terça-feira, 25 de novembro de 2014

Dores de parto



Está a ser absolutamente inacreditável, para mim, assistir ao que se escreve e diz sobre a detenção de José Sócrates. Não é propriamente o vendaval mediático da “Operação Marquês” que me incomoda, mas a poeira que ele, com o seu movimento, faz levantar.
Eu sei que – devo ser sincero – me impressiona até à perplexidade a devoção religiosa que tanta gente tem a Sócrates. Eu estou precisamente do outro lado: sou um feroz agnóstico que sempre o considerou um trapaceiro perigoso, uma espécie de prestidigitador retórico que esconde, invariavelmente, a verdade.

Estivemos na mão dele durante alguns anos com resultados catastróficos para o país, que só o mais fundamentalistas dos devotos não conseguirá ver. A sua vida política foi cheia de casos que os seus fiéis rapidamente transformaram na liturgia da perseguição e numa espécie de dogma intocável que atesta a sua (ineludível) santidade. Não conheci, desde o 25 de abril, nenhum político com tanto desprezo pela liberdade como Sócrates. O modelo venezuelano ter-lhe-ia servido na perfeição, sem ter de prestar contas à justiça, à comunicação social, ao povo que existe além dos seus devotos. Mesmo assim, em democracia, não se coibiu de usar as suas armas para condicionar quem se lhe opunha; e algumas delas continuam, no poder económico, político ou de estado, prontas a ser novamente usadas. Penso que, também por isso, o juiz achou por bem ser a prisão domiciliária a forma que lhe dificultaria mais a tarefa de urdir novamente uma das suas teias.

Apesar do odioso da forma como fomos humilhados começamos a cumprir as obrigações a que (voluntariamente) nos comprometemos, mesmo assim com um indesejável rol de erros, omissões e insensibilidade. A justiça não parece temerosa em enfrentar um conjunto de pessoas com um poder imenso na nossa sociedade portuguesa, sempre habituada a estar de chapéu na mão, incapaz de falar verdade, e tem entrado decidida naquilo que parece podre na política e no sector financeiro. Começaremos, finalmente, a parecermo-nos como um país do primeiro mundo? Até fico arrepiado ao pensar que assim possa ser. Que não aconteça aquilo que os vários diálogos dos Maias entre o Carlos e o Ega retratam – e que João Botelho tão bem traduziu recentemente para cinema – em que se desanca no país para logo, na primeira oportunidade, se ceder aos caprichos da mediocridade.


Eu sei que teria sido do primeiro mundo deixar o caso andar sem ter necessidade de escrever nada, como agora o fiz. Mas que diabo, são (ainda) fraquezas do segundo mundo.


Foto:JN

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

"Entre aspas"





“no dize-tu-direi-eu/havia um que dizia/quer dizer é como quem diz/que o mesmo é não dizer nada/tenho dito.”
Alexandre O’Neill. Discurso em As horas já de números vestidas. 1981.







Cada geração constrói, por preguiça de comunicação, os seus bordões linguísticos. Ataca os novos sem perfilhar, ou reconhecer, os seus.
O “tipo” é o bordão dos mais novos. Eu, tipo, estava a olhar para ela e ela, tipo, a fazer que não me via e eu, tipo, não tirei os olhos dela, tipo. É ridículo, sem dúvida. Mas não o é mais do que o “pá” tão querido por aqueles que agora criticam o “tipo”. Eu, pá, estava a olhar para ela e ela, pá, a fazer que não me via e eu, pá, não tirei os olhos dela, pá.
O tipo e o pá são básicos, procuram manter o equilíbrio da frase, pela repetição, apesar de lhe destruírem a harmonia e, quantas vezes, o sentido. No entanto, através das minhas filhas ou dos meus alunos, vou detetando o aparecimento de alguns bordões mais arriscados. O advérbio “supostamente” é um dos meus preferidos e revela-se, no seu esplendor, quando há algum grau de atrapalhação em quem comunica. Então isto são horas de chegar a casa? Ó pai, supostamente, eu tive de esperar pela Ana e sabes como é, supostamente, atrasei-me. Então a aceleração e a velocidade têm ou não sentidos opostos? Ó professor, supostamente, têm, mas, supostamente, o carro continua em frente. O supostamente é, entre todos, um bordão mais intelectual.
O “entre aspas” é curioso e atinge alguns espécimes independentemente da geração. É o bordão cobarde. Eu, entre aspas, até gosto dela. O senhor está, entre aspas, a mentir. Mas à custa de muito ser usado vem atingindo a insanidade absoluta. Vai entrando nas frases, cada vez mais, sem o mínimo de sentido ou propósito. Eu fiquei, entre aspas, mal disposto. Dei, entre aspas, o meu melhor. A camisola era, entre aspas, amarelada. É estúpido, mas é internacional (in quotes) e atinge o cúmulo do mau gosto quando se faz acompanhar do gesto sincronizado dos dedinhos médio e indicador das mãozinhas marotas que o desenham no ar, não vá a gente não perceber o que são aspas.
O bordão é inevitável para a maioria dos comunicantes. O “quer dizer”, o “não é?”, o “na realidade”, são um pouco menos deselegantes que os anteriores, mas não deixam de ser uma boia de linguagem, usada para que ela flutue e não se afunde em silêncio. Cabe-nos a nós cuidar deles e poupá-los para que não se gastem.





A sopa, pelo contrário, não cansa nem se gasta. A sopa é um dos elementos culinários mais extraordinários da cozinha e, diria mesmo (sem aspas), da cultura portuguesa.
Desde muito pequenos que a sopa é um elemento forte da nossa existência, até porque, vá lá saber-se porquê, o “comer a sopa” é um dos rituais essenciais da nossa infância e marca a personalidade de cada um. O não comer a sopa é assim um dos primeiros atos de profunda rebeldia. Enquanto os miúdos alemães se atafulham de papas doces os nossos, desde muito pequenos, para sua aparente desgraça, são habituados ao sabor gourmet dos vegetais. E nós íamos resistindo até à ameaça do papão ou do cigano ou, de uma forma mais concreta e desesperada, da estalada. Como pais melhorámos a técnica para o “assim não cresces”, mais inteligente e, sobretudo, menos dolorosa. Apela-se ao futuro e à urgência em se sair de um corpo demasiado pequeno para as aspirações de uma criança.
A sopa marca o nosso quotidiano: é ineludível.
Mas o esforço titânico dos pais apopléticos e das crianças birrentas abre, contudo, a porta para um mundo absolutamente fantástico que é o mundo da sopa e da variedade de sopas excelentes que acompanham a extraordinária riqueza da nossa gastronomia nacional.





Temos a estúpida tendência para ver vantagens no estrangeiro, como se sofrêssemos a sina de sermos portugueses. Mas nem a mais elaborada retórica nacionalista é tão assertiva como a comparação das sopas. Aí ganhamos sempre a qualquer país.
Quando se passa algum tempo fora de Portugal começamos a sentir necessidade de uma sopa. Alguns, mais experientes e avisados, substituem o desconforto de não a comer pelo recurso ao excesso de vegetais no acompanhamento dos pratos. Outros mais atrevidos e crentes, como eu, experimentam as sopas estrangeiras. Sempre com péssimos resultados.






Lembro-me particularmente bem de duas terríveis experiências. Uma em Nova Iorque, num restaurante francês, em que me é servida uma sopa igualzinha à mistela de água que se junta ao estrugido antes daquilo receber o arroz. Olhei para aqueles elementos vegetais a boiar na gordura e desliguei os sentidos para a conseguir comer. Comi, mas arrependi-me. Outra vez, numa cidade polaca, desesperado, pedi uma sopa local de cogumelos. Veio uma argamassa castanha que eu engoli, cheio de fome, até metade. Comi e arrependi-me ainda mais do que da primeira vez. E durante três dias consecutivos arrotei, entre aspas, aquela mixórdia, até que uma redentora sopa de nabiças, já em Portugal, leve e saborosa, me resgatou novamente o palato.


Imagens de obras do pintor Amadeu de Souza-Cardoso. 

De cima para baixo: A casita perdida (1915) Sem título (1917) Os cavaleiros (1913) Cozinha de Manhufe (1913)


Artigo publicado in O Comércio de Guimarães (12.11.14)