o Irão. Será que já não há mais nascimentos? Será que o SNS, na parte da obstetrícia, arranjou soluções eficazes e desapareceram as urgências fechadas? Os partos na ambulância?
Não creio, sinceramente, que o conflito no estreito de Ormuz tenha levado a que as grávidas em Portugal prolongassem, por artes divinas, o tempo de gestação. Será que com a assinatura do acordo de paz entre o Irão e os Estados Unidos tudo vai recomeçar?
Não sei, sinceramente. Na verdade, por mais que os órgãos de comunicação social jurem distanciar-se das redes sociais, acho que a notícia se cristalizou na desgraça, por mais polígrafos que inventem.
O critério jornalístico e o algoritmo das redes sociais já não diferem muito entre si no resultado final. É preciso pôr a tónica na desgraça, pois é a desgraça e o mal dizer que captam a atenção do espectador. E quanto mais se olha para a ferida e não para o corpo todo, mais o mundo se nos afigura sem alternativa e com ademanes radicais. Por impotência, por descrença, creio.
É necessário algum trabalho para fugir desta espiral da desgraça. Compro e leio jornais, espreito as notícias televisivas (apesar de tudo), mas, na verdade, é preciso um esforço suplementar para encontrar alguma paz sobre o país em que vivemos. Alguns podcasts têm essa função. Como há milhares deles é preciso paciência e critério para os procurar. O 45 graus, de José Maria Pimentel, é um desses bons exemplos, pois trata os assuntos com profundidade e cuidado.
Ao ouvir o último, com uma economista portuguesa que trabalha numa universidade britânica, na área da economia da saúde, reconciliei-me com o nosso SNS sempre metralhado pelas notícias e pelos maus exemplos, nunca se falando dos bons, ou de aquilo que se vai alcançando.
Um país que como o nosso tem recursos limitados à riqueza que consegue produzir, mas tem índices de saúde que nos colocam entre os melhores no mundo. Temos serviços de cuidados de saúde primários que vários países europeus (muito mais ricos do que nós) não têm. Temos uma rede de farmácias absolutamente incrível que leva alguns cuidados de saúde (pelo menos aconselhamento) a áreas recônditas do país. Temos cuidados de saúde universais que poucos países têm. Temos agregado ao SNS um conjunto de prestadores privados complementares, o que noutros países não existe, ou está entregue quase exclusivamente aos privados. Temos uma esperança média de vida grande e essa mesma boa notícia pressiona os serviços do SNS, constantemente, mas por bons motivos. Temos um plano de vacinação que vai resistindo às loucuras negacionistas e tem a adesão dos portugueses, quando, em Inglaterra, já morrem hoje crianças com sarampo (o que já não acontecia há décadas na Europa).
Quando eu nasci morriam até ao 1 ano de idade, em Portugal, cerca de 90 crianças em cada mil, hoje morrem apenas 3 (o que coloca Portugal nos 15 melhores países do mundo, à frente da França, de Israel, da Austrália, da Alemanha, da Inglaterra e muito à frente dos Estados Unidos). Safei-me. Na altura em que nasci uma em cada 100 crianças recém-nascidas estavam condenadas, hoje isso verifica-se apenas em uma por cada 3.000 nascimentos.
Olharmos para aquilo que fazemos de bem, para aquilo que evoluímos em vez de nos deixarmos arrastar na espiral da desgraça dará, creio, alguma saúde. E bem dela precisamos, agora que, pelos vistos, a guerra acabou.
No entanto, vão começar os incêndios. Preparem-se.
“No momento em que o Director da Incubação e do Condicionamento entrou na sala, trezentos fecundadores, curvados sobre os seus instrumentos, estavam mergulhados [no] silêncio...”
Aldous Huxley. Admirável Mundo Novo. 1932.
Publicado in O Comércio de Guimarães a 24 de junho de 2026
Imagens: Charlize Theron em Tully (2018), Vanessa Kirby em Pieces of a Woman (2020) e Sophia Loren em Ontem, Hoje e Amanhã de Vittorio De Sica (1963)


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