A GAVETA
Sinto que tenho a sorte do tempo. Passar a adolescência com a revolução do 25 de abril a iniciar-me nessa categoria etária e terminá-la no auge da louca e transformadora década de 1980 não é um privilégio arduamente conquistado, é um acaso feliz. Uma sorte que só a militante boa-disposição de quem viveu esses anos fez por merecer.
A adolescência continua a ser uma idade maravilhosa de descoberta, sempre o foi, mas igualmente um período problemático em que nos construímos a nós próprios e nos queremos encaixar no sítio certo. O atual excesso de informação, a maior parte dela meramente especulativa e mentirosa, providencia um conjunto de gavetas morais e de identificação que alteram a saudável inconsequência e laxismo normativo do adolescente. Na minha altura as gavetas seriam muito poucas e triviais, alto/baixo, gordo/magro, alternativo/beto, caberiam num daqueles móveis montáveis do IKEA, dos mais pequenos. No momento atual penso que a Biblioteca de Alexandria não teria estantes suficientes para tantos tipos e subtipos de adolescente, para tantos e tão diversos tipos e classificações em que todos, em geral, se apressam a engavetar-se, como se isso fosse mesmo necessário. E a angústia aparece, claro.
A minha geração, agora sexagenária, apanhou revoluções bem mais importantes (digo eu) do que a atual disrupção da Inteligência Artificial. E aguentamos tudo sem tergiversar, sem queixume. A realidade era sempre nova: mas privilegiava-se a curiosidade ao medo.
O 25 de abril, a intensa liberdade, as manifestações, os desenhos animados checos. Depois a cor na televisão, que deu a ideia de sairmos das catacumbas da TV, a fotocopiadora, que revolução tecnológica redentora e útil, a entrada para a CEE, pela qual nos pelávamos há anos. Acompanhamos, assim, o estabelecer de algumas regras que, quando cumpridas, nos deram uma sensação de termos vivido, até então, numa espécie de aldeia dos macacos, sem o sabermos. Em 1982, por exemplo, criminalizou-se a condução sobre o efeito do álcool e descriminalizou-se a homossexualidade. Ver o óbvio e agir sobre o óbvio é verdadeiramente revolucionário: ora vamos penalizar os borrachões que põem em causa o bem-estar dos outros e deixar de chatear as preferências sexuais de cada um. Simples e inteligível. A chegada da Coca-Cola em venda livre em Portugal, em 1977, que apenas havia sido permitida por breves anos, entre 1929 e 1930, e deixado a Pessoa a pérola publicitária do “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, substitui aquela bebida que dava, igualmente, para desentupir sanitas: a Spur-Cola.
As marcas e modelos comuns foram também um “problema” para esses adolescentes. Na roupa sobretudo, pois vivemos no epicentro da intensa revolução que condenou a costureira e erigiu a luminosidade do pronto-a-vestir e das marcas internacionais.
A roupa tinha então um preço absurdo. Comprar umas calças de ganga revestia-se da solenidade de adquirir hoje um carro, ou um anel de noivado. Era um compromisso para anos, se não crescêssemos demasiado, claro. E os guarda-fatos tinham a tranquilidade de organização que há décadas desconheço. Um bom guarda-fatos albergava a roupa do pai e da mãe, e nas famílias mais remediadas dava ainda espaço para os filhos. Uma consciência ecológica avant la lettre.
Com preços tão proibitivos a economia paralela apurou-se de forma extraordinária, e muito imaginativa. A contrafação não era perfeita como é hoje em que a etiqueta, o design e o tecido são os mesmos dos originais, ou praticamente os mesmos. Naquele tempo havia alguma vergonha e a intuitiva cândida noção de que se o nome não fosse exatamente o mesmo, se escapava à coima. Lembro-me dos jeans da Louis, em vez de Lois, das camisetas Lacroste com um crocodilo famélico, das sapatilhas Mike com o logótipo invertido, das calças Levis em que apóstrofo se subtraía e isso fazia toda a diferença. A contrafação tinha nível. Não enganava deliberadamente. O engano, assumido, dependia de quem comprava, não de quem vendia. Não era propriamente uma mentira, era um truque.
A contrafação tinha humor. Já não o tem hoje. O mundo está exageradamente igual pois a contrafação é demasiado perfeita.
Aparece Trump e logo surge a sua contrafação múltipla e perfeita - disparates planetários aplicados a diferentes países e realidades-, com a mesma retórica, o mesmo dislate, a mesma baixeza. Vem outro iluminado qualquer chamar de fascista a quem não pensa como ele e logo tudo corre atrás, com energia furibunda da turba que quer assistir a mais uma queima inquisitória. Tudo na sua gaveta. Estanques, alinhadas e opostas como gavetas de cemitério.
A vida ganha muito mais interesse se espreitarmos na gaveta do outro, com curiosidade. É sempre novo, é sempre diferente da nossa própria gaveta. Transgride-se e aprende-se. Sai-se do sítio e isso é absolutamente necessário. Não na geografia, mas na cabeça de cada um.
“O que é afinal uma boa mentira? É, simplesmente, aquela que equivale à sua própria demonstração. Se um homem for pouco imaginativo para fabricar provas que suportem uma mentira, mais vale dizer logo a verdade.”
Oscar Wilde. A decadência da mentira.1891.
Publicado in O Comércio de Guimaraes, 30 de setembro de 2026
Imagens de pinturas de John Brack (1920-1999). DE cima para baixo: Colin St. 5pm (1955), Retrato de Fred Williams (1980), Duas datilógrafas (1955) e O Bar (1954).

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