terça-feira, 27 de dezembro de 2011

21,35% da EDP na mão dos chineses

 

Foto: Barragem Three Gorges. China.three-gorges-dam-yichang-01_leading

 

Foi no fim da passada semana que ficamos a conhecer que o processo de venda de 21,35% das ações que o Estado detinha na EDP foram ganhos pela China Three Gorges, que bateu interesses alemães (E.ON) e brasileiros (Eletrobras e Cemig) (notícia macauhub).

As escolha pareceu óbvia aos analistas tal o impacto da proposta da Three Gorges: 2,7 mil milhões de euros pelas ações a que juntando os investimentos previstos perfaz um total de 8 mil milhões de euros investidos em Portugal.

Maugrado a venda a capital estrangeiro de algumas das nossas empresas, a abertura a novos investidores pode também abrir mercados fora da Europa. Não foi sempre essa afinal a nossa vocação?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Canadá abandona Quioto

 

Foto_SICNotícias

De forma surpreendente o Governo do Canadá abandona o protocolo de Quioto que havia assinado, juntamente com outros países, em 1997 e que se destina a controlar as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. Inclusivamente o Canadá retificou o protocolo em 2002 onde os países desenvolvidos se comprometeram  a lançar para a atmosfera em 2012 menos 6% de dióxido de carbono que lançaram em 1990.

A recente cimeira de Durban eliminou, e bem, a diferença entre países desenvolvidos e não desenvolvidos, para novos acordos sobre alterações climáticas nos próximos anos.

O argumento do Canadá é simples: não faz sentido cumprir um protocolo a que os dois maiores poluidores (China e EUA) ainda não assinaram (ver quadro).

Não deixa de haver uma certa razão, se bem que os compromissos são para serem cumpridos e os vários países que o assinaram fizeram-no também como forma de pressão em relação aos que não o assinaram.

maiores emissores CO2 quadro

Hilariante é a crítica do governo chinês à decisão canadiana. Logo eles que não assinaram Quioto…

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Enfim futebol

 

Duello Pirlo-Greco. AfpFoto_Gazzetta dello sport

Como amante do futebol não poderia ter deixado de seguir atentamente a Roma contra a Juventus. Em primeiro porque era uma partida do (estupidamente) mal-amado campeonato italiano, em segundo porque jogava a Juve (renovadíssima e grande como sempre), e em terceiro porque preciso de ver futebol de qualidade depois de me ter torturado, mais uma vez, a ver a minha equipa jogar ontem.

O jogo ficou 1-1 (resultado injusto para a Juve, digo eu … já que Totti falhou um penalty, ou melhor Buffon defendeu-o) mas a intensidade do jogo foi algo de extremamente prazenteiro para quem gosta de um bom jogo.

Na 1ªparte vi algo de invulgar para quem está já farto dos truques do futebol. Em duas jogadas distintas jogadores da Juve caem lesionados e a própria equipa continua a jogar, como se nada fosse, pois o objetivo era sempre o de atingir a baliza adversária. Belíssimo.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Está rolando um clima…

 

simbolo CCPI

Os relatórios anuais sobre as alterações climáticas e as emissões de CO2 elaborados pela Germanwatch, uma ONG alemã, continua a dar a Portugal uma boa nota ao nível das emissões (14º, ou 11º considerando que os 3 primeiros lugares não foram atribuídos, entre 58 países responsáveis por mais de 90% das emissões de dióxido de carbono).

Consultar aqui documento simplificado.

À parte do gosto, Portugal não representa “nada” e os países que representam muito daquilo que é emitido (China ou EUA) continuam em lugares muito preocupantes.

A China reforça a liderança das emissões de CO2 pelo 3º ano consecutivo, destronando desse lugar os EUA como maior emissor  de CO2 no planeta.

O homem verde

 

Ribeiro Telles é homenageado hoje em Lisboa

Fotografia © Tiago Melo/DN

Gonçalo Ribeiro Telles foi ontem na Fundação Gulbenkian por uma notável carreira profissional e um empenhamento cívico difícil de ver noutras figuras públicas portuguesas.

Desde muito cedo tomou posições públicas sobre as políticas erradas de acelerado crescimento urbano e chegou mesmo, enquanto governante (subsecretário de estado ou Ministro da Qualidade de Vida no governo da AD) a produzir importante legislação destinada à proteção do ambiente.

Acima de tudo: um senhor.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Musica Nuda

Foto_in Wikipedia

Musica Nuda é um duo italiano: Petra Magoni na voz e Ferrucio Spinetti.

Conheci-os através da colaboração deles com o trompetista Erik Truffaz (no fantástico Take a Bow).

São absolutamente…

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Nós, os humanos

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Todas as fotos: Hubblesite

 

“Hawking tenta (…) entender o pensamento de Deus. E isso torna a conclusão do seu esforço ainda mais inesperada, pelo menos até agora: um Universo sem limites no espaço, sem princípio nem fim no tempo, e sem nada para um Criador fazer.”

Carl Sagan. Breve História do Tempo de Stephan W.Hawking. 1988.

 

 

Ao olharmos à nossa volta poderemos eventualmente perceber quão únicos e extraordinários somos.

O primeiro facto extraordinário é estarmos aqui na Terra. É estarmos no mais bonito planeta do sistema solar que ao longo de milhões de anos evoluiu de forma a permitir a alucinante diversidade de vida de que hoje disfrutamos. Isto apesar dos esforços que todos os dias fazemos para destruir essa gigantesca força de vida que nos envolve. Sem sucesso assinalável até hoje, felizmente.

E o nosso planeta azul é pequeníssimo na imensidão do nosso sistema solar. Se por incompreensível enfado quiséssemos sair do nosso sistema solar à velocidade máxima das nossas mais sofisticadas naves espaciais demoraríamos mais de 25 anos para o fazer. E se por uma qualquer delirante ambição quiséssemos visitar a estrela mais próxima fora do nosso sistema, à estonteante velocidade de 28000Km/h, demoraríamos 36000 anos a lá chegar. E é mais do que provável que nessa longa viagem as centenas de gerações que eram necessárias para empreender essa tarefa não encontrassem infinitésima parte da vida que hoje vemos ao espreitar distraídos pela janela de nossa casa.

E essa longa viagem entre duas estrelas não é nada, não representa nada no Universo, se considerarmos que tal imaginária viagem era apenas o caminho mais curto entre duas das 200000 estrelas da nossa Via Láctea. E além da nossa galáxia há outras e o número é tão absurdamente grande que até os números das dívidas soberanas parecem irrisórios.

Olhar para o infinito tranquiliza por estes dias, de forma paradoxal, a nossa extraordinária individualidade.

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A vontade de compreender as coisas que nos rodeiam tem sido algo que nos torna únicos, que nos diferencia de forma majestosa dos outros seres que nos acompanham. A Ciência tem-nos dado respostas e obrigado a levantar novas questões de forma contínua e persistente. Nos tempos de dificuldade em que vivemos começa a perceber-se que a Ciência é uma apetecível vítima dos cortes orçamentais, com Portugal, infelizmente, incluído nessa linha. Mas pior que isso tem sido o surgimento dos fanatismos políticos e religiosos que se sentem confortáveis para atacar a Ciência. Os Estados Unidos são, também a este nível, um caso paradigmático. Um país que se distinguiu e se tornou liderante pela sua capacidade tecnológica e pela forma como abriu as suas fronteiras a cérebros de todo o mundo que eram perseguidos nos seus países de origem – Einstein foi um deles – perde hoje tempo a discutir leis que querem pôr em plano de igualdade, em alguns estados americanos, o ensino da Evolução das Espécies com o “ensino” do Criacionismo. Um absurdo.

Fundamental é continuar a olhar em frente e querer saber mais, é isso que nos torna diferentes e melhores. Devemos a nós mesmos essa liberdade.

Fundamental é não encher a cabeça dos nossos jovens com atitudes cínicas que os tornem igualmente cínicos e pouco abertos à vida e às pessoas. Há tempo para o cinismo; ele vem com a idade, com o reumatismo, e não faz particular falta a nenhum de nós. Mas vem e quanto mais tarde vier mais tempo temos para o amor incondicional.

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Deprime-me ler, como tenho lido nos jornais, a necessidade de venda das nossas mais importantes empresas nacionais. Esta é também uma medida do profundo estado de necessidade a que chegamos. Não me importaria nada que vendessem as empresas de transportes de Lisboa e Porto para as quais todos pagamos mesmo sem as utilizar. Agora as nossas empresas na área da energia e do ambiente metem-me dó que sejam transformadas nos anéis que nos garantem, para já, a conservação dos dedos. Notícias destas juntamente com as afirmações da troika levam a pensar que nos querem transformar na barata e simpática sopeira desta Europa.

A maior parte de nós já percebeu que este Governo está a fazer o possível e o impossível para manter o barco a flutuar. E estou particularmente confiante que o conseguirão fazer até ao fim (esperado) da tormenta.

O que eu espero (ainda mais) é que apesar de tesos e desmoralizados consigamos manter a nossa dignidade enquanto país e enquanto povo. Esse é o mais importante desafio dos próximos anos.

 

Publicado in O Comércio de Guimarães

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Rita

YCAPA

Sangue do meu sangue é, efectivamente, um grande filme. Por vezes a crítica é demasiado generosa com o cinema nacional, mas neste caso é mais do que merecida a aclamação.

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E … Rita Blanco é absolutamente enorme, sem qualquer ponta de overacting, enorme enorme. Por vezes chega a parecer que estamos no filme, que a conhecemos.

(Aliás o elenco na fotografia é todo ele muito bom)

Este 2011 vai ficar para sempre na minha memória cinéfila: duas obras primas nacionais, este filme o o Filme do Desassossego de João Botelho. O que se pode querer mais?

O Álvaro

alvaro_santos_pereira_home

Escolhido pela imprensa e por alguns sectores da esquerda light como o alvo a abater neste governo, Álvaro Santos Pereira até tem dado conta do recado. E que recado: economia, desenvolvimento regional, emprego, empreendedorismo, competitividade, inovação, transportes, comunicações, energia, turismo e OBRAS públicas.

Safa-o, em minha opinião, e claramente, a abnegação com que se dedicou a imensa causa e a simplicidade que não é costume ver-se por estas bandas … e que me permitiu intitular o post.

domingo, 20 de novembro de 2011

A aquecer

 

 

 

Com o mundo mergulhando a atenção nas dívidas soberanas o ambiente começa claramente a ser relegado para segundo plano.

 

Os apetites pelo Ártico aguçam-se com a sua desgraça: o aquecimento global. O contínuo degelo permite novas rotas comerciais e cresce o olhar sobre o petróleo e gás nele encerrados.

 

O i faz uma interessante notícia sobre o assunto.

Este blogue também.

Publicidade

Filmes publicitários por bons realizadores:

O famoso (e querido) Macintosh da Apple por Ridley Scott de Blade Runner e Thema & Louise.

 

Mercedes por Michael Mann, realizador de ALI ou O INFORMADOR.

 

 

Gap por Spike Jonze de INADAPTADO.

 

Baz Lhurman de MOULIN ROUGE para a Dior.

 

Lembrança oportuníssima do Cine 1 da Antena 1.

domingo, 13 de novembro de 2011

Engolidos por Steve

 

Steve Swallow

Depois de mais um concerto preciso e agradável, o do pianista Cedar Walton, deu para perceber que, no meu campeonato, só muito dificilmente Steve Swalow perderá o Guimarães Jazz deste ano.

Steve Swallow Quintet

Com uma banda absolutamente brilhante (a Carla Bley surpreendeu-me pela humildade com que serviu a banda, o guitarrista Steve Cardenas foi brilhante e o saxofonsta Chris Cheek foi virtuoso) este homem continua a surpreender-me.

 

No entanto na próxima quinta há outro “jogo”: o grande McCoy Tyner com voz (José James).

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Lendas


Uma das boas funções do Guimarães Jazz é trazer-nos algumas das lendas vivas do jazz. E traz.
Ontem foi a vez do baterista Roy Haynes (86 anos de saber e boa disposição!) que tenho espalhado ao longo de alguns dos meus discos e que participa na banda de Gary Burton que fez o Times Square de 1978; banda que vi em Coimbra cerca de meia década depois da edição em vinil da ECM.
Curiosamente nessa banda estava Steve Swallow, cuja atuação é hoje.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A língua

 

Cavaco Silva dirige os trabalhos no Conselho de Segurança da ONU

 

Teve pouco destaque noticioso a afirmação de Cavaco Silva na ONU sobre a importância da língua portuguesa.

O Presidente no entanto lembrou - e muito bem - que a nossa língua deveria fazer parte, não só pela sua história mas fundamentalmente pela sua importância, das línguas oficiais da ONU (actualmente a inglesa, a francesa, a castelhana, a mandarim, a russa e a árabe).

O homem

 

 

Vi ontem, por acaso, uma entrevista de Rui Rio à RTPN. Não mudei de canal pois Rui Rio é alguém que sai do pastoso discurso político e merece por isso especial atenção. Sobre a câmara do Porto, a privatização das águas ou o orçamento de Estado Rui Rio foi saudavelmente contra a corrente.

É pena não o vermos mais vezes nos canais de Lisboa. Talvez se aprendesse a pensar melhor.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Smokin’ joe

Sempre em grande

pctp-mrpp

O PCTP/MRPP faz parte, não o nego, da arqueologia política portuguesa. Mas de forma saudável e sobretudo de forma coerente.

Durante anos a imprensa andou ao colo com o Bloco (e ainda anda com o minibloco) e esqueceu o PCTP/MRPP. Garcia Pereira sempre o afirmou com razão.

lunidvitoria

Fiquei hoje surpreendido quando vi num jornal diário um comunicado do PCTP, de apoio à greve geral de 24 de Novembro, sobre a forma de publicidade paga. Provavelmente a única forma de se fazerem ouvir…

pctpmrpp

E nele estão coisas que já não ouvia há muito. Num estilo único e irrepetível.

 

“ O PCTP/MRPP conclama assim todos os operários,
todos os trabalhadores de todos os sectores
de actividade, públicos e privados, todos os
desempregados, todos os jovens, todos os idosos,
todos os estudantes e professores, todos os
intelectuais progressistas a apoiarem e, mais do
que isso, a participarem activa e entusiasticamente,
e num espírito de grande unidade, na Greve Geral
Nacional de 24 de Novembro(…)”

 

“Para que possa ser, e seja efectivamente, uma grande e
memorável jornada de luta, cheia de entusiasmo,
de generosidade, de capacidade de lutar por um
País e por um Mundo melhores, sem exploradores
nem opressores!
Para que faça gelar o riso dos palhaços que todos
os dias nos roubam os salários e as pensões e
expropriam o futuro dos nossos filhos e dos nossos
netos(…)”

 

“Pelo derrube do governo e do sistema que nos
explora e oprime!
Por um Governo de Esquerda, Democrático Patriótico!
O Povo vencerá!”

 

Assim sim.

O palhaço

 

Parece que finalmente a Itália e a Europa vai livrar-se de Berlusconi. Pelo menos é isso que o atual PM italiano assegurou ao La Stampa, vergado pela falta de credibilidade e pela perda do apoio na Câmara dos Deputados.

Um jornalista do Público (AGF) resume, com certa graça glosando JFK, o perfil de Berlousconi:

Não perguntem o que posso fazer pelo país mas o que o país pode fazer por mim.

 

Nunca entenderei o que Itália viu neste homem que há cerca de 20 anos vem arrumando com o prestígio e a credibilidade da grande nação italiana.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O cartaz e o cartaz

Além de ser um ótimo festival o Guimarães jazz brinda-nos com excelentes cartazes (como estes).

Este ano salva-se apenas o cartaz musical, já que os cartazes promocionais são de fugir.

No entanto Roy Haines, McCoy Tyner, Cedar Walton ou Steve Swallow são suficientemente enormes para se esquecer o design.

 

Gosto particularmente de Steve Swallow (infelizmente vem com a Carla Bley…) e vi-o pela primeira vez há uns séculos atrás, em Coimbra, a acompanhar o Gary Burton.

 

Um cheirinho com John Scofield:

domingo, 6 de novembro de 2011


"Meia Noite em Paris"

Confesso que não escrevia no blogue do meu querido amigo Rui Vítor há já algum tempo. E das últimas vezes que o fiz, foi para comentar um ou outro filme que tinha visto e me tinha marcado, de uma forma ou de outra. Não o tenho feito recentemente pois as funções de pai impediram-me de ir às salas de cinema, coisa que retomei agora, com alguma nostalgia. 
E voltei para ver a última película de Woody Allen, "Midnight in Paris", um realizador que me tem marcado ao longo de toda a vida. Uma fita a recordar o sentimentalismo romântico que Allen nos habituou, mas, desta vez, a história não se passa na sua amada Nova Iorque, mas sim no lado de cá do Atlântico, na cidade das luzes.
Um filme marcante que conta a história de um escritor de argumentos para cinema e que, numa viagem a Paris com a sua noiva, decide ficar a viver naquela cidade. Mas a história tem muito mais do que isto. Não a irei contar, é claro, pois assim perderia a piada toda para quem lê esta pequena crónica, mas deixo aqui o meu testemunho:

 Não sei se é da idade mas estava mesmo a precisar de ver um filme assim, romântico, nostálgico e sem o cunho Hollywoodesco do cinema americano, mesmo ao estilo de Woody Allen.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Boas histórias

 

Alexis Jenni venceu com a sua primeira obra

DR_in Público

A história de Alexis Jenni dava um bom livro.

Professor de biologia, de origem suíça, viu os seus livros constantemente recusados pelas editoras. Num último fôlego escreveu L’Art Français de la Guerre, recusada prontamente pela P.O.L. … mas aceite pela Gallimard.

Passado poucos meses ele é o novo Goncourt!

Cartoons

Kipper Williams from The Guardian

Kipper Williams

 

schrank

Schrank

 

 

political-cartoon

 

 

christo

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O fumador

 

Já há bastante tempo que os países da UE estão presos no elevador. O elevador não sobe e de vez em quando dá uns solavancos para baixo. Um dos mais gordos no elevador, o PM grego, decidiu fumar no elevador fechado!

E o pior é que esta chantagem sobre os gregos, que Papandreou decidiu arriscar depois do esforço dos outros para não o terem atirado fora do elevador que, afeta a todos e a nós em particular.

 

schrank Schrank. The independent.

 

Haja paciência.

Baratas tontas

metamorphosis_after_kafka_2002 paula rego Paula Rego. Metamorfose.

“Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos (…) Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.

Que me aconteceu? — pensou.”

Franz Kafka. Metamorfose. 1915.

 

 

 

Continuo hoje, mais do que nunca, absolutamente entediado com a avalanche de notícias sobre a crise, os cortes, as enésimas cimeiras de franceses e alemães, as vidências dos economistas do regime que há uns meses atrás não viam a realidade espalmada à frente do nariz, os debates televisivos sobre coisas que deveriam ter sido discutidas há décadas atrás. E essa tontura de tédio só é contrabalançada pelo gelo das evidências. Como chegamos aqui? Que me aconteceu? Perguntamos hoje espantados como o caixeiro-viajante do livro de Kafka que de um dia para outro se viu acordado e irreconhecível na forma de um inseto.

 

De repente, porém, tudo parece estranhamente claro. A generalidade dos países europeus e os Estados Unidos perceberam (apesar de ainda estarmos na fase do espanto boquiaberto e não ainda, infelizmente, na fase das soluções) que andamos a viver acima das possibilidades. Isto é, tornou-se hoje claro para todos que os estados gastam mais do que aquilo que conseguem arrecadar, pois o dinheiro que se gastou não teve a ver com a riqueza que cada país produzia, mas com espectativas ou, pior do que isso, com o comprometimento do trabalho das gerações futuras. As dívidas soberanas dos países mais não são do que, comparando com as famílias, dívidas que um casal assume sem que o seu salário dê alguma vez para as pagar e que a deixam como herança para os filhos ou netos pagarem, pois a dimensão é tal que morrerão muito antes da dívida ser liquidada.

Toda a máquina do estado dos países ocidentais tinha, até há trinta anos atrás, um peso na economia do país de 20 ou 30%. Hoje esse peso passa os 50%. Ou seja aquilo que cria riqueza, como a indústria ou a agricultura, tem cada vez menos gente e menos espaço e é cada vez mais sobre eles que o estado se apoia para ir sobrevivendo. A dívida pública e privada dos países ocidentais passa quase sempre aquilo que esses países são capazes de produzir num ano – os EUA por exemplo – havendo casos como o da Irlanda (10 anos), Reino Unido (4 anos) ou Portugal e França que teriam que trabalhar durante dois anos sem nada gastar para pagar o que devem. Nos países mais vulneráveis como a Grécia, Portugal ou a Irlanda o problema é visível, mas nas grandes potências ele também existe só que fica mais escondido pela dinâmica das suas economias.

Os horrores da última grande guerra na Europa forjaram no carácter dos seus habitantes a evidência de que os europeus juntos estão melhores do que separados. Assim se criou e alargou a então CEE. A par disso os estados ocidentais criaram um conjunto de mecanismos de apoio às populações compatível com as democracias modelo que implementaram. No entanto já há um bom par de décadas que a conquista democrática do poder nos vários estados se fez fundamentalmente à custa de acenar às populações um conjunto fantástico de direitos e de esquecer sistematicamente de lhes lembrar os respetivos deveres. É fácil hoje atirar para a política o odioso, mas foram as pessoas que assim o quiseram. Basta relembrar em Portugal as recentes legislativas de 2009 em que o otimismo megalómano venceu o pessimismo realista. A ilusão é sempre o caminho mais fácil apesar de ser o que mais feridas deixa.

 

 

Apesar dos líderes europeus que temos é bom sabermos que a Europa acolhe, ainda hoje, o melhor da democracia. Somos uma civilização (ou um conjunto delas) invejável. Respeitam-se os direitos humanos e é-se livre. E esses valores são preciosos sobre todas as coisas. Um pedaço de terra onde nasceu Einstein, Churchill ou Cervantes, onde nasceu o renascimento italiano ou a alma teimosa, sonhadora e solidária dos portugueses, consegue com certeza reerguer-se sem atropelar princípios básicos de cidadania. É bom estar atento e dar um pouco de tempo para que esta desorientação governativa no espaço europeu se desvaneça e comecemos a pensar e a trabalhar em conjunto. Esse é o único caminho possível apesar do perigo real dos nacionalismos.

Mas sempre atentos e sobretudo realistas.

 

Publicado in O Comércio de Guimarães

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Quinito

Quinito e Damas

Foto: ASF (Damas e Quinito no Racing Santander)

Rui Miguel Tovar é, de longe, o jornalista que coisas mais interessantes nos diz, no jornal i, sobre desporto. Provavelmente o único que escreve coisas interessantes sobre futebol.

Hoje foi buscar uma entrevista de Quinito, nos anos 70, cujas respostas estão ao nível do infinito humor de Quinito:

 

Como define a sua passagem pelo futebol espanhol?

Positiva.

A adaptação foi fácil?

Muito difícil. Quando cheguei a Santander, era o único que fumava e bebia. Reconheço que foram os empregados dos bares aqueles que mais se esforçaram por integrar-me na sociedade espanhola. No final da aventura, já era um espanhol mais.

(…)”

 

Quinito foi de longe o treinador que eu mais gostei de ver orientar o Vitória. Gostei mais de o ver cá do que gostei do genial Marinho Peres, pois as equipas deste foram sempre superiores às do Quinito.

Gostei sobretudo de Quinito pela inteligência, pela forma como entrava na cabeça dos jogadores e pela descontração com que encarava os jogos. Foi uma alegria ter visto alguns dos jogos que ele orientou … e logo agora que vou ver o Vitória com a alegria que quem vai para um cadafalso.

O óbvio

Foto: Eric F./AFP

 

Depois de largos meses de agonia a Europa decidiu aquilo que qualquer cidadão sensato teria decidido, caso o chamassem a decidir, há muito tempo atrás. Ajudar a Grécia reduzindo-lhe a dívida, diminuir juros da dívida soberana (aqui entraremos nós, espera-se) e ajudar os bancos nacionais que terão que suportar parte deste impacto financeiro.

Foram meses em que nos arrastamos para o abismo e a desconfiança internacional de forma absolutamente estúpida por não se perceber que quando temos créditos e manifestamente não nos podem pagar, o melhor é tentar salvar os dedos.

Esperemos que a situação de desconfiança se suavize e a Europa dê, finalmente, um exemplo de força e solidariedade.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Masoq

660x495 Foto: Luis Forra/ Lusa

 

Tenho fugido aos noticiários televisivos para tentar escapar à onda de avassalador pessimismo que os enforma. Vi no entanto a notícia do desastre no aeroporto de Faro e das milhares de perguntas que foram feitas a ingleses. Está muito desiludido? Têm-lhe dado apoio? O que falta?…

Inevitavelmente os turistas queixam-se como qualquer um de nós se queixaria perante um acidente destes. Só que nesse caso não teríamos repórteres estrangeiros a perguntar-nos se estávamos satisfeitos com as autoridades locais.

Chega de masoquismo!

Tintin is back

 

As aventuras de Tintin – o segredo do Licorne de Spielberg é uma surpresa extraordinariamente agradável.

E digo isto não porque Spielberg não seja um grande mestre do cinema, apesar de neste caso em animação digital, mas porque pegar nas aventuras de Tintin, no universo de Hergé, não é tarefa fácil para qualquer um.

Mas Spielberg soube dar-lhe o seu toque de ação extrema sem descaraterizar o herói ou a história. Soube acrescentar cenas ao Segredo do Licorne sem lhe roubar a essência.

Enfim quem sabe sabe…

Este é (também) um filme em que se percebe para que serve o 3D.

A ante-estreia do filme em Guimarães foi uma festa …

… como documenta esta reportagem.

 

Uma festa que se deve à CEC e aos bons ofícios de João Lopes que conseguiu a estreia em Guimarães um dia após a estreia mundial do filme.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Séries

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Por entre a depressão dos noticiários, entrevistas e economistas, há uma excecional e imperdível série que a Fox Life nos traz: Downtown Abbey.

Esta série britânica da ITV é de uma elegância notável. A partir de uma estranha situação, cujo argumentista é Julian Fellow de Gosford Park, filme do americano Altman, em que uma família aristocrata se vê obrigada a passar o seu património para um primo distante após o desastre do Titanic que deixou a família direta sem herdeiros.

 

DowntonAbbey cast

As relações familiares na família Crawley, os “vícios” aristocratas e a vida do batalhão de criados, traz a esta série um mundo de relações complexas que enriquece a trama narrativa.

Às segundas à noite na FoxLife, com repetição ao sábado.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A paciência do chinês

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“Quase todos os impérios foram constituídos pela força, mas nenhum pode ser sustentado por ela. O domínio universal, para durar, tem que traduzir a força em comprometimento.”

Henry Kissinger. Da China. 2011.

 

 

O interessante livro do qual fiz a citação é escrito por uma notável figura da segunda metade do séc.XX, Henry Kissinger, Secretário de Estado dos presidentes americanos Nixon e Ford, que há quarenta anos, na administração Nixon, construiu uma ponte diplomática entre os Estados Unidos e a República Popular da China, que se mantém firme até hoje. Interrogo-me, à luz da atualidade, como foi possível que a China comunista, atrasada e repressora, seja hoje a potência económica que efetivamente é?

Quando Kissinger visitou a China a estratégia era a de isolar e enfraquecer a União Soviética que, passadas duas décadas, cairia estrepitosamente com o Muro. Nem a ele lhe passaria pela cabeça que a China detivesse hoje grande parte da dívida americana e que tivesse, como tem hoje, a Europa prostrada a seus pés à espera que o antigo Império do Meio lhes compre mais dívida também.

A China é mais do que um país: é uma civilização, que se tem pulverizado e reabilitado ao longo dos últimos quatro milénios. Ao contrário de nós, os ocidentais, a China nunca teve grandes pretensões de colonizar. Talvez porque já é em si demasiado grande, não sei. Mas a verdade é que com paciência a China, ao longo das últimas décadas, colonizou-nos economicamente enquanto nos entretivemos a olhar para a nossa bonita imagem refletida num espelho.

 

E a nossa imagem é tão importante que, cá no país, nos deixamos tolher quando a demagogia política da Madeira nos chamou colonialistas.

Só muita miopia e um complexo tardio permitiram que Alberto João Jardim estivesse à solta durante tanto tempo. Mesmo hoje, em campanha, compara sem qualquer espécie de vergonha a dívida da Madeira à dívida de Portugal. É menor: matematicamente era impossível que não o fosse.

No entanto já seria honesto comparar a Madeira com Guimarães e Famalicão, sendo que estes concelhos têm em conjunto, mesmo assim, mais 40.000 habitantes que o arquipélago. E se assim compararmos poderemos perceber que a dívida de curto prazo da Madeira (compromissos a pagar até 2015), e só isso, representa aquilo que os municípios de Guimarães e Famalicão gastariam nos próximos 20 anos caso os atuais orçamentos municipais se mantivessem. E sobre esse facto não há paciência ou complexo que apaguem tamanho desplante.

 

Numa altura em que Guimarães respira criatividade (noc noc!) o nosso Vitória é um triste contraponto. A coisa não arranca muito à custa de um pequeno grande detalhe que tem arrasado as suas prestações: a equipa é uma equipa burra. Só assim se percebe que um jogador que teria grandes dificuldades para me fintar a mim, que tenho mais do dobro da idade dele, julgue poder fintar dois rápidos avançados leoninos, ou que quem tem grandes dificuldades para efetuar um passe a cinco metros pense plausível fazer passes a cinquenta metros sem errar, ou que quem não tenha jeito para chutar à baliza o faça quando tem companheiros melhor colocados. O futebol não é um jogo exclusivamente de habilidade ou de força, o futebol é um jogo de inteligência por isso pode ser tão bonito. Dar inteligência à equipa é uma tarefa difícil, muito mais que dar-lhe força ou treinar a habilidade. Como em qualquer profissão as equipas valem por aquilo que cada um, reconhecendo as suas limitações e as potencialidades, pode fazer para o colectivo, mas é necessário perceber isso (o que não está manifestamente a acontecer). E não quero sequer pensar o que será da equipa se um jogador habilidoso como Nuno Assis perder um dia a paciência para ser o inteligente de serviço.

 

Há coisas difíceis de entender. No trânsito, por exemplo, a obrigatoriedade de cortar à direita nos Palheiros, para quem vem da Mumadona, é uma inutilidade cara em tempo e em combustível. A recente experiência com a retirada dessa obrigatoriedade revelou-se positiva necessitando apenas, durante curtos períodos mais críticos, que a Polícia Municipal ordene o trânsito como o fez e bem. Já não estamos em tempos de passeios de carro pela cidade, por amor ao ambiente, à carteira e à paciência que não se pode gastar em semelhantes inutilidades.

 

Publicado in O Comércio de Guimarães

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Apocalypse

 

… é o mais recente disco do norte-americano Bill Callahan, ex-Smog.

O tema free é um vício:

 

O longo braço da lei

 

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A extraordinária história de George Wright, detido há poucos dias pela polícia portuguesa depois de estar há 41 anos fugidos à justiça norte-americana, é absolutamente deliciosa.

Tem tudo para dar um filme. E impressiona-me a pertinácia das autoridades norte-americanas que, mesmo depois de 40 anos, ainda se deram ao trabalho de escutar a irmã de George.

Fez-me lembrar esse magnífico filme de Sidney Lumet Fuga sem Fim (Running on empty, 1988) que retrata a saga da família Pope e sobre o qual choro … sempre que o revejo.

 

 

Uma beleza de filme.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Não descer

 

Imenso desconforto afasta Passos Coelho de Jardim

Foto_António Cotrim_Lusa

 

A entrevista de Passos Coelho à RTP deu-me a noção ainda mais precisa do estado em que estamos. Vulneráveis como nunca, com grandes dificuldades em controlar a despesa muito por via dos empréstimos irresponsáveis que fomos contraindo para entreter as massas e darmos a falsa noção de país rico com que alegremente convivemos nos últimos anos.

Tentou ser claro e consegui-o. Falou verdade medindo apenas as palavras para evitar qualquer deslize mediático.

No entanto o país assemelha-se a um clube de futebol que evita desesperadamente a “descida de divisão” e o treinador tem que conviver, de cabeça levantada, com as surpresas desagradáveis que vamos tendo (como a Madeira, que infelizmente não será caso único), com os resultados de terceiros (a desorientação do directório europeu ou o afundanço progressivo da Grécia) e com a compreensão dos adeptos (que existe hoje claramente).

O trabalho do Governo não é nada fácil. Mas tem de ser feito … e muito bem feito.

domingo, 18 de setembro de 2011

Os inimputáveis

miguel silva Foto_Miguel Silva_Público

 

A dívida escondida debaixo do tapete pelo governo regional da Madeira deixa-nos, a todos, um sentido de profunda indignação e nojo.

O Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças que nos meses que levam de governação só têm tido destas surpresas, no desporto, nas obras públicas, na Madeira, foram até onde o sentido de Estado lhes permite ir. A inexistência chamada Procurador Geral da República acordou da letargia onde cobardemente se havia refugiado desde que tomou posse …

Fala-se em multas a esta gente.

Mas se procurarem bem nas leis que regem os titulares de cargos políticos certamente irão encontrar a possibilidade de criminalizar estes comportamentos. Infelizmente iremos ainda encontrar, nas câmaras ou em organismos públicos, mais comportamentos criminosos como este.

Mas é necessário julgar esta gente. A começar por Sócrates. Não politicamente claro, mas em termos da responsabilidade pela mentira e pelo descaramento.

Pode ser que as coisas melhorem para futuro…

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ha de ser

 

VII conferência. Lisboa 2008. VII Conferência da CPLP. Lisboa. 2008.

 

 

Estamos já em plena fase de transição para o novo Acordo Ortográfico. 2015 é o ano em que esse acordo entrará em pleno. Em Portugal o ano lectivo que agora começa ficará marcado pela sua aplicação no nosso sistema educativo e os documentos oficiais da nossa república serão, em 2012, já adaptados às novas normas.

Fica-nos sempre, eu sei, uma saudade das palavras que agora se reescrevem. É natural um certo snobismo da nossa parte quando a “cópia” se sobrepõe ao “original”, quando o Brasil se sobrepõe a Portugal. Mas a bem da internacionalização da língua portuguesa, dizem os defensores do acordo, tivemos que ceder e perceber que o Brasil representa três quartos daqueles que a falam e lhe dão por isso a força que hoje tem.

 

Por isso é a altura de dar uma saudação de bem-vindo ao alfabeto às letras k, w e y. E um bem-vindo com hífen, já que a seguir a bem ou a mal vai continuar a haver sinal. Vamos poder finalmente fazer, em português, kytesurf, afirmarmo-nos convictamente newtonianos ou chamar kafkiano ao vizinho do lado sem estrangeirar a língua.

E todos os que agora me lêem já não me leem com acento circunflexo. Perdem-se também os acentos na jiboia, em heroico, na boia, porque o ditongo está na penúltima sílaba. Assim o herói mantém-se mas o paranoico não. As consoantes mudas são arrasadas sem exceção no novo acordo: a fração, a confeção, o diretor, a seleção, nem mesmo a reação passará novamente … pelo menos com o seu c a meio. Alegremo-nos entretanto com as valorosas consoantes que ainda ficam intactas à força de as pronunciarmos em Portugal: salva-se a bactéria convicta, a secção intelectual, o egípcio estupefacto pelo Egito ter perdido o seu p. O malfadado eucalipto continuará ainda pujante na flora e na ortografia nacional.

Manter-se-á, no entanto, muita da dupla grafia entre Portugal (e outras países de língua oficial portuguesa) e o Brasil. Nós continuaremos a vestir os nossos fatos que para eles não são roupas mas evidências. Eles serão sutis e nós subtis. Eles com decepções e nós com deceções. Os anticoncetivos do lado de lá ou os anticonceptivos do lado de cá continuarão a aniquilar espermatozoides (sem acento). E o oxigénio deles continuará a ser ligeiramente diferente: oxigênio. Mas os brasileiros também perdem o trema e vão ter de aguentar sem o agüentar, o seqüestro ou a seqüência, passando a escrever como nós já o fazemos. Sejamos então atentos espectadores, ou espetadores (no Brasil), destas diferenças.

 

O hífen dá contudo um pouco mais de feitio.

O acordo tenta arrasá-lo. O novo acordo não gosta do hífen e suprime-o sempre que possível. Poderemos ser agora convictamente antirreligiosos, ou olhar a minissaia enquanto fazemos um contrarrelógio ou pintámos o autorretrato, esperar aumentos nas portagens da autoestrada que um dia há de ser paga. Tudo sem hífen! E há coisas estranhas como o cor de laranja perder todos os hífens mas o cor-de-rosa não. O mandachuva perde mas o guarda-chuva resiste.

Mas nem tudo são más notícias para o famoso tracinho, nas palavras em que o fim do prefixo e o início do elemento têm a mesma letra poderemos mantê-lo: em anti-inflamatório, em micro-ondas, em inter-regional ou em inter-resistente, se bem que no extrarresistente já não o poderemos resgatar. Mas o ex-marido continuará separado do seu bem-estar apesar da má-língua, assim como o além-mar e a pós-graduação.

Despromovamos entretanto este débil verão de setembro para a insignificância das minúsculas e o doutor também. Já chega de doutores ou presidentes maiúsculos. Adeus à pêra com acento e ao pára com acento; e ao pêlo também já que deveremos aceder à loucura de escrever que nos passaram a mão pelo pelo. Estranho, sem dúvida. Salvou-se, na razia, o pôde.

É a fatura da internacionalização da nossa língua portuguesa. Uma joia de língua, diga-se.

 

 

Publicado n´O Comércio de Guimarães

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O gozo de espreitar

Foto_Jornal de Negócios

 

A ampla divulgação do património e rendimento dos ministros e secretários de estado, a organização dos respectivos rankings de riqueza nos jornais nacionais é um exercício de voyerismo nojento a que pouca imprensa resistiu.

A lei é importante para controlar o enriquecimento ilícito. Mas não é isso que está a acontecer. O que realmente acontece é que as declarações dos políticos no Tribunal Constitucional servem, fundamentalmente, para que se espiolhe a vida de quem aceitou um cargo de Estado.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Charme

Jaques Henri Lartigue (1894-1986) foi um fotógrafo (e pintor) francês.

A página electrónica a ele dedicada merece visita.

 

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