quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Quinito

Quinito e Damas

Foto: ASF (Damas e Quinito no Racing Santander)

Rui Miguel Tovar é, de longe, o jornalista que coisas mais interessantes nos diz, no jornal i, sobre desporto. Provavelmente o único que escreve coisas interessantes sobre futebol.

Hoje foi buscar uma entrevista de Quinito, nos anos 70, cujas respostas estão ao nível do infinito humor de Quinito:

 

Como define a sua passagem pelo futebol espanhol?

Positiva.

A adaptação foi fácil?

Muito difícil. Quando cheguei a Santander, era o único que fumava e bebia. Reconheço que foram os empregados dos bares aqueles que mais se esforçaram por integrar-me na sociedade espanhola. No final da aventura, já era um espanhol mais.

(…)”

 

Quinito foi de longe o treinador que eu mais gostei de ver orientar o Vitória. Gostei mais de o ver cá do que gostei do genial Marinho Peres, pois as equipas deste foram sempre superiores às do Quinito.

Gostei sobretudo de Quinito pela inteligência, pela forma como entrava na cabeça dos jogadores e pela descontração com que encarava os jogos. Foi uma alegria ter visto alguns dos jogos que ele orientou … e logo agora que vou ver o Vitória com a alegria que quem vai para um cadafalso.

O óbvio

Foto: Eric F./AFP

 

Depois de largos meses de agonia a Europa decidiu aquilo que qualquer cidadão sensato teria decidido, caso o chamassem a decidir, há muito tempo atrás. Ajudar a Grécia reduzindo-lhe a dívida, diminuir juros da dívida soberana (aqui entraremos nós, espera-se) e ajudar os bancos nacionais que terão que suportar parte deste impacto financeiro.

Foram meses em que nos arrastamos para o abismo e a desconfiança internacional de forma absolutamente estúpida por não se perceber que quando temos créditos e manifestamente não nos podem pagar, o melhor é tentar salvar os dedos.

Esperemos que a situação de desconfiança se suavize e a Europa dê, finalmente, um exemplo de força e solidariedade.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Masoq

660x495 Foto: Luis Forra/ Lusa

 

Tenho fugido aos noticiários televisivos para tentar escapar à onda de avassalador pessimismo que os enforma. Vi no entanto a notícia do desastre no aeroporto de Faro e das milhares de perguntas que foram feitas a ingleses. Está muito desiludido? Têm-lhe dado apoio? O que falta?…

Inevitavelmente os turistas queixam-se como qualquer um de nós se queixaria perante um acidente destes. Só que nesse caso não teríamos repórteres estrangeiros a perguntar-nos se estávamos satisfeitos com as autoridades locais.

Chega de masoquismo!

Tintin is back

 

As aventuras de Tintin – o segredo do Licorne de Spielberg é uma surpresa extraordinariamente agradável.

E digo isto não porque Spielberg não seja um grande mestre do cinema, apesar de neste caso em animação digital, mas porque pegar nas aventuras de Tintin, no universo de Hergé, não é tarefa fácil para qualquer um.

Mas Spielberg soube dar-lhe o seu toque de ação extrema sem descaraterizar o herói ou a história. Soube acrescentar cenas ao Segredo do Licorne sem lhe roubar a essência.

Enfim quem sabe sabe…

Este é (também) um filme em que se percebe para que serve o 3D.

A ante-estreia do filme em Guimarães foi uma festa …

… como documenta esta reportagem.

 

Uma festa que se deve à CEC e aos bons ofícios de João Lopes que conseguiu a estreia em Guimarães um dia após a estreia mundial do filme.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Séries

Downton-Abbey-006

Por entre a depressão dos noticiários, entrevistas e economistas, há uma excecional e imperdível série que a Fox Life nos traz: Downtown Abbey.

Esta série britânica da ITV é de uma elegância notável. A partir de uma estranha situação, cujo argumentista é Julian Fellow de Gosford Park, filme do americano Altman, em que uma família aristocrata se vê obrigada a passar o seu património para um primo distante após o desastre do Titanic que deixou a família direta sem herdeiros.

 

DowntonAbbey cast

As relações familiares na família Crawley, os “vícios” aristocratas e a vida do batalhão de criados, traz a esta série um mundo de relações complexas que enriquece a trama narrativa.

Às segundas à noite na FoxLife, com repetição ao sábado.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A paciência do chinês

imperador-China

 

“Quase todos os impérios foram constituídos pela força, mas nenhum pode ser sustentado por ela. O domínio universal, para durar, tem que traduzir a força em comprometimento.”

Henry Kissinger. Da China. 2011.

 

 

O interessante livro do qual fiz a citação é escrito por uma notável figura da segunda metade do séc.XX, Henry Kissinger, Secretário de Estado dos presidentes americanos Nixon e Ford, que há quarenta anos, na administração Nixon, construiu uma ponte diplomática entre os Estados Unidos e a República Popular da China, que se mantém firme até hoje. Interrogo-me, à luz da atualidade, como foi possível que a China comunista, atrasada e repressora, seja hoje a potência económica que efetivamente é?

Quando Kissinger visitou a China a estratégia era a de isolar e enfraquecer a União Soviética que, passadas duas décadas, cairia estrepitosamente com o Muro. Nem a ele lhe passaria pela cabeça que a China detivesse hoje grande parte da dívida americana e que tivesse, como tem hoje, a Europa prostrada a seus pés à espera que o antigo Império do Meio lhes compre mais dívida também.

A China é mais do que um país: é uma civilização, que se tem pulverizado e reabilitado ao longo dos últimos quatro milénios. Ao contrário de nós, os ocidentais, a China nunca teve grandes pretensões de colonizar. Talvez porque já é em si demasiado grande, não sei. Mas a verdade é que com paciência a China, ao longo das últimas décadas, colonizou-nos economicamente enquanto nos entretivemos a olhar para a nossa bonita imagem refletida num espelho.

 

E a nossa imagem é tão importante que, cá no país, nos deixamos tolher quando a demagogia política da Madeira nos chamou colonialistas.

Só muita miopia e um complexo tardio permitiram que Alberto João Jardim estivesse à solta durante tanto tempo. Mesmo hoje, em campanha, compara sem qualquer espécie de vergonha a dívida da Madeira à dívida de Portugal. É menor: matematicamente era impossível que não o fosse.

No entanto já seria honesto comparar a Madeira com Guimarães e Famalicão, sendo que estes concelhos têm em conjunto, mesmo assim, mais 40.000 habitantes que o arquipélago. E se assim compararmos poderemos perceber que a dívida de curto prazo da Madeira (compromissos a pagar até 2015), e só isso, representa aquilo que os municípios de Guimarães e Famalicão gastariam nos próximos 20 anos caso os atuais orçamentos municipais se mantivessem. E sobre esse facto não há paciência ou complexo que apaguem tamanho desplante.

 

Numa altura em que Guimarães respira criatividade (noc noc!) o nosso Vitória é um triste contraponto. A coisa não arranca muito à custa de um pequeno grande detalhe que tem arrasado as suas prestações: a equipa é uma equipa burra. Só assim se percebe que um jogador que teria grandes dificuldades para me fintar a mim, que tenho mais do dobro da idade dele, julgue poder fintar dois rápidos avançados leoninos, ou que quem tem grandes dificuldades para efetuar um passe a cinco metros pense plausível fazer passes a cinquenta metros sem errar, ou que quem não tenha jeito para chutar à baliza o faça quando tem companheiros melhor colocados. O futebol não é um jogo exclusivamente de habilidade ou de força, o futebol é um jogo de inteligência por isso pode ser tão bonito. Dar inteligência à equipa é uma tarefa difícil, muito mais que dar-lhe força ou treinar a habilidade. Como em qualquer profissão as equipas valem por aquilo que cada um, reconhecendo as suas limitações e as potencialidades, pode fazer para o colectivo, mas é necessário perceber isso (o que não está manifestamente a acontecer). E não quero sequer pensar o que será da equipa se um jogador habilidoso como Nuno Assis perder um dia a paciência para ser o inteligente de serviço.

 

Há coisas difíceis de entender. No trânsito, por exemplo, a obrigatoriedade de cortar à direita nos Palheiros, para quem vem da Mumadona, é uma inutilidade cara em tempo e em combustível. A recente experiência com a retirada dessa obrigatoriedade revelou-se positiva necessitando apenas, durante curtos períodos mais críticos, que a Polícia Municipal ordene o trânsito como o fez e bem. Já não estamos em tempos de passeios de carro pela cidade, por amor ao ambiente, à carteira e à paciência que não se pode gastar em semelhantes inutilidades.

 

Publicado in O Comércio de Guimarães