quarta-feira, 29 de abril de 2015

O sopro



“Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo.”

Sophia de Mello Breyner Andresen. O nome das coisas. 1977.





Começamos, lentamente, a passar do fatalismo da idade biológica (“a idade não perdoa”) para o otimismo da idade psicológica (“o importante não é dar anos à vida, mas vida aos anos”). Esta inversão de sentimentos e perceções só é possível numa sociedade como a atual, mediatizada até à náusea, em que a mágoa encontra antídotos (reais ou imaginários) nas opiniões diversas a que a maior parte de nós tem acesso, ou encontra sem particular dificuldade.
Como não são já populares os estados de profunda melancolia - que afetaram as damas do século XIX e os adolescentes do início dos anos 80 que, como eu, se viciaram na batida dos Joy Division e lhe decoraram, com precisão de relojoeiro, letras e pausas - é hoje usual agarrarmo-nos a aforismos que negam o que há anos atrás pensávamos do que seria ter 40 anos, 50 anos, 60 anos.



É assim muito comum ouvir-se ou ler-se que “os 40 anos são os novos 30”, ou que os “os 50 anos são os novos 40”, ou mais entusiasticamente que “os 50 anos são os novos 30”. A aritmética é arriscada, mas o resultado psicológico é consolador face ao “peso da idade”.
Na verdade – e creio não ser uma deformação do tempo – fiquei habituado, quando era jovem, a ver os senhores de 40 anos sempre impecáveis, de fato e gravata, com contida mas existente bonomia, e aos 50 anos, continuavam impecáveis, só que perdiam a bonomia para ganhar um chapéu. Criavam connosco, uns e outros, uma profilática distância que nós – os jovens – respeitávamos sem particular azedume, porque era assim que as coisas eram e era assim que o tempo trabalhava as pessoas. A idade e a gravidade caminhavam juntas.



Agora que tenho cinquenta não estou assim tão assustado como pensava estar quando ainda não tinha cinquenta. E era capaz de ir mais longe: “os cinquenta são os novos 20!”.
Aos cinquenta não estamos particularmente preocupados com aquilo que de nós pensam. Tal como aos vinte. Aos cinquenta tem-se já estatuto para menorizar a opinião dos outros sobre nós, enquanto aos vinte ninguém tem estatuto para ter opinião sobre nós. Aos cinquenta perdemos a pachorra para educar os nossos filhos (o trabalho está feito, bem ou mal, está feito), e eles, com vinte anos, agradecem essa nossa sabedoria pois não têm igualmente pachorra para serem educados. O caminho está livre, finalmente, para eles e para nós, já sem fraldas, biberões, termómetros, festas de Natal, dias da árvore, da água e da doninha, avaliações qualitativas, e aquela inapelável fragilidade que têm quando são pequenos e que nos prende a eles como âncoras.
Aos trinta e aos quarenta, esse longo deserto de responsabilidades e afirmações, tinha vontade de me divertir como me divertia aos vinte, mas já não o sabia fazer com a mesma irresponsabilidade dos vinte, o que tornava o divertimento contido e por isso paradoxal. Recuperei há um par de anos essa mesma irresponsabilidade. Aos cinquenta pode-se ser irresponsável que ninguém vai pensar que o estamos a ser e isso dá um gozo tremendo. Até já danço novamente! quase um quarto de século depois de me ter (irresponsavelmente) atrevido a fazê-lo ... e nunca estive tão atento, como hoje, às novas bandas tal como o fazia aos vinte.
E se o colesterol e os triglicerídeos, as dores nas costas e a escassez hormonal, nos aparecerem, a espaços, cutucando o nosso braço, esperemos com otimismo que eles passem e se cansem como estas nuvens que vão, mais tarde ou mais cedo, acabar por deixar o sol em paz.



And now for something completely different: temos que fazer qualquer coisa sobre as luzinhas acesas nas varandas e janelas do nosso centro histórico, permanentemente. Andámos nós durante anos a preservar este belíssimo espaço a que chamamos a nossa cidade para agora, a propósito de um simpático efeito de Natal, a caricaturarmos com uma profusão de luzinhas que dá à inquestionável beleza arquitectónica do nosso espaço comum um incomodativo toque pimba. Não pode ser. Apaguem-se essas velas num só sopro ... e o mais rapidamente possível.


Publicado in O Comércio de Guimarães (28.05.14)

Fotos (a preto e branco) de Irving Penn  (página)
Fotos a cores de Julianne Moore: trabalho do fotógrafo Peter Lindbergh sobre motivos de pinturas (página)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A migração das palavras

“Se não há homens insubstituíveis, há palavras que são insubstituíveis. Elas, de resto, não exprimem nunca o conflito, mas o seu fantasma; e o fantasma de uma realidade está subordinado à escolha estrita das palavras.”
Agustina Bessa Luís. Dicionário imperfeito. 2008.











Já deverão com certeza ter notado a minha preocupação em escrever segunda as normas do novo acordo ortográfico. Se eu fosse um cronista de renome pediria até - em rodapé - a indicação Rui Vítor escreve de acordo com a nova ortografia. E porquê? Por snobismo contra os snobes, fundamentalmente.
O que me deixa realmente preocupado não são as regras e mudanças, mas as palavras em si. Sobretudo as que desaparecem da linguagem comum no emagrecimento lexical da nossa língua, que vai, por estes dias, desperdiçando e esquecendo os seus termos mais ou menos coloridos.



Tenho saudades do estrugido e do burnir, tão típicos da nossa zona. O estrugido tem a sonoridade do azeite quente enquanto o refogado é demasiado macio para a vibração culinária. O burnir, ou brunir, tinha um asseio diferente do passar a ferro, era engomar com desvelo. É capaz de ter desaparecido pois já ninguém sabe burnir como burnia.
Não se encontram na rua hoje mulheres desesperadas gritando “gandulo!” a um rapazote mais atrevido ou ao moço mais desbocado. Podia, porventura, ir-se um bocadinho mais além e chamar-lhe mesmo estupor, não era preciso dizer-se um palavrão para insultar. Até o insulto precisa de fugir ao facilitismo vulgar do palavrão. Há palavras para tudo. Relembro assim o Sr. Monteiro, dono de uma mercearia – outra palavra em desuso, engolida pelos mercados super e depois hiper –, no início da rua D. João, que uma vez gritou “o estupor do rapaz caiu-me ao lago”. Era eu e mereci o desabafo pela trabalheira que, incauto, lhe dei.
A bucha desapareceu e a merenda vai também a caminho, substituída pelo anglicista lanche. Mantém-se (ainda) o kispo que adotou desde os anos setenta o “k” muito antes do novo acordo ortográfico. A minha geração, que inicialmente os usou, preservou a marca e deu-lhe a consistência de uma palavra que ainda hoje as novas gerações usam para designar os blusões de penas. Era quentinho e impermeável e assentava sempre em fortes, apesar de primitivos, reclames televisivos. Reclame foi outra palavra que voou e nunca mais voltou, ficando a palavra anúncio, grave como uma pomba gorda que não migra mais de trinta metros entre a torre de S.Pedro e o transeunte que de forma irresponsável a alimenta no Toural.




Apesar do galicismo adoro a palavra chofer. Tem um tom distinto, não carregando o desconforto proletário da palavra motorista. Sr. chofer por favor meta o pé no acelerador dizia-se ao condutor da camioneta no passeio escolar, longe do politicamente correto das normas securitárias. O chofer da furgoneta também ganhava uma pintinha de sangue azul no seu desalinho, até chegarmos ao topo da classe: o chofer de praça. Se hoje se cultiva alguma má vontade relativamente aos taxistas, o mesmo não se poderia ter para com um linguisticamente aprumado chofer de praça ... no Toural das pombas cada vez mais ociosas, onde já não circula o malotinha vendendo cautelas. Os malotas desapareceram, não sei se por força dos corcundas ou do sistema nacional de saúde, e a cautela (o vigésimo de um bilhete de lotaria) também, e com ela a poesia que a matemática fração nunca terá. Comprava-se uma cautela pela cautela de não desbaratar o dinheiro num bilhete inteiro. Faz-me falta o deferente vossemecê da minha avó por contraponto à boçalidade do você. Faz-me falta o escangalhado, a serigaita, o lingrinhas, a chanca, os auscultadores e o biscoito. Não me fazem assim tanta falta as ceroulas – sempre fui quente – nem as remelas, nem a trepa.



E se as palavras migraram e se cansaram de voltar à boca das pessoas, outras aves lexicais apareceram sem particular proveito para a língua. Não me socorrendo da vulgaridade efémera das palavras do ano, não posso deixar de mostrar o meu desagrado pelo visualizar que vai engolindo o verbo ver, pelo realizar em vez do perceber, e sobretudo por essa pomba sebosa e cobarde que é a palavra inverdade.

E para aqueles que não concordarem com esta minha ornitologia das palavras poderei sempre dizer-lhes, de ombros tensos e sobrolho franzido: ora essa?



Cartazes do filme Os Pássaros. Hitchcock.1963.


Artigo publicado in O Comércio de Guimarães (01.04.15)