terça-feira, 13 de agosto de 2019

O princípio



É sempre bom começar. Quando começamos parece não haver passado. Começamos o ano com a resolução inabalável de deixar de fumar, começamos o ano letivo com a disposição de “este ano é que vai ser”, começamos uma nova relação amorosa com a convicção de que aquela é que é realmente a mulher da nossa vida.




Eu começo a colaboração com o DG com muito gosto e com a sensação de que vai ser uma coisa boa. Um pensamento tonto mas próprio de um começo. Previsível e desculpável. Deixo já a minha “declaração de interesses”: sou vitoriano desde que tenho consciência de mim. Um amor monogâmico como qualquer bom amor terá de o ser, um sentimento que partilho com outras dezenas de milhares de sócios e adeptos do Vitória. Nós somos assim, essa é a nossa força, a nossa característica. (Nunca percebi o mau gosto de se falar em ADN: o Vitória é ácido desoxirribonucleico? Que disparate quando se tem uma língua inesgotável como a nossa língua portuguesa!). Retomando: sou assim o produto de um meio fervoroso e apaixonado pelas suas coisas. Penso ter deixado aos que de mim descendem o mesmo sentimento vitoriano. Era a minha obrigação. Poderia ter deixado uma herança mais proveitosa, interesseira, mas leguei o amor às coisas nossas. Muitas vezes trágico? Claro, mas qual dos grandes amores da literatura não é trágico? De repente não me lembro de nenhum.




Para o Vitória este é também um começo. E as coisas até estão a correr muito bem o que, bem vistas as coisas, não é assim muito recomendável. Adeptos incorrigíveis como nós vão já pensar – por muito o desejarem – que vai ser sempre assim, sempre a somar. E não vai. Já passamos por este filme (pelo menos eu) demasiadas vezes para perceber que existirão mais à frente (infelizmente) momentos maus. E então o que era excecional passará, com a mesma ponderabilidade, a ser péssimo. E lá iremos voltar ao mesmo e os treinadores e presidentes de facebook irão destilar a sua frustração e veneno num ódio evitável e em teorias da conspiração mirabolantes. Isto não é o nosso ADN (!) dirão então alguns mancos na sensatez e na língua portuguesa. Em bom rigor, para sermos melhores, só nos faltaria saber sofrer mais silenciosamente. O que seria já um nível de superlativo nível de amor e de libertação. Mas como o nirvana, no budismo, só muito poucos a ele conseguem chegar.




E se pensarmos bem este começo, racionalmente, não auguraria nada de extraordinário. Sem o To-Zé, sem o Dodô, com um estaleiro de luxo inativo (André, Wakaso, o talentoso e incompreensível Ola John, o jovem que veio do Porto) só nos restaria a rapaziada do ano passado que tantas vezes se mostrou perdida. Estranhamente, ou talvez não, todos ocuparam o lugar como se o conhecessem desde sempre. Há sempre alguém para receber a bola e até o Pêpê parece mais rápido. Mérito seguramente de um treinador competente e focado como Ivo Vieira. Na minha pobre cabeçita de presidente de bancada, orgulhosamente sem ADN, começo a pensar (para me aperrear interiormente) quem vai ser afinal vendido em dezembro. O supersónico Tapsoba, o deliciosamente frágil Joseph, o “igual a nós” Miguel, o granítico Al Musrati? Julgo perceber que o Vitória precisa sempre, por época, de pelo menos três milhões de euros para fazer face ao orçamento deficitário. Enquanto nos “três” do costume isso nunca é problema já que o vergonhoso sistema de receitas televisivas e o beneplácito bancário e social os alivia com solicitude, nós estaremos sempre entregues a nós próprios, sem contemplações, ajudas, perdões. Que vão, se tiverem que ir, os anéis ... mas que fiquem os dedos das mãos que entrelaçamos ao gritar Vitória! Ano após ano.


Publicado in Desportivo de Guimarães, a 13 de agosto de 2019

Imagens de pinturas do National Football Museum:
 Chris Holweel (1994), desconhecido, Cecil Beaton (1955) e Daphne Chart (1953)

quarta-feira, 17 de julho de 2019

O motim

“A cidade está deserta/E alguém escreve o teu nome em toda a parte/Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas/Em todo o lado essa palavra repetida/Ao expoente da loucura/Ora amarga, ora doce/Para nos lembrar que o amor é uma doença/Quando nele julgamos ver a nossa cura.”
Ornatos Violeta. Ouvi Dizer.1999.




Há umas semanas fui convidado a ir à Cadeia de Guimarães para partilhar com os reclusos a minha história de vida por convite de Filipe Fontes, numa louvável iniciativa já com algumas edições. Todos nós temos dias menos bons e eu - que julgo ter alguma facilidade em falar publicamente – estendi-me ao comprido durante a hora e meia em que lá estive. 
Fiquei com a exata noção do que sente uma banda musical perante um público que a ignora. Mudam de tema, mudam de estilo, mas da plateia só recebem indiferença. E, entenda-se, não culpo a plateia mas o artista. A público era numeroso pois a alternativa a me ouvirem era o de estarem na cela. Suponho, mesmo assim, que alguns se arrependeram de terem saído do seu apertado compartimento prisional. No entanto houve um momento alto e particularmente revelador do estado atual das coisas. Falei da minha infância, do Vitória (quando as coisas já se adivinhavam más tentei o futebol, mas zero, não havia lá vitorianos), da minha vida associativa (que bocejo!), de patéticas histórias pessoais, e nada. Eis então que tive o meu momento Ouvi Dizer só que o público não cantou a letra convencional mas uma letra bem diferente, foi quando eu falei do meu percurso político. Ia caindo o Carmo e a Trindade. Acordou então a plateia da letargia a que os tinha votado, com uma surpreendente convicção: os políticos são todos os ladrões, são todos uns bandidos, são todos uns interesseiros. Calei-me para ouvir a indignação da plateia e, por breves momentos, deixei de suar de incomodidade. Lembrei-lhes então, com alguma delicadeza creio, que eu estava ali sem preconceitos a falar com eles e esperava, no mínimo, que eles fizessem o mesmo comigo. Mas registarei para sempre a ironia daquele momento e a força inamovível e granítica daquela convicção.



exercício da política, em Democracia, está efetivamente de rastos. Eu sei que é desanimador ouvir e ler e perceber as notícias que nos chegam. Mas, caramba, não podemos generalizar! Qual é a alternativa: o caos? a ditadura? o populismo sempre a guinar para o lado do que incomoda, esmagando o presente com particular esquizofrenia?



Avida de um político é chata. Acreditem. Ser-se da oposição então – a única experiência que conheci – é ciclópico. Temos a sorte de existirem ainda pessoas capazes que se dão a esse trabalho sabendo, como sabem, que a sua generosidade (quando existe) é facilmente confundida com interesse. E isso desanima, no mínimo. O povo que elege os políticos nunca tem culpa. Foi enganado, mesmo quando todos os sinais são claros em nos dizer que o sr.X é um traste, mas elege-se o sr.X e a culpa nunca é do povo é sempre do sr.X e da política. 





Contrariar o povo é uma chatice. É só ver a confusão instalada com a mudança, este ano, do local da Feira Medieval. A Câmara tomou uma decisão corajosa e deixou, por momentos, de disneylandarizar o centro histórico.
Suponho (com alguma dificuldade) que aqueles que querem uma festa branca todos os fins de semana, ou mesmo aqueles que choram baba e ranho de saudades pelo barulho dos matrecos, dos carros de choque e da música pimba na Alameda durante as Gualterianas, gostarão de Guimarães. Agora eu como povo (espero que não muito minoritário) gostaria que a minha cidade respirasse, se diferenciasse e não se afogasse em divertimentos que tornam Guimarães uma terra igual a outras e tornam insustentável viver-se no centro histórico. O centro de Guimarães morre a cada festa, pois cada festa torna impossível que alguém com o mínimo de juízo pense em viver nele. E quando as pessoas que hoje por lá ainda resistem morrerem, e quando só incautos turistas nos aparecerem às janelas, então poderemos fazer a festa final: o enterro do centro histórico, regado com muito gin tónico e cerveja, claro.
Guimarães só ganhou verdadeiramente quando teve a capacidade de se diferenciar. Quando no início dos anos 80 se uniu em torno do Plano Geral de Urbanização do Távora houve uma ideia de cidade partilhada pelas forças políticas representadas na Câmara, em contra corrente. Se então houvesse redes sociais certamente muitos indignados haveriam de gritar que Guimarães era uma vergonha pois não crescia como Braga e talvez se hesitasse politicamente. Hoje é fácil perceber que a aposta na preservação foi uma boa aposta: está aos olhos de todos. Na altura não era fácil perceber isso pois as cidades estavam obcecadas com o crescimento. O que ganhamos então por ir contra o “desenvolvimento” é aquilo que, justamente, nos diferencia hoje das outras cidades. Talvez fosse importante pensar hoje quão importante seria ter meninos a jogar à bola no centro histórico, ter casais jovens nas magníficas varandas das nossas praças, haver efetivamente condições para dar ao centro histórico a alma humana que se vai perdendo inexoravelmente, e não em tornar o centro histórico um S.João contínuo. E esse é um papel político de quem nos representa e um papel cívico em cada um de nós.
O futuro do centro histórico de Guimarães encontra-se (infelizmente) hoje mais refém dos indignados do facebook do que refém, como deveria estar, de uma ideia de cidade com futuro.


Publicado in O Comércio de Guimarães, 17 de julho de 2019
Imagens: The International Scholar e The Independent

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Aborrecimento

“Quando perdemos o gosto pela multidão é porque estamos velhos. Quando não achamos graça em andar a pé na rua, por atropelada que ela esteja, e até suja, e até povoada de gente suspeita, então é porque não pertencemos já ao mundo dos vivos. (...)”.”
Agustina Bessa-Luís. Dicionário Imperfeito. 2008.





Quando era jovem fui a várias conferências sobre os temas mais diversos e em muitas delas saía um pensamento principal: que o mundo (então atual) estava perdido, que os jovens não se interessavam pelos temas que, justamente, o conferencista tão bem abordava, que já não se sabia escrever em bom português, que os valores se perdiam.
Hoje vou a algumas conferências sobre os temas mais diversos e em muitas delas sai (estranhamente) o mesmo pensamento: que o mundo está perdido, que os jovens não se interessam pelos temas que, justamente, o conferencista de circunstância tão bem aborda, que já não se sabe escrever em bom português, que essa “coisa” dos valores se perde na inexorável linha do tempo.
E isso era para mim, e ainda é hoje para mim, um tremendo aborrecimento. 





antes e o agora são tão imiscíveis como o azeite e a água. Em meados dos anos 80 eu e os meus companheiros de República decidimos, com muita perseverança e esforço próprio pintar interiormente a casa em que habitávamos, limpar o soalho e encerá-lo, remover o lixo acumulado pelas gerações que nos precederam, recuperar as portas e a cave até então mais acessível aos gatos do que às pessoas. Passámos meses nessa missão, sempre em linha (analógica) com um empreiteiro que era pai de um amigo nosso para sabermos a medida exata de areia, água e cimento. E tudo fizemos, qual Câmara Municipal, para inaugurar a recuperação num dia de festa, chamado Centenário que acontecia e ainda acontece no último sábado de janeiro de cada ano. Estávamos exaustos mas orgulhosos de termos sido capazes de sair do conforto do intelecto para trabalharmos como operários de construção civil, com razoável qualidade diga-se. Nas Repúblicas de Coimbra existe o hábito de escrever nas paredes. Qualquer dislate que nos saia fica assim imortalizado na parede. Por isso antes de pintar as paredes passamos todos os dizeres e tornamos a escrevê-los na virgindade branca da tinta fresca. Isto à exceção de um poema do Zeca Afonso escrito pela sua própria mão em finais dos anos 60, o qual protegemos com fita adesiva antes de iniciarmos a tarefa, deixando-o intacto.
No dia do Centenário não podíamos estar mais orgulhosos do que então estávamos. E mostrámos a casa, quarto a quarto, aos repúblicos que nos precederam. Para surpresa nossa um grupo considerável de antigos estudantes ficou indignado, com aquela indignação própria da idade. Que aquilo não podia ter sido feito pois se perdeu, nas obras de recuperação, a caligrafia. Argumentei com a necessidade de preservação mas, a partir de um certo momento, deixei de os ouvir e só lhes sentia o movimento das boquinhas indignadas, não os ouvia pois estava concentrado num grande e decisivo pensamento: quando envelhecer não quero ser assim! Quando hoje vou aos Centenários e vejo o meu quarto hippie chic  transformado num quarto hippie trash desvio o olhar e o pensamento para não ser previsível e aborrecido.




indignação da geração mais velha sobre a mais nova é tão aborrecida quanto a moralidade. Quem assim se indigna parte do estúpido preconceito de que os instrumentos de medida morais, culturais ou estéticos, terão que ser os mesmos de quando eram jovens. E isso é, no mínimo, estúpido porque as coisas mudam, e bem. Se repararmos com atenção hoje há menos pobreza, menos guerras, menos ditadores, já não há o muro de Berlim nem o imponderável comunismo internacionalista, já se viaja sem ser rico, já há muitos procuradores que procuram mesmo e as pessoas que entalavam os seus pensamentos no silêncio da insignificância dizem coisas a outros e têm likes pelos seus desabafos ou pura e simplesmente pelo novo e belo novo biquíni que, conceda-se, lhes fica tão bem.



mundo só parece aborrecido pois ontem, como hoje, as pessoas que têm voz pública são extremamente aborrecidas e são velhas, algumas mesmo sem cronologicamente o serem. Os velhos são aborrecidos pois no intervalo de falarem das doenças falam em como dantes era bom e de como agora tudo é mau, tudo é vicioso. E a corrupção? Meu Deus a corrupção, que pouca vergonha! Fazendo parecer que por sabermos hoje da corrupção é como se ela ontem não existisse, o que é mentira!
Envelhecer é uma chatice mas morrer, convenhamos, é um bocadinho mais dramático. Por isso descarregar a angústia do envelhecimento em cima de quem tem a curta felicidade de não ser velho é de um egoísmo chato, redondo, escusado. E eu controlo-me. Pelo menos é o que eu acho.


Publicado in O Comércio de Guimarães, 19 de junho de 2019.

Imagens (de cima para baixo): A night in the show (Chaplin, 1915), healthguidance.org, pollyana.it e Paul Popper.



terça-feira, 21 de maio de 2019

O esternocleidomastoideu

“(...)Quando se deu uma borla 􏰁fiscal de várias centenas de milhões de euros aos restaurantes, fez-se uma opção. Favoreceu-se os restaurantes em detrimento dos professores ou dos serviços públicos ou de outras empresas. É legítimo, mas é uma preferência, não é uma ausência de alternativa.”
Luís Aguiar-Conraria in Público.8 de maio 2019.



Sou um fã do cinema português dos anos 30 e 40. Já gastei algumas horas em discussões impossíveis com amigos meus que gostando do Botelho, do Oliveira - como eu gosto - não são tocados pelo excecionalidade desse cinema português, ou por preconceito mesquinho ou então na ausência absoluta de sentido de humor. Recordo-lhes sempre uma cinematografia bem mais poderosa que a nossa – a italiana – e o respeito que sempre tiveram por Totò. Realizadores intocáveis como Rosselinni, De Sica ou Pasolini filmaram-no depois dos anos de popularidade do ator. Mas enfim, particularidades dos intelectuais portugueses.
A Canção de Lisboa de José Conttinelli Telmo, filme de 1933, é sem dúvida o meu favorito. Sei-o (praticamente) de cor pois já o vi dezenas de vezes. Adoro o filme, não só pelos excelentes atores que interpretam superiores personagens, mas porque o filme é Portugal. É o Portugal de então e continua a ser o Portugal de agora. Não há nada que nele não caiba. E isso é de génio!



falsa opereta lançada por António Costa a propósito da recuperação do tempo de serviço dos professores também cabe – por cínico absurdo - n’ A Canção de Lisboa.
Vasco Santana representa os professores, calaceiros e mestres no expediente (“ora 20 macacos a 20 macacos, são 400 macacos!”), sempre pronto a enganar as tias, o Estado, com a sua frase “então sou ou não sou doutor?!”, o António Silva é o António Costa, sempre lesto a tirar vantagem das situações, ora encosta-se ao Vasquinho para obter quinhão na fortuna das tias, ora logo o descarta se vê que as tias dele desconfiam, e o sapateiro são os outros. Quando nos dias seguintes vi o afã das televisões a entrevistar polícias, magistrados e enfermeiros, e a forma patética como embarcaram no guião jornalístico lembrei-me da frase do sapateiro quando o Vasquinho e o António Silva estavam (ainda) em lua-de-mel: “ou comem todos, ou há moralidade!”. O que é tipicamente português. Em vez de esperarem para reivindicar o mesmo – já que, saiba-se, as carreiras gerais da função pública já recuperaram, para efeitos de progressão, o tempo congelado– e terem um argumento sólido para lutarem pelos seus direitos, procuraram desbaratar à partida as (frugais) conquistas dos outros.
Não faltaram porém mais sapateiros no comentário político e na escrita. Já de há muito que não ouvia tão comovente unanimidade e ignorância de comentadores. Alguns deles que mais não fizeram na vida do que subir, descer e voltar a subir o íngreme escadote da política, sem uma experiência profissional digna de registo ou qualquer empatia pelos outros que não eles mesmos. E o curioso é que muitos deles se arrepelam com Donald Trump, com a sua boçalidade analítica, mas o grau de profundidade no comentário não diferiu muito da do presidente americano. 




Oque realmente me magoou e magoa enquanto professor não é o malabarista do Costa ou o (falso) sonso do Centeno ou o parlamento, são os sapateiros! A “unanimidade” na incompreensão da luta dos professores é insana pois oblitera as dificuldades pelas quais os professores passaram e passam para manter, apesar das mudanças constantes de rumo político na educação e de serem (injusta mas repetidamente) o bode expiatório de ocasião, a qualidade do ensino público português que é, saiba-se, o único instrumento que os filhos dos mais desfavorecidos têm para saírem da situação em que se encontram.



Penso que a qualidade da escola pública portuguesa é inegável. Tenho a convicção de que começa a ser raro um país que consegue que os seus filhos frequentem a escola pública e estejam preparados para serem bons e reconhecidos profissionais. Eu, a minha mulher, as minhas filhas tivemos (e duas ainda têm) da escola pública um contributo inestimável para o que somos hoje. Perceba-se a voracidade gulosa com que a Inglaterra aceita os nossos médicos e enfermeiros, ou a forma festiva como a Alemanha recebe os nossos jovens engenheiros. O problema de Portugal não é a qualidade do ensino público, mas o que fazemos, enquanto país, com essa qualidade com que formamos os nossos jovens. Os Estados Unidos, a França, a Inglaterra já há muito que não têm um ensino público de qualidade. A qualidade passou para os privados e paga-se bem. Ter a possibilidade de viver num país fabuloso como o nosso e haver ainda um sistema público de ensino que permite que os filhos das famílias com mais dificuldades o frequentem e almejem à mobilidade social é, seguramente, uma bênção a que não damos o devido valor. Aliás a prova de que o ensino público português é mesmo bom é que nem Sócrates, nem Relvas nele se licenciaram. Este último, desenterrou-o das trevas o jornal Público, para que viesse ensombrar Rui Rio dizendo que são necessários “princípios e valores”: ora cá está um ponto forte de Miguel Relvas. E eu que julgava que bastaria uma posição firme de Miguel Relvas para os sapateiros defenderem o contrário, ou pelo menos duvidarem da sua posição. Enganei-me.




esmagadora maioria dos professores reformar-se-á dentro dos próximos 10 anos. Não há jovens a formarem-se para professores. Por via da dificuldade de progredir na carreira (eu tenho 26 anos de serviço e estou no 4º escalão de um total de 10!) e do veneno que se lança com particular eficácia como um anátema, já ninguém quer hoje ser professor. Quando a maioria dos professores se reformarem os desgraçados dos professores, hoje com trinta e muitos ou com quarenta e poucos, que percorrem o país de lés a lés para tapar buracos sempre com a tonta ilusão de que haverá algures um lugar para eles, vão estar nessa altura exaustos e velhos sem qualquer lágrima restante gasta ao longo destes anos de incerteza e desespero e incompreensão.
Aí a escola pública vai cair com estrondo e, como de costume, haverá então um nicho de oferta de ensino de qualidade para as classes mais favorecidas, mas apenas para essas. Provavelmente alguém vai então condescender na fúria que hoje alimenta e dizer que o Vasquinho afinal até sabia o que era o mastoideo. Mas nessa altura vai ser tarde demais. Infelizmente.

Publicado in O Comércio de Guimarães, a 22 de maio de 2019
Imagens: Col. Espólio Cristino da Silva, FCG-Biblioteca de Arte (Conttinelli Telmo) e A canção de Lisboa (1933)

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Exame de condução

“(...) Se o engenheiro sempre não era engenheiro/ E a rapariga ficou como uma engenhoca nos braços (...)”
Alexandre O’Neill.No Reino da Dinamarca.1958.

Há um conjunto de assuntos tabu de que as pessoas não falam facilmente com outros. Dívidas pessoais, sexo e exames de condução estão entre esses assuntos. Decidi hoje sair do armário quanto ao último dos itens.



Apesar de não haver estudos da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre o assunto, suponho ser bastante alta a percentagem de quem chumbou no código ou na condução, ou pura e simplesmente comprou a carta. Eu estou nesse grupo se bem que, penso, no subgrupo mais aceitável: o dos que chumbaram no exame de condução. Está dito. Que refrescante alívio!




Tirar a carta em Coimbra é como tirar o curso numa prestigiada universidade. É distintivo. Uma cidade de altos e baixos exige muito mais do que Aveiro, Braga, Castelo Branco. No entanto cheguei ao meu primeiro exame com alguma confiança e tinha, segundo o meu instrutor, motivos para isso. Calhou-me um engenheiro tipo pop starmas simpático, de óculos escuros e gravatinha. E a coisa estava-me a correr bem, parava nos stops, metia as mudanças com ligeireza, conferia a parafernália de retrovisores com elegância. Toca então a subir a Av. dos Combatentes, estou com sorte pois o amarelo do último semáforo calha-me a mim. Não tenho ninguém à frente: perfeito. Mas, inexplicavelmente, deu-me uma de artista de circo, Pepito vai tentar dar um mortal na corda, silêncio por favor, e lembrei-me, para mal dos meus pecados, de ajeitar o banco do condutor quando a inclinação da rua, vivamente, o desaconselhava. Resultado: fiquei como um astronauta a sair da atmosfera terrestre, projetado na inércia para o fundo do veículo. Veio o verde e eu ainda lá estava, quase na mala a tentar recolocar o assento e esticando os dedos dos pés para não arruinar, como arruinei, o ponto de embraiagem. Vermelho, verde novamente e eu lá arranquei, mas o mal estava feito. Aceitei o chumbo com resignação culpada. Foi justo. Da segunda não. Sim foram duas: duplo alívio confessional! Da segunda apareceu-me um oficial nazi. Eu estava tranquilo, tomei um calmante: o meu corpo aceita os medicamentos com genuína eficácia. Fazem-me sempre efeito. Como eu não estava habituado a calmantes entrei num torpor pacífico absolutamente brutal, aceitaria naquela manhã o deflagrar da III Guerra Mundial sem particular desconforto.



Os engenheiros fazem parte desta tremenda engrenagem. São pop stars, são oficiais nazis, inatingíveis, incomunicáveis, prepotentes. A designação académica tem mais a ver com o temor reverencial do que com a formação. Quanto engenharia é necessária para ordenar vire à direita? Nenhuma seguramente. Estes engenheiros mereceriam também um estudo profundo: como são escolhidos, se a má disposição é congénita ou adquirida com treino, se acasalam com outras espécies, se já nascem afinal engenheiros.



Tantos reveses não me tiraram a convicção de que sou um bom condutor. Tenho essa certeza assim como 99% dos homens o que é, convenhamos, estatisticamente impossível. A condução é o oposto da vida real. Na condução os homens são complexos e as mulheres previsíveis. Pela condução os homens são asseados nos seus carros e as mulheres absolutamente desleixadas. Tudo exatamente ao contrário. As mulheres cabem apenas em duas tipologias: as descontraídas e as contraídas. As descontraídas conduzem como se não estivessem a conduzir. As contraídas conduzem apertadas entre o banco e o volante, sem qualquer centímetro de folga, sempre tensas como o capitão de barco no meio da tempestade, nada ouvem ou veem além da necessidade de terminarem aquele extenuante tarefa. Os homens têm cerca de 432 tipos: os fangios, os agressivos, os passivos, os legislativos sempre a apontarem as novas regras, os irascíveis, os solitários que conduzem como se a estrada fosse o seu estado de espírito, os imprevisíveis, e os que conduzem de chapéu ou boné, de longe os que mais me apavoram. Lincoln referiu que só dando poder a um homem é que se perceberia, realmente, o seu carácter. Se ele vivesse nos dias de hoje substituiria, sem hesitar, o poder pelo carro: deem um carro a um homem e irão perceber, realmente, quem ele é.



Conduzir na cidade de Nápoles foi o meu mais perfeito exame e o reforçar da minha convicção. Nada prepara um homem não napolitano para conduzir em Nápoles. Nada! Quando saí da garagem questionei no meu mais aprumado italiano posso girare a sinistra? Ele arregalou os olhos como quem tenta perceber um extraterrestre e eu compreendi logo ali que poderia virar à esquerda, à direita, sobre a linha contínua, pelo vermelho adentro, poderia tudo! Uma pista de carrinhos de choque é, comparado com Nápoles, de uma organização e aprumo teutónico. E no meio daquela selva de chapas amolgadas lembrei-me do engenheiro que me chumbou, da segunda vez, por ter dado duas voltas a uma rotunda. Tenho perfeita consciência da raridade da situação provocada pela calma bovina de que me vi então imbuído. Chumbei de forma inconstitucional, deveria ter recorrido para o Tribunal! Tarde demais agora. Palerma gritei-lhe eu no trânsito de Nápoles, com um ódio esférico e retroativo. E os napolitanos chamaram-me nomes mas de uma maneira ... fraternal. Abri a janela e gritei: a fare in culo ingegnere.

Publicado in O Comércio de Guimarães, a 24 de abril de 2019
Imagens: filmes Locke (2013) e Pierre Le Fou (1965); classics world.co.uk (2ª) e La Republica Napoli (última)

quarta-feira, 27 de março de 2019

O rissol


“A atitude prevalecente em Oxford na altura era muito antitrabalho. Era suposto sermos brilhantes sem esforço (...) e tirarmos a licenciatura com médias baixas.”
Stephen Hawking. Breves respostas às grandes perguntas. 2018.




Quem inventou esta pequena maravilha? Há quanto tempo? Como se popularizou? Procurando no buraco negro da internet as origens deste acepipe extraordinário que é o rissol não encontrei, como tantas vezes acontece, respostas convincentes às minhas dúvidas. Algumas pistas aparentemente mais sólidas definem-no como filho da empanada galega celebrada em pedra no pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela, ou seja, já existe empanada pelo menos desde o século XII. As empanadas esculpidas no pórtico são contudo bem maiores que o nosso delicado rissol, tendo no entanto o mesmo princípio culinário. Descendente ou não da empanada, a verdade é que alguns classificam esta delícia frita como uma invenção nacional apesar do nome ter base francesa, roissole, que deriva por sua vez da apropriação do vocábulo latim russeola e que eventualmente se aplicou para definir a cor avermelhada da massa frita.
A dificuldade em situar o rissol no tempo e no espaço, de o compreender, está ao nível dos princípios físicos de Hawking sobre os buracos negros, o que lhe dá, convenhamos, ainda mais charme.




rissol é de longe o mais democrático e interclassista dos aperitivos. Não conheço ninguém que dele não goste, pobre ou rico, intelectual ou agricultor casadoiro, devoto de Che Guevara ou reacionário convicto, o rissol a todos cobre no seu delicado manto de massa frita depois de previamente passada em ovo e pão ralado.
Entre uma tosta com caviar retirado de esturjões iranianos e um rissol de carne quentinho não teria dúvidas em escolher o segundo. O sabor de um bom rissol não procura ser divinal, procura “apenas” ser bom e essa humildade desarma. O rissol não esventra peixes, aproveita muitas vezes restos carnes previamente cozinhadas. É além de humilde: poupado.
Mas o rissol não se dá a apoucamentos como acontece com o croquete, não senhor, tem a forma delicada de uma meia-lua ...




Tenho a felicidade de com eles conviver desde a infância. Como os da minha tia Fatinha não encontrei até hoje, apesar de não desdenhar de todos os outros: é-se infiel sem culpa em matéria de rissóis. Dão um trabalhão como as coisas boas o dão. São variados apesar de no meu top estarem os de carne. Não que eu não aprecie outros – como os maravilhosos rissóis de queijo do Café Rio em Covas – mas quanto mais simples e tradicionais melhores.



Ao ler o livro póstumo do grande físico britânico que cito nesta crónica, lembrei-me (por outro lado) de como as coisas mudaram em termos de desempenho académico. Há umas décadas atrás estudar era para os fracos, o que era cool era não estudar e safarmo-nos na mesma. Cresci nessa cultura, ao ponto de no meu décimo primeiro ano perante um bom desempenho pessoal nas disciplinas de ciências um amigo meu me ter apresentado a outros ressalvando que, apesar disso, eu era um gajo porreiro. Sintomático. A universidade tornava-nos, mais tarde, especialistas em quase tudo que “não interessava”. Hoje é diferente e ainda bem. A dedicação dos meus alunos chega a ser comovente e fazem bem. Apertadinhos como rissóis com pouca massa e muito recheio os jovens vão lutando para singrar numa sociedade que por eles clama e muito pouco faz para lhes permitir apanhar o sol que os maiores e mais estabelecidos açambarcam no seu vergonhoso egoísmo.




Aminha filha mais velha passou-me um pensamento interessante, partilhado numa rede social, a propósito do Brexit. Nele se lia que os ingleses se assemelhavam àquele palerma ocasional com quem saímos à noite e que passa o tempo todo a dizer mal da discoteca em que estamos. Saímos da discoteca, vergados à má disposição do colega, e cá fora percebemos que ele não tem a mínima ideia para onde ir agora. Impossibilitados de reentrar, mas sem vontade de ir para casa, assacam-se culpas sem propósito na barraquinha dos cachorros.
Que se empanturrem de cachorros e cerveja quente na barraquinha que alberga os perdidos da noite, de rissóis é que não: não merecem!




Uma alma amiga, o Amaro das Neves, mas sobretudo caridosa, não fosse eu dizer mais asneiras do que a conta que generosamente me cabe, chamou-me a atenção, antes da publicação desta crónica no blogue, para um texto de Lucas Rigaud, cozinheiro de D.Maria I, do final do século XVIII, cuja imagem está acima reproduzida. Noto que Amaro das Neves, sem desdenhar do rissol, é um adepto ainda mais feroz do bolinho de bacalhau e tem, seguramente, uma “internet” melhor que a minha. O meu agradecimento.

Publicado in O Comércio de Guimarães, a 27 de março de 2019

Imagens (de cima para baixo): receitinhas.com, pórtico da Glória, Lucas Rigaud, tendenciasfrescas.eu, nit.pt e iNews.uk.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Setenças

“Quando deixamos de nos espantar, é que passamos a velhos.”
António Lobo Antunes.ConferênciaEscritores no Palácio de Belém.2018.

Ao longo dos tempos, diferentes povos organizaram-se em torno dos seus membros mais velhos, os anciãos da tribo, da comunidade, para deles ouvir, em determinadas alturas críticas, opiniões sobre as grandes decisões comunitárias. Isto porque algumas decisões estratégicas não se compadecem com excessos hormonais e ouvir os mais velhos pode ser uma boa ideia. Mas nem sempre. Se numa comunidade o mais velho, ou os mais velhos, tiverem sido perfeitos idiotas em jovens é provável, muito provável, que a idade não tenha curado a idiotice.




Quando é que afinal passamos a velhos? Talvez nunca. A velhice é sempre uma questão de perspectiva, parecendo estar sempre mais para lá do que efetivamente está. Quando eu era novo os homens velhos usavam pesados sobretudos e chapéus, era assim que eu via a velhice dos homens. Não tenho nem uns nem outros no meu guarda-roupa... também não teria espaço.



internet matou a especulação entre amigos! Já ninguém perde tempo a discutir se o golo do Maradona com a mão, no mundial do México em 1986, foi o primeiro ou o segundo contra a Inglaterra. Se houvesse duas opiniões fortes em sentidos distintos isso dava umas boas horas de discussão. A verdade era assim discutível como devem ser todas as verdades. Hoje rapa-se do telemóvel e zás: foi o primeiro golo e ao minuto 51! Discutir se “O idiota” foi escrito pelo Dostoievsky ou pelo Tolstoi é, bem se vê hoje, uma idiotice. E é uma pena para a arte da retórica.




Quem é por vezes um tremendo idiota é o Ronaldo. Acenar com as cinco taças dos campeões ao adeptos adversários depois da Juventus ter sido dominada pelo Atlético há uma semana é infantil. Se na minha tribo o Ronaldo um dia, velhinho, se juntar à volta da fogueira a dar conselhos, eu vou-me embora (se for vivo!).





Operação Marquês dá sinais de poder vir a tornar-se ainda mais deprimente do que ouvir hoje os altos dirigentes bancários, responsáveis pela delapidação de recursos públicos, dizer que nem sequer sabiam dos empréstimos ruinosos que foram concedidos com a sua assinatura, que estavam lá sim senhor, no conselho de administração, mas só por causa das sandes e dos sumos servidos de borla nas reuniões do órgão. Ainda vamos pagar, se houver fundos públicos, uma indemnização ao Sócrates, ao Vara, ao Ricardo, por tão despudoradamente deles termos desconfiado. É que os sinais sobre a postura do juiz Ivo Rosa são preocupantes. Ainda agora o Tribunal da Relação de Lisboa censurou Ivo Rosa por proibir a utilização, pelo Ministério Público, dos dados bancários e fiscais de responsáveis da EDP por suspeitas de corrupção nos mirabolantes CMEC’s que, mês a mês, nos engordam a conta da luz. O juiz faz lembrar aquele funcionário público que nos pede sempre mais um papel, e de papel em papel o serviço encerra. Agora estamos fechados, lamento. Pode ser que esta minha desconfiança seja de velho ... mas começo a ver um filme que não me agrada enquanto cidadão, sobretudo depois da anterior Procuradora ter sido apeada do cargo por um feeling constitucional. 



Não me indigno com facilidade, nem falo de doenças. Essas serão provavelmente as únicas duas coisas que me separam de ser velho, mais do que os sobretudos ou os chapéus.
Por isso fico sempre espantado com as indignações locais sobre mudanças nas Gualterianas ou no local da Feira Afonsina. Sobre as primeiras sempre achei importante conservarem-se os números históricos, mas não as tendas e tendinhas e farturas e carrinhos e ruídos. Ao património o que é do património, ao lixo o que é do lixo. A mudança da Feira Afonsina para o espaço do Carmo e do Castelo também dá que falar. Libertar o centro histórico da pressão da feira parece-me acertado e profilático. A cidade precisa de respirar! A cidade é um organismo vivo que se cansa e se descaracteriza quando a sobrecarregam. Pelo menos é isso que me parece. É importante olhar para o futuro e não ficar preso naquilo que, sendo passado, não tem, porventura, interesse nenhum. 
Li há uns tempos uma interrogação de alguém sobre se não existirão mais feiras medievais agora do que as que existiam na Idade Média? É bem provável que sim, e convém não exagerar na dose.

Publicado in O Comércio de Guimarães 27 de fevereiro 2019
Imagens: 12 homens em fúria, Sidney Lumet (1957)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Mousse caseira



“Saiba-se antes ler neste acompanhamento jocoso das piruetas marcelinas uma irresistível simpatia posta em humor por travessuras para mim ainda mais atraentes dado o enfadamento que a solenidade me provoca(...)”
Natália Correia. Recomendação Introdutória in O Corvo. 1989.



A RTP engana-se (por vezes) e presta assim um verdadeiro serviço aos telespetadores. Foi o caso da série “3 mulheres” recentemente exibida no canal público. A série dá-nos um retrato muito interessante do nosso país entre 1961 e 1973 através de 3 mulheres que naquela altura - e no Portugal macho e xaroposo de então - se distinguiram: Snu Abecassis, Vera Lagoa e Natália Correia. Não há como não ficar fascinado com a poetisa Natália Correia interpretada, de forma brilhante, por Soraia Chaves. A mulher tem tudo, tem graça, tem cinismo, tem uma incontrolável liberdade. Revi por influência da série a antologia da poetisa, da editora Dom Quixote fundada por Snu, que comprei há mais de vinte anos e que havia mal lido com a rapidez de um melro. E os livros têm esse sentido. Sabem sempre esperar, silentes, pelo momento oportuno, por isso eu os compro. Li na antologia um conjunto de poemas em que ela troça de forma desbragada de Marcelo Rebelo de Sousa que na altura se candidatava à presidência da Câmara de Lisboa. E o mais espantoso é que esses poemas foram publicados no jornal O Corvo, o jornal da campanha da coligação eleitoral autárquica que o sustentava! É gozo e premonição: “Estremece Aníbal com o pardal fadista/ que aquilo é treino para o último regalo:/ escaqueirar o reinado cavaquista/ e sobre a tumba, por fim, cantar de galo”. Gozar com o candidato no jornal do candidato é incrível e hoje até (possivelmente) obsceno neste Portugal “moderno”. O que só ficou e fica bem a Marcelo.




Não gostar de Marcelo é como não gostar de Frank Sinatra, do seu swing, por causa daquele pormenor relativo ao ajuntamento organizado de italianos de que o acusam. Não gostar de Marcelo é contudo muito modernozinho, é contracorrente, é hype, é ter e assumir um problema com o óbvio.
É evidente que o homem exagera. O telefonema àquela rapariga é um disparate próprio de quem deveria dormir um bocadinho mais e não o faz. Mas ninguém, acho, é capaz de o imaginar desonesto como o pessoal dos robalos ... que é o que mais há. E, se o ouvirem sem preconceitos, encontramos um homem genuinamente preocupado com os seus concidadãos. O problema de Marcelo é outro: fizemo-lo presidente na época de ouro dos grunhos. Olhámos para as outras nações e vemos que os grunhos tomaram o poder, e Marcelo é tudo menos grunho, é, pelo contrário, um espécime perfeito do anti-grunho. E isso está fora de moda. O problema dos dias de hoje comparado com os dias de ontem é que os grunhos já não têm vergonha de se reverem noutros grunhos, coisa que dantes não acontecia com a frequência assustadora a que hoje assistimos. Em Portugal ainda não, à exceção do futebol.



Se nós, vitorianos, tivéssemos os resultados desportivos que o nosso arqui-rival Braga tem tido nos últimos anos, já de há muito que estávamos encerrados para unicamente festejar o nosso clube. Aliás o Vitória ter tão parcos resultados desportivos e uma massa associativa tão fiel, apaixonada e presente seria aliás um justificado motivo para se ser ateu. Não é possível que Deus, existindo, não recompense devidamente esta paixão. Não é possível que Ele vá precisamente descansar quando cantamos em uníssono oiçam bem/ a força do nosso amor/ o Vitória somos nós/ até morrer.
Mas o Braga está tão à frente que até foi jogar para Vila Verde. Abandonar o estádio 1º de Maio foi um erro estúpido e caro para os nossos (estimados) rivais. Sempre simpatizei com o velho, bonito e imponente estádio do Braga, até porque assistindo aos jogos do Vitória sempre na bancada Sul tinha a estranha noção de que o nosso concelho só terminaria, vá lá, perto da linha do meio campo. O Vitória conservou, com muita luta é certo, o estádio na cidade no coração do concelho onde os estádios devem estar. Coimbra felizmente também fez o mesmo. Na altura havia outros interesses ... assumi, enquanto vereador, como outros o fizeram, a responsabilidade de o manter na cidade e hoje tenho indisfarçável orgulho na posição então tomada.
Um clube como o nosso tem de estar onde os adeptos estão. As “operações urbanísticas” são, quase sempre, um eufemismo para coisas que nada têm a ver com o interesse do clube. Quando se fala em “terrenos” há que estar alerta. Arrancar o coração do peito para o pôr na barriga da perna é fatal. Nunca funciona.

Já de há muito que não ouço a expressão mousse caseira. Mas há uns anos atrás era comum perguntar-se se a mousse era caseira. Isto para se aquilatar se aquela era mesmo feita com chocolate, manteiga e ovos ou então com um pó achocolatado a que se juntava água. Num restaurante em Coimbra, lembro-me, de alguém protestar que a mousse não era afinal caseira ao contrário do afiançado e, no calor retórico, o empregado enfunou-se e respondeu “a mousse foi feita aqui! garanto-lhe!”. Esta crónica foi, mais ou menos, isso.



Publicado in O Comércio de Guimarães, 30 de janeiro de 2019
Imagens: Observador, DN, restos de colecção