quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O estranho poder das mulheres


“As mulheres, pensava ele, eram mais intensas.”

Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. 2011.




O domínio dos homens sobre as mulheres vem de longe. Primeiro pela força e depois pela palavra divina. Como – ao contrário do que porventura julgarão – levo estas crónicas muito a sério, lá fui eu ler o livro Deuterónimo que regista por escrito, entre muitas outras coisas, as determinações que Moisés, em nome de Deus, enuncia ao povo escolhido. Vêm daí os Dez Mandamentos e outras leis que procuravam estabelecer o que estava certo e o que não estava, no fundo um manual de instruções de como proceder quando algo era errado. O Deuterónimo faz parte da Torá, o livro sagrado hebraico, e também do nosso Antigo Testamento. O Deus judaico abre-me sempre o apetite literário por ser tão mau, tão vingativo, tão cruel. Não sem surpresa reparei que apesar da antiguidade do livro (séc. VII a.c.) as determinações são, relativamente, democráticas. Se uma mulher casada trai o marido há que apedrejá-la até à morte, mas o traidor deverá merecer, segundo o livro, a mesma sorte. Mas “se algum homem no campo achar uma moça desposada, e o homem a forçar, e se deitar com ela, então morrerá só o homem”. O que nos chega desses comportamentos violentos e arcaicos está adulterado e as notícias dão-nos conta de que só a mulher morre hoje por lapidação. Talvez isso se deva à interpretação parcial de líderes religiosos. Homens, claro.



Dia após dia, do outro lado do Atlântico, surgem notícias sobre assédio sexual. A Caixa de Pandora abriu-se e agora vai ser o diabo para a fechar novamente. E, apesar de enojados, ninguém fica particularmente surpreendido pelas notícias. A coisa funciona mesmo assim na cabeça de muitos homens. É a força do hábito, alegam. Em sociedades menos sofisticadas basta uma saia mais curta ou o visionamento dos cabelos longos para justificar o avanço, em sociedades mais sofisticadas a âncora desses comportamentos é a relação de poder. E apenas isso basta para que a possibilidade passe a inevitabilidade.



O bicho homem encontra-se assim, atualmente, em baixa. Nestes momentos difíceis as mulheres atacam com tudo. De uma vezes com inteira justiça – como no caso do assédio - de outras não. Uma das coisas que mais me irrita na conversa com as mulheres é a conversa sobre a corrupção. Não há mulher que não mo lembre: são os homens sempre os corruptos, é raro ver uma mulher nessas andanças dizem-me elas.
Mas até neste particular domínio a Operação Marquês fez maravilhas. É só ouvir as escutas para perceber o assédio constante de que o pobre do Sócrates foi vítima: por mulheres, claro está. Ou é por estar depenadinha, ou é pró casaco do menino, ou é o seguro do carro, ou a prestação da casa, ou as obras no apartamento, é que não deixam o homem sossegado, ou é mais isto, ou mais aquilo, sempre pedidos urgentes, sempre em cima do prazo, ou é a casa de três milhões de euros que, coitado, o Sócrates considerou “um buraco” só para a sacudir. E que recebe ele em troca? Um brutal: “buraco és tu”, mas com a delicadeza que até o tédio confia às mulheres.
No fundo a história bíblica de Adão e Eva perdura até hoje. Ó Adão e coisa e tal e olha que linda maçãzinha, e o palerma do Adão lá vai colher a maçã só para não a aturar. E depois sofre o castigo, ou vai preso e o chamam de corrupto. Pudera!



O cerco está assim montado. As mulheres estão atentas e começam a conquistar a opinião pública. Outras, como a minha, conquistam ainda, dia a dia, o meu pobre armário. As minhas camisas, calças e sapatos, têm cada vez menos espaço. Comprimem-se e sufocam. Gritam por ajuda perante a minha incapacidade em as defender, sindicalmente. Não é por andarmos sempre com a mesma roupa que não gostamos de ter roupa, entenda-se. Nós até gostamos de variar de indumentária só que já não encontramos as nossas coisas, só isso. E se temos, por pura e racional matemática, direito a 20% dos armários de casa já nos contentaríamos com 10%. Mas mesmo com as mais aturadas negociações o armário masculino encolhe. O nosso espaço funciona no tempo como o IVA, só que ao contrário.
Agarro-me ao comando da televisão como um cavaleiro à sua espada. Firmemente. Isto vocês não me tiram, vocifero. Resta-me saber apenas até quando.


Imagens de quadros: Caravaggio, Klimt, Rembrandt e Michelangelo.

Publicado in O Comércio de Guimarães (22.11.17)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O feitiço do tempo


“Quando dizem que «a idade está na cabeça», meu fígado e minha coluna dão risadinha sarcástica. Mulheres têm a idade que merecem, homens serão sempre crianças.”
Rita Lee. Rita Lee – uma autobiografia. 2017.




Portugal é assim mesmo. Ora é o maior país do mundo ora, pouco tempo depois, é o mais miserável. Há uma esquizofrenia bipolar nesta nossa longa existência, já nos habituamos a isso. Os espanhóis, os franceses, os alemães, os americanos, chegam a ser arrogantes por se terem tão em conta. Nós nunca chegamos a esse patamar pois o nosso estado de euforia coletiva dura sempre muito pouco, há sempre uma realidade futura que se ri da presente, que dá cabo dela, que a amesquinha. O tempo para nós não é inclinado – para cima ou para baixo – é curva e contracurva como uma montanha russa. Andamos para cima e para baixo, eternamente.
Atualmente o tempo é de depressão. E não poderia ser de outra forma. A catástrofe dos incêndios de 15 de outubro a seguir à catástrofe dos incêndios em Pedrógão não nos deram outra saída. Só se tivéssemos uma insensibilidade de pedra, e isso não temos nem nunca o tivemos.




Há uma comédia de que gosto particularmente: O Feitiço do Tempo/Groundhog Day (1993). Nesse filme a personagem principal (Phil interpretado pelo excelso Bill Murray) acorda todos os dias no mesmo dia. No entanto o personagem começa a tentar viver com essa realidade arrepiante. Acorda à mesma hora do mesmo dia e passa sempre pelos mesmos acontecimentos. Com a sucessão dos dias Phil começa a tirar partido dessa realidade: segura um martelo que vai a cair, avisa as pessoas do que lhes poderá/irá acontecer, aprende a tocar piano, e, inclusivamente, consegue conquistar a repórter de TV pela qual se enamora, por tentativa e erro numa sucessão de encontros. Se uma determinada frase é inadequada para a sedução que ele empreende, muda-a no “dia seguinte” para algo que a impressione positivamente. E acaba por conquistá-la ao fim de muitas tentativas que no fundo, e para ela, é apenas uma: a primeira.
Portugal acordou a 15 de outubro como se acordasse no mesmo dia de junho em Pedrógão Grande. Só que não aprendeu nada e os mesmos erros foram cometidos e nalguns casos até ampliados. O facto de em 4 meses não se ter aprendido nada é absolutamente indesculpável. O governo não é burro – já percebemos – mas tentou na ressaca da renovada tragédia fazer de nós burros. E isso não colou pois nós não o somos efetivamente.



Houve mesmo quem tentasse culpar o mensageiro pelo conteúdo mensagem. Muito se escreveu sobre a sobreexposição da dor que os órgãos de comunicação, alegadamente para alguns, fizeram. Em Pedrógão, por exemplo, discutiu-se se era ético enquadrar um cadáver ao fundo, em vez de se estar preocupado em perceber o que realmente interessava: a extraordinária e inelutável dimensão da tragédia.
Eu vi noticiários mais do que o costume e li sobre a tragédia também em demasia. E não me cansei de perceber tanta tristeza, porque perceber a tristeza dos outros é o mínimo que se espera de quem a tragédia não manchou o presente pessoal e familiar. É possível então dizer-se que é demais ter acontecido, e nunca será demais mostrar o que aconteceu. A responsabilidade cívica pertence a todos.
E os desabafos emotivos daqueles que tudo perderam ensinam, certamente, mais do que os debates parlamentares ou frases bonitas em outdors espalhados pela cidade. Quanto mais não seja pela empatia de se perceber que poderíamos ser nós, um de nós, a ter de partir novamente do zero depois de uma vida de luta e trabalho e privações para ter um teto ao qual chamávamos nosso.





O tempo deixa marcas irritantes no corpo e no país. Esta velhice de nove séculos renova-se no entanto a cada dia. E a idade não é desculpa para não aprender, pelo contrário: quanto mais somos em história e unidade melhores deveremos ser enquanto comunidade. Não podemos continuar impávidos a olhar para as varizes. Somos mais, muito mais, do que isso. E por amor de Deus: não acordemos novamente a 15 de outubro de 2017! Nunca mais.


Publicado in O Comércio de Guimarães (25.10.17)
Imagens (de cima para baixo): Rui Duarte da Silva (Expresso), Lucília Monteiro (Expresso), Lucília Monteiro (Expresso) e Nuno Botelho (Expresso)

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Eu era gajo

“Esse estilo é escolha tua, ou paraste num ano qualquer e o resto da malta deixou-te lá sozinho?”
Marlon James. Breve história de sete assassinatos. 2014.



Começar uma frase por eu era gajo nunca foi bom sinal. Já não é muito comum, já o foi mais. No meu tempo (adoro também este início de frase) era mais usada. Bastava três ou quatro rapazes mais entediados para alguém proferir eu era gajo e, assim, quebrar a monotonia. E isso acicatava os outros, e poderia haver até algum dos rapazes que, enciumado pela falta momentânea de protagonismo, era gajo para uma coisa bem pior e mais arriscada do que a primeira.
Na realidade é-se (verdadeiramente) gajo quando se é jovem. O ser-se gajo precisa de doses razoáveis de testosterona que abundam nos machos jovens. Ser-se gajo para fazer uma asneirada tem a virtude de uma escolha e retira o tédio das coisas que se esperam como normais.
Não ser gajo para fazer – ocasionalmente – uma asneirada é um desperdício de hormonas.



Eu era gajo pressupõe assim e sempre uma temeridade: eu era gajo para partir isto tudo, eu era gajo para beber esta garrafa de golada, eu era gajo para pegar naquele toiro, eu era gajo para trocar aqueles sinais de trânsito, eu era gajo para acelerar este carro até ao limite, até ao ponto em que ele vai parecer um avião no meio da tempestade.
Essa temeridade implica sempre um grau razoável de fanfarronice e alguma idiotia. Fanfarronice e idiotia são os ingredientes mágicos que funcionam na perfeição para se ser gajo, o que no sexo masculino não é assim tão difícil de ter e de conjugar.



Sendo a gajice um comportamento totalmente analógico será que os miúdos de hoje ainda conseguem ser gajos? Na verdade, na versão atual, o rapaz já tem dificuldades em ser gajo. Com o nariz sempre enfiado no telemóvel não está fácil ser gajo. Colocar a fotografia do rabo no Instagram ou passar ao nível 27 do bubble chicken não é propriamente de gajo. Apesar de idiota esses comportamentos nada têm de fanfarrão. Não se é gajo assim, é-se apenas idiota e um gajo tem de ser, igualmente, fanfarrão.
E as raparigas? A versão feminina é, sem dúvida, a mais perigosa. Quando alguma mulher diz eu era gaja para... cuidado, é sair da frente! As mulheres são o oposto dos jovens de hoje: são fanfarronas sem serem idiotas. E isso torna o ser gaja um perigo de proporções bíblicas. Dá à asneira um lado sério e intencional o que é (geralmente) um desastre.
Nem uma nem outra versão atingem contudo a pureza higiénica de se ser gajo.



Ser-se gajo é importante. Quem nunca foi gajo não sabe bem onde se situa a normalidade. O gajos são, ironicamente, os que melhor sabem de normalidade pois estão constantemente a sabotá-la. Quem nunca foi gajo passa com muita facilidade - e com visível prejuízo da comunidade - para o estado de ser indivíduo. E os indivíduos, esses sim, são verdadeiramente perniciosos. Ó Tavares eu era indivíduo para criar aqui um fundo com estes depósitos bancários e apostar nos mercados emergentes, vamos, eu e você, ganhar um dinheirão. Eu sou indivíduo para vos dizer que cada cidadão terá um fontanário com o seu nome.
Aquele que começa uma frase por eu sou indivíduo é um perigo público, pois ao contrário do gajo não dá para perceber a verdadeira intenção. O gajo acaba por se estatelar, o indivíduo providencia uma cautela (a sua). O gajo magoa-se porque tentou atingir o impossível, o indivíduo pisga-se depois de magoar os outros. O gajo não guarda rancor, o indivíduo não guarda remorso. O gajo é juventude, o indivíduo é velhaco. O gajo vive, o indivíduo sobrevive.



Tenho por vezes, devo confessar, saudades de ser gajo.
Uma boa idiotice dá muito que fazer à imaginação. Treina-a para outras coisas.
A pura fanfarronice é presente em estado puro: não há passado que a condicione nem futuro que a domestique. A fanfarronice liberta.
É talvez possível que se tivéssemos mais gajos e menos indivíduos as coisas fossem melhores e funcionassem melhor. Ou, pelo menos, fossem infinitamente mais divertidas.



Publicado in O Comércio de Guimarães (27.09.17)
Fotos de gajos: Tom Waits, Chet baker por Bruce Webber, Jim Morrison por Jim Marshall, Frank Zappa por John Olson e Art Pepper por William Claxton.