quarta-feira, 24 de julho de 2013

O DIA V




“O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.”
Álvaro de Campos. Poesias. 1928.


A possibilidade de pensarmos uma ideia é algo de fantástico. Afastarmo-nos do nosso lado animal e instintivo, das características gregárias e comuns tributárias de milhares de anos de evolução, é algo de particularmente excitante e sempre novo. A ideia, ter uma ideia, desenvolvê-la, concretizá-la, partilhar essa ideia e reconstruí-la na combinação de várias criatividades, é um arbítrio de alma. Assim surgem os melhores exemplos musicais, as mais profundas descobertas científicas, a roda ou o fogo, os melhores pratos, a teoria de Darwin ou a poesia de Pessoa, a moda, a arte ou o jogo, o cinema, o ser-se romântico, ou seja grande parte daquilo que, a par da beleza natural das coisas, faz valer a pena o biológico ato de existir.

O DIA V, exposição fotográfica que se inaugura na próxima sexta-feira, pelas 18h00, no Palácio do Centro Cultural de Vila Flor, é uma ideia, certamente não tão grandiloquente e determinante como as referidas no parágrafo anterior, mas uma ideia nova e fresca sobre um tema possivelmente estafado como o do futebol e dentro deste, em particular, sobre um clube: o Vitória. A novidade foi a de deslocar, no glorioso dia da final da Taça de Portugal, o interesse fotográfico do campo para as bancadas e para os adeptos. As estrelas da exposição fotográfica, e do magnífico livro que a irá suportar, não são os que estão no campo a construir pelos golos e pelo esforço o resultado, mas aqueles que fora do campo o sentem, o perseguem, o choram. De certa forma também o construíram e também o determinaram com a sua paixão e dedicação, com uma esperança sem limites que encheu o ar do estádio nacional de um sentimento ao mesmo tempo de pertença e de desejo. O foco da exposição é também a viagem, o farnel, o convívio que apesar do nervoso miudinho também se fez, e o regresso mais feliz da nossa história como vitorianos. A vitória nunca foi o propósito da ideia inicial, nem o poderia ou deveria ter sido. A vitória foi um bónus feliz do destino que se quis, assim, associar à exposição d’ O DIA V.
Os fotógrafos Miguel Oliveira, Ricardo Leite e Ricardo Rodrigues trabalharam a sua arte de frente para os adeptos e de costas para o relvado. Não fotografaram o óbvio nem o acessório, nem qualquer coisa que ficasse no meio disso, fotografaram “apenas” aquilo que muitas vezes queremos explicar e não conseguimos quando falamos em paixão. Fotografaram o que está muitas vezes escondido das palavras, o infotografável friozinho na barriga, o sentimento de comunhão,  a lágrima interior, o ser-se vitoriano.
O jogo da final da Taça foi apenas um pretexto feliz para a ideia ambiciosa de guardar em imagem uma benigna doença com mais de nove décadas de existência. Implacavelmente genética e deliciosamente incurável.

Espero que a força da ideia trabalhada e partilhada por muita gente corresponda à sua materialização em exposição e em livro, e agrade às pessoas para a qual foi pensada e realizada. A tentativa fugir à vulgaridade e ao óbvio foi uma marca fundamental que agora se testará. Chegou a altura da ideia, com a provecta idade de três meses, nascer finalmente para a comunidade. A ideia nasceu e cresceu, como se saberá, na confluência das vontades e dos contributos da associação Muralha, do Cineclube de Guimarães e do Conselho Vitoriano. Foi uma soma aritmeticamente impossível. Foi para além das partes.
A ideia original, partilhada no estranho rigor criativo do Eduardo Brito, foi crescendo e derivando com o contributo de novas ideias e propostas, nas quais os fotógrafos se envolveram para além daquilo que se lhes pediu ... o que já era muito. O envolvimento da direção do Cineclube, e em particular do Carlos Mesquita, deu corpo e substância ao que agora se vai começar a mostrar. O apoio da Oficina e da Capital Europeia do Desporto foi também importante para a dimensão pública da ideia a que o meu amigo Júlio Mendes, presidente do nosso Vitória, embarcou com entusiasmo.
O DIA V, a Vénus de Milo ou o binómio de Newton são ideias. O eventual prazer de reparar nelas é nosso.
Não faltem à inauguração, e se faltarem não percam a exposição até 8 de setembro. E o livro! Boas férias.





Publicado in Comércio de Guimarães

terça-feira, 16 de julho de 2013

Rui tour de force



A etapa 16 do centésimo Tour de France foi, com inteiro mérito, para o ciclista português Rui Costa. Ganhar no Tour não é apenas ganhar uma etapa, é muito mais do que isso. Há ciclismo e há o Tour no topo desse popular desporto.

Rui Costa ganha a sua segunda etapa na mítica corrida francesa e o futuro certamente dirá de forma afirmativa que este poveiro poderá passar o número de vitórias de Acácio Silva (3) ou de Joaquim Agostinho (4, uma foi-lhe retirada por acusar doping).

O Público tem feito um excelente trabalho ao nos trazer, dia a dia, histórias destes 100 anos. Para quem não compra o jornal diariamente poderá ver algumas dessas histórias aqui.


Foto: Pascal Guyot/AFP


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Tenham juízo (?)





O Presidente da República, ao contrário das elaboradas e esquizofrénicas teorias da conspiração que tenho lido, tomou ontem uma decisão sensata.

Apesar de muita gente não querer dar conta disso o estado de necessidade do país é total, temos contas a pagar, temos compromissos a cumprir, temos uma credibilidade a recuperar, temos prazos e temos propósitos escritos, assumidos, necessários. E esse deverá ser o nosso objetivo comum, depois de tudo o que já passamos. O PSD e o CDS perderam infantilmente o crédito dado nas eleições, o PS está deslumbrado com o brinquedo novo mas assinou a situação em que nos encontramos, o PC e o BE perseguem com a coerência do costume a albanização do nosso país.

Cavaco arriscou por sensatez e poderá perder por falta dela nos partidos políticos sempre excitados com o poder mas pouco focados nas pessoas, nas empresas, no futuro do país.

A única coisa que falta perceber é se o juízo que Cavaco reclama aos partidos, tendo em conta os sacrifícios e dificuldades dos portugueses, existe mesmo.

terça-feira, 9 de julho de 2013

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A situação




Uma notícia secundária no jornal i de hoje prendeu-me a atenção pois ele corrobora a situação de degradação moral e de inimputabilidade a que o país chegou. Nela se relatava que há duas semanas o cidadão Vítor Gaspar acompanhado da mulher, numa ida às compras ao supermercado, sem serem acompanhados por seguranças, foram insultados e cuspidos por “populares”. O episódio revela muito mais do que um ato de má criação. Revela que um ministro, com uma sólida reputação académica e inatacável percurso profissional, que não precisaria de ser governante para ter uma vida impoluta e tranquila, não pode aguentar tudo. Não me custa imaginar que mesmo que o ministro se visse investido numa missão que abraçou com sacrifício a mulher lhe tivesse dito que chega. Chega de sacrifícios pessoais, chega de humilhações.
A par disto o facto de um reputado e inteligente jornalista ter chamado “palhaço” ao mais alto dignitário da nação perante o alheamento da justiça e o frémito prazenteiro de muitos portugueses, completa o quadro. Aliás os agentes da justiça comportam-se em muitos casos como atores e não como árbitros (e não falo obviamente da decisão do Tribunal Constitucional cuja opinião aqui deixei). Relembro que é dada ordem de prisão a um indivíduo que protesta por um juiz “dar o golpe” numa caixa de multibanco, mas chamar “palhaço” não é ofensa. Sê-lo-ia para qualquer um de nós, mas para Cavaco Silva não pode ser porque quem é chamado a decidir não gosta do Presidente da República. Tão simples e irracional quanto isso.
Chegamos a uma situação socialmente insustentável. Em democracia o voto, o protesto civilizado, a greve, a opinião, são direitos inalienáveis que muitos portugueses – cultos ou incultos – têm exercido com responsabilidade, enquanto a notícia são aqueles que desbaratam esses mesmos direitos em manifestações de jacobinismo inaceitável, prontamente saudados no exercício de ódio coletivo em que as redes sociais se vêm transformando. Aliás a comunicação social perde mais tempo em ouvir o popular arranhado pelo polícia do que em pôr a nu o ódio irracional e a necessidade de protagonismo dos “populares”.

A inabilidade de Passos Coelho ou o oportunismo maquiavélico de Portas não ajudam agora, neste quadro, a encontrar um rumo. Apesar de eu ter a noção que as eleições antecipadas seriam uma solução, apesar de má e penalizadora do país, compreendo que o Primeiro Ministro defenda que não pode ser ele a provocá-las e  que é na Assembleia da República que a sustentabilidade do Governo deve, ou não, assentar. Agora o que duvido é que neste caso de euforia destruidora alguém, com juízo e retidão, se disponha a ser insultado, vilipendiado e  maltratado por gente com responsabilidade na opinião pública ou pela imensa massa de justiceiros inimputáveis que grassa nos fóruns e redes sociais, ou até nos supermercados.

É ver alguns inacreditáveis comentários dos “bravos” comentadores que peroram sobre a notícia do jornal i.

A queda no poço ainda vai a meio.


Foto: i