quarta-feira, 27 de maio de 2015

O rescaldo

“A nossa ignorância permitia-nos viver, tal como quando estamos na montanha e a corda está gasta e prestes a rebentar, mas nós não sabemos e prosseguimos a escalada.”
Primo Levi. O sistema periódico. 1975.






A vida pode ser extremamente aborrecida. Isso é um facto ineludível.
Tendo em conta que, em princípio, só temos uma, será de uma extrema estupidez cobri-la de aborrecimento, de tédio, de preocupação excessiva.
O segredo para o aborrecimento da vida é levarmo-nos muito a sério. A receita para o aborrecimento é termos a estranha pretensão de que os nossos pensamentos, as nossas posições, os nossos atos, os nossos filhos até, estão todos revestidos de uma superior verdade, a nossa verdade, e tudo aquilo que não se encaixa é mau, é parvo e não presta.
O dinheiro, a posição social, o nível cultural não são de forma nenhuma antídotos contra o aborrecimento. Ser pobre é extremamente aborrecido, é um facto, mas ser rico também o poderá ser se a nossa preocupação for exclusivamente a de continuar a enriquecer, os impostos, os funcionários. Ser reconhecido socialmente arrasta a preocupação de o ser de boa forma, ser apenas um rosto na multidão é socialmente desolador. Ser uma besta e perceber que se é leva a um aborrecimento de morte, não ser uma besta e julgar que todos os outros o são leva a uma solidão angustiante.

As religiões animistas tentaram dar um pouco de animação a esta coisa da vida. Segundo elas, quando morrermos, encarnamos em animais e plantas e continuaremos a reencarnar de forma perpétua. Aos espécimes vivos que como eu não nutrem particular interesse por animais seria de uma suprema dor ver-me aprisionado dentro de um cão ou de uma vaca leiteira. Por outro lado o crescimento exponencial dos chineses começa a deixar-nos poucas opções para reincarnarmos nos animais que no período anterior desdenhei. A suprema ironia seria ficarmos no limbo à espera de vagas de animais, num angustiante desemprego de reincarnação de longa duração.
As religiões mais especializadas deram-nos um Deus judaico tão maldisposto que torna a existência um stresse contínuo, os muçulmanos sacaram a história das virgens para animar os sacrifícios terrenos, e os cristãos – vá lá, tivemos sorte– levam-nos para a contemplação como o prazer último da pós vida.
Nem as religiões mais arcaicas nem as mais modernas nos deram mesmo assim, convenhamos, hipóteses realmente animadoras para suportar o aborrecimento terreno.



A única e verdadeira arma contra o aborrecimento é, sem dúvida, o humor. O problema é que nem todos temos a sorte de o ter, ou pelo menos de o perceber. Transplantam-se rins, fígados, corações e pâncreas, mesmo até cabelo, mas o humor é não transplantável. O que é, diga-se, verdadeiramente trágico.
Eu que sou um dos dezassete cavaquistas do país gostaria imenso de ouvir o presidente gracejar sobre o bolo-rei, sobre o preso 44 ou sobre os 9 milhões 999 mil e 983 portugueses que se abespinham sempre que ele fala. Seria porventura redentor: para mim, para ele e para os outros dezasseis que comigo o apoiam.



O país está a ficar demasiado sério e por isso aborrecido. Quando perdemos a capacidade de nos rir de nós próprios ficamos sempre em estado de rescaldo. Ficamos pontualmente presos ao rescaldo das chapadas ao miúdo da Figueira, nas reprimendas da troica, e agora na desolação nacional das bastonadas da PSP na alma benfiquista.
Ou caminhamos para a frente com humor ou ficamos, impotentes e culpados, no purgatório do rescaldo. E é assim que nós estamos. Cheios de culpa por fumar, pelos feriados que tivemos outrora, por Deus nos ter plantado aqui e D. Afonso e seus descendentes terem delimitado com inteligência esta pequena assoalhada com vista para o mar em dois dos seus quatro lados. Só alguém com extraordinário humor teria percebido, como perceberam os nossos primeiros reis, que precisávamos mais de mar do que terra.



A palavra rescaldo vai começar, agora que o sol se afirma, novamente a ser usada. Estamos aqui junto do comandante Ferreira, na serra da Lousã, no rescaldo do enorme incêndio que lavrou na última semana, ou estamos junto de um popular no rescaldo do incêndio da sua habitação.
O rescaldo é o caroço intragável do tédio e uma porta escancarada para o aborrecimento. Gozemos então impunemente, nos próximos meses, com o rescaldo. Das coisas, das pessoas, dos pensamentos filosóficos, dos artigos que como este não levam (seguramente) a lado nenhum.



Publicado in O Comércio de Guimarães 27.05.15

Fotos.  oculi.com.au  /  satnews.com /  popsugar.com  / JN