terça-feira, 6 de novembro de 2018

A Vertigem

“Não quero alcançar a imortalidade através do meu trabalho; quero alcançá-la não morrendo. Não quero viver no coração dos meus compatriotas; quero viver no meu apartamento.”
Woody Allen.The illustrated Woody Allen Reader.1993.




Em boa hora um par de amigos ofereceu-me os livros de Yuval Noah Harari, um historiador israelita cujos livros são atualmente estrondosos (e merecidos) best-sellers. Harari fala sobre a evolução humana e muitas vezes “perde-se” numa mesma ideia que reformula ao longo dos seus livros, em estilo mas não em conteúdo. O escritor simplifica as ideias que nos pretende transmitir em torno de factos que marcaram a evolução humana. E, como sabemos, é bem mais difícil simplificar do que complicar.
Alguns factos por ele enfatizados chegam mesmo a ser perturbantes pela força numérica que os enforma o que colide com o clima de medo e de ódio que hoje se vive, ampliado pelas redes sociais e pela imprensa que não quer ficar atrás da paranoia coletiva em marcha.




Harari escreve sobre a história do homem enquanto espécie e muito em particular sobre os ganhos civilizacionais e sociais dos séculos XX e XXI, após guerras, aos quais não damos hoje valor nenhum, ou pura e simplesmente ignoramos. Refere Harari, por exemplo, que em 2012 o número de mortes violentas foi em todo o mundo foi de 620.000 (120.000 por guerras e 500.000 por criminalidade). A esse número contrapõem as 800.000 mortes, nesse mesmo ano, por suicídio. Ou seja, o suicídio mata hoje mais do que a guerra e a criminalidade juntas. Lembra-nos de onde viemos para percebermos quem somos. Refere massacre de S.Bartolomeu em França, em 1572, em que católicos chacinaram protestantes em maior número do que o império romano politeísta fez aos cristãos. Contrapõem a razia da Peste Negra na Europa do séc.XIV que matou um terço da população europeia com a rapidez com que controlámos hoje as epidemias: o vírus Ébola foi considerado alarmante em setembro de 2014 e em janeiro de 2015 já estava controlado, e passado um ano foi erradicado. Controlamos hoje a desgraça com alguma rapidez, com base no conhecimento científico das nossa sociedades.



Mas a tendência humana para a desgraça nunca vê o copo meio cheio, vê-o sempre meio vazio! E a minha Europa, a nossa Europa, parece querer trilhar o mesmo e perigoso caminho que outros fora do nosso continente vão fazendo. Na nossa Europa ainda há poucas décadas morreram mais de 80 milhões de pessoas em duas guerras estúpidas movidas por ódios e instrumentalizadas por uma legião de sargentos anónimos que meteram a mão na massa para as operacionalizar. Já há mais de 70 anos que nada de terrivelmente mau nos acontece e não damos, infelizmente, nenhum valor a isso. A democracia ocidental foi fundamental no avanço civilizacional que temos nas últimas décadas, ao nível diplomático, ao nível político, ao nível científico, ao nível das liberdades individuais, ao nível da solidariedade entre comunidades e povos. No entanto começa (novamente) agora a ter muita importância a nossa cor de pele, as nossas origens, a nossa religião, a nossa nacionalidade, a nossa intolerância à diferença. É só olhar com atenção para as redes sociais para perceber a legião de sargentos que se agiganta à espera de um messias político como Trump ou de uma causa verdadeiramente fraturante como o Brexit o foi há bem pouco. É a vitória da estupidez pela via democrática, a qual só se deve combater democraticamente. Quando o rasputine do Steve Bannon é recebido em Itália como grande ideólogo de uma nova ordem mundial, alguma coisa está profundamente errada num país de gente boa que também há algumas décadas atrás se deixou dolorosamente embarcar no canto de sereia. Outra vez? Não há livros de história disponíveis para se lerem em vez das radicais bocas nas redes sociais? E que tal não se acreditar em movimentos que mais não são que hordas de facho em punho à procura de exterminarem o monstro do Dr. Frankenstein no lendário filme de James Whale? 



Há quem diga que a angústia da vertigem reflete a tendência pessoal ao suicídio. Eu sou atreito a vertigens, apesar de não vislumbrar em mim tendências suicidárias. No entanto reconheço esta insatisfação tão humana de o que nos faz bem também nos entedia profundamente. Os brócolos cozidos, uma democracia que nos dá um voto para escolhermos quem nos governa, um continente sem guerra global há mais de 70 anos, que maçada! Tudo muito chato para os dias que correm.
Compreendo e até (vá lá) aceito, desde que não me levem ao fundo. Já não tenho paciência nem idade. Há cem anos atrás estaria estatisticamente morto, a esperança de vida estava nos 40! Hoje não. Restam-me estatisticamente vinte e seis anos de vida e não estou para aturar estas merdas, este ódio que se começa a tornar crónico. Ora mais um cigarro para sabotar as estatísticas. Bfffffffff. 


Publicado in O Comércio de Guimarães (07.11.18)

Imagens de cinema: Vertigo/A mulher que viveu duas vezes, Hitchcock (1958), O Estrangeiro (1946) de Orson Welles e A Dama de Shangai (1947) de Orson Welles.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Cães no desemprego


“Um laço de 15000 anos gerou uma compreensão e um afeto muito profundo entre seres humanos e cães do que entre quaisquer outros animais. Em alguns casos, os cães mortos até eram enterrados de forma cerimonial, tal como os seres humanos.”
Yuval Noah Harari.Sapiens, de animais a deuses.2011.

Há umas décadas atrás a maior parte dos cães tinham uma função específica e utilitária na sua relação com as pessoas. Os mais populares, os cães de caça, eram muitas vezes tratados com especial desvelo pelos seus proprietários já que tinham dotes específicos: uns encurralavam a caça, outros detetavam as presas pela visão ou pelo faro, outros iam rapidamente buscar os animais abatidos, outros eram incrivelmente rápidos e ágeis. Lembro-me do porte elegante de um perdigueiro, branco e castanho, que nas épocas em que não trabalhava se deixava enlevar pela irrequietude das crianças sem sequer rosnar. Estava entre trabalhos e sabia ser em tempo sabático um admirável cão de companhia. 



Outros eram cães de guarda que afastavam os atrevidos e que se atiravam às canelas dos larápios mais incautos. Os cães de guarda das casas em que era costume entrar e sair muita gente estavam acorrentados no comprimento certo para quem conhecia saber que podia passar e para intimidar outros que, com más intenções, não faziam ideia se aquela corrente metálica os protegeria de uma mordidela. Lembro-me do Chuchu em casa de um amigo meu que me tentou ferrar dezenas de vezes e ficava, esganado como sempre, a um palmo das minhas pernas quando eu penetrava em sua casa, pelas traseiras. E eu ficava essas dezenas de vezes com o coração aos saltos não fosse um dos elos alargar, ou eu alargar com a idade. Nunca confiando.
E existiam os cães dos ceguinhos, pachorrentos e previdentes, sempre acautelando o seu dono como uma paciência e uma perspicácia assombrosas. E os cães da polícia, como hoje ainda existem, para dissuadir manifestações e encontrar droga em malas suspeitas. Inteligentíssimos e disciplinados como a vida militar o exige.



resto eram os cães vadios, que deambulavam pelas ruas com o particular critério de uma mão amiga lhe estender um pouco de pão ou um carinho e que as crianças adoptavam com um fervor que horrorizava as gravatas dos mais velhos quando uma das cadelas da matilha estava no cio.



Hoje já é raro apanhar esta magnífica espécie com funções atribuídas. São apenas, eufemisticamente, cães de companhia em T1 e T2 nos quais perdem indolentemente os instintos e as competências que os fizeram “o melhor amigo do homem” ao longo destes 15 milénios de fraterna parceria. Ou modelos fotográficos para as redes sociais. Daí a profusão de raças estranhíssimas que alimentam o negócio de quem quer ter o cão mais exótico, cruzados até à exaustão de uma duvidosa estética canina contemporânea. Daí a perda completa dos instintos que nós lhes apurámos ao longo do tempo, rejeitando aqueles que não nos serviam os propósitos e protegendo aqueles que o faziam. 
Perto de minha casa há uma quantidade enorme de cães de pátio e cães de varanda que ladram desesperadamente na sua falta de propósito. Há um deles, inclusivamente, que não sabe latir, nem sequer ganir, e chia desesperadamente alimentando, dia a dia, a minha perplexidade e a minha paciência. Os cães perderam propósito. São muitos e variados mas estão todos no desemprego funcional. Tristes e perdidos.



Mesmo assim os rafeiros ainda são os que mais se aproximam da sua finalidade enquanto espécie. Recordo um rafeiro que rondava as mesas do Largo da Misericórdia e que já há muito tempo não vejo. Sempre que passo por lá deito o olho a ver se o encontro, mas nada. Muitas das vezes o encontrei quando jantava na esplanada do largo e sempre admirei a sua elegância, a sua inteligência e a sua discrição. Parava a dois metros da mesa e olhava para nós sem fixar, só para dizer eu estou aqui. Se lhe dávamos algum pedaço de comida ele ia embora. Se não lhe dávamos ele percebia e desandava muito ciente de si mesmo e da sua dignidade de cão, sem aparente azedume. Nunca mais o vi. Deve ter-se fartado desta turistada de mastins, chihuahuas, huskys e rotwillers. E fez bem. Já chega de aturar esses pavoneantes sem função. Mais vale uma vida de cão que vida nenhuma, pensará o rafeiro.

Publicado in O Comércio de Guimarães (10 de outubro de 2018)
Imagens: Hunffington Post + minhas

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O pipo


“Vê-se o pequeno lavrador que desceu dos montes para banhar as suas enfermidades. Traz um lenço na cabeça, por baixo do chapéu, atado ao queixo, amplas chinelas de couro cru, longo capote de cabeções.”
Ramalho Ortigão.As praias de Portugal: Guia do banhista e do viajante.1876.



Póvoa de Varzim sempre foi, a exemplos de outros vimaranenses, a minha praia. Desde os nove meses – idade em que tenho a minha primeira fotografia na Póvoa – fui indo para lá todos os verões, ano após ano, de forma consecutiva até que um dia a troquei, de forma impudente diga-se, por Esposende. No entanto a Póvoa está-me cravada no coração e mais ficou quando já no fim da minha adolescência tive o prazer de me tornar amigo de um notável conjunto de jovens poveiros - todos com um impecável gosto musical, o que nos uniu seriamente na altura porque a música é um assunto importante - e que condescenderam, não sem alguma relutância inicial, em fazer amizade com banhistas. Ainda hoje os conservo com particular gosto.



Foi com enorme surpresa que percebi que na praia da Póvoa já não existem as cordas e os pipos a elas ligadas que pontuavam, espaçadamente, a praia da Póvoa de Varzim ao longo do seu enorme e rude areal.
Dizem-me que já há bastante tempo os pipos foram retirados. É provável que quem conhece a Póvoa há mais de vinte anos se lembre dessa estranha e útil geringonça, mas é igualmente provável que muita gente não a conhecesse. O assunto resolve-se para estes últimos, espero eu, com alguma facilidade: no areal existia uma estaca firmemente cravada na areia da qual saía uma grossa corda que culminava já em pleno mar presa a um pipo metálico (posteriormente de plástico) que flutuava no mar e cuja tendência para entrar pelo mar dentro fazia tensão na corda, obrigando-a a permanecer tensa e verticalizada num uso particularmente feliz e engenhoso das leis da física marítima.
Ou por aselhice minha ou por desinteresse (estranhamente) generalizado pouco ou nada encontrei na internet sobre esta original engenhoca. Por isso especulo que os pipos desapareceram por questões de segurança no meio de alguma cega normalização europeia, quando era precisamente essa garantia que, julgava eu, os pipos e as cordas asseguravam.



mar da Póvoa não é para qualquer um. Habituado ao mar da Póvoa qualquer outra praia se me afigurou durante muitos anos de uma mansidão quase obscena. A bandeira vermelha numa qualquer praia que não a Póvoa sempre me deu vontade de rir. Não bastasse a fúria brava das suas ondas a Póvoa tinha uma particularidade especial, pois para lá da rebentação das ondas aparecia, de forma súbita, uma cova que nos tirava automaticamente o pé. Daí que para tomar banho de forma completa era preciso saber nadar. E nós, miúdos, aprendíamos entre tios e amigos, na maré vaza, a nadar, daí o estilo peculiar de natação que eu e outros banhistas pacientemente apuraram naquelas águas. Quando nos sentíamos já mais seguros no estilo sonhávamos ir ao pipo. E quando arranjei coragem para tal empreendimento o meu coração batia mais do que aquilo que o esforço ditava; na altura, como agora, não me dava jeito nenhum morrer e por isso o trajeto até ao pipo era feito paralelamente à corda. Isso dava-me uma segurança extraordinária pois sabia que se a coisa não corresse bem agarrar-me-ia àquela grossa corda de nylon e esperava que o cérebro se alinhasse com o resto do corpo. Ir ao pipo era uma grata vitória de criança – felizmente não vigiada – que se discutia o resto da manhã, o resto do dia, o resto do ano, como quem dobrasse, interiormente, o seu Cabo Bojador.



corda que ligava ao pipo foi durante décadas – já não o é mais - um objeto de profunda democraticidade. Aquele mar, dizia-se, não era para todos, principalmente quando a maré se tornava alta e as ondas se enfureciam. Quem não sabia nadar participava na mesma do banho. As ondas batiam, puxavam, e os banhistas lá continuavam imóveis como mexilhões, agarrados com toda a força àquela corda que os prendia ao areal e à vida. Toda a gente se banhava, em fato de banho, ou saia, ou calças arregaçadas até ao joelho. Haveria naquela praia alguma coisa mais profundamente democrática – agora dir-se-ia inclusiva - do que a corda?
Lá se foram então os pipos e as cordas da Póvoa. Como coisa inútil que nunca foram. E ponho-me estranhamente, agora, a pensar se aquela corda não seria também útil nos assuntos que nos vão surgindo dia a dia na forma violenta de ondas. Porque tem de ser, porque temos de saber, porque temos de tomar posição. Os casos, as políticas, os futebóis que nos entram pelos olhos e pela moral adentro ... e a gente sem uma corda a que se agarrar. Pois sem corda só nos restam duas tristes alternativas: ou somos engolidos pela onda turbulenta dos factos ou somos devolvidos à crueza dos imensos areais destes dias.



Publicado in O Comércio de Guimarães (12.09.18)
Imagens obtidas em: anossapovoa.blogspot.com (3 primeiras) acasadospoveiros/deskgram (a última)


quarta-feira, 4 de julho de 2018

Em modo funcionário

“(...)Não podias ficar nessa cadeira/onde passo o dia burocrático/o dia-a-dia da miséria/que sobe aos olhos vem às mãos/aos sorrisos/ao amor mal soletrado/à estupidez ao desespero sem boca/ao medo perfilado/à alegria sonâmbula à vírgula maníaca/do modo funcionário de viver.(...)”
Alexandre O’Neill.Um adeus português.1958.




velho funcionário público que tudo fazia para nada fazer está a desaparecer. As coisas mudaram por efeito de uma consciência democrática - muitas vezes feroz - que lhe tolhe a missão de protelar a coisa. Mesmos os tiques e o trejeito de olhar cansado e sobrancelha arqueada que o funcionário tinha quando alguém suspirava no balcão “ó fachavor” perderam-se na obrigatoriedade de sermos hoje utentes digitais. Há no entanto alguns vislumbres que me matam a saudade de quando éramos impotentes perante a burocracia e quem diligentemente a pastava aos nossos olhos. Recentemente tentei marcar uma consulta de urgência no médico de família e pacientemente, conforme o manual, telefonei às 8h00 em ponto. E nada. Cada chamada perdia-se no vazio e eu recomeçava a chamada com aquela angustia própria de quem torna para o fim da fila. 8h20 e a coisa continuava difícil. É melhor ir comprar o pão e o jornal de carro para que a chamada passasse para as colunas da viatura e eu não perdesse a minha vez. 8h32 fui finalmente atendido. Não sei se vai ser possível hoje atira-me a funcionária, ó minha senhora estou a telefonar há mais de meia hora não me faça isso por favor, está o senhor e estão outros devolveu-me ela a bola ... e senti que argumentar não seria afinal uma boa solução. E ela volta à carga – esperta – e pergunta-me pelo número de utente. Eu no carro, sem acesso ao cartão de cidadão, e sem espaço na memória para mais um número, balbuciei que não sabia. Fez-se silêncio e do lado de lá senti um sorriso de vitória. É por isso que se demora tanto tempo a atender as chamadas, vá lá diga-me a data de nascimento condescendeu a funcionária, e eu disse-a, a medo, tremendo de gratidão.



culpa é sempre, habituamo-nos, do funcionário público. Por isso as suas lutas são uma maçada para o resto do povo envenenado, a preceito, pelos poderes de ocasião.
Neste país o deficit público depende mais das obras faraónicas a que se deitou a fazedora mão, e do serviço da dívida que com elas nasceu, e não propriamente do funcionário público. Neste país a dívida das empresas é superior à dívida do estado, e algumas delas endividaram-se sob a influência dos poderes políticos e hoje nada pagam e deixam a fatura a todos, neste país injetaram-se 15 mil milhões de euros desde 2008 no sistema financeiro, neste país não fora os desmandos das PPP´s e o deficit público seria (mais) controlável ... mas a culpa casa sempre bem com o funcionário público. Num país em que a educação pública permite, ainda, através do mérito e do esforço a mobilidade social daqueles que não tiveram a sorte de nascer em famílias com dinheiro ou cultura, num país em que os mais pobres não ficam barrados, como noutros países, às portas do hospital público, a culpa será sempre dos professores, dos médicos, dos enfermeiros. Porque há quem jure que somos todos uns malandros e o bom era quem tem tem e quem não tem não tem, paciência. E este medieval pensamento vai ganhando raízes no populismo (supostamente) liberal e concorrencial dos dias que vivemos.
Talvez a expressão não seja a melhor, talvez. Os ingleses têm o public servantque, parece-me, tem uma fonética mais adocicada: servidor público, nós não, temos a palavra funcionário para nos funcionalizar e tirar assim qualquer pretensão de serviço ao outro.
Eu, professor, funcionário público, estou em greve. Admito que sou um felizardo por poder lidar, todos os dias, com jovens espertos que me obrigam a estudar e a andar em frente para os conseguir ensinar e liderar. Isso bastaria para que eu dispensasse o salário ou a carreira, mas não. Egoísta me confesso. Que heresia esta a de fazer uma greve que dói. Eu, um inconsciente adolescente, com licenciatura e um mestrado em Educação estou já, apesar de tão jovem, no 4º escalão de uma profissão que tem 10 escalões. E como só penso em mim, não consigo ver a diáfana possibilidade de chegar ao topo da carreira aos 112 anos de idade e poder gozar ainda, vá lá, uns oito anos de reforma no pico supremo da minha forma intelectual.
A educação é a paixão de todos. Mas uma paixão platónica, assim a modos que. A educação ficaria muito mais tranquila sem os malandros dos professores, admito. Respeitar compromissos e expectativas, motivar os professores é uma maçada e não interessa nada para a qualidade da educação, nada. Aliás há computadores ... e esses não fazem greve!



prédio que se agiganta hoje, visivelmente, nas barbas do vetusto Mosteiro da Costa é um atentado à paisagem e ao cuidado dos vários Planos que Guimarães urdiu pacientemente ao longo de décadas e que lhe deram até hoje um urbanismo aceitável. A celeuma levantada nas redes sociais e nas opiniões a propósito é – como já aconteceu noutras casos – um bom sinal. Uma cidade que não baixa os olhos ao seu destino é uma boa cidade. E continua a ter futuro, independentemente das asneiras que se cometem. Dificultar o erro – chamemos-lhe eufemisticamente assim – é uma tarefa de todos. Em especial dos (mal amados) funcionários públicos. 


Publicado in O Comércio de Guimarães, 4 de julho de 2018
Imagens (de cima para baixo): canadianstage.com+abc.net.au+sciencehistoryinstitute

terça-feira, 5 de junho de 2018

Convicções


“Convicção é a crença de estar, em algum ponto do conhecimento, de posse da verdade absoluta. Esta crença pressupõe, então, que existam verdades absolutas (...).”
Friedrich Nietzshe.Humano, demasiado humano.1878/1886.

Vivemos tempos em que toda a gente tem fortes convicções. Faz parte do pacote do opinante apresentar publicamente as suas inabaláveis convicções. Eu, com a idade, vou-as perdendo. Sem particular pena, diga-se. Em termos ideológicos, na avaliação de personalidades, em questões de ordem moral – apesar da minha forte costela liberal-, tenho hoje mais dúvidas que certezas, e isso não me angustia, pelo contrário dá-me a bovina tranquilidade da não certeza. Viver obcecado nas convicções é meio caminho andando para a imobilidade das trincheiras ... morais, políticas, filosóficas. 



Tenho, mesmo assim, algumas convicções inabaláveis: a exata quantidade de sal grosso que o camarão da costa acabado de cozer deve levar, que os sopradores de folhas deveriam ser proibidos, que nunca dançarei zumba, e que Sócrates é a vergonha do Portugal político não pelo que ele fez, mas pelo que se calou enquanto ele o fazia.
E mesmo tendo em conta que as convicções me irritam – ou talvez por isso – deixo mais algumas...



Isto não está nada bem. Não me lembro das grandes potências mundiais terem dois loucos – simultaneamente - ao leme. Para um Reagan existiu um sensato Gorbatchev, para um Ieltsin existiu um comunicativo Clinton. Agora para o fanfarrão Trump existe outro fanfarrão: Putin e em tronco nu. Até o presidente da fechada China parece um senhor ao lado destas peças. Era aqui que a Europa deveria entrar, como garante de democracia e sensatez. E há gente boa a liderar esta Europa que perde dia a dia a sua oportunidade de ser um sólido farol do mundo democrático e económico, porque não se entende enquanto comunidade, porque o populismo e o separatismo vão consumindo a Espanha, a Itália, a Bélgica, o Reino Unido que se apartou, porque o populismo, a censura e a intolerância vão moldando a Polónia, a Hungria. Quando o mundo mais precisava de nós não estamos prontos, estamos com as calças na mão e isso é uma pena para a Europa e para o Mundo. 




Estou convicto aliás que o populismo é a maior das pragas atuais que se agiganta hoje devido à facilidade com que a mentira é divulgada diariamente nas redes sociais, ao desinteresse generalizado das populações pela imprensa e à facilidade com que se geram convicções. Aliás o populismo é um fazedor nato de convicções de pacotilha. Numa entrevista recente Tony Blair refere que o forte fenómeno do populismo se alimenta da raiva das pessoas, sem nunca oferecer soluções para os problemas reais do coletivo. E é isso mesmo: o populismo é um cão raivoso que trinca qualquer um, que mina, que destrói, só porque somos de uma origem diferente, temos um pensamento diverso, no fundo só porque sim, nem que em troca não haja nada, mesmo nada. Só a raiva e o ódio que, diga-se, não nos fazem falta nenhuma.




Valha-nos o mundial de futebol agora para distrair, já que o nosso campeonato é a vergonha que se conhece. A insanidade do Bruno ainda distrai, mas o resto da escandaleira é demasiadamente grotesca para não nos meter nojo, a todos. Os campos vão continuaram inclinados contra o nosso Vitória e os outros como nós, como sempre estiveram aliás. Pelo menos, por aí, não haverá novidade que nos surpreenda.
É por isso sempre refrescante ter na próxima época um treinador como o Luís Castro. Alguém que fala em vez de vociferar, alguém que se apresenta com um trato pouco usual no meio em que se move e que, julgo, percebe de futebol e da sua organização.
Estou com esperança que as coisas corram bem ao nosso Vitória e que, nem que por momentos, consigamos ludibriar todas as armadilhas que nos vão colocar. E se a essa esperança juntarmos a nossa paciência coletiva (aqui já tenho dúvidas...) então estarei convicto que vamos, no Vitória, ser felizes. Como merecemos aliás.

Publicado in O Comércio de Guimarães (6 de junho de 2018)

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Os penetras



“Quando a caravana se pôs em marcha, segui-a até à estrada. (...) Não é todos os dias que aparece nas nossas vidas um elefante.”
José Saramago.A viagem do elefante.2008.




Há histórias que melhoram com o tempo. Muitas das minhas história de juventude, à força de tantas vezes serem contadas e partilhadas, vão ganhando hoje ressonâncias sempre novas. Penso que isso se passará com muitos de nós. Há sempre um pormenor que se acrescenta à história, não sei se por um capricho de memória ou pura e simplesmente pelas nuances que, muitas vezes, a imaginação acrescenta à realidade.
No início dos (gloriosos) anos 80 acontecia – não sei se apenas em Guimarães, mas em Guimarães certamente – o hábito de ir a festas para as quais não se era convidado: uma das coisas mais excitantes que se podia fazer! Foi (para mim) um breve e louco período entre os meus 16 e 18 anos e funcionava por paradoxo: quando alguém nos convidava para uma festa de anos era um desprazer, quando alguém se atrevia a não nos convidar, aí sim, era o desafio pelo qual ansiosamente esperávamos.



Penetrar nas festas não era – apesar daquilo que a idade poderia indiciar – uma aventura sem plano, não. Penetrar significava ter uma estratégia bem delineada e um calendário bem estruturado. Tudo começava pelo bufo. Existia alguém no grupo de amigos que era convidado e que funcionava como Cavalo de Tróia. O pessoal escolhia a hora do assalto e o modus operandi que, geralmente, passava pela boleia de amigos um pouco mais velhos que nós, mas já com carta e carro e a lata suficiente na arte do penetrar. Apesar de tudo entrava-se em bando, pois muitas vezes as coisas podiam correr mal e um grupo ... é sempre um grupo. O bufo era sempre denunciado pois depois do 14º croquete e de 5 cervejas era com ele que desabridamente se socializava. O bufo tinha a festa estragada e os olhares dos convidados inevitavelmente sobre ele, ou alinhava na deriva alcoólica (perdido por cem, pedido por mil) ou então recolhia a um canto sob o peso dos olhares reprovadores.
Lembro-me ter combinado com um grupo de amigos quando estudava no Porto, no meu 12ºano, penetrar numa festa em Vizela de uma rapariga que fazia anos. Ainda hoje me pergunto como era possível combinar alguma coisa à falta de telemóveis, mas combinavam-se coisas. Incrível! Era uma sexta-feira à noite e eu cheguei tarde do Porto e já não apanhei os meus amigos. No tempo em que não havia telemóveis assumiam-se as coisas, não está não está, vamos nós andando. Restava-me apanhar a última camioneta da Transcovizela, caso alguma coisa corresse mal teria que fazer Power Walking no regresso. E lá fui eu. Entrei já os meus amigos penetras e o bufo dançavam num anexo da casa preparado para o efeito. Ela deitou-me um olhar furioso do tipo: outro, quando é que isto vai acabar?E lá fui eu dando uns passos de dança ao som de September dos Earth, Wind and Fire até que um adulto que eu conhecia – e que se divertia com outros adultos numa festa paralela – me resgatou aos croquetes e me pôs a comer e a beber coisas muito mais interessantes do que aquelas que se disponibilizavam no anexo. Ser penetra era também isso, era estar preparado para mudar a agulha se isso nos garantisse maior tempo de permanência na festa para a qual ninguém nos convidou.



Acoisa terminou por aí, 1981, 1982, mas o bichinho ficou. Em Coimbra subi o nível da penetração e fui a dois casamentos sem ser convidado. Num deles de gente que hoje conheço vivamente pelo facto de ter penetrado no seu casamento. Boa gente claro, que quando me veem hoje me chamam de penetra, nem sei bem porquê. Noutro não conhecia ninguém tirando o convidado que me levou. Foi na Mealhada e acabei a festa a dançar com a noiva. Os casamentos tinham o dom de matar o vício de penetrar e (ainda) o de poupar o almoço e jantar de domingo ... e (quem sabe) até mesmo o almoço de segunda feira. Foi durante a segunda intervenção do FMI em Portugal, compreende-se.
Já depois de casado (ainda de fresco) um grupo de amigos meus – que estavam em minha casa – decidiu penetrar numa festa em frente. Eu não fui pois era uma festa dos meus vizinhos e há que pugnar por uma boa vizinhança. No entanto estive solidário e recebi-os condignamente depois da inevitável expulsão, pois já tinham passado mais de dez anos sobre a época áurea dos penetras. E a arte perde-se.




Quando D. Manuel I quis impressionar o papa Leão X enviou uma delegação a Roma, chefiada por Tristão da Cunha, que partiu de Lisboa levando pedras, joias e animais exóticos como elefantes, leopardos, e um rinoceronte que (imaginem lá a desfaçatez do bicho) morreu no trajeto. A delegação chegou a Roma a 12 de março de 1514 e foi recebida uns dias depois pelo Papa que de tão impressionado com o gesto diplomático decretou que os portugueses poderiam entrar em qualquer uma das festas romanas. É o que se diz. Outra versão atira para o séc.XVIII e para os espetáculos organizadas pela embaixada de Portugal em Roma, nas quais os portugueses podiam assistir de borla, bastando para isso que, à entrada, referissem io sono portoghese. A expressão ficou e hoje em Itália fare il portoghese é entrar num sítio para o qual não se pagou, para o qual não se foi convidado. Mas fare il portoghese sendo portoghese é estar num outro nível: a estratosfera da penetração.

Imagens: amici miei (1975) Mario Monicelli, imagens de Rafael e Durer

Publicado in O Comércio de Guimarães, a 9 de maio de 2018

terça-feira, 10 de abril de 2018

Ter a mania

“Cada um de nós inevitável (...)/ Cada um de nós aqui tão divino como qualquer outro.”
Walt Withman. Folhas de ervas.1855.





Maníaco é uma palavra terrível, diabólica direi mesmo. Já mania é uma palavra bonita, curta e elegante. No entanto o maníaco é, literalmente, aquele que tem a mania. Entre o adjetivo e o substantivo existe assim um fosso enorme de significado. Talvez à falta de um adjetivo intermédio e adequado os portugueses inventaram o “ter a mania” quando se referem a indivíduos vaidosos de uma qualquer característica pessoal. O armanso também serviria o propósito, mas nos meus dicionários não existe essa palavra, só mesmo no vocabulário popular nortenho. Em Guimarães certamente pois o armanso sobreviveu até hoje na nossa linguagem particular: o armanso é aquele que se está a armar (em bom).

Voltemos então à palavra mania, uma palavra com uma sonoridade agradável, que se prestava a ser nome de cadela fofinha ou, então, designação de uma dança latino-americana, hoje vou dar um pé de dança, é dia de mania, rumba e mambo, ou até de fruta tropical que combina bem numa salada com maracujá, ananás e ... mania.
No entanto ter a mania é outra coisa. E nada irrita mais do que aturar pessoas que têm a mania.



Ter a mania de que se é bonita ou de que se é bonito é frequente. Irrita um bocadinho, mas não exaspera. Pois, como sabemos, é uma coisa que passa com o tempo e a assunção – pelos outros - desse cinismo pode ser particularmente tranquilizante. Ai tens essa mania? espera uns aninhos e vais ver onde vão parar essas carnes e esses ossos que tu, pobre tonta, julgas hoje poderem escapar à persistente teimosia da gravidade.
Ter a mania de que se é inteligente é bem mais grave. Ora vocês não sabem mas isto é assim, já não irrita, exaspera. Ter a mania de que se é inteligente não é de pessoa inteligente. A inteligência não se propala, descobre-se ... e no fundo a beleza, apesar de característica física, também funciona um pouco assim. Ter a mania de que se é inteligente é, paradoxalmente, a mais estúpida das manias. Só um pascácio (outra interessante palavra que sempre ouvi dos meus amigos da Póvoa de Varzim) se deixa impressionar por aqueles que têm a mania que são inteligentes. O resto da malta fica logo de sobreaviso e quem tem a mania de que é inteligente sai logo a perder.
Ter a mania de que se é rico está, por graça e obra da fiscalidade, a perder força. No tempo em que os impostos eram uma abstração a mania de que se era rico era bem mais frequente. Atualmente a coisa está mais contida. Os carros e as casas ainda são um sinal disso mesmo, mas disfarçam-se mais. Resta-nos o vinho caríssimo a que um pascácio qualquer explica pormenorizadamente o preço e a proveniência, ou o relógio incrustado de pedras que tem os mesmos ponteiros que o nosso e dá exatamente as mesmas horas que a nossa cebola. Este é o mundo das marcas que tanto consome, desde cedo, e escusadamente, os nossos adolescentes.
Já ter a mania de que se é de família está nitidamente a ganhar força, pois a época que vivemos é de intensa normalização e nada poderá ser mais distintivo do que falar das origens. Já que nem todos podemos ser de Bettencourt e Albergaria o ter a mania que se é de família exige, desde logo, um bom sobrenome. Eu, coitado, nem que quisera inventar um passado de família estava tramado: o Costa é como uma âncora que me afunda na cruel realidade da onomástica. O Poeiras e até mesmo o Lobo poderiam, quiçá, fazer-me flutuar no mundo cruel dos apelidos, mas ficaram entalados entre os nomes próprios e a vulgaridade do Costa (valha-me por agora o primeiro-ministro!). Os que têm a mania que são de família adoram falar entre eles. Têm um jargão próprio impermeável aos Costas, aos Silvas, aos Pereiras. E é o que nos vale senão teríamos que gramar umas horas a (ouvirmos) falar das joias da avó Ricardina ou das práticas lá de casa ou das impertinências do pessoal doméstico ou dos cavalos das toiradas ou das quintas ou do Dom Pedro qualquer coisa. 




Quando escrevia mentalmente esta crónica passei por um desses sítios em que - como um jornal de parede – se alinham necrologias. O túnel da Gil Vicente é um dos mais populares e quando passava – escrevendo – dou com uma boa meia dúzia de transeuntes perscrutando novos mortos ou missas de aniversário, ou de mês, ou de sétimo dia. Desviei o olhar não fosse alguém pensar que, também eu quanto eles, tinha (afinal) a mania de estar vivo. Nunca confiando.




Publicado in O Comércio  de Guimarães (11 de abril de 2018)

Imagens de ilustrações de João Abel Manta in Almanaque (1960-1961)

quinta-feira, 15 de março de 2018

Toponímia de género


“(...) as mulheres falam muito/ têm o riso arguto nos lábios acesso pelo anis/ sempre que os homens as desejam/ noite adiante ... calados.”
Al Berto. Filmagens. 1980.




O jornal Público aquando do dia 8 de março publicou um artigo sobre o nome das ruas de Portugal concluindo, sem espanto nosso, que em cada vinte ruas com nome próprio dezassete referem-se a nomes de homens. Percebe-se ainda do artigo que nas ruas com nomes prevalece o factor religioso, mais significativo nas mulheres. É a vida, dir-se-á, apesar dos dias internacionais da mulher que se repetem, como as estações.




Utilizando o mesmo “método científico” da jornalista que escreveu a peça - os códigos postais dos CTT - se bem que de forma certamente mais apressada, reparei que em Guimarães há uma tendência muito maior do que o resto do país para dar nomes de pessoas às ruas. Em vez do terço que a peça refere em que as ruas têm nome de pessoas em Guimarães, nas freguesias centrais, dá-se muitos nomes de pessoas (mais de metade nas freguesias da cidade). No entanto ao nível de mulheres ainda conseguimos ser mais raros que o país: São Sebastião não tem nenhuma, nem santa sequer, São Paio só tem o Largo Condessa do Juncal, ainda por cima quando nós o tratamos por Feira do Pão, e só a Oliveira é generosa (e se aproxima assim da média nacional) com a Mumadona, a senhora Aninhas (travessa e rua), algumas santas e muita realeza (Constança de Noronha, e a família direta do nosso rei: Dona Mafalda, Dona Urraca e Dona Teresa que vai também a Aldão). Creixomil ainda nos traz a Oneca Mendes, a inevitável Senhora da Luz, e a prof.ª Maria Amélia Maia, a Costa vai para as santas e Azurém também, apesar da poética Travessa Rua Inês. No resto do concelho, dominado, e bem, pelos nomes dos lugares, a Florbela Espanca mesmo assim esforça-se (em Gonça, S.Torcato, Fermentões e Serzedelo) mas não chega aos calcanhares de um Camões (Cidade, Brito, Infantas, Lordelo, S.Torcato, Vila Nova de Sande, Sto Estevão de Briteiros e Serzedelo), apesar de ultrapassar o Pessoa (Fermentões, Serzedelo, Sto Estevão). Serzedelo apresenta a mais feminista das toponímias pois, além da poetisa, consagra a Maria da Fonte, a Emília Costa e a Dona Leonor Baião. A Virgínia Moura espreita-nos em Mesão Frio e, claro, em Conde. Mas a verdade é que as mulheres pontuam muito timidamente nas várias freguesias de Guimarães. No entanto a única rua de Gominhães com nome de pessoa tem nome de mulher: rua Adelaide Carvalho!



Gominhães é aliás a freguesia com mais nível. Não está cá preocupada com nomes de pessoas, não vá descobrir-se que afinal o Coronel batia na mulher, que o Arqueólogo era fascista, ou que o Comendador (enfim) havia comprado a comenda, a bom preço, na feira da Vandoma, não. Gominhães é sensata, não vai também em santos apesar do Bom Despacho, prefere coisas simples e facilmente verificáveis como a rua do Alto, a rua do Largo, a rua da Estrada Nova, a rua da Bouça ou a rua do Ribeiro, ou mesmo a rua dos Pinheiros e da Portelinha. Simplifica e dá futuro aos nomes que escolhe. A rua, travessa e largo do Património repartida por Serzedo e Calvos é igualmente um achado e dá, pelo nome, dignidade ao ato toponímico.




Mas Briteiros São Salvador também não brinca em questões de género, para a rua do Lombo tem a rua da Lomba, não vá ninguém ficar chateado na travessa da Arte da mesma freguesia. E na rampa da Preguiceira, em Gandarela, não há lugar à preguiça, é sempre a subir. Pode-se ouvir bossa nova na rua da Bouça Nova em Barco, ou mesmo outro fado na rua da Saudade que pontua em Arosa, Creixomil, Pencelo, Polvoreira, Pevidém e Souto Santa Maria. Estas ruas sim não olham ao género, olham à vida. E celebram-na com gosto: há rua do Bom Viver em S.Faustino, Calvos, Abação, Urgezes e Infantas, há a travessa do Riso em S.Martinho de Candoso, a rua da Prainha em Gondar, e muitas Alegrias (Rendufe, Aldão, Lordelo, Nespereira, Polvoreira, Pencelo, entre outras) e na travessa dos Casais em Atães não entram solteiros. E a rua das Cartas há em Guardizela e Ronfe, com a rua Campo das Cartas em Fermentões, pode ser que tragam novas do Além de Figueiredo, Corvite, Taipas, Vila Nova de Sande. Entre-Latas de Figueiredo e Entre-Paredes em S.Torcato é que não, prefiro a rua Entre-Águas em Longos ou mesmo a bucólica Entre-Vinhas da Abação.

Dar nomes a ruas só é uma maçada se a gente se puser a olhar para as pessoas em vez de olhar para as coisas que as ruas, todas, têm. E para a alma das ruas já agora.


Publicado in O Comércio de Guimarães (14 de março de 2018)