segunda-feira, 4 de julho de 2016

O estrangeiro


“A nacionalização das nossas massas só será bem sucedida quando, para além de todas as lutas positivas pela alma da nossa gente, os seus envenenadores internacionais forem exterminados.”
Adolf Hitler. Mein Kampf. 1925/6.






É raro encontrar um povo tão simpático para os estrangeiros quanto nós o somos. Se um estrangeiro nos interpela, meio perdido, aí estamos nós a indicar-lhe com velada e paciente dedicação o caminho. Somos assim.
Mesmo a palavra estrangeiro soa bem, soa agradavelmente. Em inglês a coisa é bem diferente: stranger soa mais a estranho do que a estrangeiro, é agressiva; foreigner, forasteiro, também não a é menos. Já os franceses têm o étranger que se amaneira aos seus maneirismos ... e que é suave quanta a nossa palavra: uma cumplicidade latina.



O que dizem os estrangeiros tem peso, é importante, é respeitável. Vejamos a azáfama dos nossos noticiários quando vão ler a imprensa internacional sobre nós, muito atentos, muito perscrutadores, como se a opinião que temos de nós próprios precisasse de uma caução, estrangeira é claro.
E a nossa postura individual tem muito dessa tonta necessidade de fiança. O meu amigo alemão disse ou uma amiga minha holandesa assegurou-me que encerram o nosso fascínio sobre a (avalizada julgamos nós) opinião dos estrangeiros. Tão certos estamos na confiança daquilo que nos dizem ... como numa enciclopédia ... e a britânica sempre foi a mais confiável.
No entanto a coisa pode azedar quando se atrevem a pisar-nos os calos. Sim, gostamos deles sem restrições com uma única condição: o de gostarem de nós. Se os finlandeses se atrevem a pôr em causa o auxílio económico a Portugal organizamo-nos em turba indignada e cavalgamos o YouTube com desprezo, lembrando-lhes, entre outras coisas, que a bandeira deles já foi nossa. Se se atrevem a chamar nojento ao nosso futebol, não descansamos sem o competente pedido de desculpas. Somos assim. Qualquer outro despautério indígena passaria desapercebido, dos estrangeiros é que não. Gostamos demasiado deles para os ignorar.





Numa Europa cada vez mais perdida em si mesma, perigosamente perdida na busca demente das diferenças, é refrescante a nossa fé. Parece tonta, mas não é. Tem algo de cristão, tem algo de amor adolescente. É pura.
A Grã-Bretanha optou agora por sair da União Europeia. Que tolice diríamos nós se no lugar deles estivéssemos. Em bom rigor eles (também) não o queriam. Só pretendiam assustar-nos e acabaram por se assustar a si mesmos. Tenho seguido os noticiários britânicos e eles, os estrangeiros ingleses, estão nitidamente constrangidos. O Boris queria chegar aos 49% e, azar, ficou com 52%. Foi traído agora na sua traição. O anormal do Farage rejubila com o crescimento da xenofobia que envergonhará certamente a maioria dos britânicos e até conseguiu o impensável que foi acordar Juncker do torpor imbecil de que se investiu enquanto presidente da Comissão Europeia quando lhe atirou “Porque é que [ainda] estão aqui?”. Se o Brexit tivesse acontecido connosco certamente encontraríamos uma norma constitucional para repetir o referendo. Eles não: são estrangeiros e sofrem estoicamente com a própria estupidez, sem tergiversar. Tenho pena deles e não lhes quero sequer mal. Da Inglaterra sempre tive boa música ... e os Monty Python.




O nosso impecável percurso no europeu de futebol terá assim ainda maior significado. Gostamos deles: das equipas que derrotámos. Uma após outra vão tombado aos nossos pés, e sobretudo pela nossa cabeça. Deixamos a fanfarronice de lado e passamos (finalmente) a ser matreiros. E isso é, na mudança de paradigma, uma tremenda evolução civilizacional.

Como somos simpáticos damos-lhes a ilusão de que nos poderiam ter ganho. E as equipas estrangeiras choram como se o resultado fosse um sortilégio e não um ato de inteligência, da nossa inteligência. Apesar de termos sido sempre a melhor equipa (em qualquer dos jogos que disputámos) damos-lhes a ilusão de que não a fomos. E eles ficam contentes na sua tristeza. Que os galeses mantenham viva a ilusão de todos os outros que nos defrontaram pois a final já nos livrou dos italianos, cuja profundidade do seu futebol teve a profundidade de um Rossellini. Os italianos, apesar de igualmente simpáticos, conheceriam de ginjeira a nossa manha. Eles inventaram-na. O destino abriu-nos assim as portas.


In O Comércio de Guimarães (05.07.16)     

Fonte das imagens (de cima para baixo): New York Times, Daily mail, Irish Times, The Himalaya Times

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A direito

“Até nisso o PPD/PSD ficará igual a si próprio. Com inesgotável energia. Que umas vezes o debilita e consome, e noutras o empolga e redime. Alguns dirão que é isso o seu reformismo (...) Eu prefiro chamar-lhe a sua incessante adolescência.”
Marcelo Rebelo de Sousa. A revolução e o nascimento do PPD. Volume 2. 2000.





A justiça portuguesa é um extraordinário caso de constância. Os arguidos são sempre os mesmos durante muitos anos e os mediáticos advogados que os defendem também. Se me parece lógico que o (presumível) tratante se perpetue no limbo enquanto pode, já não me parece nada urbano que só a uma dúzia de advogados seja dada a primazia do mediatismo pelo caso. E como mais vale cair em graça do que ser engraçado eles repetem-se como se o país tivesse a dimensão microscópica de um Liechtenstein. Mesmo assim, diga-se, bem menos preocupante do que aqueles que já de há muito sequestram os negócios do Estado, quando não o próprio Estado.
À parte disso a justiça portuguesa vive uma boa fase. Os juízes têm dado manifestos exemplos de dedicação e coragem e a atual ministra alia a competência a uma desarmante simplicidade que fica muito bem ao exercício de um cargo político.





Malgrado as desgraças que se encontram atrás das boas histórias, ainda temos boas histórias ao nível do direito penal. Desde logo a carteirista Quina. Apanhada recentemente na Queima das Fitas do Porto, foi libertada com pena suspensa por uma juíza que com o bom senso que qualquer um de nós teria se condoeu de uma mulher de 85 anos, apesar do cadastro recheado da senhora. Como cavalo velho não toma andadura foi detida, uma vez mais, no último sábado, em Amarante. Suponho que as pessoas lhe vão conhecendo a cara e os gestos e quanto mais é conhecida menos possibilidades tem de envelhecer da forma ativa como o pretende fazer. O empresário italiano que assaltou doze bancos para pagar dívidas ao fisco ou o militar da GNR que justificou a elevada quantidade de dinheiro em notas que possuía como um tique colecionista compõem muito bem a nossa imaginação criminal e aliviam a gravidade das histórias. Entretêm.




E a vida política está também muito entretida. Já percebemos que o Costa tem arte para amparar a geringonça, é hábil a apertar os parafusos soltos da coisa, ora este aqui, agora aquele acolá, em perigo constante como um equilibrista circense. Fica a convicção que ele resume o cargo de primeiro-ministro ao de primeiro-mecânico. Sem desprimor para os mecânicos (e as mecânicas? diria o Bloco) precisaríamos de um primeiro mas ministro mesmo.
Nos últimos anos vimo-nos frequentemente a um espelho que não era o nosso e isso fez-nos mal, azedou-nos como o ar ao vinho que avinagra. Costa no seu jeito de nada resolver, alivia. O líder do PSD encarrega-se de fazer o resto e incensar alguma inépcia governativa com as suas convicções ideológicas. Faz o papel de um defesa direito muito encostadinho à linha lateral à procura de um extremo esquerdo imaginário que não chega. E a equipa sofre golos ao centro pelo seu mau posicionamento.






A arte da política é a arte do bom senso, a que a inteligência e a seriedade (como as tem o Presidente da República) dão o tão procurado reconhecimento. As encomendadas campanhas podem vender um político mas não o fazem. Por isso muito me espanto hoje com a necessidade dos atores políticos se encostarem tão declaradamente às linhas laterais da vida política, quando o povo está ao meio. No livro que cito, Marcelo Rebelo de Sousa mostra-nos, com profunda habilidade e capacidade analítica, o corpo ideológico de um partido (o PPD) que nasce sem família política. A recusa do totalitarismo, o predomínio do interesse público sobre o interesse privado, a igualdade de oportunidades, a economia mais liberta do Estado mas obedecendo ao superior desígnio da justiça social, a estabilidade política, são as marcas fundamentais que os percursores do PPD, em particular Sá Carneiro, deixaram ao partido que fundaram. E não é por já terem passado quarenta anos que essas premissas perderam validade. Continuam necessárias pois estão ainda longe de serem atingidas. A orfandade política do PPD permitiu-lhe não ser refém de ideologias que tendiam a fechar-se em si mesmas e por isso o partido sempre se abriu a gente diversa. Chamaram-lhe assim, em tom de gozo, o albergue espanhol. Espero que por estes dias não lhe caia o adjetivo.


Fotos (de cima para baixo):  12 angry men. Sidney Lumet (1957)  /   José Coelho. Agência Lusa. Visita de MRS (março de 2016)  / Carlos Lopes. Sá Carneiro na Fundação Gulbenkian (abril de 1976) /  José Coelho. Agência Lusa. Visita de MRS (março de 2016) 



Publicado in O Comércio de Guimarães (08.06.16)









quinta-feira, 19 de maio de 2016

Na cidade

“O castelo localiza-se na parte da cidade que se chama vila velha. Quando a sombra do entardecer, apagando os detalhes, engrandece as proporções das massas, ele pode ainda mostrar força, grandeza (...)”
Olivier Marson. Le Tour du Monde 1861. (Texto de exposição)

Na Cidade é uma exposição de fotografia antiga da Colecção de Fotografia da Muralha (CFM) a ser inaugurada quinta-feira, dia 12 de maio, pelas 18h00, na extensão do Museu de Alberto Sampaio, na Praça de S. Tiago. A exposição estará patente naquele nobre espaço até 10 de julho, a entrada é livre e todos estão naturalmente convidados (senão mesmo obrigados) a visitá-la.
Desta vez a CFM vai para o Museu de Alberto Sampaio concretizando assim um namoro firme entre a estruturada Colecção de imagens de Guimarães dos inícios do séc. XX e um espaço de memória e interpretação que o Museu de Alberto Sampaio tem exemplarmente sido, desde 1931, em relação à história de Guimarães.
Esta é uma exposição sobre a mudança que o século XX trouxe a uma cidade que até então apresentava preocupantes traços de decrepitude. As imagens, organizadas em núcleos urbanos específicos, dão nota dessa preocupação de renovação numa nova ordem urbana sem esquecer a preservação do património histórico que distingue Guimarães.
A exposição será assim um olhar sobre a cidade do século XX que quer crescer e, ao mesmo tempo, reencontrar-se com o seu passado, com a sua importância histórica e, porque não, com a sua assumida vaidade.

Na Casa da Memória é visitável também a sua exposição permanente. Um conjunto de propostas particulares de gente com imenso talento e tão diversa que a harmonia caótica nela revelada não deixa de ser surpreendente.




A cidade nunca teve tanta gente a andar a pé como hoje, a senti-la pelo olhar e através dos passos. Acho que isso realiza a própria cidade e torna-a mais bela ainda. São centenas – diria assim para não me excitar com a aritmética – aquelas que todos os dias a passeiam, a correm, a calcam gentilmente. Mulheres sobretudo, matizando com as suas roupas coloridas a severidade secular do granito.

A cidade tem o tamanho ótimo para o trânsito não ser um problema. Mas é, de uma forma escusada e cínica. Toda ela está armadilhada para enervar, além dos automobilistas que não respeitam ninguém, que só vão ali e vêm já. O sinal obrigatório nos Palheiros para quem vem do Carmo e quer ir para o centro é uma maçada, sempre foi. Obriga-nos sempre a “uma volta ao bilhar grande” maximizada hoje pelas obras na ligação Universidade-Quintã que nos atira para a circular. A solução de trânsito na ligação da Alameda com o Campo da Feira é um falhanço desde o início e quanto mais a nossa cidade é visitada mais aquela passadeira é um conta-gotas interminável de gente. Quem trata destas coisas na cidade não gosta dos carros, mas tem particular simpatia pelas camiões de carga ou de passageiros que estacionam impunemente nas ruas largas da cidade, como na Rua Prof. Egas Moniz, e constituem admiráveis biombos de lata para que os amigos do alheio exerçam, com tranquilidade, as suas atividades noturnas.



Não é possível escolher-se a cidade onde se nasce. Não depende de nós, é um sortilégio do tempo e das circunstâncias. Vive-se muitas vezes onde se nasce pela comodidade do conhecido, fica-se por isso ali no sítio onde nascemos, como uma pedra esquecida. E se eu tivesse nascido em Torres Vedras, ou em Gondomar, ou em Rio Tinto, ou na Amadora? Aguentaria essa ausência de pertença? Suportaria o vazio arquitectónico daquelas ruas e daquelas praças? Provavelmente não. Teria de preencher essa ausência mesmo não sabendo que se tratava efetivamente de uma ausência. Em vão, como quando se procurar colmatar a ausência das pessoas queridas que desaparecem. Enquanto aqui e agora, nesta cidade minha e nossa, tudo tem o sentido próprio da história e a inevitável tranquilidade de um sortilégio bom.



Ao Pedro pela falta que faz. Ao António pela falta que sente.

Publicado in O Comércio de Guimarães 11.05.16

Fotos de Paulo Pacheco