quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A cidade



“(...) mas as cores misturam-se todas, até se esbaterem numa tonalidade pálida e uniforme, numa neutral ausência de significado.”
Paolo Giordano. A solidão dos números primos. 2008.

Sou um homem da cidade. Tenho tudo a ver com a cidade: gosto do movimento das caras, gosto da confusão, da luz artificial, e de gente, gente que por ser muita não interpela - passa simplesmente-, gosto do barulho, do trânsito que exaspera o coletivo, do inesperado que só acontece na cidade. A placidez dá-me sono. O silêncio absoluto da natureza aborrece-me profundamente na sua simpática previsibilidade.

Nunca me assustou – pelo contrário – a possibilidade de viver numa grande cidade. Não calhou simplesmente.
Aconteceu-me esta cidade pelo nascimento e por escolha de vida. Muito mais pequena daquilo que eu desejaria, ganhou na idiossincrasia o tamanho que geograficamente lhe faltou.


 


Gosto da arrogância da minha cidade. Do granito que se exibe com a altivez de um imperador, pois sabe ser mais que uma pedra ou uma arquitetura, pois cada pedra e cada arquitetura tem sempre uma história mais ou menos conhecida, mais ou menos fantasiada, que sustenta a confiança que a beleza tem de ter para se afirmar.
Gosto desta presunção – um pouco judaica – de povo escolhido. De não nos afirmarmos apenas portugueses, mas sobretudo de Guimarães, como o fez eloquentemente Novais Teixeira, num jantar em sua homenagem no Restaurante Jordão, em 1956:
“Em toda a parte me dou a conhecer como homem de Guimarães E, em toda a parte, me conhecem como tal.
Quando alguém me pergunta se sou português, é do meu hábito – e da minha verdade – responder: Não, não sou português, sou mais do que isso, sou de Guimarães! Com efeito, sou de uma pátria pequenina e sólida chamada Guimarães, que tem por limite Vizela e Caneiros, a Penha e a Pisca. O resto, meus velhos amigos, é a fronteira de um outro mundo”.
Cada cidadão de Guimarães é assim um aristocrata que propala a sua condição perante os outros. Eis-me vimaranense, e chega. E esse atavismo manteve-nos de pé durante séculos, permitiu-nos encaixar as injustiças que se fizeram à cidade, sem que esta perdesse a sua profunda e sustentada dignidade.




O património é a alma da cidade, qualquer que ela seja. Por isso nem todas as cidades o são efetivamente. A nossa é.
O consenso que se gerou à volta da necessidade de preservar o património, de o defender, é claro há muitos anos e sentido por todos nós. Na galeria da cidade, com D. Afonso, D. João I e outros, coloco o arquiteto Fernando Távora, a sua visão, sensibilidade e inteligência.
Foi, apesar disso, difícil conter a insanidade construtiva recente, aquela voracidade que deixando marcas não conseguiu, mesmo assim, comprometer a alma da cidade. O desafio agora – que claramente percebermos a importância e retorno da defesa patrimonial – é estarmos atentos aos pormenores.
De dia e de noite desvio o meu olhar entristecido pelos novos e feios candeeiros de iluminação pública que a pretexto de uma renovação destruíram (sem qualquer piedade ou consciência) os belos exemplares que tínhamos na nossa cidade. Uma triste ideia sem qualquer luz. Nas ruas por trás do Tribunal ou na Rua Capitão Alfredo Guimarães iluminam-nos agora uns palitos inestéticos com uma luz própria de entontecer mosquitos. Foram assim destruídos alguns belos exemplares de mobiliário urbano pensados desde 1925 no Plano de Alargamento da Cidade por Luís de Pina. Roubando um pedaço de alma à cidade, que os poucos globos que sobraram na Rua Dr. José Sampaio e ao lado da Câmara Municipal procuram (ainda) resgatar.
Na pacatez dos quintais interiores da cidade outros atentados se preparam com perfídia, como se os jardins interiores fossem nada, e um velho chafariz incomodasse uma qualquer necessidade mundana. Como se a cidade fosse apenas de pedra, sem a alma que ela tem.


M esmo a esta luz é Natal. Um feliz Natal para todos.


Publicado in O Comércio de Guimarães (23.12.15)
Fotos: Berlim (AFP), Lisboa (Público) e Guimarães.


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Coitadeza



“Nos bairros de Bissau, jovens exibem um misto de desesperança e resignação, que se consubstancia na palavra crioula «coitadeza».”
Ana Cristina Pereira. In Público. 16 de novembro 2015.





Encontrei no Público, há uma  semana, uma excecional palavra nova – coitadeza – cozinhada na prolífica flexibilidade da nossa língua pelos jovens sem esperança da Guiné-Bissau. Se em vez de irredutíveis na preservação ecológica dos “c” e dos “p” antes das consoantes nos preocupássemos em abrir os olhos e os ouvidos à língua que se reinventa, talvez tudo fosse um bocadinho melhor. Ou pelo menos melhor explicitado verbalmente, e a distância entre o que pensámos e o que dizemos se encurtasse.




A tristeza é séria e pesada. Acontece-nos de repente e cava um buraco enorme na alma. É incontornável.
A coitadeza, pelo contrário, é uma espécie de tristeza evitável. Escusada e estúpida. Incompreensível pois não tem de ser e é-o apenas por desleixo de alguém que, escusadamente, nos deixa nesse estado de coitadeza.
Os atentados de Paris deram-nos uma imensa tristeza. Aconteceu, inesperada, a morte de muitas pessoas cujo único erro foi estarem ali com o coração desarmado para verem um concerto, comemorarem o aniversário de uma amiga, conversarem na esplanada de um café.
A situação política nacional enche-me, de outro modo, de profunda coitadeza. Estamo-nos a ver a caminhar para lado nenhum, mas continua-se como alguém que, equilibrando-se mal numa bicicleta, pedala apenas com o propósito de não cair. Pelo menos no imediato.
Quando se perde alguém que se ama fica-se inapelavelmente triste. Não há nada a fazer e isso faz cair em nós toda a esperança, toda a alegria, como um reposteiro de veludo cai pesado e ponderável. Inevitável no chão.
Seria por isso forçado classificar igualmente de tristeza aquilo que sente o nosso amigo hipocondríaco. Já o vimos, em teoria, perto da morte várias vezes. Qualquer mancha, qualquer dor, são, para ele, mais que uma mancha ou uma dor, mas um prenúncio de qualquer coisa muito grave. Não manchemos a tristeza para substantivar o nosso amigo. O seu estado é de coitadeza, uma persistente e irritante coitadeza, mas uma coitadeza certamente.
A coitadeza será assim um pequeno degrau na complicada escadaria da tristeza. A coitadeza reverte-se com bom-senso, o nosso e o dos outros, a tristeza não se reverte. Aquieta-se, quando muito.



No entanto a tristeza, de que o meu colega de crónicas falava há uma semana atrás, pode e deve (mesmo assim) fazer-nos mover. Mesmo assim. Contrariando a sua pesada quietude ... saindo do sítio em que ela nos esmaga pelo peso.
Toda esta tristeza que se abate sobre a Europa obriga-nos a sermos melhores, mais solidários e sobretudo mais atentos, mais inteligentes, mais decididos.
Sinto-me necessariamente mais europeu a cada bomba que rebenta numa cidade europeia, por cada imbecil que grita o nome de Alá para matar. Não me preocupo sequer hoje em entabular conversa com quem acha que a culpa é sempre nossa e alimenta o exotismo idiota de uma sociedade nova, e nos enche com o seu ódio escusado sobre esta civilização, sobre a nossa civilização, só porque sim. Enjoei há muito e fico surdo. Chegar aqui deu muito trabalho e muita tristeza! Eu gosto desta Europa que nos olha, apesar de tudo, paciente. Gosto (particularmente hoje) do Centro Pompidou, do Schauble, do Miguel Ângelo, duma bicicleta ferrugenta em Amesterdão, do amigo grego e da médica romena, do inglês Benjamim Clementine a cantar no Teatro Aveirense, sinto-me verdadeiramente solidário com o adepto do Schalke 04 que perdeu 1-3 no último sábado, perdido por Picasso com o desejo demente por um panino italiano ou por avistar o génio do Gaudí na pedra, por Budapeste iluminada por Sara Sampaio. Gosto desta cultura que se funde e da qual me aproprio como se fosse minha. E é.




Hoje não chove. Mas se chovesse aquietava esta tristeza num poema (em italiano) de Gabriele D’Annunzio. Mesmo sem perceber a palavra perceberia a música (europeia) que ela contém: (...) piove su le nostre mani/ignude/su i nostri vestimenti/leggieri,/su i freschi pensieri/che l’anima schiude/novella,/su la favola bella/che ieri/t’illuse, che oggi m’illude,/o Ermione.

La pioggia nel pineto


Créditos Fotográficos (de cima para baixo):

Benjamim Clementine no Teatro Aveirense (24.11.15)   Jorge Gonçalves
Gabriele D'Annunzio  aqui
David de Miguel Ângelo aqui
Início do jogo Schalke - Bayern M. (21.11.15) aqui


Crónica publica in O Comércio de Guimarães (25.11.15)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A excursão


“Ou bem que aprendemos a caminhar juntos em paz e harmonia, ou bem que partimos à deriva para a nossa ruína, a nossa e a dos outros.”
João Paulo II. Discurso na Basílica de S.Francisco, em Assis. 1986.



Há quatro anos atrás estávamos, todos, parados na berma da estrada com o autocarro a fumegar, de capô aberto, sem gasolina e com as lancheiras praticamente vazias, sob um sol verdadeiramente abrasador. Berrávamos então, sem destino, uns com os outros pela falta de juízo do condutor José que nos gastou todo o combustível, estourou os pneus e o motor, e nos conduziu por estradas secundárias até que perdemos completamente o rumo, o propósito, a direção.
O José era doido e a culpa foi nossa em o ter escolhido para nos conduzir durante tanto tempo. Hoje o José encontra-se embrulhado num imenso rol de infrações por condução irresponsável. Mas, como já o conhecemos, o problema nunca é dele mas da linha contínua, do semáforo, do sinal vertical que puseram na estrada sem ele dar por ela. O José é assim, como muitos outros condutores. Por mais asneiras que faça a culpa é sempre dos outros que não tinham nada que estar na estrada. Ele é (ainda hoje) um artista, um acrobata do asfalto.






Mas a coisa acabou por tomar rumo. A custo é certo, mas tomou rumo. Decidimos que era a vez do Pedro conduzir e do Paulo servir de pendura. O Pedro nunca me entusiasmou, sou sincero. Não gosto de condutores que já conduzem muito antes de tirar a carta, mas aprendi, durante a viagem, a não ser tão cínico para com o Pedro. Ele chamou os mecânicos, pediu dinheiro para a gasolina e para os pneus, e obteve esse crédito, aguentou (ainda) firme na condução apesar da dificuldade do percurso e dos humores do Paulo. É claro que os mecânicos que nos repararam o motor e emprestaram dinheiro para as outras reparações puseram algumas condições que nos prejudicaram o conforto da viagem. Disseram-nos que não poderíamos ir por determinados sítios, que de tempos a tempos teríamos de parar para eles verificarem o estado do autocarro, se o condutor se absteve efetivamente do álcool, enfim, um conjunto de chatices que nos impeliu a irmos sossegadinhos na camioneta, partilhando a água e as sandes. A gente habituou-se a esse constrangimento ao ponto de, na parte final da viagem, cantarolarmos já algumas músicas, mas baixinho não fossem os mecânicos acharem que já estávamos, outra vez, a vandalizar alegremente a camioneta. Fiquei com respeito pelo Pedro. Muito mais do que alguma vez imaginei ter. Não vimos paisagens bonitas na viagem, mas nunca me senti em perigo de cair por uma ribanceira com os meus companheiros de viagem.






Terminada esta etapa, como é costume nas camionetas democráticas, votou-se para eleger o condutor. O Pedro foi novamente eleito, não com a folga (tributária da aflição) de há quatro anos atrás, mas foi eleito.
O António, ex-pendura de José, que havia atirado pela borda fora um camarada seu que se achava igualmente em condições de conduzir, não aceitou muito bem a derrota. Pior: não se achou sequer derrotado. O António, como o Pedro, diz que o rumo é para norte, no entanto com o apoio daqueles que acham que para sul é o caminho decidiu boicotar a recondução do Pedro, uma interpretação, disse, inteiramente constitucional. Pediu-se então ao contínuo Aníbal que desfizesse o nó. E o homem disse que deveria ser o Pedro a conduzir já que o António estava completamente bêbado. Esta apreciação de Aníbal é também, apesar da veemência, inteiramente constitucional. Outros contínuos, com poderes semelhantes a estes, fizeram a sua interpretação, sem que alguns passageiros, hoje tão sensíveis, arrepanhassem os cabelos. A vontade de Aníbal era que quem quer seguir para norte se entenda minimamente apesar dos caminhos alternativos que cada um pretende seguir. Já assim aconteceu com o António Manuel que, por seguir para norte, sempre contou com a conivência no rumo de Marcelo, apesar desse António não ter mais de metade dos passageiros com ele. Foi pelo pântano, e não pelo boicote, que ele desistiu então da condução.



Por mais que me esforce na parábola esta história não tem, na realidade, piada nenhuma. Sente-se angústia pura quando o António diz que vai furar os pneus à camioneta na primeira paragem. É caso então para gritarmos a plenos pulmões: Ó António está mais gente cá dentro, porra!


Publicado in O Comércio de Guimarães  28.10.15

Fotos dos filmes: Little Miss Sunshine (Uma família à beira de um ataque de nervos) (2006, Jonhatan Dayton) e, a última, de The italian job (Golpe em Itália) (1969, Peter Colinson).