quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Constipação de verão

“Nunca nos enganámos a fazer o que está certo.”
Fala do filme O Estagiário. 2015.


A melhor maneira de nos libertarmos do preconceito sobre coisas importantes como os costumes ou as ideias é, penso, cultivarmos alguns preconceitos menores que funcionem como escape duma predisposição nefasta. Eu tenho alguns de estimação.
Na altura em que as pessoas liam e compravam jornais aferia-as pelas leituras. Quem comprava o Público merecia a minha atenção, quem passava os olhos pelo DN e JN ficava num limbo que merecia outro teste, e fugia a sete pés de quem saltitava os olhos pelos títulos gordos do Correio da Manhã. Nos livros ou no cinema a mesma coisa: nunca li o Dan Brown nem os seus sucedâneos, nunca vi o Titanic.
Cheguei a perder concertos, certamente memoráveis, só por que meti na cabeça - entre os meus trinta e quarenta anos - que não iria a concertos de gente que fosse mais velha que eu. Permanecem agora, perdidos, na minha agenda mental os The Cure. Só vi os U2 quando pouca gente os conhecia e nunca fui a um concerto deles depois daquela festa memorável em agosto de 1982.
Um vimaranense que não seja vitoriano tem de mim uma indiferença pesada quando o assunto se assume e rapidamente se transforma em absoluto desdém se ele torcer por um dos clubes de massas do costume. Enfim.




Hoje estou, mesmo assim, um pouco diferente, para melhor. Já vi os Stones e arrisquei há pouco tempo a participar numa viagem em excursão organizada por uma companhia de viagens. Tipo aquelas que debitam pessoas de camionetas perto de S. Francisco e que transformam o nosso particular caos de trânsito citadino noutra coisa indefinível ainda sem palavra própria.
Primeiro preconceito: são só velhinhos. Mas no fundo nós não somos sempre velhinhos de alguém? Não serei eu o velhinho dos meus alunos? Por isso eles se riem quando os trato por ó velho isto ou ó velho aquilo. E daí? Estar velho é uma consequência da nossa magnífica resistência, o que não toca a todos. Ser velho é outra coisa: é achar que a música de dança se esgotou nos anos 80, é seguir as desventuras das Kardashian’s, é usar o cabelo rapado nas parietais e deixar um capachinho capilar no cocuruto, e para isso pode ter-se 20 anos, ou menos. Os meus “velhinhos” de viagem foram extraordinariamente jovens pois eram cultos, serenos e perceberam que a vida é para ser vivida e não escalpelizada como um relatório e contas.
Segundo preconceito: há demasiada organização. É verdade ... mas talvez o adjetivo esteja a mais: há organização, é mais correto. Eu que tenho uma família de 5 pessoas (com 4 mulheres é certo!) vejo-me aflito para meter toda a gente num carro a horas, imaginem agora 50 pessoas numa camioneta. A guia era húngara com um estilo e pronúncia alemã e conseguiu o extraordinário milagre de meter toda a gente na linha. A primeira falha era repreendida por ela de forma privada, a segunda ganhava um cariz público, a terceira – que não aconteceu – mereceria certamente o cárcere ... mas não chegamos lá. Revivi na viagem a organização do meu pelotão de recruta em Mafra. A guia sendo implacável era igualmente competente na forma como preparava e explicava as coisas de que as viagens devem ser feitas.
Tal como o país a camioneta tinha um Marcelo. Um rapaz de quarenta e poucos que ao enganar-se no propósito nos deu, tal como o presidente nos dá, o humor que por vezes falta ao país ... e às camionetas.



Constipei ao pôr novamente os pés em solo pátrio. Por isso foi um pouco tonto com a congestionamento nasal e com o Zyrtec que tomei conhecimento de um negócio entre a Câmara Municipal e o Vitória. Uma ideia que dá ao Vitória a possibilidade de optimizar o espaço perto do estádio e à Câmara a possibilidade de uniformizar o Parque.
O Parque da Cidade é uma das mais interessantes e brilhantes ideias dos últimos anos. Neste e noutros parques os vimaranenses passeiam, descomprimem, desentopem artérias, trocam conversas. Este parque em concreto alivia pela beleza e cuidado uma grande concentração urbana que assim encontra o seu tempo e o repouso para a pressão urbanística que o cerca. No entanto como o que é acertado tem sempre hipóteses de ser sabotado, vem – como escusado brinde – a ideia de um parque radical. Não acreditando na maldade da ideia só posso acreditar na ausência de uma reflexão cuidada e, sobretudo, de diálogo com quem lá mora. Como é possível plantar numa zona onde tanta gente vive um foco de poluição sonora que, não é necessário ter dons de prestidigitador para perceber que noite após noite os moradores terão como brinde o som dos rolamentos e que o efeito de túnel do espaço entre as construções levará até bem longe esses mesmo ruído? Como é possível plantar numa zona sem problemas os problemas? O que se ganha com isso? Como será possível aos professores que se desmultiplicam para arranjar estratégias para os alunos não faltarem às aulas, numa zona cercada de estabelecimentos de ensino, convencê-los a ficar na escola quando ali ao lado há um parque que convida a não estudar, a não cumprir?
Vou esperar um pouco até me passar esta zueira na cabeça. Pode ser que afinal seja apenas um sonho. Daqueles maus, muito maus.


Publicado in O Comércio de Guimarães (14.09.16)
Imagens do filme Janela Indiscreta/Rear Window. Alfred Hitchcock.1954.

Álbum de Família

“Mas a  fotografia é um enquadramento, as famílias arranjavam-se para o retrato, traziam para a encenação os fios e correntes de ouro, as rendas delicadas, os melhores sapatos, a mais estudada majestade do corpo. As pessoas sabiam e não sabiam que o retrato é um artifício.”
Carlos Poças Falcão in Álbum de Família. 2016.








Álbum de Família é uma exposição de imagens, da Colecção de Fotografia da Muralha (CFM), patente no piso 1 do Guimaraeshopping até 7 de outubro e que valerá, com toda a certeza, a sua visita.
ÁLBUM DE FAMÍLIA é não só uma exposição sobre os retratos de família antigos mas também sobre a palavra, sobre os textos que as imagens sugerem e cuja autoria é de Catarina Pereira, Maria da Luz Correia, Maria João Areias, António Mota Prego, Carlos Guimarães, Carlos Poças Falcão e de mim próprio. A palavra mais especulativa, mais poética, ou mais descritiva convive com a riqueza das imagens, procurando, em vão, domar  a diversidade caleidoscópica da CFM. Mas a qualidade e coragem da tentativa é refrescante e aporta à Colecção diferentes perspectivas.
Esta terceira exposição temporária no Guimaraeshopping (GS) não está, por natureza, tão presa ao facto histórico, à datação (apesar do trabalho realizado), mas ao desafio que a imagem nos sugere. A quem escreveu, a quem a visita.
As pessoas das imagens são os nossos pais, são os nossos avós, são os nossos bisavós captados pela lente de Domingos Alves Machado. São os nossos antepassados que nos olham e nos questionam se não vulgarizamos em demasia a nossa imagem fotografada. Se a nossa imagem pessoal não vale hoje o mesmo que o anúncio ao qual votamos algum enfadado desprezo. Se toda a encenação a que as famílias acediam não faria também hoje um refrescante sentido? Se não faria sentido aprumarmo-nos também hoje, sentarmo-nos, reunirmo-nos, fazermos a nossa melhor pose para uma fotografia de família. Para guardarmos numa imagem fotográfica o nosso sentimento, a nossa pertença, ou quando muito a nossa circunstância? A pausa faz-nos falta. A encenação revelada nas imagens de ÁLBUM DE FAMÍLIA certamente o fará.

As imagens selecionadas para ÁLBUM DE FAMÍLIA levam-nos ao tempos em que a família peregrinava, aprumada, ao estudo fotográfico para que o fotógrafo encenasse uma composição de pessoas sobre fundos neutros ou cenográficos permitindo o registo de um determinado momento na vida daquelas pessoas. A fotografia democratiza esse processo de memória, outrora exclusivo da pintura.
Em ÁLBUM DE FAMÍLIA encontramos também um conjunto de imagens de um processo menos comum noutras coleções e que consistia na ida do fotógrafo a casa das pessoas. As famílias são retratadas no seu espaço próprio - com particular destaque para o espaço exterior das casas - ou de locais de lazer, pois só assim se obtinha a luz necessária à fotografia. Das famílias mais abastadas às mais modestas, de grupos de famílias de composição tradicional, de outros grupos familiares que trazem para a cena da fotografia uma imagem de um familiar ausente, de namorados, de noivos, de irmãos e irmãs, todas as fotografias revelam a necessidade de construção de uma narrativa sobre a vida, de uma memória materializada imagem.

Há na Muralha, no Cineclube de Guimarães, a noção de algum perigo na sobreexposição da coleção. Apesar da abordagem distinta que ÁLBUM DE FAMÌLIA explora, temos a noção desse facto. No entanto entendemos, ainda, estar a fazer um caminho de afirmação profunda da CFM, na sua divulgação, no seu estudo, no seu tratamento, no seu alargamento e na valiosa contribuição exterior, como acontece nesta exposição que contou, uma vez mais, com a criatividade de Alexandra xavier, Miguel Oliveira e Nuno Vieira. Por outro lado não há afirmação duradoura da CFM se ela não estiver presente e perto das pessoas como o está no GS pelo extraordinário profissionalismo de quem nele trabalha. A CFM ambiciona assim o lado pedagógico que o ato cultural pode e deve ter, alargando públicos, captando atenções, forçando pausas e sobretudo, através das magníficas imagens que possui, ajudar a quebrar preconceitos que se constituem como muros entre as pessoas e a cultura. Faltar-nos-á talvez em parcimónia o que nos sobra em ambição e no propósito que temos em construir para a CFM um trajeto estruturado, sedimentado e, sobretudo, conhecido e estimado pelas pessoas

Para chegarmos até aqui muito trabalho foi feito por nós e por muita gente que nos antecedeu na CFM, desde a sua compra, à sua digitalização e estudo. O apoio do GS, da Oficina e da Câmara Municipal tem sido muito importante. Compraz-nos chegar aqui, saber e reconhecer o que foi feito, mas acima de tudo, ter o imenso prazer de (ainda) não lhe reconhecer o limite.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O estrangeiro


“A nacionalização das nossas massas só será bem sucedida quando, para além de todas as lutas positivas pela alma da nossa gente, os seus envenenadores internacionais forem exterminados.”
Adolf Hitler. Mein Kampf. 1925/6.






É raro encontrar um povo tão simpático para os estrangeiros quanto nós o somos. Se um estrangeiro nos interpela, meio perdido, aí estamos nós a indicar-lhe com velada e paciente dedicação o caminho. Somos assim.
Mesmo a palavra estrangeiro soa bem, soa agradavelmente. Em inglês a coisa é bem diferente: stranger soa mais a estranho do que a estrangeiro, é agressiva; foreigner, forasteiro, também não a é menos. Já os franceses têm o étranger que se amaneira aos seus maneirismos ... e que é suave quanta a nossa palavra: uma cumplicidade latina.



O que dizem os estrangeiros tem peso, é importante, é respeitável. Vejamos a azáfama dos nossos noticiários quando vão ler a imprensa internacional sobre nós, muito atentos, muito perscrutadores, como se a opinião que temos de nós próprios precisasse de uma caução, estrangeira é claro.
E a nossa postura individual tem muito dessa tonta necessidade de fiança. O meu amigo alemão disse ou uma amiga minha holandesa assegurou-me que encerram o nosso fascínio sobre a (avalizada julgamos nós) opinião dos estrangeiros. Tão certos estamos na confiança daquilo que nos dizem ... como numa enciclopédia ... e a britânica sempre foi a mais confiável.
No entanto a coisa pode azedar quando se atrevem a pisar-nos os calos. Sim, gostamos deles sem restrições com uma única condição: o de gostarem de nós. Se os finlandeses se atrevem a pôr em causa o auxílio económico a Portugal organizamo-nos em turba indignada e cavalgamos o YouTube com desprezo, lembrando-lhes, entre outras coisas, que a bandeira deles já foi nossa. Se se atrevem a chamar nojento ao nosso futebol, não descansamos sem o competente pedido de desculpas. Somos assim. Qualquer outro despautério indígena passaria desapercebido, dos estrangeiros é que não. Gostamos demasiado deles para os ignorar.





Numa Europa cada vez mais perdida em si mesma, perigosamente perdida na busca demente das diferenças, é refrescante a nossa fé. Parece tonta, mas não é. Tem algo de cristão, tem algo de amor adolescente. É pura.
A Grã-Bretanha optou agora por sair da União Europeia. Que tolice diríamos nós se no lugar deles estivéssemos. Em bom rigor eles (também) não o queriam. Só pretendiam assustar-nos e acabaram por se assustar a si mesmos. Tenho seguido os noticiários britânicos e eles, os estrangeiros ingleses, estão nitidamente constrangidos. O Boris queria chegar aos 49% e, azar, ficou com 52%. Foi traído agora na sua traição. O anormal do Farage rejubila com o crescimento da xenofobia que envergonhará certamente a maioria dos britânicos e até conseguiu o impensável que foi acordar Juncker do torpor imbecil de que se investiu enquanto presidente da Comissão Europeia quando lhe atirou “Porque é que [ainda] estão aqui?”. Se o Brexit tivesse acontecido connosco certamente encontraríamos uma norma constitucional para repetir o referendo. Eles não: são estrangeiros e sofrem estoicamente com a própria estupidez, sem tergiversar. Tenho pena deles e não lhes quero sequer mal. Da Inglaterra sempre tive boa música ... e os Monty Python.




O nosso impecável percurso no europeu de futebol terá assim ainda maior significado. Gostamos deles: das equipas que derrotámos. Uma após outra vão tombado aos nossos pés, e sobretudo pela nossa cabeça. Deixamos a fanfarronice de lado e passamos (finalmente) a ser matreiros. E isso é, na mudança de paradigma, uma tremenda evolução civilizacional.

Como somos simpáticos damos-lhes a ilusão de que nos poderiam ter ganho. E as equipas estrangeiras choram como se o resultado fosse um sortilégio e não um ato de inteligência, da nossa inteligência. Apesar de termos sido sempre a melhor equipa (em qualquer dos jogos que disputámos) damos-lhes a ilusão de que não a fomos. E eles ficam contentes na sua tristeza. Que os galeses mantenham viva a ilusão de todos os outros que nos defrontaram pois a final já nos livrou dos italianos, cuja profundidade do seu futebol teve a profundidade de um Rossellini. Os italianos, apesar de igualmente simpáticos, conheceriam de ginjeira a nossa manha. Eles inventaram-na. O destino abriu-nos assim as portas.


In O Comércio de Guimarães (05.07.16)     

Fonte das imagens (de cima para baixo): New York Times, Daily mail, Irish Times, The Himalaya Times