quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Homens bonitos

“(...) e essa degradação viria muito depressa, bastariam uns dez anos, ou até talvez menos, para que ela se tornasse visível e me começassem a classificar como ainda novo (...)”.”
Michel Houllebecq. Submissão. 2015.

Os homens não se querem bonitos: esse é um dos aforismos mais curiosos que circula, há muito tempo, no meio masculino. Não sei o que as mulheres acham, mas nós sentimo-nos, desde sempre, confortáveis em não ser (propriamente) bonitos. Não digo que ser um homem feio é bom, não é, importa apenas não ser bonitinho nem nos preocuparmos com a aparência. Isso é para elas.
O nosso poder de sedução está (penso eu) na retórica e não nos bíceps. Até porque a conquista é bem mais estimulante que o desmaio.




No cinema isso é tão claro e assumido que bons atores como o DiCaprio têm algumas dificuldades para serem levados a sério. Por outro lado o Jack Nicholson, o DeNiro, o Dépardieu, o baixinho do Bogart, estão no panteão. Já com as atrizes a arte e a beleza misturam-se melhor. Queremos as duas tal como os detergentes que combinam a limpeza com a fragrância ou as pastas dentífricas em que o branqueamento dos dentes não descura o efeito anticárie. Assim fiquei habituado a conviver prazenteiramente com uma Juliette Binoche, uma Natassja Kinski ou a Diane Lane, e o mesmo se passa agora com a Alicia Vikander ou a Marion Cottilard que atingem, de forma sublime, o patamar dos dois em um.
Uma mulher bonita entra sempre a ganhar. De um homem bonito desconfia-se ... há qualquer coisa ali que não bate certo.




Em bom rigor um homem bonito é como uma banda pop com sucesso. Toda a gente gosta dela mas ninguém a leva a sério. Pode ter-se achado o máximo aos Duran Duran mas o que deixou raízes, até hoje, foram os Talking Heads. Daqui a uns anos quando o Justin Bieber for careca e barrigudo ainda haverá gente a ouvir, com desvelo, os Cigarettes After Sex e ninguém saberá quem foi o Justin. E o Kanye deixou de ter interesse quando ficou com a mania de que era bonito, enquanto o Kiwanuka, ou o fresquíssimo Daniel Caesar, já lá vão à frente, bem à frente.




Quando se é um rapaz novo descuram-se as mariquices e o corpo masculino passa por provações militares no maltrato que se lhe dá. Eu segui isso à risca. Os rapazes encaram o seu corpo como um veículo e como carro que é necessitamos de o levar ao limite, de o testar, de o fazer derrapar, de o acelerar, de o travar, de fazer um peões com ele. Se ele aguentar ótimo, é bom sinal, podemos ficar com ele, tem a resiliência necessária. E todos esses indispensáveis testes deixam marcas que eliminam progressivamente os recalcitrantes laivos de beleza: a cicatriz, a barriguinha, o dente partido são testemunhos de uma masculinidade assumida.



Mas o castigo apanha-nos quando menos se espera. Apanha-nos com tempo e com o tempo. Efetivamente quando se fica mais velho já não vale a pena fazer esforço para não ficar bonito. O tempo faz esse trabalho por nós e, valha-nos Deus, agora é que já não era nada necessário...
As malditas fotografias são os raios-X da beleza perdida da qual tanto se desdenhou. Não sei o que se passa convosco com as fotografias, eu dispensava-as pois elas transmitem-me uma imagem muito diferente daquela que eu tenho de mim. Entre o meu espelho e os pixéis de uma câmara digital há uma distância abissal. Olho-me ao espelho e tenho uma imagem (vá lá...) razoável de mim mesmo, vou para a fotografia e preciso de tirar seiscentas fotos para encontrar uma menos má. A fotografia é assim, pessoalmente, um exercício um pouco deprimente. Devolve-me sempre uma imagem de mim muito pior do que aquela que julgava que tinha. Não sei o que raio se passa. Contento-me vagamente com a ilusão de que sou pouco fotogénico.



Por isso toca de puxar o brilho ao carro que o meu corpo é. Toca agora de lhe dar os cuidados que se dão às máquinas antigas que vão para exposição. Cuidado aí Sr. Oliveira mais devagar. Acha que fico melhor assim, de perfil. Não? E de costas?



Pubicado in O Comércio de Guimarães (20.12.17)
Imagens (de cima para baixo): Michel Houllebecq, Harry Dean Stanton, Klaus Kinski, Philip Seymour Hoffman, Woody Allen e eu.




quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O estranho poder das mulheres


“As mulheres, pensava ele, eram mais intensas.”

Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. 2011.




O domínio dos homens sobre as mulheres vem de longe. Primeiro pela força e depois pela palavra divina. Como – ao contrário do que porventura julgarão – levo estas crónicas muito a sério, lá fui eu ler o livro Deuterónimo que regista por escrito, entre muitas outras coisas, as determinações que Moisés, em nome de Deus, enuncia ao povo escolhido. Vêm daí os Dez Mandamentos e outras leis que procuravam estabelecer o que estava certo e o que não estava, no fundo um manual de instruções de como proceder quando algo era errado. O Deuterónimo faz parte da Torá, o livro sagrado hebraico, e também do nosso Antigo Testamento. O Deus judaico abre-me sempre o apetite literário por ser tão mau, tão vingativo, tão cruel. Não sem surpresa reparei que apesar da antiguidade do livro (séc. VII a.c.) as determinações são, relativamente, democráticas. Se uma mulher casada trai o marido há que apedrejá-la até à morte, mas o traidor deverá merecer, segundo o livro, a mesma sorte. Mas “se algum homem no campo achar uma moça desposada, e o homem a forçar, e se deitar com ela, então morrerá só o homem”. O que nos chega desses comportamentos violentos e arcaicos está adulterado e as notícias dão-nos conta de que só a mulher morre hoje por lapidação. Talvez isso se deva à interpretação parcial de líderes religiosos. Homens, claro.



Dia após dia, do outro lado do Atlântico, surgem notícias sobre assédio sexual. A Caixa de Pandora abriu-se e agora vai ser o diabo para a fechar novamente. E, apesar de enojados, ninguém fica particularmente surpreendido pelas notícias. A coisa funciona mesmo assim na cabeça de muitos homens. É a força do hábito, alegam. Em sociedades menos sofisticadas basta uma saia mais curta ou o visionamento dos cabelos longos para justificar o avanço, em sociedades mais sofisticadas a âncora desses comportamentos é a relação de poder. E apenas isso basta para que a possibilidade passe a inevitabilidade.



O bicho homem encontra-se assim, atualmente, em baixa. Nestes momentos difíceis as mulheres atacam com tudo. De uma vezes com inteira justiça – como no caso do assédio - de outras não. Uma das coisas que mais me irrita na conversa com as mulheres é a conversa sobre a corrupção. Não há mulher que não mo lembre: são os homens sempre os corruptos, é raro ver uma mulher nessas andanças dizem-me elas.
Mas até neste particular domínio a Operação Marquês fez maravilhas. É só ouvir as escutas para perceber o assédio constante de que o pobre do Sócrates foi vítima: por mulheres, claro está. Ou é por estar depenadinha, ou é pró casaco do menino, ou é o seguro do carro, ou a prestação da casa, ou as obras no apartamento, é que não deixam o homem sossegado, ou é mais isto, ou mais aquilo, sempre pedidos urgentes, sempre em cima do prazo, ou é a casa de três milhões de euros que, coitado, o Sócrates considerou “um buraco” só para a sacudir. E que recebe ele em troca? Um brutal: “buraco és tu”, mas com a delicadeza que até o tédio confia às mulheres.
No fundo a história bíblica de Adão e Eva perdura até hoje. Ó Adão e coisa e tal e olha que linda maçãzinha, e o palerma do Adão lá vai colher a maçã só para não a aturar. E depois sofre o castigo, ou vai preso e o chamam de corrupto. Pudera!



O cerco está assim montado. As mulheres estão atentas e começam a conquistar a opinião pública. Outras, como a minha, conquistam ainda, dia a dia, o meu pobre armário. As minhas camisas, calças e sapatos, têm cada vez menos espaço. Comprimem-se e sufocam. Gritam por ajuda perante a minha incapacidade em as defender, sindicalmente. Não é por andarmos sempre com a mesma roupa que não gostamos de ter roupa, entenda-se. Nós até gostamos de variar de indumentária só que já não encontramos as nossas coisas, só isso. E se temos, por pura e racional matemática, direito a 20% dos armários de casa já nos contentaríamos com 10%. Mas mesmo com as mais aturadas negociações o armário masculino encolhe. O nosso espaço funciona no tempo como o IVA, só que ao contrário.
Agarro-me ao comando da televisão como um cavaleiro à sua espada. Firmemente. Isto vocês não me tiram, vocifero. Resta-me saber apenas até quando.


Imagens de quadros: Caravaggio, Klimt, Rembrandt e Michelangelo.

Publicado in O Comércio de Guimarães (22.11.17)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O feitiço do tempo


“Quando dizem que «a idade está na cabeça», meu fígado e minha coluna dão risadinha sarcástica. Mulheres têm a idade que merecem, homens serão sempre crianças.”
Rita Lee. Rita Lee – uma autobiografia. 2017.




Portugal é assim mesmo. Ora é o maior país do mundo ora, pouco tempo depois, é o mais miserável. Há uma esquizofrenia bipolar nesta nossa longa existência, já nos habituamos a isso. Os espanhóis, os franceses, os alemães, os americanos, chegam a ser arrogantes por se terem tão em conta. Nós nunca chegamos a esse patamar pois o nosso estado de euforia coletiva dura sempre muito pouco, há sempre uma realidade futura que se ri da presente, que dá cabo dela, que a amesquinha. O tempo para nós não é inclinado – para cima ou para baixo – é curva e contracurva como uma montanha russa. Andamos para cima e para baixo, eternamente.
Atualmente o tempo é de depressão. E não poderia ser de outra forma. A catástrofe dos incêndios de 15 de outubro a seguir à catástrofe dos incêndios em Pedrógão não nos deram outra saída. Só se tivéssemos uma insensibilidade de pedra, e isso não temos nem nunca o tivemos.




Há uma comédia de que gosto particularmente: O Feitiço do Tempo/Groundhog Day (1993). Nesse filme a personagem principal (Phil interpretado pelo excelso Bill Murray) acorda todos os dias no mesmo dia. No entanto o personagem começa a tentar viver com essa realidade arrepiante. Acorda à mesma hora do mesmo dia e passa sempre pelos mesmos acontecimentos. Com a sucessão dos dias Phil começa a tirar partido dessa realidade: segura um martelo que vai a cair, avisa as pessoas do que lhes poderá/irá acontecer, aprende a tocar piano, e, inclusivamente, consegue conquistar a repórter de TV pela qual se enamora, por tentativa e erro numa sucessão de encontros. Se uma determinada frase é inadequada para a sedução que ele empreende, muda-a no “dia seguinte” para algo que a impressione positivamente. E acaba por conquistá-la ao fim de muitas tentativas que no fundo, e para ela, é apenas uma: a primeira.
Portugal acordou a 15 de outubro como se acordasse no mesmo dia de junho em Pedrógão Grande. Só que não aprendeu nada e os mesmos erros foram cometidos e nalguns casos até ampliados. O facto de em 4 meses não se ter aprendido nada é absolutamente indesculpável. O governo não é burro – já percebemos – mas tentou na ressaca da renovada tragédia fazer de nós burros. E isso não colou pois nós não o somos efetivamente.



Houve mesmo quem tentasse culpar o mensageiro pelo conteúdo mensagem. Muito se escreveu sobre a sobreexposição da dor que os órgãos de comunicação, alegadamente para alguns, fizeram. Em Pedrógão, por exemplo, discutiu-se se era ético enquadrar um cadáver ao fundo, em vez de se estar preocupado em perceber o que realmente interessava: a extraordinária e inelutável dimensão da tragédia.
Eu vi noticiários mais do que o costume e li sobre a tragédia também em demasia. E não me cansei de perceber tanta tristeza, porque perceber a tristeza dos outros é o mínimo que se espera de quem a tragédia não manchou o presente pessoal e familiar. É possível então dizer-se que é demais ter acontecido, e nunca será demais mostrar o que aconteceu. A responsabilidade cívica pertence a todos.
E os desabafos emotivos daqueles que tudo perderam ensinam, certamente, mais do que os debates parlamentares ou frases bonitas em outdors espalhados pela cidade. Quanto mais não seja pela empatia de se perceber que poderíamos ser nós, um de nós, a ter de partir novamente do zero depois de uma vida de luta e trabalho e privações para ter um teto ao qual chamávamos nosso.





O tempo deixa marcas irritantes no corpo e no país. Esta velhice de nove séculos renova-se no entanto a cada dia. E a idade não é desculpa para não aprender, pelo contrário: quanto mais somos em história e unidade melhores deveremos ser enquanto comunidade. Não podemos continuar impávidos a olhar para as varizes. Somos mais, muito mais, do que isso. E por amor de Deus: não acordemos novamente a 15 de outubro de 2017! Nunca mais.


Publicado in O Comércio de Guimarães (25.10.17)
Imagens (de cima para baixo): Rui Duarte da Silva (Expresso), Lucília Monteiro (Expresso), Lucília Monteiro (Expresso) e Nuno Botelho (Expresso)