terça-feira, 28 de março de 2017

Era Trump



“E se fôssemos rir,/Rir de tudo, tanto,/Que à força de rir/Nos tornássemos pranto (...)”

Alexandre O´Neill. No Reino da Dinamarca. 1958.





É verdade: já passaram dois meses, nove dias, três horas e vinte e quatro segundos desde que Trump se tornou Presidente e o mundo ainda aí está. É igualmente verdade que o mundo vai desvalorizando o disparate, mas não devia. Há uma semana, por exemplo, aquando da visita de Merkel aos EUA tiveram lugar um conjunto de episódios que já não mereceram primeira página. Trump fez-se de parvo (e bem, como é seu timbre) para não cumprimentar Merkel para a fotografia, e na conferência de imprensa disse que, como a chanceler alemã, também ele foi escutado por Obama. Merkel ficou com cara de parva (não tão bem quanto Trump, diga-se) e arregalou os olhos quando, à pergunta de um jornalista alemão, sobre que provas tinha ele sobre a alegada escuta, Trump respondeu que perguntassem à FoxNews pois foi na Fox que ele ouviu a notícia. No reino da idiotia tudo é possível dizer-se. Há três meses atrás era impossível imaginar que um presidente de uma Democracia dissesse tamanhos disparates – seguidos – e a vida continuasse serena. Agora é normal.



No memorável filme Voando sobre um ninho de cucos, do checoslovaco Milos Forman (que saudades tenho eu da palavra Checoslováquia!), Jack Nicholson, a determinada altura do filme, liberta os idiotas que com ele estão encerrados numa instituição mental. É o momento alto do filme. É a catarse coletiva de quem estava preso a quatro paredes e a doses cavalares de calmantes.
Mas, como costuma dizer-se, a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção. E é bem verdade.
Um deputado polaco no Parlamento Europeu defende que, sim senhor, as mulheres devem ganhar menos pois são menos inteligentes que os homens. O presidente turco chama nazis aos holandeses por não deixarem uma ministra turca ir fazer um comício noutro país para incitar os emigrantes turcos a votar contra a réstia de democracia turca, onde já se viu. O aprumado Dijsselbloem, alto responsável europeu, acusa os países do sul da europa de pedincharem dinheiros europeus depois de o desbaratarem em mulheres e copos, porque não? O madeirense José Manuel Coelho, ex-candidato presidencial, que procura hoje escapar à prisão pedindo asilo ao Ilhéu da Pontinha foi, bem vistas as coisas, um homem à frente do seu tempo.




A idiotia soltou-se e vai ser difícil metê-la novamente na caixa. Até aqui os idiotas disfarçavam que não o eram, agora fazem gala em o ser. Pára o um, trabalha o dois.
E as famosas redes sociais que se incendeiam facilmente como o Portugal de agosto são de há algum tempo uma espécie de antecâmara do que está para vir. E é útil perceber isso. Vejam lá se já não se teoriza sobre o que se diz sobre Trump. Que ele afinal não disse nada daquilo, que no fundo está a cumprir, que tudo não passa de uma calúnia dos jornais liberais e de esquerda. E, noutra perspetiva oposta, que o engenheiro Sócrates coitado, inocente e puro, lá continua o calvário imposto pelos jornais liberais e de direita e pelo ministério público que ficou com a engenhoca nos braços. E outros ainda que o presidente muçulmano de Londres, Sadiq Khan, não foi lesto a condenar o assassino idiota de Westminster. E as pessoas nas redes sociais amplificam com um gosto a imbecilidade reinante. E é possível voltar atrás. É sempre possível voltar atrás. É possível ter idolatrado o engenheiro Sócrates e só agora, perceber, que ele afinal não era engenheiro. Não há mal nenhum nisso. Uma pessoa engana-se mas continua em frente. Eu, por exemplo, durante o mês de março do meu décimo primeiro ano ouvi até à exaustão o Planet Earth dos Duran Duran e sobrevivi.




Já sabíamos que a idiotia tomou conta dos concursos televisivos. Já não há engenheiros - apesar de chatos - como o Luís Almeida que dava nas vistas pelo que sabia. Agora, em televisão, dá-se nas vistas pelo que não se sabe, é-se conhecido pelo grau de estupidez e faz-se gala nisso.
O que não sabíamos é que a idiotia se pretende alargar aos aeroportos. Aeroporto Cristiano Ronaldo na Madeira? Estão a brincar ou a falar a sério? Já não chega ter a Rosa Mota na nave que deveria ser de cristal? A cultura já não dá nome a nada, extinguiu-se da toponímia como um vislumbre. A ciência também não. E o Gago Coutinho e o Sacadura Cabral, eméritos aviadores, ficam por agora imortalizados num penedo de uma Penha. Um penedo que nunca marcou golos mas que sabe, como nenhum outro, ser imóvel e, sobretudo, silencioso na era da idiotia.

À Ana: a minha corretora de crónicas e de vida.


Imagens do filme Voando  Sobre um Ninho de Cucos.  Milos Forman. 1975.


Publicado in O Comércio de Guimarães (29.03.17)

quarta-feira, 1 de março de 2017

A idade adulta

“As mulheres da idade da minha mãe metiam conversa comigo na rua. Era assédio! Agora sou um monstro.”

António Lobo Antunes. E – a revista do Expresso. 2017.



Não sou de médicos pois não sou, graças a Deus, de doenças. Parto sempre do princípio que tudo me passa, que as más disposições existem para fazer um contraponto ao milagre de estar vivo. Não concebo outra forma de ser e de estar e espanto-me com aqueles que vivem obcecados com a doença, com o sinal, com o sintoma. Para quê morrer várias vezes quando se pode morrer apenas uma?



Sou um contribuinte líquido para o sistema de saúde. Orgulhosamente. Cheguei, infelizmente, à idade em que se anda à procura de coisas que - aparentemente não existindo - são possíveis de existir. Resisti quanto pude mas não consegui contornar o poderoso exame: a colonoscopia!
As análises são uma brincadeira de criança. A colonoscopia não, é um outro nível, é já a liga dos campeões dos meios de diagnóstico. Assim o pensava eu e o meu estimadíssimo médico de família, companheiro de luta das minhas não doenças.
No entanto, digo-vos, foi uma desilusão.
Enquanto esperava a coisa, ainda zonzo e enjoado de uma penosa preparação, tomava mentalmente notas sobre o evento médico a que voluntariamente me iria submeter. O ar contrito dos meus companheiros de colonoscopia, o silêncio pesado da sala exígua entrecortado pelas notícias da Caixa Geral de Depósitos que vinham do televisor e a que ninguém parecia dar particular atenção, isto na sala de espera. Na fase dois: a antecâmera. Mais grave e ainda mais silenciosa. O silêncio voluntário daqueles que como eu entravam e o silêncio aturdido dos que saíam. Uma enfermeira manda-me vestir então uma bata branca e uns calções. Algumas lojas de roupa têm horror ao XL, apertam-no para xl, o sistema de saúde também. Aquilo apesar de muito arejado pelas traseiras estava-me apertado. Tenho de comer menos. Pouco depois já estava no sítio. Meteram-me um açaime plástico e o tempo parou. Parou mesmo. Até o subconsciente se finou. E o grande exame foi só aquilo: foi um espaço sem tempo. Já se pode vestir quando se sentir bem, tenha cuidado. E eu tive.
Finalmente o resultado: nada vi que pudesse apoquentar, disse o médico, mas, infelizmente, a preparação foi deficiente e terá que fazer o exame não dentro de cinco anos, mas dentro de dois. Balbuciei, o melhor que pude, a minha defesa, como uma criança que não tendo culpa é sempre a responsável pelo pai não saber do comando da televisão. O meus intestinos tinham-se recusado a colaborar na plenitude. Tiveram horror ao vazio, hélas!



Não sendo, pelo menos até agora, e bato repetidamente na madeira, um cliente do sistema nacional de saúde, tranquiliza-me imenso a sua existência.
Há sempre casos desagradáveis – e eu assisti a alguns – mas regra geral o sistema funciona bem aqui em Portugal. Os médicos, enfermeiros e outro pessoal são diligentes e temos na saúde números de um país civilizado. O pessoal da saúde lida todos os dias com aquilo que muitos de nós voluntariamente nos afastamos. Ficarão porventura mais duros, mas é impossível impermeabilizarem-se, de forma completa, à dor. Fazem da sua vida a mitigação do sofrimento alheio. E conseguem ainda assim, muitos deles, serem simpáticos.
Para termos este sistema os nossos gastos com a saúde são enormes. Cerca de 9% do PIB. Isto é, cerca de 15 mil milhões de euros por ano. A sua sustentabilidade foi uma das preocupações do ministro Paulo Macedo. Conseguiu-se poupar no seu mandato cerca de 3 mil milhões de euros relativamente ao ano referência de 2011. O mesmo dinheiro que o BPN nos levou, a todos, da noite para o dia, sem que nenhum serviço relevante tivesse sido prestado à comunidade.



A educação é mais modesta, custa ao país cerca de 7 mil milhões de euros por ano. Prepara-se agora mais uma mudança nos currículos escolares. Algumas mentes brilhantes do ministério da educação acham que já chega de tanta Matemática, de tanto Português, e mesmo de Física e Química, é preciso coisas alternativas, imateriais, não vá os alunos terem um cansaço. Cidadania é uma boa aposta. É suficiente redonda e escorregadia para que se resuma a coisa nenhuma. Eu sugiro desde já que se faça a seguinte conta na primeira aula de educação cívica: qual é a diferença entre o que nos custou, para já, o BES e o que custa anualmente a educação aos contribuintes portugueses? Vão verificar que a diferença é mínima o que é um bom ponto de partida para termos cidadãos mais atentos e interventivos. Isto, claro, se por essa altura eles ainda souberem efetuar uma subtração ... com tantos dígitos.



Publicado in O Comércio de Guimarães (01.03.17)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O outro e o aquele

“Havia de enchê-los de um amor infinito. Rodeá-los-ia de tanto amor, que toda a vida deles, entretecida dos cuidados e do espírito conciliador da mãe, perderia a sua razão de ser estando ela ausente.”


Boris Vian. O arranca corações. 1953.






Pertenço a uma geração que teve os primeiros filhos nos anos noventa. E chegada a nossa altura de os ter e educar víamos ainda com absurda nitidez dois mundos distintos de educação e acompanhamento da descendência. A diferença entre a estrutura familiar em que fomos criados, mais tradicional e assente na mãe, e o novo paradigma que se nos oferecia, mais democrático em termos de tarefas e mais próximo dos filhos, era abissal.
Estivemos (e estamos) nessa clareira entre o mundo antigo e um mundo novo que se impunha não só pela tomada de consciência do papel de cada um mas pela mudança do mundo, pela internet, pela legítima e cada vez maior afirmação das mulheres em termos profissionais, pelas mudanças na estrutura familiar que tudo isso implicava.

Olhando para trás, para a infância daqueles que começavam então a ser pais, ficava claro a intensa liberdade dos anos setenta que se restringia nos noventa. Tirando as horas passadas na escola – que não eram muitas! – tudo o resto era liberdade, era rua e horas para comer. Mesmo assim o pessoal atrasava-se nas horas e apanhava. Note-se que uma pessoa atrasar-se para chegar a casa, quando não tinha aulas de música, nem de inglês, nem de outra coisa qualquer, era obra. A gente atrasava-se para não fazer nada. E quando nos perguntavam: chegas a esta horas porquê? Nada saí pois mesmo a mentira precisa de um intento que lhe dê forma e credibilidade, e o nosso único propósito era não ter propósito nenhum.
O mundo das crianças de agora é intensamente operário. Terem tempo para dormir é uma sorte.



Pode parecer caricatura – e será - mas a grande preocupação dos pais nos anos setenta era se rasgávamos as calças. Tudo o resto era nada comparado com umas calças rasgadas, podíamos rachar a cabeça, podíamos ser vítimas de bullying que isso não interessava nada, quando comparado com a suprema infâmia de rasgar umas calças novas numa tentativa louca de fazer um corte de carrinho. Ahh! meu Deus porque não calhamos nós no tempo da moda das calças rasgadas. Bastava sair à rua para, passado pouco tempo, estarmos na moda. A harmonia do nosso mundo resumia-se à inviolabilidade da fazenda, ou até da bombazina se fossemos um pouco mais hype. A desarmonia do mundo assentava na biqueira do sapato de domingo gasta por uns proibitivos toques na bola antes da missa. O sapato de domingo mereceria, eventualmente, uma tese de doutoramento ou um museu. O sapato brilhante (como o horroroso sapato de verniz) era sistematicamente apertado e desconfortável. Quando se moldava definitivamente ao pé já não servia no comprimento. Talvez os americanos tivessem arrancado mais informações dos terroristas se em vez dos métodos tradicionais de tortura de Guantánamo tivessem obrigado os prisioneiros a usar uns sapatos de domingo, todos os dias mesmo não sendo domingo.

E os pais mudaram com as crianças. Hoje são como capatazes inflexíveis dos filhos, dos seus horários, os pais uber que circulam pelas ruas da cidade largando e pegando nos filhos como motoristas. Já poucas crianças conhecem as ruas da cidade sem ser através de um vidro de automóvel empoleirados na cadeirinha homologada pela Inspeção Geral de Viação.
E acompanham os filhos a todo o lado. Quando eu via os jogos de andebol dos meus amigos que jogavam nos juvenis as bancadas do pavilhão do Inatel só tinham os amigos daqueles que jogavam e talvez um pai, deslocado e taciturno. Hoje é exatamente o contrário. Qualquer jogo só tem pais e isso devia ser proibido, faz mal às crianças, faz mal aos pais, faz mal ao treinador e, sobretudo, faz mal ao árbitro de ocasião.



Eu acho que – e isto é já uma nova pista para outro doutoramento – o problema está na concepção. Apesar de no tempo em que fomos concebidos os métodos concepcionais já existirem (com doses cavalares de hormonas é certo) ainda existia igualmente a inércia do aconteceu. Estás grávida mulher? Outro? Valha-me Deus. Nós éramos assim o “outro?”. Agora não, planeia-se a vinda do rebento. Ora senhor doutor dava-me imenso jeito ter a menina no dia 4 de julho, pelas 15h00 o mais tardar 15h30min. As crianças de agora são “aquele!”: o que se planeou, o desejado.
E o abismo existente entre o “outro” e o “aquele” faz hoje toda a diferença.


Publicado in O Comércio de Guimarães (01.02.2017)

Imagens do filme "Os quatrocentos golpes" de François Truffaut (1959)