quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A pessoa do ano

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A revista Time escolhe no final de cada ano, desde 1927, uma figura planetária a que dá o título de pessoa do ano. A história começou com a necessidade da revista semanal dar ao piloto Charles Lindberg o destaque que não lhe haviam dado, por erradas opções editoriais, nesse ano de 1927.

A tradição consolidou-se e ganhou o estatuto que hoje conhecemos. A escolha deste ano não é particularmente feliz quando tinham uma short list bem mais interessante. Eu teria escolhido o Bossão de Higgs ou mesmo Fabiola Gianotti como a revista preferiu.

No entanto a revista foca-se, quase sempre, na política americana e é usual que os presidentes, como é o caso, sejam eleitos, pelo menos uma vez, como personalidades do ano.

 

No entanto os acontecimentos também permitiram escolher ao longo destes anos outras “pessoas” (talvez as mais interessantes escolhas):

O computador: 1982.

 

O utilizador: 2006.

 

A terra ameaçada: 1989.

 

E grandes figuras:

Gandhi: 1930.

TIME Magazine Cover: Konrad Adenauer, Man of the Year -- Jan. 4, 1954

Konrad Adenauer: 1953.

 

Martin Luther KIng: 1963.

 

 

 

Gorbachev: 1987.

 

 

 

Churchill: 1940 e 1949 (personalidade do meio-século)

 

 

Ditadores:

TIME Magazine Cover: Adolf Hitler -- Apr. 14, 1941

Hitler: 1938.

 

TIME Magazine Cover: Joseph Stalin, Man of the Year -- Jan. 1, 1940

Stalin: 1939 e 1942.

 

Khomeini: 1979.

 

Até coisas mais mundanas como Wallis Simpson (1936) ou temas mais abrangentes e politicamente relevantes no globo como:

A revolta húngara (1956).

A luta dos operários polacos (1981)

 

Ou os protestos que marcaram 2011:

 

 

Ou os jovens americanos (1966):

 

sábado, 15 de dezembro de 2012

O escultor de Guimarães

 

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António de Azevedo foi um notável escultor que marca a paisagem citadina da nossa cidade como nenhum outro. São dele as delicadas esculturas do jardim da Alameda com o Fauno (1934) e a Rapariguinha que a ele se junta 8 anos mais tarde, permanecendo juntos desde então naquele espaço, continuando a dar um toque de beleza e harmonia ao jardim recentemente renovado. É dele o busto a Martins Sarmento, e todo o enquadramento em granito, no Largo do Carmo (1934) ao lado da casa do arqueólogo. É dele o monumento e o alto-relevo de Alberto Sampaio no Largo dos Laranjais (1956) e a estrutura em que assenta o medalhão de António Teixeira Lopes à memória do Gravador Molarinho na Feira do Pão (1935), bem como o medalhão a Torres Carneiro que encima a escadaria da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães. É dele ainda, em espaço público, o busto de Luís de Pina na Penha ou de Francisco Inácio da Cunha Guimarães em Pevidém. De modo particular as principais figuras de cidade nos anos 30, 40, 50 e 60 são esculpidas pelas mãos e sensibilidade do artista.

As esculturas de António Azevedo em Guimarães fazem mais do que marcar a nossa cidade, caracterizam-na e unem no olhar todas as gerações que conviveram e convivem com a sua obra plástica.

 

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O escultor é natural de Vila Nova de Gaia, adotando o Modernismo como escola, depois de ter vivido em Paris (1911-1914), uma cidade especial, sedenta de modernidade a que uma elite artística deu corpo.

A vinda do artista para Guimarães deve-se ao facto de, em 1931, ter sido convidado para ser professor e dirigir a Escola Industrial e Comercial de Guimarães, hoje Escola Francisco de Holanda. António Azevedo foi seu diretor durante os 27 anos seguintes ajudando a construir a reputação da Escola e a sua importância na vida económica e social de Guimarães.

Durante todos estes anos Azevedo não é apenas mais um, e desde cedo participa em Comissões independentes (não remuneradas) que marcam a vida cultural e estética da cidade. Pelas comissões que o escultor integrou passaram algumas decisões em momentos marcantes da cidade – tão importantes como o ano que agora acaba com Guimarães como Capital Europeia da Cultura – como o foram as Festas Centenárias de 1940 ou as Festas Milenárias de 1953.

 

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A importância deste homem na vida da cidade e da sua paisagem urbana será contudo pouco conhecida, pelo menos em termos de identificar as obras com o autor, apesar de a sua obra ser facilmente reconhecida pelo olhar de quem aqui vive, ou mesmo de quem nos visita.

Por isso, no âmbito do programa constelações (CEC 2012) a Muralha, associação de Guimarães para a defesa do património, o Cineclube de Guimarães e a Assembleia de Guimarães, decidiram pegar na obra do escultor, estudá-la e divulgá-la. Aliás, uma das instituições, a Assembleia de Guimarães é quem promove, a 26 de Junho de 1965, uma homenagem pública a António de Azevedo: a mais importante que em vida do escultor se lhe fez.

Assim a iniciativa promovida pelas três associações referidas - uma boa troica - pretende constituir-se como um novo olhar sobre a obra de António Azevedo, um olhar atento e admirado, que por agora se atém à publicação de um livro, um belo livro diga-se, escrito com carinho e rigor pela historiadora Rosa Maria Saavedra e olhado pela câmara fotográfica e sensibilidade artística de outro vimaranense, José Pastor, que interpreta em fotografia a obra do escultor, da qual se fará uma exposição.

O livro será apresentado de sábado a oito dias (dia 22 de Dezembro) no magnífico espaço da Assembleia de Guimarães, pelas 17h30min.

A entrada é livre e o preço de lançamento do livro será especial para o primeiro dia da sua apresentação. O livro é para quem se interessa por Guimarães e pela sua história e poderá constituir-se como um belo e oportuno presente.

António Azevedo, a sua mestria e sensibilidade, merecem o novo olhar que agora se estende pela sua magnífica obra.

 

 

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FOTOS por JOSÉ PASTOR

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Felicidade

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Esta magnífica fotografia ilustra a primeira visita de um presidente dos EUA à Birmânia e nela se vê o radiante abraço de Obama à Prémio Nobel da Paz Suu Kyi.

O Público faz dela a sua capa de hoje e bem. Perante tanta desgraça é bom ver o sorriso franco de um presidente feliz e a timidez resistente da extraordinária Suu Kyi. Tudo numa foto de Jason Reed da Reuters.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

América

“(…) cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente - que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção - que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação com a graça de Deus venha gerar uma nova Liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da terra.”

Abraham Lincoln. Discurso de Gettysburg. 1863.

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Os Estados Unidos da América constituem uma das mais fascinantes histórias políticas da modernidade e que merece uma especial atenção de todos os outros povos. As recentes eleições presidenciais americanas e a sôfrega atenção da comunicação social e dos governos dos outros países sobre essas mesmas eleições são a prova dessa asserção.

A América é um caso muito especial de não indiferença.

 

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A América é uma espécie de irmão mais novo da Europa Ocidental. A minha visão sobre a América é paternalista. Provavelmente de forma injusta mas em linha com a visão de muitos europeus que aliam a admiração pela vitalidade e rebeldia desse benjamim, à sobranceria anciã com que se olham essas mesmas qualidades.

Os povos que fundaram a América fundamental são europeus. Esqueço deliberadamente os povos nativos para me concentrar nos condenados ingleses, nos colonos britânicos, nos holandeses, nos franceses ou nos espanhóis que detiveram territórios naquilo que é hoje o estado federal americano. E mais tarde com os emigrantes italianos, irlandeses, portugueses e tantos outros. Uma forte comunidade negra (que só nos anos 60 viu o fim do segregacionismo nos estados sulistas) e uma cada vez mais numerosa comunidade hispânica completam um quadro complexo e fortemente multicultural que se revelou aliás decisivo na reeleição de Obama.

A América fez-se com sofrimento, revoluções e guerras como a maioria dos estados que conhecemos. Um país que fez da liberdade o seu lema e que é desde o final do séc.XIX a maior economia mundial só agora ameaçada pela República Popular da China. Mas, convenhamos, até nisto os americanos sabem escolher os seus rivais. O modelo de desenvolvimento chinês não contempla valores civilizacionais nos quais nos possamos rever.

O único rival económico de respeito seria a Europa comunitária se tivéssemos a energia e a lucidez de perceber na nossa história as potencialidades comuns e não as diferenças que temos. Diferenças essas que os diretórios políticos europeus teimam em eliminar em vez de as aproveitar como diversidades complementares. Ninguém, à exceção dos narcisos, consegue amar alguém igual a si. São as diferenças que nos apaixonam e nos tiram da melancolia pastosa da concordância.

 

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A América plantou-se na cabeça da minha geração não apenas por questões políticas, de defesa da liberdade e da democracia, ou para quem a detesta por questões de controlo político/militar e de liberalismo económico, mas também por questões culturais. O cinema desempenhou aqui um papel fundamental, já que na música (com honrosas exceções como os Talking Heads) a influência foi sempre claramente britânica.

O cinema americano produziu, e continuará a fazê-lo, muito lixo sem utilidade, assim como acontece com outras cinematografias. No entanto o cinema americano deu-nos e dá-nos ainda hoje América de sobra; deu-nos pelo preço de um bilhete a vida da América e a sua história (por Coppola, Scorsese, ou Leone que tiveram o condão de nos empatizar com os mafiosos), deu-nos de forma irrepreensível o caráter das suas gentes (por John Ford, pelo mal amado Elia Kazan dada a sua participação na caça às bruxas de Joseph McCarthy dos anos 40 e 50, ou pelo ultimamente pouco inspirado Clint Eastwood), deu-nos a crítica a si mesmos (Welles, Nicholas Ray, Altman), a beleza e a sensibilidade (Capra, Jarmush ou Paul T.Anderson), o divertimento inteligente (Chaplin, Hitchcock, Spielberg que estreia em Janeiro próximo um filme sobre o presidente Abraham Lincoln) ou mesmo o que está para lá e que não sabíamos (Kubrick), ou até a visão não americana da América (Milos Forman, Wim Wenders, Otto Preminger). O cinema é um dos grandes embaixadores da América e um dos responsáveis por conhecermos tão bem a América e os americanos. O cinema é a janela escancarada da América para a rua.

 

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Se as qualidades e a vitalidade da América são apaixonantes os seus defeitos são geralmente exasperantes. O moralismo hipócrita é um deles. O presidente Bill Clinton foi obsessivamente perseguido pelo seu maroto envolvimento com uma estagiária, as relações extraconjugais e preferências sexuais dos políticos são escrutinados até à náusea. O nosso encantador irmão mais novo, apesar da bazófia, continua ainda sem saber lidar com algo fundamental ao seu equilíbrio: a sua sexualidade.

 

Publicado in Comércio de Guimarães

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Segurança nacional

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Segurança Nacional (Homeland), uma série que passa na Fox, é juntamente com Downton Abbey a hora que vale a pena “perder” em frente à TV.

Segurança Nacional é uma série, já na segunda temporada, inteligente, plausível e a transbordar de suspense por todos os lados. Os atores são fantásticos (Claire Danes não tem adjetivação possível).

Nota: convém ver a temporada 1 de forma ordenada e depois mergulhar na 2!

Alívio

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Obama ganhou com o apoio decisivo e esmagadoramente maioritário dos negros e latinos americanos, mas ganhou.

Apesar das clivagens marcadas dos eleitores americanos entre o conservadorismo e o liberalismo, que garantem sempre votações consideráveis nos candidatos republicano e democrata, esta eleição foi renhida. A eleição não foi muito equilibrada do ponto de vista dos grandes eleitores (cerca de 100 de diferença) mas foi-o naquilo que representa o voto do povo (52% contra 48%).

Romney foi de longe o melhor dos candidatos republicanos apresentados nas primárias. Apesar da sua falta de coerência (mudou de posição de acordo com as plateias) ele era o mais “central” dos candidatos apresentados pelo Partido Republicano.

Obama tem mais uma oportunidade para mostrar o que vale. Para transformar em política a sua brilhante retórica. Esperemos que o consiga.

 

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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O elevador

 

Desde que me conheço sempre tive uma relação muito tensa com a altitude. Não chega a ser pavor - graças a Deus – mas apenas um formigueirozinho de medo que me leva, ao que penso fazer de forma disfarçada, a não me abeirar com particular entusiasmo das varandas altas. Por isso desenvolvi a estratégia de, quando estou num local alto, olhar para o horizonte ignorando de forma profilática o chão mais próximo. Há quem diga que a vertigem resulta de uma vontade doentia de nos atirarmos, nunca pensei nisso assim, apenas relaciono a vertigem com a possibilidade de cair e isso é já suficiente assustador para eu ficar na defensiva.

Não disfrutei da vista de Nova Iorque, como deveria, do topo do Empire State Building, nem inalei com o olhar, como se imporia, o majestoso Atlântico da Torre de Hércules na Corunha. Deixei de ver, com a calma que a beleza inspira, muita coisa, quando a visão implica a perspetiva abrangente de uma altura. E, pasme-se, também não vou particularmente confortável à Penha de teleférico. Mas vou, temos a obrigação de contrariar os nossos medos. Não estico muito a corda mas faço sempre o esforço para ir, nem que à força de alguns suores frios. O único sítio em que perdi a noção da altura foi na tropa, em Mafra, pois aí estava entalado entre o medo e a chacota do instrutor e dos camaradas. Aí já fui capaz de deixar em segundo plano a vertigem; há que ser bravo quando as circunstâncias não nos deixam outra opção que não o ridículo. E o ridículo, ou a ideia que eu faço de ridículo, é, para mim, mais desditosa que o medo.

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Os elevadores como um instrumento da altura merecem-me, também, algum respeito, mas apenas a partir do 5º ou 6º pisos. Consigo acomodar sem grande dificuldade menos que isso. Na esmagadora maioria dos elevadores, e relativamente à altura, o medo resulta de uma abstração pois não conseguimos ver para fora deles. Sentimos que estamos a subir pelo som do elevador, pelo tempo que ele demora a elevar-se, ou até pela concreta certeza dos números digitais no mostrador de serviço.

O jornal i, num dos seus interessantes artigos, citou na passada semana um curioso estudo de um tal Lee Gray, norte-americano investigador da Universidade da Carolina do Norte, sobre as relações sociais nos elevadores. Um aspeto curioso sobre o qual nunca tinha pensado …

Há efetivamente um conjunto de normas de conduta que resultam de medos diferentes daquele a que me vinha referindo. Desde logo a colocação das pessoas no elevador; um novo elemento coloca-se na posição diametralmente oposta ao elemento que já lá estava, um terceiro forma um triângulo e o quarto um quadrado, cuja norma é sempre a mesma a do máximo afastamento possível entre as pessoas. Um quinto elemento vai ter de ocupar a desconfortável posição central pois mais ninguém se move do seu canto durante a viagem.

Na verdade as companhias de elevador são invariavelmente companhias indesejadas. Afastamo-nos o mais possível, evitamos o contacto visual e geralmente fixamos o mostrador para evitar constrangimentos. Existe um protocolo de silêncio pois qualquer conversa seria inútil no tempo que demoramos dentro do elevador e todos os ocupantes, com chatas exceções, levam o protocolo muito a sério para evitar mais embaraços.

O elevador Portugal está-se a tornar mais do que embaraçoso. Está a ficar demasiado apinhado para que nos seja impossível evitar o contacto visual com os parceiros do lado e a ficar também demasiado pesado para nos dar a esperança de alcançar o piso que desejamos. Fechados dentro de uma caixa de alumínio começamos a perder a perceção do que se passa lá fora, e, mais grave do que isso, a perder a noção do piso para onde queremos ir.

No meio de um espaço sem referências o elevador Europa poderia levar-nos bem alto se o construíssemos e usássemos solidariamente nesta altura difícil. Mas não. Começa-se a construir o elevador Catalunha, o elevador Flamengo, e outros pequenos elevadores sem a dimensão de um verdadeiro e mobilizador projeto. Talvez o Nobel da Paz nos saiba mostrar tudo o que de bom se construiu até aqui e perspetive o quanto é ainda desejável construirmos no futuro. Em conjunto.

in Comércio de Guimarães

Fotos: darkroastedblen.com +  Buster Keaton (Safety Last, 1923) + s3.amazonaws.com

domingo, 14 de outubro de 2012

Com amigos destes…

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Berta Cabral, candidata do PSD às eleições regionais dos Açores, que hoje se realizam, foi a mandatária de Passos Coelho na sua região aquando da candidatura do Primeiro-Ministro à liderança do PSD. Hoje trata-o como um leproso e distancia-se da ação governativa do homem que de forma tão visível apoiou.

É isto compreensível? Até o poderá ser, agora que não é bonito não o é. Na política como na vida devemos ser compreensivos com os nossos amigos e apoia-los precisamente quando eles mais necessitam. Poderia, na minha modesta opinião, ganhar com a coerência aquilo que pretende ganhar com o calculismo político.

Uma das coisas que sempre mais gostei no meu partido é a sua liberdade. Não vemos no PS, nem os vislumbramos sequer, militantes como Pacheco Pereira que arrasam a ação governativa sem que nada lhes aconteça do ponto de vista partidário, e ainda bem. A liberdade é um valor fundamental da Democracia. A desconfiança do comentador em relação àqueles que sempre viveram nos corredores do partido foi verbalizada na corrida à liderança do PSD e é hoje por ele jogada na sua análise para explicar a fragilidade políca do governo.

Uma das coisas que sempre me irritaram no PSD – e nos outros partidos – é a falta de solidariedade, a falta de coerência em relação aos princípios e às pessoas.

Ovo de Colombo

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A atribuição do Nobel da Paz à União Europeia é de uma justiça tão clara que até dói. A Academia viu, este ano de 2012, o óbvio que tem escapado a quase toda a gente …distingui a União Europeia pelo seu contributo para a paz.

Este prémio surge, curiosamente, quando a União dá sinais claros de fraqueza, divisão e incerteza.

O grande projeto europeu que nos protegeu da guerra nos últimos 60 anos não pode morrer, nem definhar. Basta saber olhar para trás.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Já chega

 

FUTEBOL - makelele(esq)da academica durante o jogo entre as equipas Academica-V.Guimaraes da 6™ jornada da liga zon sagres no estadio efapel cidade de coimbra, dom. 07 Out 2012 FERREIRA SANTOS / ASF

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A vitória do Vitória ontem em Coimbra foi merecida, não obstante a forma como o segundo golo foi obtido e a minha vontade de ver a minha equipa vencer. Coube ao Vitória as melhores oportunidades e um querer superior ao dos academistas, nem sempre acompanhado, é certo, por uma técnica compatível com a determinação apresentada.

O que me continua a deixar triste é a forma raivosa se vê hoje o futebol. O facto das claques serem, regra geral, instrumentos de ódio que ontem em Coimbra culminou com ataques às camionetas de Guimarães.

Tenho uma relação muito forte com Coimbra – a cidade onde estudei – e durante anos acompanhei o meu Vitória no meio dos adeptos da Académica sem que alguma vez tivesse qualquer tipo de problema. E foram vários os encontros que vi. Não me converti à Académica – algo que não passa pela cabeça de qualquer vitoriano – e nem por isso deixei de ver futebol em Coimbra (mesmo com a Académica na segunda lembro-me de um jogo da taça em que fomos por ela eliminados).

Depois do caso N´Dinga as coisas mudaram. E num ano em que no campo a Académica ficou atrás do Vitória criou-se um estúpido mito que ainda hoje perdura em algumas cabeças mais tontas. E o ódio de muitos adeptos da Académica ao Vitória tornou-se um sentimento dogmático e nos últimos anos saí sempre do “calhabé” com a sensação que poderia ter terminado mal o jogo; não pelo resultado mas pela minha integridade física.

Por estas e por outras raramente acompanho hoje a minha equipa fora de casa. Já não vejo o Vitória em Coimbra há dois anos, este que é certamente um estádio onde mais vi jogar fora o meu clube. Não tenho paciência para o insulto, a ameaça, a agressão. E tenho pena que a Académica não fuja também a esta estranha anormalidade que, dia a dia, se torna normal e que corrompe o futebol que deveria de ser, acima de tudo, um espetáculo.

sábado, 6 de outubro de 2012

O teatro

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Perdi, infelizmente, o meu habitual otimismo no país e esse dia foi quando o Primeiro-Ministro anunciou as medidas da TSU. Não pelas medidas em si mas pela falta de envolvimento do país nessa decisão. Voltou atrás mudou as medidas e o país também não se envolveu … deixou-o sozinho a assumir as responsabilidades que são de todos.

Aquilo que eu chamei greicização está a acontecer. Dia após dia. As pessoas perdem facilmente a compostura que se lhes conhece e em períodos difíceis começam a disparatar em todas as direções e a fazer figuras tristes e a contribuir para o espetáculo de degradação da nossa vida cívica e política.

A começar pelos deputados do PC e do BE chamam-se de gatunos pessoas como Aguiar Branco, Paulo Macedo ou Vítor Gaspar com o ódio jacobino que as frustrações individuais sempre levantam em situações extremas. Aliás é verdadeiramente aí – nas situações difíceis – que se conhecem as pessoas, não é na farra ou na facilidade nova-rica que nos fez perder. E este é o ponto em que o caos começa e não demorará muito se os Aguiares Branco, os Macedos ou os Gaspar mandarem passear a cambada do ódio. Alguém duvida que isso lhes passa pela cabeça quando têm de fugir de um homem em aparente descontrolo que chama filho deste ou filho daquele a pessoas que desconhece, só para aparecer no telejornal?

Alimentamo-nos hoje deste espetáculo todos os dias. Não se discorda, agride-se. Não se contrapõem, esmaga-se. Como se tivéssemos liberdade para fazer escolhas inteligentes e sensatas…

O verdadeiro sofrimento não recorre à treta, esconde-se. Esconde-se envergonhado de um país sem solução, de um país de gente boa onde os malcriados ganham relevo … ou com novas e sempre frescas soluções daqueles que ainda há bem pouco sustentavam Sócrates como um deus.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Malta porreira

 

Não é difícil perceber as responsabilidades e erros do atual governo na condução política das medidas de austeridade. Mas não é igualmente difícil perceber que a situação insustentável a que chegamos em Portugal requer medidas concretas e difíceis e que pela sua dimensão não serão certamente isentas de erros. Não as tomar significará, suponho, o isolamento de Portugal em termos políticos, sociais e económicos com a eventual saída do euro e da união europeia.

Por isso espanta-me a candura dos responsáveis políticos quando dizem que não se pode cortar no apoio fundações, não se pode privatizar a Caixa ou a RTP, não se podem aumentar impostos, não se pode isto ou aquilo. E, estou certo, que quando o Governo começar (e terá que o fazer) a cortar nas PPP (apesar do imbróglio jurídico que tal decisão acarretará), virá sempre um “responsável” político de um planeta distante dizer que é absurdo cortar-se naquela PPP pois irá prejudicar seriamente a população de Saturno.

Assim não dá.

Louva-se no entanto a postura serena, realista e cooperante de alguns parceiros institucionais como a UGT que consegue ver para além da luta político-partidária.

sábado, 22 de setembro de 2012

Dérbie minhoto?

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A vitória do Vitória ontem em Moreira foi um resultado mais importante do que aquilo que seria espectável. À quarta jornada o Vitória, equipa frágil apesar de promissora, precisava de uma vitória para receber o Braga com outro ânimo e conforto. Consegui-o. De forma difícil, pois o Moreirense tem uma boa equipa que espelha a sua excelente organização e o bom trabalho de Vítor Magalhães, mas inteiramente justa.

Irrita-me chamarem, como a comunicação social o fez, a um dérbie vimaranense um dérbie minhoto. Talvez a partir de hoje começem a designar o Sporting-Benfica como um dérbie da Estremadura e não como desafio lisboeta.

Haja paciência para tanta ignorância, parte dela, diga-se, inteiramente propositada no sentido de fragilizar o Vitória e o trabalho hercúleo que está a ser feito. Um trabalho que só dará frutos se todos ajudarmos. A situação financeira é muito pior do que aquilo que o mais pessimista dos vitorianos possa imaginar. União, paixão e responsabilidade é o que se nos pede.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O difícil equilíbrio

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A histeria que se estabelece no mundo islâmico sempre que algum palerma decide achincalhar Maomé é uma verdadeira loucura.

Há uma semana atrás, em Bengazhi na Líbia, o embaixador norte-americano e mais três elementos do consulado foram brutalmente assassinado por uma turba de facínoras que emboscaram a representação norte-americana.

O pretexto foi um filme, com o qual os EUA nada têm a ver.

A intolerância tende a gerar intolerância e compreendo que, no Ocidente, tal selvajaria e a miríade de manifestações no Egito, na Indonésia, e noutros países muçulmanos, gere sentimentos de náusea perante tão primárias manifestações.

 

Mas vamos ter que ter paciência para nada fazer que “dê razão” aos promotores do ódio contra o ocidente. Tenho a certeza que a larga maioria dos muçulmanos são gente decente que espreita a oportunidade de viver em sociedades mais democráticas, livres e justas. Qualquer erro ocidental, mesmo que compreensível, isola-os.

E é esta paciência e uma infinita diplomacia que deve guiar, a Europa ou os EUA, neste campo de minas que existe hoje entre o Ocidente e o Oriente.

O tão criticado Bento XVI fez, no Líbano, uma parte simbólica, mas importante, na conciliação entre povos e religiões.

 

 

Foto_http://globalvoicesonline.org

Paixão

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O beijo Gustav Klimt (1908-09)

A paixão é uma palavra demasiadamente feia para encerrar tão forte e importante significado. É uma palavra com sonoridade de caixão ou puxão, ambas também horríveis. Uma língua tão bonita quanto a língua portuguesa não teve aqui a arte de arredondar delicadamente o termo latino passio para a rendilhada passione como fizeram os italianos, ou a delicada passion dos franceses. Já os espanhóis carregaram-na de intensidade na pásion, como é aliás seu hábito.

Não tivemos em conta a paixão dos gregos (pathe), que era o de sentir, seja lá o que fosse, e seguimos estritamente a passio latina que quer dizer sofrimento. Daí a aspereza da palavra.

No entanto enquanto povo latino que somos nunca consideramos a paixão como um mal. O sofrimento que ela induz é bom, é necessário. Achamos nós ser uma ventura imensa apaixonarmo-nos, mesmo que isso implique sofrer. Mesmo que isso nos desassossegue permanentemente. Tenho dúvidas até que se possa arrumar a paixão na classe dos sentimentos: o sentimento é uma consciência íntima, enquanto a paixão é uma inconsciência declarada.

A paixão tem prazo de validade. Se chegarmos a uma altura adiantada da nossa vida e nunca nos tivermos verdadeiramente apaixonado por ninguém, é melhor esquecer. O cinismo que se ganha forçadamente com a idade impede-nos de sentir a paixão. Torna-nos impermeáveis à loucura. Um afeto tão violentamente arrebatador exige uma perfeita forma física e uma imperfeição nas regras de comportamento. É uma pena, eu sei, mas é mesmo assim. A paixão tendo mais de doença – uma doença boa – que de sentimento. A paixão é sarampo, pois como o sarampo só se apanha uma vez. Fica-se imune aos restantes ataques. Condescendo aqui um pouco para duas, três em casos raros de grandes corações, mais do que isso não é paixão o que dizem sentir. É amor piegas. Serão afetos talvez, coisas quantificáveis portanto, nada mais que isso.

 

E se somos daqueles cuja sorte ou arte nos permite hoje trocar olhares com a nossa paixão, fiquemos aí. Pois passada a borrasca caótica da paixão, sente-se ainda, cuidadosamente, por baixo da aparência mundana, com várias mãos de tempo, o sorriso, o olhar, o recanto de pele, a expressão nos lábios que um dia julgámos que nos matariam … só de os olhar.

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Essa imagem está a correr nas redes sociais e alguns até consideram que se tornou um símbolo

Foto_José Manuel Ribeiro

 

Não me apetecia nada falar da realidade mundana. Além de ser chata, é triste. E ainda por cima de política!

(Apesar do meu processo de desintoxicação da política partidária ter corrido bastante bem – os médicos são nesse ponto unânimes – não há nada que mais me irrite do que a demagogia de atirar apenas para cima dos políticos tudo o que há de mau. Ninguém tem culpa de nada à exceção dos políticos, esses malandros! Quando a política precisa apenas que, à imagem do que fazemos em nossa casa, deixemos à porta os escroques. Nada mais.)

A comunicação do Primeiro-Ministro há uma semana atrás iniciou, estou em crer, e para muita pena minha, o processo de greicização de Portugal. O neologismo de ficarmos gregos.

Chegou a altura de rasgar as vestes agora, já que não são apenas os malandros dos funcionários públicos a penar! Só falta um bocadinho de violência policial para isto ficar au point. Falta sangue e vai havê-lo com certeza, é só esperar. Os jacobinos do costume, de tanto clamarem contra a passividade dos seus concidadãos, estão prontos a tomar a dianteira do ódio mas não a do realismo das soluções para a situação desesperada em que nos encontramos.

Passos Coelho ajudou a criar esta malfadada oportunidade pois perdeu grande parte do seu capital de credibilidade ao manter Miguel Relvas depois de tudo que se soube. Passos tinha crédito e decidiu proteger o lixo. Contaminou-se, e só não digo que “é bem feito” pois o assunto é trágico para o país. O irritante tom messiânico que Passos tem adotado para falar das más notícias, como se fosse a providência divina e não o raciocínio humano a ditá-las, fez o resto.

Se a estes passos da paixão/sofrimento adicionarmos a excitação juvenil de Seguro e a hipocrisia política de Portas é fácil adivinhar que nada de bom nos espera.

Valham-nos outras paixões.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Messianicamente falando

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Foto_Pedro Cunha (Público)

 

Mesmo considerando que a margem de manobra do país é, face ao alegre endividamento que fomos consentindo, praticamente nula, deixando assim o Governo no ingrato papel de mensageiro da desgraça, há algo que não vai bem…

Continuo a não duvidar da seriedade e caráter do Primeiro-Ministro e do seu Ministro das Finanças, começo a duvidar, isso sim, do realismo de cada um dos dois.

Insistir em medidas que por via da redução do consumo colocam a nossa balança de pagamentos em alta (pela primeira vez desde os anos 40), mas o défice e o desemprego em números desanimadores, começa a ser preocupante. A que acresce o tom messiânico com que falam, como se à imagem de Moisés Deus falasse diretamente com eles … e eles apenas se dessem ao trabalho de nos retransmitir essa mensagem divina. Assim não: democratize-se Deus!

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Verão quente

O Verão é feito para eu pôr a leitura em dia. Serve para outras coisas, mesmo assim.

 

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Eudora Welty, escritora sulista do séc.XX americano. Comprei A Filha do Optimista (1972) que lhe valeu o Pulitzer. Ofereceram-me na Bertrand O Coração dos Ponders (1954) como uma pequena oferta para uma grande compra. Adorei a oferta mais que a compra. Muito mais. O Coração dos Ponders (a capa que reproduzo é linda, a da Relógio d´Agua é de fugir) foi para a Brodway numa peça em 1956. Quão divertida deveria ter sido.

 

Às vezes resisto, como um casmurro. Valter Hugo Mãe não era bem uma resistência, era mais um espera aí.

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O filho de mil homens é genial. Vou ter que ler para trás. Que maçada. Fi-lo com Roth, para trás (Columbus) e para a frente (Nemesis). Pareceu-me menos triste nos dois e isso deixou-me triste e desiludido.

O elogio de Juan Marsé (Caligrafia dos Sonhos, 2011) feito por António Lobo Antunes, será merecido talvez. Eu não cheguei lá, como n’Água Viva (1973) de Lispector que adorei. Como me comoveram algumas das histórias do Tabucchi no livro de título feliz: O tempo envelhece depressa, 2009.

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Franzen merece, ponto por ponto, a fama que tem. Lê-se a zona de desconforto (2012) e torna-mo-nos seus amigos.

Estou farto, dizes bem

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Não fiques muito triste. Fica farto apenas e manda-os àquela parte como o fizeste agora.

Tu és Armstrong, força e potência, e ficarás para sempre na nossa memória como alguém que quando decidia partir … partia mesmo. Ninguém te seguia pois eras a força e a inteligência combinadas. Sabias quando atacar, não estavas ali para “te mostrar” como é habitual dizer-se.

LA 2000

Ficaste farto ao veres os teus colegas tentarem enxovalhar o campeão que és. Na estrada e na vida. Quantas vezes, Armstrong, falei o teu nome e descrevi o teu exemplo a pessoas que amei e que se iam na doença traiçoeira e persistente. Quantas.

Não és um campeão. Tu és o campeão.

sábado, 18 de agosto de 2012

Detestável #2

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Foto_Cesar de Cesare

 

Há países que deveriam ter direito a medalhas de forma a liberta-los de disparates mediáticos. O Equador é um deles. Não ganham medalhas e depois põem-se a dar asilo político a Assange: uma vil criatura que quer passar por salvador da humanidade.

Ah! a extradição é para um país não democrático, violador dos direitos humanos: a Suécia!

Detestável #1

 

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Putin é uma criatura incontornável. Entre o convencido e o asqueroso Putin encarna para mim o espírito soviético que com devoção odiei e cujo espírito castrador ainda hoje assoma nos regimes totalitários.

No entanto o caso Pussy Riot tornou-o menos detestável a meus olhos. Elas parecem-me incomensuravelmente piores. Como é possível que uma data de meninas com a mesma queda musical que um saco de batatas se achem bem no papel de resistentes por gritarem uma data de obscenidades anti-religiosas numa basílica de Moscovo para You Tube ver? Será liberdade o insulto gratuito e encenado a uma religião no templo que a representa? A intolerância religiosa não tem apenas um sentido!

Este caso – que tem mais de pussy que de riot – atrai os jornais como moscas e as múmias da pop. Bom proveito.

 

Foto_Aleshkovsky Mitya/ITAR-TASS

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Continua

A fantástica participação de João Silva no triatlo não lhe tirou o humor. Pelo contrário.

No final da prova este estudante de Medicina afirmou "Não sei se este nono lugar me dá equivalência a alguma disciplina de fisiologia do desporto ou alguma coisa. Caso não dê, vou ter mesmo de voltar a estudar."

Por mim dava-lhe a cadeira.

Foto_Público

Os corações da cidade

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Nascer em Guimarães é de há muito tempo algo que supera um simples milagre biológico, para quem nasce e para quem faz nascer. A história deste particular espaço físico, o amor tantas vezes misterioso que os antepassados deixam aos descendentes, obriga os vimaranenses desde muito novos a sentirem a sua naturalidade como uma ventura e não como um acaso. O mesmo também se passa aliás com quem escolhe Guimarães para viver e enobrece e alarga o conceito de vimaranense.

Tal orgulho manifesta-se de forma mais intensa quando estamos fora de Guimarães. Tudo se exagera e o orgulho na cidade é ostensivamente exibido à mais prosaica oportunidade. Estes exageros de sentimento espantam a maior parte daqueles que nos cercam e que têm uma relação mais vulgar e mais utilitária com as suas origens. A uns espanta, a outros irrita. Mas a nossa origem fica marcada em todos nós, mesmo quando a cidade nos maça. E essa invulgaridade marca-nos e define-nos.

Não deixa mesmo assim de ser espantoso a adesão entusiasta dos vimaranenses aos seus símbolos. O mais recente episódio é o da interpretação criativa do logótipo da Capital Europeia da Cultura (CEC) que nas lojas, nas escolas e noutras instituições foi feita por centenas, senão mesmo milhares, de vimaranenses. O coração amuralhado da CEC foi interpretado, com maior ou menor brilhantismo, com menor ou maior visibilidade, mas com indomável entusiasmo pelos vimaranenses. E isso só poderia acontecer aqui, numa CEC que se distingue precisamente pelo envolvimento da população, numa terra que mesmo longe da pujança económica que há décadas atrás nos caracterizava mantém o porte altivo.

A Muralha, associação de Guimarães para defesa do património apresenta este ano, no Pátio da Santa Casa da Misericórdia, Os Corações da Cidade, procurando materializar nessa exposição e na seleção que lá é feita, o entusiasmo que levou à construção criativa de um mosaico imenso e diverso de corações. A exposição fotográfica seleciona corações sem o objetivo de os valorar, não seria próprio nem justo. A exposição aumenta-os numa lona gigante para os libertar do arrebatamento que os moldou.

A entrada nesta exposição integrada nas Gualterianas é livre, pode ser vista desde a manhã até ao fim da tarde, e permite descobrir ou redescobrir o magnífico pátio da Misericórdia, ao lado da Igreja com o mesmo nome, no antigo largo de João Franco.

Na generosa programação musical destes meses de Verão, por entre o virtuosismo de Dee Dee Bridgewater e a competência de Pat Metheny, ambos na Plataforma das Artes, outros dois espetáculos encheram-me as medidas. Um deles, fruto do casamento entre a sensibilidade do Cineclube de Guimarães e o virtuosismo da Banda de Pevidém, juntou a música com o cinema: uma parceria vencedora feita com a prata da casa que tem mantido a cultura de Guimarães viva muito aquém da CEC e que irá muito para lá desta. Chegou a ser comovente ver as imagens de grandes filmes e a música que certamente muito trabalho deu aos músicos ser libertada na Praça da Oliveira. Um pequeno grande gesto prendeu-me a atenção: o maestro Vasco Faria pediu para retirar o palanque de onde dirigia a banda para que a sua sombra não interferisse com a projeção das imagens. Não seria necessário, mas o respeito pela imagem enobreceu a música e os seus executantes. Um outro maravilhoso concerto encheu o Vila Flor com a Orquestra Chinesa de Macau que fundiu a cultura chinesa com a portuguesa. Ouvir a guitarra de Carlos Paredes nas cordas de um liuqin é algo que perdurará na minha memória, pelo menos tanto tempo como a da magnífica voz de Carlos do Carmo flutuando na música da competente orquestra chinesa. E se as medalhas nos Jogos Olímpicos não parecem querer brindar, este ano, esta pátria milenar, que ela perdure magnífica nas culturas que abraçou ao longo da sua existência.

É bom que o nosso coração futebolístico esteja preparado para sofrer, compreendendo e apoiando esta equipa do Vitória. É possível que este ano as coisas não corram tão bem como o coração vitoriano deseja. Mas o banho de realidade que agora parece ser iniciado necessita da nossa paciência e apoio. Quanto mais não seja para nos libertar do mau-olhado e da sanha raivosa daqueles que sempre nos invejaram a dedicação.

Foto_Ricardo Leite

Publicado_O Comércio de Guimarães

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Fotos #2

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Em época de olimpíadas a fotografia de Dorando Pietri, exausto, cortando a meta na maratona das olimpíadas de Londres, mas em 1908!

Pietri seria desqualificado pela ajuda. O dramatismo da cena eleva o desporto ao estatuto de uma lenda.