quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Isto não vai correr nada bem

“Quando as forças da exclusão e do ódio passam a dominar a dinâmica política, o conflito generalizado nunca poderá estar longe. O próximo ano será o combate das nossas vidas para que isso não aconteça na Europa.”

Rui Tavares Público. 21.12.2016.



É bem possível que a conjugação cósmica que permitiu a Portugal ganhar o europeu de futebol em França, tenha desarranjado definitivamente o alinhamento astral. Acontece. Já me aconteceu uma coisa semelhante, há uns anos, ao pendurar um candeeiro de parede: pendurei-o é certo, mas destruí parte significativa da parede. Hoje não acontece mais: ganhei a humildade necessária ao juízo.
O ano de 2016 não foi, em termos concretos mau. No entanto o ano que agora findou teceu meticulosamente o desastre consequente. Em 2016 não se deu a explosão química da mistura dos reagentes, não, puseram-se apenas à mão os produtos químicos que, misturados, concretizam a catástrofe. A saída de Inglaterra, mais atentados, a loucura instalada nos governos da Europa de Leste, a loucura que se instala na Europa Ocidental, e, a juntar a tudo isto, um catalisador precioso do outro lado do Atlântico: o Donald!
Nada disto é Portugal, mas a nossa irrelevância é tão (enervantemente) grande que um banco que estoure em Itália, ou a prisão de ventre do primeiro-ministro chinês, nos afetam, sempre.


A CEE não era nada disto, até o irreverente Vítor Rua dos GNR queria ver “Portugal na CEE” em 1981. Ainda me lembro quando entramos, em 1986. Que deslumbramento entrar num clube privado de gente aprumada, solidária, bem falante. Eram 10 e passaram a ser 12 connosco e com Espanha. Entramos turvados pela emoção como um pé rapado entra num distinto clube inglês. Em 1995 entraram mais três distintos países (Áustria, Finlândia e Suécia).
Hoje aquela quietude singular da Europa dos 15 perdeu-se. Adormecemos no processo e quando acordamos já éramos 28 dentro do mesmo quarto. Foi-se a gravata e o clube, outrora distinto, tornou-se um apartamento de adolescentes de férias em Ibiza. Uma balda, e é bem possível que a nossa ancestral lentidão nos deixe para último e tenhamos, afinal, que pagar os estragos de gente tatuada e com t-shirt de mangas cavas em que os nossos aprumados parceiros subitamente se transformaram.


As sólidas democracias do centro da Europa começam a titubear. Enredam-se em fantasmas vários e são incapazes de ter uma visão de conjunto. Há uma meia dúzia de anos atrás começaram a irritar-se connosco, com a Grécia, com Espanha, com a nossa bandalheira genética. Hoje já perceberam que há coisas mais importantes – o que tem dado uma grande ajuda a António Costa – que é muito mais difícil lidar com as tendências totalitárias, com a inflexibilidade dos países mais a leste cauterizados por anos de comunismo. E estão fartos, como os casais que não tendo crianças têm que gramar com as correrias dos filhos alheios. Também por aqui somos irrelevantes, já não somos sequer um problema.


A par disso a Europa mudou muito, como o mundo. A internet e em particular as redes sociais criaram novos heróis. As redes sociais são o reflexo do nossa luta constante para sair da irrelevância. Já não vejo, como via, as pessoas a passearem o seu jornal nas manhãs de sol do Toural. Já ninguém lê jornais! Tanto dinheiro a Europa dá para os produtores de leite, para a produção de energia verde e não há ninguém que se lembre de preservar os jornais, a sua qualidade, que minga, de dia para dia, como as más camisolas depois de lavadas. A “verdade” hoje pode estar no que qualquer palerma debita no facebook. E a praga institucionalizou-se ainda mais quando o “pensamento” político do futuro presidente dos EUA nos é dada em tweets.
No entanto a irrelevância está altamente subestimada. Dever-se-ia estimar muito melhor a irrelevância pessoal de cada um. Que interessa no fundo escarrapachar a viagem ou o pensamento de forma pública? Porque o que nos constrói é (quase sempre) irrelevante: o beijo que nos fez tremer de alto a baixo, um abraço forte num amigo reencontrado, um redanho de porco quentinho e saboroso que pecaminosamente se come, marcar um golo com o pé esquerdo quando se é destro, afogar o olhar numa paisagem perfeita.


Eu vou encarar 2017 como aquele assistente de bordo colombiano que se safou na queda do avião que levou o nosso Caio Júnior. Vou colocar uma mala estre as pernas e enrolar-me à volta dela. A não ser que ganhemos ao Benfica já este sábado e a conjugação cósmica dos astros reganhe a harmonia perdida. Pode ser.


Publica in O Comércio de Guimarães (04.01.17)
Imagens: NASA (planeta Marte)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A Colecção


“Nestas fotografias, longe estamos do tempo das sefies, da massificação delirante de Narciso. A objetiva provocava então algum temor e as expressões dos rostos denunciam um  flagrante desconfiança, de renitente entrega, senão de culpa vaga de coisa nenhuma.”

Carlos Poças Falcão. Exposição Álbum de Família. 2016.




A Colecção de Fotografia da Muralha (CFM) continua hoje a dar-nos uma paradoxal imagem de inesgotabilidade. As coisas finitas têm um princípio e um fim, a Colecção tem apenas princípios. Tem o vício dos recomeços que a perspectiva sempre distinta do nosso olhar dá.
É tempo apenas de sistematizar o trabalho para poder seguir em frente, em novo princípio. Assim, na próxima quarta-feira, pelas 18h00, na Assembleia de Guimarães serão apresentados quatro livros que constituem os catálogos das quatro últimas exposições da CFM: O Trabalho (2014), A Celebração (2015), Na Cidade (2016) e Álbum de Família (2016). Estão por isso convidados. Todos!
Apesar de ser obviamente suspeito não posso deixar de adjetivar como belos esses mesmos livros. A nossa história fotográfica comum está lá, seccionada pelos temas escolhidos, confortada pela estética própria das exposições a que reportam, enriquecida pelo contributo de muitos que se associaram a um particular olhar sobre as imagens, sobre os factos e os modos que elas sustentam, e que sobre elas escreveram.
Uma excelente oportunidade começar a fazer da CFM também um ótimo presente de Natal.

A CFM tem uma história longa. Uma história que se confunde com o nascimento da Muralha, Associação de Guimarães para a defesa do Património, em 1981. É esse o ano em que surge a Comissão Instaladora da associação. É esse o ano em que a Muralha adquire parte do espólio de placas secas (negativos fotográficos em placas de vidro, também designado por clichês) originárias da Foto-Electrica Moderna, fundada em 1910, por Domingos Alves Machado e que domina o panorama da fotografia comercial em Guimarães na primeira metade do século XX.
As placas fotográficas compradas exigiram muito das primeiras direções da Muralha. Era necessário a sua preservação que foi sendo feita com inúmeros constrangimentos técnicos e financeiros. Não existiam então os meios convenientes para tratar e acondicionar o valioso espólio. Fernando Conceição, presidente da Muralha (2009-2010), começa a efetuar um exaustivo estudo da Colecção e toma diligências para que os clichês de vidro fiquem à guarda do Arquivo Municipal de Alfredo Pimenta, onde hoje estão. No projeto Reiimaginar Guimarães (2011-2013), integrado na Capital Europeia da Cultura (CEC, 2012) e coordenado por Eduardo Brito, digitalizam-se e estudam-se todas as imagens da Colecção, realizando-se assim, de forma notável, o propósito inicial da Muralha. O projeto da CFM aproveitou a CEC e manteve-se vivo para além dela.

A Muralha não se contentou contudo em ter um espólio fotográfico bem tratado e organizado. Esse era um fim e a Muralha vive de princípios. Importava por isso fazê-la chegar aos vimaranenses, interagir com eles, descobrir quem são os netos e os bisnetos daquelas pessoas que posaram para a lente de Domingos Alves Machado nas primeiras décadas do século XX, e falar com eles. E nessa estratégia surge o GuimarãeShopping que acolheu três exposições integradas nas Festas Gualterianas (com o apoio da Câmara Municipal e da Oficina). Um local de apressada passagem que trava quem lá vai para um momento de pausa, para um princípio. E nessa estratégia surge o Museu de Alberto Sampaio que guarda a história central da cidade e tem na Colecção mais um dos seus estimáveis braços que nos afagam a memória. O nosso princípio enquanto comunidade, enquanto nação.
Importou ainda estudar as imagens e escrever sobre elas. Importou ainda olhar as imagens e deixar escrito o que elas despertaram. A Colecção pretendeu assim ir além das imagens e nos quatro livros encontram-se alguns textos de dezanove autores que enriqueceram as imagens com o seu contributo.

A Colecção não caminhou sozinha. Muitas pessoas e instituições permitiram que a CFM chegasse ao patamar onde se encontra. O Cineclube de Guimarães teve e tem um papel fundamental em todo o processo. Em particular: a Alexandra Xavier, o Miguel Oliveira e o Nuno Vieira. A sua criatividade tornou possível esse eterno princípio em que a Colecção se sente, esquizofrenicamente, confortável.


Publicado in O Comércio de Guimarães (07.12.16) 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

As mulheres e a política



“Em política, se você quer que algo seja dito, peça a um homem. Se quer que algo seja feito, peça a uma mulher.”

Margaret Tatcher. Discurso ao National Council of the Townwomen’s Guilds. 1965.




Mafalda.Quino.





Espero (mesmo muito!) que as dificuldades sentidas por Hillary, nestas eleições americanas, sejam ultrapassadas e ela se torne a primeira mulher presidente dos Estados Unidos da América. Espero (mesmo muito!) que ela já seja efetivamente presidente e o burgesso do Trump nos desapareça (até) da memória. Porque será que a candidata melhor preparada para ser presidente dos EUA, pelo menos desde J.F.Kennedy, tem tantas dificuldades em descolar daquele lagostim ignorante?
A grande e simplista explicação é de que Hillary é uma mulher. Tenho para mim que, de uma forma geral, as mulheres têm pouco jeito para a política. Chamem-me sexista, aguento. Os homens na política descobrem o seu lado feminino e assim se complementam. As mulheres na política masculinizam-se e perdem graça, tornam-se insuportavelmente sérias. A poderosa Tatcher nunca teve a grandeza de um Churchill nem a feminilidade de um Blair. A sensível Angela nunca terá a ponderabilidade de um Kohl. A Dilma apanhou com a fava do Lula que continuará a escapar como uma enguia aos escândalos que semeou. Nos EUA é a mesma coisa. Aguentamos as mentiras do Bill como verdades e as verdades de Hillary parecem, estranhamente, sempre falsas. Porquê?

A inteligência concreta. Sendo as mulheres, indubitavelmente, mais inteligentes que os homens, isso joga em seu desfavor na política. Racionalizar em política tem o mesmo alcance de racionalizar no futebol, uma coisa não casa com a outra. E racionalizar demais transforma-se, frequentemente, em azedume. E ser-se azedo em política não traz vantagem nenhuma, bem pelo contrário.
O lado fanfarrão e infantil dos homens, por outro lado, é apropriado à política. Para eles nada é imutável, nada é definitivo, nada é impossível. A realidade nunca é a realidade mas aquilo que sobre ela dizemos. Tudo é muito mais fácil dessa forma.

A teimosia. Nada é mais caracterizador do género do que a inflexibilidade das mulheres. Quando viram para um lado não há volta a dar-lhes. Eu que tive e tenho a sorte de viver rodeado de mulheres já de há muito percebi que é impossível ganhar-lhes uma discussão. Não se ganha uma discussão a uma mulher, nunca se ganha. Mesmo quando as fazemos calar pela força da nossa retórica razão, só as fazemos calar mas não as convencemos. O silêncio delas não quer dizer que nós ganhamos, não, quer apenas significar que elas naquela altura específica não escolheram as palavras certas, apenas isso. A razão das mulheres não é uma construção metafísica é um dogma. A verdade das mulheres é biológica não é filosófica.

A multifuncionalidade. Uma das coisas de que as mulheres modernas mais se orgulham, comparativamente connosco - os homens - é a sua capacidade de fazerem várias coisas ao mesmo tempo. Pensam na roupa dos filhos, na medicamentação da sogra, enquanto levantam a fervura ao arroz, ouvem a Judite de Sousa e trauteiam uma música da Beyoncé. Bravo! No entanto a vida não são os Jogos Sem Fronteiras em que os concorrentes empilhavam coisas na cabeça, seguravam a faixa da equipa com os dentes, empilhavam roscas nos braços, enquanto corriam para a meta em cima de estrados sobre a piscina. A vida é felizmente mais simples.
A monofuncionalidade em política é fundamental. A arte da política está em fazer várias coisas, uma a uma, e não muitas coisas ao mesmo tempo. E aí as mulheres ficam a perder, são demasiado ambiciosas e isso tira-lhes a concentração e a objetividade.

Vou haver-me certamente com a minha mulher por este meu “momento Pedro Arroja”. Paciência. Talvez a faça rir com um qualquer comentário posterior. E aí estarei salvo. As mulheres apreciam, fundamentalmente, quem as faça rir, quem as faça sentir bem. E quem melhor que nós -os abstratos, os flexíveis e monofuncionais seres masculinos – para cumprir essa higiénica função existencial?


Publicado in O Comércio de Guimarães (09.11.16)