quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O outro e o aquele

“Havia de enchê-los de um amor infinito. Rodeá-los-ia de tanto amor, que toda a vida deles, entretecida dos cuidados e do espírito conciliador da mãe, perderia a sua razão de ser estando ela ausente.”


Boris Vian. O arranca corações. 1953.






Pertenço a uma geração que teve os primeiros filhos nos anos noventa. E chegada a nossa altura de os ter e educar víamos ainda com absurda nitidez dois mundos distintos de educação e acompanhamento da descendência. A diferença entre a estrutura familiar em que fomos criados, mais tradicional e assente na mãe, e o novo paradigma que se nos oferecia, mais democrático em termos de tarefas e mais próximo dos filhos, era abissal.
Estivemos (e estamos) nessa clareira entre o mundo antigo e um mundo novo que se impunha não só pela tomada de consciência do papel de cada um mas pela mudança do mundo, pela internet, pela legítima e cada vez maior afirmação das mulheres em termos profissionais, pelas mudanças na estrutura familiar que tudo isso implicava.

Olhando para trás, para a infância daqueles que começavam então a ser pais, ficava claro a intensa liberdade dos anos setenta que se restringia nos noventa. Tirando as horas passadas na escola – que não eram muitas! – tudo o resto era liberdade, era rua e horas para comer. Mesmo assim o pessoal atrasava-se nas horas e apanhava. Note-se que uma pessoa atrasar-se para chegar a casa, quando não tinha aulas de música, nem de inglês, nem de outra coisa qualquer, era obra. A gente atrasava-se para não fazer nada. E quando nos perguntavam: chegas a esta horas porquê? Nada saí pois mesmo a mentira precisa de um intento que lhe dê forma e credibilidade, e o nosso único propósito era não ter propósito nenhum.
O mundo das crianças de agora é intensamente operário. Terem tempo para dormir é uma sorte.



Pode parecer caricatura – e será - mas a grande preocupação dos pais nos anos setenta era se rasgávamos as calças. Tudo o resto era nada comparado com umas calças rasgadas, podíamos rachar a cabeça, podíamos ser vítimas de bullying que isso não interessava nada, quando comparado com a suprema infâmia de rasgar umas calças novas numa tentativa louca de fazer um corte de carrinho. Ahh! meu Deus porque não calhamos nós no tempo da moda das calças rasgadas. Bastava sair à rua para, passado pouco tempo, estarmos na moda. A harmonia do nosso mundo resumia-se à inviolabilidade da fazenda, ou até da bombazina se fossemos um pouco mais hype. A desarmonia do mundo assentava na biqueira do sapato de domingo gasta por uns proibitivos toques na bola antes da missa. O sapato de domingo mereceria, eventualmente, uma tese de doutoramento ou um museu. O sapato brilhante (como o horroroso sapato de verniz) era sistematicamente apertado e desconfortável. Quando se moldava definitivamente ao pé já não servia no comprimento. Talvez os americanos tivessem arrancado mais informações dos terroristas se em vez dos métodos tradicionais de tortura de Guantánamo tivessem obrigado os prisioneiros a usar uns sapatos de domingo, todos os dias mesmo não sendo domingo.

E os pais mudaram com as crianças. Hoje são como capatazes inflexíveis dos filhos, dos seus horários, os pais uber que circulam pelas ruas da cidade largando e pegando nos filhos como motoristas. Já poucas crianças conhecem as ruas da cidade sem ser através de um vidro de automóvel empoleirados na cadeirinha homologada pela Inspeção Geral de Viação.
E acompanham os filhos a todo o lado. Quando eu via os jogos de andebol dos meus amigos que jogavam nos juvenis as bancadas do pavilhão do Inatel só tinham os amigos daqueles que jogavam e talvez um pai, deslocado e taciturno. Hoje é exatamente o contrário. Qualquer jogo só tem pais e isso devia ser proibido, faz mal às crianças, faz mal aos pais, faz mal ao treinador e, sobretudo, faz mal ao árbitro de ocasião.



Eu acho que – e isto é já uma nova pista para outro doutoramento – o problema está na concepção. Apesar de no tempo em que fomos concebidos os métodos concepcionais já existirem (com doses cavalares de hormonas é certo) ainda existia igualmente a inércia do aconteceu. Estás grávida mulher? Outro? Valha-me Deus. Nós éramos assim o “outro?”. Agora não, planeia-se a vinda do rebento. Ora senhor doutor dava-me imenso jeito ter a menina no dia 4 de julho, pelas 15h00 o mais tardar 15h30min. As crianças de agora são “aquele!”: o que se planeou, o desejado.
E o abismo existente entre o “outro” e o “aquele” faz hoje toda a diferença.


Publicado in O Comércio de Guimarães (01.02.2017)

Imagens do filme "Os quatrocentos golpes" de François Truffaut (1959)


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Isto não vai correr nada bem

“Quando as forças da exclusão e do ódio passam a dominar a dinâmica política, o conflito generalizado nunca poderá estar longe. O próximo ano será o combate das nossas vidas para que isso não aconteça na Europa.”

Rui Tavares Público. 21.12.2016.



É bem possível que a conjugação cósmica que permitiu a Portugal ganhar o europeu de futebol em França, tenha desarranjado definitivamente o alinhamento astral. Acontece. Já me aconteceu uma coisa semelhante, há uns anos, ao pendurar um candeeiro de parede: pendurei-o é certo, mas destruí parte significativa da parede. Hoje não acontece mais: ganhei a humildade necessária ao juízo.
O ano de 2016 não foi, em termos concretos mau. No entanto o ano que agora findou teceu meticulosamente o desastre consequente. Em 2016 não se deu a explosão química da mistura dos reagentes, não, puseram-se apenas à mão os produtos químicos que, misturados, concretizam a catástrofe. A saída de Inglaterra, mais atentados, a loucura instalada nos governos da Europa de Leste, a loucura que se instala na Europa Ocidental, e, a juntar a tudo isto, um catalisador precioso do outro lado do Atlântico: o Donald!
Nada disto é Portugal, mas a nossa irrelevância é tão (enervantemente) grande que um banco que estoure em Itália, ou a prisão de ventre do primeiro-ministro chinês, nos afetam, sempre.


A CEE não era nada disto, até o irreverente Vítor Rua dos GNR queria ver “Portugal na CEE” em 1981. Ainda me lembro quando entramos, em 1986. Que deslumbramento entrar num clube privado de gente aprumada, solidária, bem falante. Eram 10 e passaram a ser 12 connosco e com Espanha. Entramos turvados pela emoção como um pé rapado entra num distinto clube inglês. Em 1995 entraram mais três distintos países (Áustria, Finlândia e Suécia).
Hoje aquela quietude singular da Europa dos 15 perdeu-se. Adormecemos no processo e quando acordamos já éramos 28 dentro do mesmo quarto. Foi-se a gravata e o clube, outrora distinto, tornou-se um apartamento de adolescentes de férias em Ibiza. Uma balda, e é bem possível que a nossa ancestral lentidão nos deixe para último e tenhamos, afinal, que pagar os estragos de gente tatuada e com t-shirt de mangas cavas em que os nossos aprumados parceiros subitamente se transformaram.


As sólidas democracias do centro da Europa começam a titubear. Enredam-se em fantasmas vários e são incapazes de ter uma visão de conjunto. Há uma meia dúzia de anos atrás começaram a irritar-se connosco, com a Grécia, com Espanha, com a nossa bandalheira genética. Hoje já perceberam que há coisas mais importantes – o que tem dado uma grande ajuda a António Costa – que é muito mais difícil lidar com as tendências totalitárias, com a inflexibilidade dos países mais a leste cauterizados por anos de comunismo. E estão fartos, como os casais que não tendo crianças têm que gramar com as correrias dos filhos alheios. Também por aqui somos irrelevantes, já não somos sequer um problema.


A par disso a Europa mudou muito, como o mundo. A internet e em particular as redes sociais criaram novos heróis. As redes sociais são o reflexo do nossa luta constante para sair da irrelevância. Já não vejo, como via, as pessoas a passearem o seu jornal nas manhãs de sol do Toural. Já ninguém lê jornais! Tanto dinheiro a Europa dá para os produtores de leite, para a produção de energia verde e não há ninguém que se lembre de preservar os jornais, a sua qualidade, que minga, de dia para dia, como as más camisolas depois de lavadas. A “verdade” hoje pode estar no que qualquer palerma debita no facebook. E a praga institucionalizou-se ainda mais quando o “pensamento” político do futuro presidente dos EUA nos é dada em tweets.
No entanto a irrelevância está altamente subestimada. Dever-se-ia estimar muito melhor a irrelevância pessoal de cada um. Que interessa no fundo escarrapachar a viagem ou o pensamento de forma pública? Porque o que nos constrói é (quase sempre) irrelevante: o beijo que nos fez tremer de alto a baixo, um abraço forte num amigo reencontrado, um redanho de porco quentinho e saboroso que pecaminosamente se come, marcar um golo com o pé esquerdo quando se é destro, afogar o olhar numa paisagem perfeita.


Eu vou encarar 2017 como aquele assistente de bordo colombiano que se safou na queda do avião que levou o nosso Caio Júnior. Vou colocar uma mala estre as pernas e enrolar-me à volta dela. A não ser que ganhemos ao Benfica já este sábado e a conjugação cósmica dos astros reganhe a harmonia perdida. Pode ser.


Publica in O Comércio de Guimarães (04.01.17)
Imagens: NASA (planeta Marte)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A Colecção


“Nestas fotografias, longe estamos do tempo das sefies, da massificação delirante de Narciso. A objetiva provocava então algum temor e as expressões dos rostos denunciam um  flagrante desconfiança, de renitente entrega, senão de culpa vaga de coisa nenhuma.”

Carlos Poças Falcão. Exposição Álbum de Família. 2016.




A Colecção de Fotografia da Muralha (CFM) continua hoje a dar-nos uma paradoxal imagem de inesgotabilidade. As coisas finitas têm um princípio e um fim, a Colecção tem apenas princípios. Tem o vício dos recomeços que a perspectiva sempre distinta do nosso olhar dá.
É tempo apenas de sistematizar o trabalho para poder seguir em frente, em novo princípio. Assim, na próxima quarta-feira, pelas 18h00, na Assembleia de Guimarães serão apresentados quatro livros que constituem os catálogos das quatro últimas exposições da CFM: O Trabalho (2014), A Celebração (2015), Na Cidade (2016) e Álbum de Família (2016). Estão por isso convidados. Todos!
Apesar de ser obviamente suspeito não posso deixar de adjetivar como belos esses mesmos livros. A nossa história fotográfica comum está lá, seccionada pelos temas escolhidos, confortada pela estética própria das exposições a que reportam, enriquecida pelo contributo de muitos que se associaram a um particular olhar sobre as imagens, sobre os factos e os modos que elas sustentam, e que sobre elas escreveram.
Uma excelente oportunidade começar a fazer da CFM também um ótimo presente de Natal.

A CFM tem uma história longa. Uma história que se confunde com o nascimento da Muralha, Associação de Guimarães para a defesa do Património, em 1981. É esse o ano em que surge a Comissão Instaladora da associação. É esse o ano em que a Muralha adquire parte do espólio de placas secas (negativos fotográficos em placas de vidro, também designado por clichês) originárias da Foto-Electrica Moderna, fundada em 1910, por Domingos Alves Machado e que domina o panorama da fotografia comercial em Guimarães na primeira metade do século XX.
As placas fotográficas compradas exigiram muito das primeiras direções da Muralha. Era necessário a sua preservação que foi sendo feita com inúmeros constrangimentos técnicos e financeiros. Não existiam então os meios convenientes para tratar e acondicionar o valioso espólio. Fernando Conceição, presidente da Muralha (2009-2010), começa a efetuar um exaustivo estudo da Colecção e toma diligências para que os clichês de vidro fiquem à guarda do Arquivo Municipal de Alfredo Pimenta, onde hoje estão. No projeto Reiimaginar Guimarães (2011-2013), integrado na Capital Europeia da Cultura (CEC, 2012) e coordenado por Eduardo Brito, digitalizam-se e estudam-se todas as imagens da Colecção, realizando-se assim, de forma notável, o propósito inicial da Muralha. O projeto da CFM aproveitou a CEC e manteve-se vivo para além dela.

A Muralha não se contentou contudo em ter um espólio fotográfico bem tratado e organizado. Esse era um fim e a Muralha vive de princípios. Importava por isso fazê-la chegar aos vimaranenses, interagir com eles, descobrir quem são os netos e os bisnetos daquelas pessoas que posaram para a lente de Domingos Alves Machado nas primeiras décadas do século XX, e falar com eles. E nessa estratégia surge o GuimarãeShopping que acolheu três exposições integradas nas Festas Gualterianas (com o apoio da Câmara Municipal e da Oficina). Um local de apressada passagem que trava quem lá vai para um momento de pausa, para um princípio. E nessa estratégia surge o Museu de Alberto Sampaio que guarda a história central da cidade e tem na Colecção mais um dos seus estimáveis braços que nos afagam a memória. O nosso princípio enquanto comunidade, enquanto nação.
Importou ainda estudar as imagens e escrever sobre elas. Importou ainda olhar as imagens e deixar escrito o que elas despertaram. A Colecção pretendeu assim ir além das imagens e nos quatro livros encontram-se alguns textos de dezanove autores que enriqueceram as imagens com o seu contributo.

A Colecção não caminhou sozinha. Muitas pessoas e instituições permitiram que a CFM chegasse ao patamar onde se encontra. O Cineclube de Guimarães teve e tem um papel fundamental em todo o processo. Em particular: a Alexandra Xavier, o Miguel Oliveira e o Nuno Vieira. A sua criatividade tornou possível esse eterno princípio em que a Colecção se sente, esquizofrenicamente, confortável.


Publicado in O Comércio de Guimarães (07.12.16)