sexta-feira, 15 de abril de 2016

Empatia

“Dão-me oiro. Muito oiro. Mas não tenho o direito de o gastar. (...) Pagam-me para ter remorsos em vez deles.”
Boris Vian. O arranca corações. 1953.

Durante demasiado tempo confundi duas palavras muito similares na fonologia (mas só isso): simpatia e empatia. Talvez pelo facto da segunda ser muito pouco utilizada, sempre que aparecia achava que ela se tratava de uma variação semântica da primeira. Nada mais errado e nada mais distinto. A simpatia é a nossa capacidade em sermos agradáveis para com os outros, enquanto a empatia é a nossa capacidade para entendermos os outros, de nos colocarmos na pele de alguém distinto de nós, de termos a capacidade de sentir o que o outro sente. A simpatia – mesmo a verdadeira – é superficial, enquanto a empatia tem a força do sentimento que é, e um sentimento é uma coisa séria, ponderável, significativa.




A simpatia é um exercício de personalidade fundamental para vivermos em comunidade. A simpatia é trabalhável e alimenta-se das respostas positivas que temos quando o somos, quanto mais positivas são as respostas mais a simpatia se afina, se esmera, é uma atitude puramente intelectual. No entanto ser simpático cansa, e isso é algo que os não simpáticos nem sequer sonham. Há os não simpáticos comuns, que não têm pachorra ou arte para serem simpáticos, e os extremistas, aqueles que fazem gala dessa não simpatia: os antipáticos, aqueles que transformam o seu mau feitio numa afirmação, que se julgam os verdadeiros. Cavaco é antipático, Marcelo é simpático. Rui Vitória é simpático, Conceição é antipático. O que não faz necessariamente melhor o simpático que o antipático... tão só que preferiríamos jantar com o simpático.




A empatia está num outro nível: é uma emoção.
O empático é absolutamente necessário, faz mover o mundo na direção certa. Churchill foi o líder mais empático do século XX. Cuidou de forma irrepreensível da liberdade do povo britânico, da nossa própria liberdade. Contudo não teve a dose necessária de simpatia para ser imbatível na democracia que ele próprio defendeu como ninguém. Tiques (talvez) da sua aristocracia necessariamente não simpática.
A simpatia dos outros é fácil de perceber, a empatia não, demora tempo e requer uma situação.
Há pessoas que têm a capacidade de ser as duas coisas. Outras que não têm a capacidade de ser nenhuma e – a maior parte – quem vai tendo uma mistura própria de simpatia e empatia.




Como podemos então distinguir todas estas variantes?
Vejamos a seguinte situação: então como vai a vida? e a resposta é vai mal, tenho um cancro no duodeno! A contra resposta pode ser, a este nível, elucidativa.
O simpático dirá, após profilática pausa: olha que no duodeno não é assim tão grave, tenho um tio meu que se safou. Vais ver que com o necessário acompanhamento ainda nos vamos rir disto. Aparece logo em minha casa, vamos espantar o mal.
O não simpático fica aterrado e dispara automaticamente: gostava imenso de continuar a falar contigo, mas tenho a minha filha à espera: as melhoras.
O antipático não terá dúvidas e afirmará com extraordinária convicção: porra pá, estás-te sempre a queixar. Sempre tu, sempre tu, e eu que tenho uma gripe que não me larga há semanas?
O empático puro sofrerá em silêncio, dirá pouco e tudo fará para indicar o melhor médico e disponibilizar-se para qualquer iluminada conversa sobre o sistema gastrointestinal.
Na Europa atual temos também essa paleta a propósito da crise dos refugiados. Nós, os gregos e os italianos, além de simpáticos somos profundamente empáticos, dói-nos ver o que se passa. Os alemães, em especial a Sra.Merkel, são igualmente empáticos, só que sem a nossa dose de simpatia. Os polacos, os húngaros, os ingleses são antipáticos sem nenhuma empatia. O resto da malta são apenas simpáticos e suficientemente inventivos para venderem/comprarem o problema à Turquia.




A empatia não tem sequer direito a um antónimo na prolífica língua portuguesa, como a simpatia o tem na antipatia. E não o tem por manifesta falta de uso.

À minha tia Fatinha, a empatia em forma de pessoa.



Publicado in O Comércio de Guimarães (13.04.16)