quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Eu era gajo

“Esse estilo é escolha tua, ou paraste num ano qualquer e o resto da malta deixou-te lá sozinho?”
Marlon James. Breve história de sete assassinatos. 2014.



Começar uma frase por eu era gajo nunca foi bom sinal. Já não é muito comum, já o foi mais. No meu tempo (adoro também este início de frase) era mais usada. Bastava três ou quatro rapazes mais entediados para alguém proferir eu era gajo e, assim, quebrar a monotonia. E isso acicatava os outros, e poderia haver até algum dos rapazes que, enciumado pela falta momentânea de protagonismo, era gajo para uma coisa bem pior e mais arriscada do que a primeira.
Na realidade é-se (verdadeiramente) gajo quando se é jovem. O ser-se gajo precisa de doses razoáveis de testosterona que abundam nos machos jovens. Ser-se gajo para fazer uma asneirada tem a virtude de uma escolha e retira o tédio das coisas que se esperam como normais.
Não ser gajo para fazer – ocasionalmente – uma asneirada é um desperdício de hormonas.



Eu era gajo pressupõe assim e sempre uma temeridade: eu era gajo para partir isto tudo, eu era gajo para beber esta garrafa de golada, eu era gajo para pegar naquele toiro, eu era gajo para trocar aqueles sinais de trânsito, eu era gajo para acelerar este carro até ao limite, até ao ponto em que ele vai parecer um avião no meio da tempestade.
Essa temeridade implica sempre um grau razoável de fanfarronice e alguma idiotia. Fanfarronice e idiotia são os ingredientes mágicos que funcionam na perfeição para se ser gajo, o que no sexo masculino não é assim tão difícil de ter e de conjugar.



Sendo a gajice um comportamento totalmente analógico será que os miúdos de hoje ainda conseguem ser gajos? Na verdade, na versão atual, o rapaz já tem dificuldades em ser gajo. Com o nariz sempre enfiado no telemóvel não está fácil ser gajo. Colocar a fotografia do rabo no Instagram ou passar ao nível 27 do bubble chicken não é propriamente de gajo. Apesar de idiota esses comportamentos nada têm de fanfarrão. Não se é gajo assim, é-se apenas idiota e um gajo tem de ser, igualmente, fanfarrão.
E as raparigas? A versão feminina é, sem dúvida, a mais perigosa. Quando alguma mulher diz eu era gaja para... cuidado, é sair da frente! As mulheres são o oposto dos jovens de hoje: são fanfarronas sem serem idiotas. E isso torna o ser gaja um perigo de proporções bíblicas. Dá à asneira um lado sério e intencional o que é (geralmente) um desastre.
Nem uma nem outra versão atingem contudo a pureza higiénica de se ser gajo.



Ser-se gajo é importante. Quem nunca foi gajo não sabe bem onde se situa a normalidade. O gajos são, ironicamente, os que melhor sabem de normalidade pois estão constantemente a sabotá-la. Quem nunca foi gajo passa com muita facilidade - e com visível prejuízo da comunidade - para o estado de ser indivíduo. E os indivíduos, esses sim, são verdadeiramente perniciosos. Ó Tavares eu era indivíduo para criar aqui um fundo com estes depósitos bancários e apostar nos mercados emergentes, vamos, eu e você, ganhar um dinheirão. Eu sou indivíduo para vos dizer que cada cidadão terá um fontanário com o seu nome.
Aquele que começa uma frase por eu sou indivíduo é um perigo público, pois ao contrário do gajo não dá para perceber a verdadeira intenção. O gajo acaba por se estatelar, o indivíduo providencia uma cautela (a sua). O gajo magoa-se porque tentou atingir o impossível, o indivíduo pisga-se depois de magoar os outros. O gajo não guarda rancor, o indivíduo não guarda remorso. O gajo é juventude, o indivíduo é velhaco. O gajo vive, o indivíduo sobrevive.



Tenho por vezes, devo confessar, saudades de ser gajo.
Uma boa idiotice dá muito que fazer à imaginação. Treina-a para outras coisas.
A pura fanfarronice é presente em estado puro: não há passado que a condicione nem futuro que a domestique. A fanfarronice liberta.
É talvez possível que se tivéssemos mais gajos e menos indivíduos as coisas fossem melhores e funcionassem melhor. Ou, pelo menos, fossem infinitamente mais divertidas.



Publicado in O Comércio de Guimarães (27.09.17)
Fotos de gajos: Tom Waits, Chet baker por Bruce Webber, Jim Morrison por Jim Marshall, Frank Zappa por John Olson e Art Pepper por William Claxton.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Os indignados

“Contemplou-o na esperança de ver sair as primeiras gotas de urina, mas parecia que quanto mais o mirava, mais este se recusava a mijar.”

Carlos Guimarães. As borboletas voam sozinhas. 2016.

Se há coisa que cresce com a idade – além dos pelos no nariz – é a indignação. No fundo a indignação não é um sentimento é uma glândula. Uma coisa pequenina como uma próstata. A próstata quando atingimos a idade adulta tem apenas quinze gramas e com o tempo duplica de massa – sem que eu perceba porquê - e às vezes mais ... lê-se num site médico que pode chegar aos 120 gramas!
Ao contrário da próstata a indignação não é contudo operável. E é pena pois pode-se morrer das duas: da próstata, mas sobretudo de indignação.



Eu operava a minha indignação às mãos sábias de um bom cirurgião. O médico/escritor do qual faço a citação servir-me-ia perfeitamente. As palavras também não o atrapalham – de todo - apesar do fraco gosto para títulos.
E removia a minha indignação, caso pudesse, pois ela tem tendência a crescer quando conduzo. Pertenço ao grupo daqueles que acham que toda a gente que está na estrada só lá está para me atrapalhar. É que a indignação quando atinge o estado de “indignação crónica” tira toda a piada a quem já a teve, caso a tenha tido, e torna aqueles que sempre foram chatos em seres absolutamente insuportáveis.
O indignado é o terrorista da descontração. É aquele que dá cabo de um jantar de amigos pois fica indignado por o arroz não ser carolino, ou outra coisa qualquer. É aquele que não consegue ver um concerto sem embirrar com a cerveja do festival. É aquele que acha que qualquer herói tem sempre algo que se diga, aquilo é tudo imprensa ... no mínimo é larilas!
E não há indignados com pinta. O último de jeito – e quiçá o único – era o Vasco Pulido Valente. Há quanto tempo não o leio, não leio as suas certeiras indignações, e meu Deus como isso me deixa indignado.



Os pais indignam-se com os seus filhos. Esta é uma indignação costumeira. Como pudestes fazer-me isso Tozé? O precioso “fazer-me” diz tudo. O Tozé não fez simplesmente. Fez aquilo ao pai ou à mãe. E o Tozé que não é bom em retórica e não é suficientemente inteligente para perceber que os seus pais já foram tozés imagina, culpado, que aquelas pessoas que tem à sua frente vieram impecavelmente assépticos do Música no Coração para serem seus pais. Que vergonha Joana.




Muita da indignação é hoje o pasto perfeito das redes sociais. Prados imaculados como os do tal filme: num é relva, no outro indignação.
A indignação é a marca das redes sociais, além dos copos com gin tónico e de pessoas a dizer “finalmente férias”. (Quando recomeçar a trabalhar vou por um post “yess, finalmente a trabalhar”, a ver o que acontece). A bola – à falta de melhor - é o que merece maior indignação. E é ver os benfiquistas, portistas e sportinguistas, arrancarem os cabelos indignados com as arbitragens, como quem diz parece impossível o teu árbitro roubar melhor do que o meu. E agora que por cá as coisas não estão nada bem – além da venerável Bancada Sul – florescem os indignados. A tristeza é para mim um sentimento imóvel e por isso tenho alguma inércia em indignar-me com a minha própria equipa, com o meu clube. No entanto aprecio ver muita gente que teria dificuldade em governar os seus próprios sapatos, achar que não senhor que rua com os incompetentes. E a política tem também o seu espaço nobre no reino da indignação. E é ver os de direita indignadíssimos com as mortes nos incêndios, e os de esquerda, quais beatas, indignados com a indignação dos outros, como quem diz ouça lá essa indignação é minha, ou era. A minha indignação em política teve e tem um nome sobre qualquer outro: José Sócrates. Mas com o tempo começo a perdê-la. E isso é bom para a minha saúde. Bem vistas as coisas o homem montou um esquema à imagem daquilo que melhor se faz lá fora (o que é de saudar pelo engenho do engenheiro) e aparece sempre imaculado a responder a perguntas (previamente combinadas) com aquele ar indignado e olhando fixamente para as câmaras dispara: estou indignado!



A leitura desta crónica deve ser acompanhada pela música Dancing in the Moonlight: um ótimo medicamento para a indignação (não cura, mas alivia!). Recomendo a versão original dos efémeros King Harvest ou, quando muito, a versão reggae dos Aswad, ou mesmo o versão pop dos Toploader apesar do vídeo pastoso. As outras não prestam. É só ir ao YouTube e procurar e pôr a tocar e tornar a ler. Eu sei que é pedir demais mas, pelas alminhas, não fiquem indignados com a proposta. Pronto, está bem, só a música.



Publicado in O Comércio de Guimarães (29.08.17)
Imagens: mike dawson/theweeklyhall.com/tucker stone/philip roth

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A fronteira

“O adjectivo? Que horror/quando não é incisivo,/quando atira para o vago/ o pobre substantivo (...)”

Alexandre O’Neill.  O adjectivo in Abandono Vigiado. 1960.


Há adjetivos que não aderem a nós, que resvalam em nós como ovos numa frigideira de teflon. Escorregam, não colam, não perturbam. Velho é um desses casos. Velho é um adjetivo que gastamos nos outros mas nunca em nós. A fronteira desse mundo é inatingível, está sempre à nossa frente e nunca verdadeiramente a cruzámos interiormente. No entanto o corpo vai acendendo luzinhas, como os automóveis dos anos setenta.



Há uma estúpida e preconceituosa máxima que tenho na minha vida – e que não tem nenhuma pontinha da metafísica dos chocolates – e que é a seguinte: não posso ficar gordo e careca ao mesmo tempo. Quando o meu corpo começou a acender algumas luzinhas eu agarrei-me a isso, confiante na genética paterna e materna que me assegurariam um brilhante futuro ao nível capilar.
No entanto (não sei se é dos chineses ou do c...) o meu cabelo começou a dar sinais de me querer tornar o primeiro careca da família. Mesmo exagerando esse destino – mais por esquizofrenia do que por constatação - este é um título que eu dispensaria na linhagem dos Costas e dos Poeiras Lobo.
Bem me avisou o meu amigo Talecas há uns quinze anos atrás: Vita não podemos chegar aos três dígitos! Se eu o tivesse verdadeiramente ouvido não me preocuparia (tanto) hoje.



Quando era magro pesava 80 kg. Sempre me achei um homem de substância e o peso é o reflexo prático da substância. Não entendo a magreza masculina, por isso o meu magro sempre foi uma espécie de meio-gordo. São os ossos, digo-o (com razão) muitas vezes.
No entanto dos 80 aos 100 é um tirinho. É como nos carros quando estão acelerados e têm motor para isso, como eu o tenho. Passei então a fronteira para aí há uma dúzia de anos e nunca mais saí dos três dígitos. Tenho estado numa espécie de cruise control da massa corporal, mas para cima.


Por agora tenho-lhe dado forte no treino, fechado a boca aos pecados gastronómicos e aberto a goela de camelo à água. Acho que já estou nos 100. Talvez marque uns esperançosos 99,90 tal como o preço de uns sapatos. Vou tentar voltar à tranquilidade abrangente dos dois dígitos. Vamos lá a ver se me disciplino e se retorno a fronteira que nunca deveria ter cruzado.




Convém então falar de comida em vez de a comer. Sempre alivia.
A gastronomia moderna começa-me verdadeiramente a chatear. Os chefs irritam-me na mesma proporção que os cozinheiros me encantam cada vez mais. Não quero histórias sobre infusões e reduções em pratos tradicionais, porque se há de confitar o leitão se gerações e gerações o aprumaram, pacientes, no forno? Não há espuma que disfarce uma má carne nem risotto que suplante um arroz de tomate a sair pelo prato fora, literalmente.
Há dias fui com a minha mulher disfrutar um jantar a dois num restaurante da cidade. O menino que à mesa nos serviu explicava tudo, mesmo tudo, pormenorizadamente. Depois de ele se ir embora perguntava à Ana sobre o que estávamos a falar. Dava para esquecer tal o tempo e pormenor que connosco gastava. E a conversa continuava até ao próximo salmo a propósito de um novo prato. E novo esquecimento dialético. Mas apesar do esforço do menino a minha memória nada gravou. No entanto nessa mesma memória está gravado o sabor amariscado do salmonete grelhado que comi em Lagoa, uma surpreendente feijoada de búzios em Porto Covo, a jovem vitela assada lentamente na Vila da Feira em casa de um amigo, o redenho de porco que nunca mais comerei (!), o rabo de boi com grão de bico no Vila Lisa, uma navalheira acabada de cozer.
A nossa memória é verdadeiramente seletiva. É isso que falta aos computadores e, provavelmente, sempre faltará.
Ora vamos lá então descer para os 99!



Notas finais: a exposição O Verde a Preto e Branco, da Muralha, a decorrer já no Hotel da Penha, abre a 27 de julho – o seu tempo 2 - no Guimarãeshopping. Imperdível. A nova edição das Poesias Completas de Alexandre O’Neill pela Assírio & Alvim foi editada. Vem complementar – nunca substituir - a minha edição gasta da Casa da Moeda. Desta vez pela mão de Maria Antónia Oliveira. Igualmente imperdível.









Publicado in O Comércio de Guimarães (20.07.2017)