quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Como eu costumo dizer



“Gosto de lugares-comuns. Lugares-comuns são reconfortantes, como um abraço.”
José Eduardo Agualusa. A educação sentimental dos pássaros. 2011.




Uma das coisas caricatas que podemos ouvir, com alguma frequência diga-se, é um parceiro a quem ocasionalmente escutamos começar uma frase por “como eu costumo dizer”. Mal alguém profere esse intróito de sentença há qualquer coisa em nós que permanece em suspenso. Que irá ele dizer? Que novidade irá ela aportar à nossa conversa? Não sei ao certo o que se passará convosco, mas comigo, a seguir a isso só advém frustração. Já não sinto sequer o frisson que sentia quando comecei a ouvir “como eu costumo dizer”. Porque “como eu costumo dizer” precede sempre uma banalidade ... das banais. Como eu costumo dizer grão a grão enche a galinha o papo. Ou como eu costumo dizer as proteínas são essenciais ao crescimento. Ou como eu costumo dizer há sempre um amanhã. Ou como eu costumo dizer o bacalhau não se quer insosso. Não há nada de interessante a seguir a alguém afirmar “como eu costumo dizer”. Nunca.


No entanto hoje sinto-me particularmente atraído por essa bengala retórica. Apetece-me dizer coisas óbvias como se elas saíssem de dentro de mim concebidas por um raciocínio hermafrodita, impermeável ao meio, único. Aí vai:

Como eu costumo dizer o Marcelo é o maior e Portugal, como costumo dizer, tem assim mais sorte do que juízo. É difícil reunir num homem tantas qualidades (inteligência, humor, empatia, simpatia) e ainda mais difícil é um homem com tantas qualidades dispor-se a partilhá-las de forma tão generosa connosco, em vez de as guardar para si e para os seus amigos ou distribuí-las a conta gotas de forma mais descontraída (e financeiramente muitíssimo interessante) através de um programa de televisão. E se há sempre quem diga “como eu costumo dizer ele nunca me enganou” e quem ache que ele é um fingido e um interesseiro é porque está, como alguém meu amigo costuma dizer, desfasado. Não há como não achar incrível que o Portugal que elegeu o Sócrates (duas vezes!) tenha elegido Marcelo. Um sempre se perguntou o que é que o país podia fazer por ele, o Marcelo pôs-se desde o início a fazer pelo país. E assim continuará. Como é evidente o seu estilo frenético é propenso a erros. Cometê-los-á certamente mas no meio de muitas coisas boas, de uma genuína preocupação pelos portugueses e com um bom senso que lhe desconhecia tão franco.



Como eu costumo dizer os americanos são loucos. Ao ver a entrega dos Globos de Ouro percebi quão loucos eles realmente são. As atrizes vestiram-se quase todas de preto (e as que não o fizeram foram apontadas a dedo como os judeus no tempo dos nazis) e desfilaram no seu discurso uma data de banalidades perigosas do tipo “como eu costumo dizer” em modo de combate e de denúncia do assédio sexual. Acredito que uma ou outra tivessem razão de queixa, não acredito que todas as que o fizeram o tivessem efetivamente. Estamos a entrar em terreno perigoso quando se mete no mesmo saco o comportamento nojento (de quem usa o poder para obter favores sexuais) e o galanteio, por mais despropositado que este seja. Há (por vezes) sempre o poder e a simplicidade do “não” como recordou Catherine Deneuve. Os americanos tendem à carneirada, quando um vai os outros vão atrás. É pena que não se tenham acarneirado antes para impedir que um louco profissional tivesse, pela via democrática, conquistado o direito a os governar e nos assedie, diariamente, com a sua imbecilidade.



Como eu costumo dizer não havia necessidade de meter imagens nos maços de tabaco. Nós – os fumadores – sabemos que a coisa faz mal, que é estúpida e escusada. Aguentámos que nos escrevam no maço que O TABACO MATA, aguentámos que 4 em cada 5€ sejam para impostos, merecemos esse castigo fiscal. Agora que nos metam uma boca cariada, um pé sem um dedo, um buraco na traqueia pelos olhos dentro é que já é de mais. Comprar um maço de tabaco assemelha-se cada vez mais à caixa de furos dos chocolates Regina. Então estávamos à espera que nos saísse o melhor dos chocolates, agora rezámos para que nos saia o menos mau dos maços de tabaco. E como eu costumo dizer: bom ano!



Publicado in O Comércio de Guimarães (17 de janeiro 2018)
Imagens: La belle de jour. 1967. Luis Bunuel. e capa do Der Spiegel

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Homens bonitos

“(...) e essa degradação viria muito depressa, bastariam uns dez anos, ou até talvez menos, para que ela se tornasse visível e me começassem a classificar como ainda novo (...)”.”
Michel Houllebecq. Submissão. 2015.

Os homens não se querem bonitos: esse é um dos aforismos mais curiosos que circula, há muito tempo, no meio masculino. Não sei o que as mulheres acham, mas nós sentimo-nos, desde sempre, confortáveis em não ser (propriamente) bonitos. Não digo que ser um homem feio é bom, não é, importa apenas não ser bonitinho nem nos preocuparmos com a aparência. Isso é para elas.
O nosso poder de sedução está (penso eu) na retórica e não nos bíceps. Até porque a conquista é bem mais estimulante que o desmaio.




No cinema isso é tão claro e assumido que bons atores como o DiCaprio têm algumas dificuldades para serem levados a sério. Por outro lado o Jack Nicholson, o DeNiro, o Dépardieu, o baixinho do Bogart, estão no panteão. Já com as atrizes a arte e a beleza misturam-se melhor. Queremos as duas tal como os detergentes que combinam a limpeza com a fragrância ou as pastas dentífricas em que o branqueamento dos dentes não descura o efeito anticárie. Assim fiquei habituado a conviver prazenteiramente com uma Juliette Binoche, uma Natassja Kinski ou a Diane Lane, e o mesmo se passa agora com a Alicia Vikander ou a Marion Cottilard que atingem, de forma sublime, o patamar dos dois em um.
Uma mulher bonita entra sempre a ganhar. De um homem bonito desconfia-se ... há qualquer coisa ali que não bate certo.




Em bom rigor um homem bonito é como uma banda pop com sucesso. Toda a gente gosta dela mas ninguém a leva a sério. Pode ter-se achado o máximo aos Duran Duran mas o que deixou raízes, até hoje, foram os Talking Heads. Daqui a uns anos quando o Justin Bieber for careca e barrigudo ainda haverá gente a ouvir, com desvelo, os Cigarettes After Sex e ninguém saberá quem foi o Justin. E o Kanye deixou de ter interesse quando ficou com a mania de que era bonito, enquanto o Kiwanuka, ou o fresquíssimo Daniel Caesar, já lá vão à frente, bem à frente.




Quando se é um rapaz novo descuram-se as mariquices e o corpo masculino passa por provações militares no maltrato que se lhe dá. Eu segui isso à risca. Os rapazes encaram o seu corpo como um veículo e como carro que é necessitamos de o levar ao limite, de o testar, de o fazer derrapar, de o acelerar, de o travar, de fazer um peões com ele. Se ele aguentar ótimo, é bom sinal, podemos ficar com ele, tem a resiliência necessária. E todos esses indispensáveis testes deixam marcas que eliminam progressivamente os recalcitrantes laivos de beleza: a cicatriz, a barriguinha, o dente partido são testemunhos de uma masculinidade assumida.



Mas o castigo apanha-nos quando menos se espera. Apanha-nos com tempo e com o tempo. Efetivamente quando se fica mais velho já não vale a pena fazer esforço para não ficar bonito. O tempo faz esse trabalho por nós e, valha-nos Deus, agora é que já não era nada necessário...
As malditas fotografias são os raios-X da beleza perdida da qual tanto se desdenhou. Não sei o que se passa convosco com as fotografias, eu dispensava-as pois elas transmitem-me uma imagem muito diferente daquela que eu tenho de mim. Entre o meu espelho e os pixéis de uma câmara digital há uma distância abissal. Olho-me ao espelho e tenho uma imagem (vá lá...) razoável de mim mesmo, vou para a fotografia e preciso de tirar seiscentas fotos para encontrar uma menos má. A fotografia é assim, pessoalmente, um exercício um pouco deprimente. Devolve-me sempre uma imagem de mim muito pior do que aquela que julgava que tinha. Não sei o que raio se passa. Contento-me vagamente com a ilusão de que sou pouco fotogénico.



Por isso toca de puxar o brilho ao carro que o meu corpo é. Toca agora de lhe dar os cuidados que se dão às máquinas antigas que vão para exposição. Cuidado aí Sr. Oliveira mais devagar. Acha que fico melhor assim, de perfil. Não? E de costas?



Pubicado in O Comércio de Guimarães (20.12.17)
Imagens (de cima para baixo): Michel Houllebecq, Harry Dean Stanton, Klaus Kinski, Philip Seymour Hoffman, Woody Allen e eu.




quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O estranho poder das mulheres


“As mulheres, pensava ele, eram mais intensas.”

Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. 2011.




O domínio dos homens sobre as mulheres vem de longe. Primeiro pela força e depois pela palavra divina. Como – ao contrário do que porventura julgarão – levo estas crónicas muito a sério, lá fui eu ler o livro Deuterónimo que regista por escrito, entre muitas outras coisas, as determinações que Moisés, em nome de Deus, enuncia ao povo escolhido. Vêm daí os Dez Mandamentos e outras leis que procuravam estabelecer o que estava certo e o que não estava, no fundo um manual de instruções de como proceder quando algo era errado. O Deuterónimo faz parte da Torá, o livro sagrado hebraico, e também do nosso Antigo Testamento. O Deus judaico abre-me sempre o apetite literário por ser tão mau, tão vingativo, tão cruel. Não sem surpresa reparei que apesar da antiguidade do livro (séc. VII a.c.) as determinações são, relativamente, democráticas. Se uma mulher casada trai o marido há que apedrejá-la até à morte, mas o traidor deverá merecer, segundo o livro, a mesma sorte. Mas “se algum homem no campo achar uma moça desposada, e o homem a forçar, e se deitar com ela, então morrerá só o homem”. O que nos chega desses comportamentos violentos e arcaicos está adulterado e as notícias dão-nos conta de que só a mulher morre hoje por lapidação. Talvez isso se deva à interpretação parcial de líderes religiosos. Homens, claro.



Dia após dia, do outro lado do Atlântico, surgem notícias sobre assédio sexual. A Caixa de Pandora abriu-se e agora vai ser o diabo para a fechar novamente. E, apesar de enojados, ninguém fica particularmente surpreendido pelas notícias. A coisa funciona mesmo assim na cabeça de muitos homens. É a força do hábito, alegam. Em sociedades menos sofisticadas basta uma saia mais curta ou o visionamento dos cabelos longos para justificar o avanço, em sociedades mais sofisticadas a âncora desses comportamentos é a relação de poder. E apenas isso basta para que a possibilidade passe a inevitabilidade.



O bicho homem encontra-se assim, atualmente, em baixa. Nestes momentos difíceis as mulheres atacam com tudo. De uma vezes com inteira justiça – como no caso do assédio - de outras não. Uma das coisas que mais me irrita na conversa com as mulheres é a conversa sobre a corrupção. Não há mulher que não mo lembre: são os homens sempre os corruptos, é raro ver uma mulher nessas andanças dizem-me elas.
Mas até neste particular domínio a Operação Marquês fez maravilhas. É só ouvir as escutas para perceber o assédio constante de que o pobre do Sócrates foi vítima: por mulheres, claro está. Ou é por estar depenadinha, ou é pró casaco do menino, ou é o seguro do carro, ou a prestação da casa, ou as obras no apartamento, é que não deixam o homem sossegado, ou é mais isto, ou mais aquilo, sempre pedidos urgentes, sempre em cima do prazo, ou é a casa de três milhões de euros que, coitado, o Sócrates considerou “um buraco” só para a sacudir. E que recebe ele em troca? Um brutal: “buraco és tu”, mas com a delicadeza que até o tédio confia às mulheres.
No fundo a história bíblica de Adão e Eva perdura até hoje. Ó Adão e coisa e tal e olha que linda maçãzinha, e o palerma do Adão lá vai colher a maçã só para não a aturar. E depois sofre o castigo, ou vai preso e o chamam de corrupto. Pudera!



O cerco está assim montado. As mulheres estão atentas e começam a conquistar a opinião pública. Outras, como a minha, conquistam ainda, dia a dia, o meu pobre armário. As minhas camisas, calças e sapatos, têm cada vez menos espaço. Comprimem-se e sufocam. Gritam por ajuda perante a minha incapacidade em as defender, sindicalmente. Não é por andarmos sempre com a mesma roupa que não gostamos de ter roupa, entenda-se. Nós até gostamos de variar de indumentária só que já não encontramos as nossas coisas, só isso. E se temos, por pura e racional matemática, direito a 20% dos armários de casa já nos contentaríamos com 10%. Mas mesmo com as mais aturadas negociações o armário masculino encolhe. O nosso espaço funciona no tempo como o IVA, só que ao contrário.
Agarro-me ao comando da televisão como um cavaleiro à sua espada. Firmemente. Isto vocês não me tiram, vocifero. Resta-me saber apenas até quando.


Imagens de quadros: Caravaggio, Klimt, Rembrandt e Michelangelo.

Publicado in O Comércio de Guimarães (22.11.17)