quarta-feira, 1 de março de 2017

A idade adulta

“As mulheres da idade da minha mãe metiam conversa comigo na rua. Era assédio! Agora sou um monstro.”

António Lobo Antunes. E – a revista do Expresso. 2017.



Não sou de médicos pois não sou, graças a Deus, de doenças. Parto sempre do princípio que tudo me passa, que as más disposições existem para fazer um contraponto ao milagre de estar vivo. Não concebo outra forma de ser e de estar e espanto-me com aqueles que vivem obcecados com a doença, com o sinal, com o sintoma. Para quê morrer várias vezes quando se pode morrer apenas uma?



Sou um contribuinte líquido para o sistema de saúde. Orgulhosamente. Cheguei, infelizmente, à idade em que se anda à procura de coisas que - aparentemente não existindo - são possíveis de existir. Resisti quanto pude mas não consegui contornar o poderoso exame: a colonoscopia!
As análises são uma brincadeira de criança. A colonoscopia não, é um outro nível, é já a liga dos campeões dos meios de diagnóstico. Assim o pensava eu e o meu estimadíssimo médico de família, companheiro de luta das minhas não doenças.
No entanto, digo-vos, foi uma desilusão.
Enquanto esperava a coisa, ainda zonzo e enjoado de uma penosa preparação, tomava mentalmente notas sobre o evento médico a que voluntariamente me iria submeter. O ar contrito dos meus companheiros de colonoscopia, o silêncio pesado da sala exígua entrecortado pelas notícias da Caixa Geral de Depósitos que vinham do televisor e a que ninguém parecia dar particular atenção, isto na sala de espera. Na fase dois: a antecâmera. Mais grave e ainda mais silenciosa. O silêncio voluntário daqueles que como eu entravam e o silêncio aturdido dos que saíam. Uma enfermeira manda-me vestir então uma bata branca e uns calções. Algumas lojas de roupa têm horror ao XL, apertam-no para xl, o sistema de saúde também. Aquilo apesar de muito arejado pelas traseiras estava-me apertado. Tenho de comer menos. Pouco depois já estava no sítio. Meteram-me um açaime plástico e o tempo parou. Parou mesmo. Até o subconsciente se finou. E o grande exame foi só aquilo: foi um espaço sem tempo. Já se pode vestir quando se sentir bem, tenha cuidado. E eu tive.
Finalmente o resultado: nada vi que pudesse apoquentar, disse o médico, mas, infelizmente, a preparação foi deficiente e terá que fazer o exame não dentro de cinco anos, mas dentro de dois. Balbuciei, o melhor que pude, a minha defesa, como uma criança que não tendo culpa é sempre a responsável pelo pai não saber do comando da televisão. O meus intestinos tinham-se recusado a colaborar na plenitude. Tiveram horror ao vazio, hélas!



Não sendo, pelo menos até agora, e bato repetidamente na madeira, um cliente do sistema nacional de saúde, tranquiliza-me imenso a sua existência.
Há sempre casos desagradáveis – e eu assisti a alguns – mas regra geral o sistema funciona bem aqui em Portugal. Os médicos, enfermeiros e outro pessoal são diligentes e temos na saúde números de um país civilizado. O pessoal da saúde lida todos os dias com aquilo que muitos de nós voluntariamente nos afastamos. Ficarão porventura mais duros, mas é impossível impermeabilizarem-se, de forma completa, à dor. Fazem da sua vida a mitigação do sofrimento alheio. E conseguem ainda assim, muitos deles, serem simpáticos.
Para termos este sistema os nossos gastos com a saúde são enormes. Cerca de 9% do PIB. Isto é, cerca de 15 mil milhões de euros por ano. A sua sustentabilidade foi uma das preocupações do ministro Paulo Macedo. Conseguiu-se poupar no seu mandato cerca de 3 mil milhões de euros relativamente ao ano referência de 2011. O mesmo dinheiro que o BPN nos levou, a todos, da noite para o dia, sem que nenhum serviço relevante tivesse sido prestado à comunidade.



A educação é mais modesta, custa ao país cerca de 7 mil milhões de euros por ano. Prepara-se agora mais uma mudança nos currículos escolares. Algumas mentes brilhantes do ministério da educação acham que já chega de tanta Matemática, de tanto Português, e mesmo de Física e Química, é preciso coisas alternativas, imateriais, não vá os alunos terem um cansaço. Cidadania é uma boa aposta. É suficiente redonda e escorregadia para que se resuma a coisa nenhuma. Eu sugiro desde já que se faça a seguinte conta na primeira aula de educação cívica: qual é a diferença entre o que nos custou, para já, o BES e o que custa anualmente a educação aos contribuintes portugueses? Vão verificar que a diferença é mínima o que é um bom ponto de partida para termos cidadãos mais atentos e interventivos. Isto, claro, se por essa altura eles ainda souberem efetuar uma subtração ... com tantos dígitos.



Publicado in O Comércio de Guimarães (01.03.17)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O outro e o aquele

“Havia de enchê-los de um amor infinito. Rodeá-los-ia de tanto amor, que toda a vida deles, entretecida dos cuidados e do espírito conciliador da mãe, perderia a sua razão de ser estando ela ausente.”


Boris Vian. O arranca corações. 1953.






Pertenço a uma geração que teve os primeiros filhos nos anos noventa. E chegada a nossa altura de os ter e educar víamos ainda com absurda nitidez dois mundos distintos de educação e acompanhamento da descendência. A diferença entre a estrutura familiar em que fomos criados, mais tradicional e assente na mãe, e o novo paradigma que se nos oferecia, mais democrático em termos de tarefas e mais próximo dos filhos, era abissal.
Estivemos (e estamos) nessa clareira entre o mundo antigo e um mundo novo que se impunha não só pela tomada de consciência do papel de cada um mas pela mudança do mundo, pela internet, pela legítima e cada vez maior afirmação das mulheres em termos profissionais, pelas mudanças na estrutura familiar que tudo isso implicava.

Olhando para trás, para a infância daqueles que começavam então a ser pais, ficava claro a intensa liberdade dos anos setenta que se restringia nos noventa. Tirando as horas passadas na escola – que não eram muitas! – tudo o resto era liberdade, era rua e horas para comer. Mesmo assim o pessoal atrasava-se nas horas e apanhava. Note-se que uma pessoa atrasar-se para chegar a casa, quando não tinha aulas de música, nem de inglês, nem de outra coisa qualquer, era obra. A gente atrasava-se para não fazer nada. E quando nos perguntavam: chegas a esta horas porquê? Nada saí pois mesmo a mentira precisa de um intento que lhe dê forma e credibilidade, e o nosso único propósito era não ter propósito nenhum.
O mundo das crianças de agora é intensamente operário. Terem tempo para dormir é uma sorte.



Pode parecer caricatura – e será - mas a grande preocupação dos pais nos anos setenta era se rasgávamos as calças. Tudo o resto era nada comparado com umas calças rasgadas, podíamos rachar a cabeça, podíamos ser vítimas de bullying que isso não interessava nada, quando comparado com a suprema infâmia de rasgar umas calças novas numa tentativa louca de fazer um corte de carrinho. Ahh! meu Deus porque não calhamos nós no tempo da moda das calças rasgadas. Bastava sair à rua para, passado pouco tempo, estarmos na moda. A harmonia do nosso mundo resumia-se à inviolabilidade da fazenda, ou até da bombazina se fossemos um pouco mais hype. A desarmonia do mundo assentava na biqueira do sapato de domingo gasta por uns proibitivos toques na bola antes da missa. O sapato de domingo mereceria, eventualmente, uma tese de doutoramento ou um museu. O sapato brilhante (como o horroroso sapato de verniz) era sistematicamente apertado e desconfortável. Quando se moldava definitivamente ao pé já não servia no comprimento. Talvez os americanos tivessem arrancado mais informações dos terroristas se em vez dos métodos tradicionais de tortura de Guantánamo tivessem obrigado os prisioneiros a usar uns sapatos de domingo, todos os dias mesmo não sendo domingo.

E os pais mudaram com as crianças. Hoje são como capatazes inflexíveis dos filhos, dos seus horários, os pais uber que circulam pelas ruas da cidade largando e pegando nos filhos como motoristas. Já poucas crianças conhecem as ruas da cidade sem ser através de um vidro de automóvel empoleirados na cadeirinha homologada pela Inspeção Geral de Viação.
E acompanham os filhos a todo o lado. Quando eu via os jogos de andebol dos meus amigos que jogavam nos juvenis as bancadas do pavilhão do Inatel só tinham os amigos daqueles que jogavam e talvez um pai, deslocado e taciturno. Hoje é exatamente o contrário. Qualquer jogo só tem pais e isso devia ser proibido, faz mal às crianças, faz mal aos pais, faz mal ao treinador e, sobretudo, faz mal ao árbitro de ocasião.



Eu acho que – e isto é já uma nova pista para outro doutoramento – o problema está na concepção. Apesar de no tempo em que fomos concebidos os métodos concepcionais já existirem (com doses cavalares de hormonas é certo) ainda existia igualmente a inércia do aconteceu. Estás grávida mulher? Outro? Valha-me Deus. Nós éramos assim o “outro?”. Agora não, planeia-se a vinda do rebento. Ora senhor doutor dava-me imenso jeito ter a menina no dia 4 de julho, pelas 15h00 o mais tardar 15h30min. As crianças de agora são “aquele!”: o que se planeou, o desejado.
E o abismo existente entre o “outro” e o “aquele” faz hoje toda a diferença.


Publicado in O Comércio de Guimarães (01.02.2017)

Imagens do filme "Os quatrocentos golpes" de François Truffaut (1959)


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Isto não vai correr nada bem

“Quando as forças da exclusão e do ódio passam a dominar a dinâmica política, o conflito generalizado nunca poderá estar longe. O próximo ano será o combate das nossas vidas para que isso não aconteça na Europa.”

Rui Tavares Público. 21.12.2016.



É bem possível que a conjugação cósmica que permitiu a Portugal ganhar o europeu de futebol em França, tenha desarranjado definitivamente o alinhamento astral. Acontece. Já me aconteceu uma coisa semelhante, há uns anos, ao pendurar um candeeiro de parede: pendurei-o é certo, mas destruí parte significativa da parede. Hoje não acontece mais: ganhei a humildade necessária ao juízo.
O ano de 2016 não foi, em termos concretos mau. No entanto o ano que agora findou teceu meticulosamente o desastre consequente. Em 2016 não se deu a explosão química da mistura dos reagentes, não, puseram-se apenas à mão os produtos químicos que, misturados, concretizam a catástrofe. A saída de Inglaterra, mais atentados, a loucura instalada nos governos da Europa de Leste, a loucura que se instala na Europa Ocidental, e, a juntar a tudo isto, um catalisador precioso do outro lado do Atlântico: o Donald!
Nada disto é Portugal, mas a nossa irrelevância é tão (enervantemente) grande que um banco que estoure em Itália, ou a prisão de ventre do primeiro-ministro chinês, nos afetam, sempre.


A CEE não era nada disto, até o irreverente Vítor Rua dos GNR queria ver “Portugal na CEE” em 1981. Ainda me lembro quando entramos, em 1986. Que deslumbramento entrar num clube privado de gente aprumada, solidária, bem falante. Eram 10 e passaram a ser 12 connosco e com Espanha. Entramos turvados pela emoção como um pé rapado entra num distinto clube inglês. Em 1995 entraram mais três distintos países (Áustria, Finlândia e Suécia).
Hoje aquela quietude singular da Europa dos 15 perdeu-se. Adormecemos no processo e quando acordamos já éramos 28 dentro do mesmo quarto. Foi-se a gravata e o clube, outrora distinto, tornou-se um apartamento de adolescentes de férias em Ibiza. Uma balda, e é bem possível que a nossa ancestral lentidão nos deixe para último e tenhamos, afinal, que pagar os estragos de gente tatuada e com t-shirt de mangas cavas em que os nossos aprumados parceiros subitamente se transformaram.


As sólidas democracias do centro da Europa começam a titubear. Enredam-se em fantasmas vários e são incapazes de ter uma visão de conjunto. Há uma meia dúzia de anos atrás começaram a irritar-se connosco, com a Grécia, com Espanha, com a nossa bandalheira genética. Hoje já perceberam que há coisas mais importantes – o que tem dado uma grande ajuda a António Costa – que é muito mais difícil lidar com as tendências totalitárias, com a inflexibilidade dos países mais a leste cauterizados por anos de comunismo. E estão fartos, como os casais que não tendo crianças têm que gramar com as correrias dos filhos alheios. Também por aqui somos irrelevantes, já não somos sequer um problema.


A par disso a Europa mudou muito, como o mundo. A internet e em particular as redes sociais criaram novos heróis. As redes sociais são o reflexo do nossa luta constante para sair da irrelevância. Já não vejo, como via, as pessoas a passearem o seu jornal nas manhãs de sol do Toural. Já ninguém lê jornais! Tanto dinheiro a Europa dá para os produtores de leite, para a produção de energia verde e não há ninguém que se lembre de preservar os jornais, a sua qualidade, que minga, de dia para dia, como as más camisolas depois de lavadas. A “verdade” hoje pode estar no que qualquer palerma debita no facebook. E a praga institucionalizou-se ainda mais quando o “pensamento” político do futuro presidente dos EUA nos é dada em tweets.
No entanto a irrelevância está altamente subestimada. Dever-se-ia estimar muito melhor a irrelevância pessoal de cada um. Que interessa no fundo escarrapachar a viagem ou o pensamento de forma pública? Porque o que nos constrói é (quase sempre) irrelevante: o beijo que nos fez tremer de alto a baixo, um abraço forte num amigo reencontrado, um redanho de porco quentinho e saboroso que pecaminosamente se come, marcar um golo com o pé esquerdo quando se é destro, afogar o olhar numa paisagem perfeita.


Eu vou encarar 2017 como aquele assistente de bordo colombiano que se safou na queda do avião que levou o nosso Caio Júnior. Vou colocar uma mala estre as pernas e enrolar-me à volta dela. A não ser que ganhemos ao Benfica já este sábado e a conjugação cósmica dos astros reganhe a harmonia perdida. Pode ser.


Publica in O Comércio de Guimarães (04.01.17)
Imagens: NASA (planeta Marte)