quarta-feira, 4 de julho de 2018

Em modo funcionário

“(...)Não podias ficar nessa cadeira/onde passo o dia burocrático/o dia-a-dia da miséria/que sobe aos olhos vem às mãos/aos sorrisos/ao amor mal soletrado/à estupidez ao desespero sem boca/ao medo perfilado/à alegria sonâmbula à vírgula maníaca/do modo funcionário de viver.(...)”
Alexandre O’Neill.Um adeus português.1958.




velho funcionário público que tudo fazia para nada fazer está a desaparecer. As coisas mudaram por efeito de uma consciência democrática - muitas vezes feroz - que lhe tolhe a missão de protelar a coisa. Mesmos os tiques e o trejeito de olhar cansado e sobrancelha arqueada que o funcionário tinha quando alguém suspirava no balcão “ó fachavor” perderam-se na obrigatoriedade de sermos hoje utentes digitais. Há no entanto alguns vislumbres que me matam a saudade de quando éramos impotentes perante a burocracia e quem diligentemente a pastava aos nossos olhos. Recentemente tentei marcar uma consulta de urgência no médico de família e pacientemente, conforme o manual, telefonei às 8h00 em ponto. E nada. Cada chamada perdia-se no vazio e eu recomeçava a chamada com aquela angustia própria de quem torna para o fim da fila. 8h20 e a coisa continuava difícil. É melhor ir comprar o pão e o jornal de carro para que a chamada passasse para as colunas da viatura e eu não perdesse a minha vez. 8h32 fui finalmente atendido. Não sei se vai ser possível hoje atira-me a funcionária, ó minha senhora estou a telefonar há mais de meia hora não me faça isso por favor, está o senhor e estão outros devolveu-me ela a bola ... e senti que argumentar não seria afinal uma boa solução. E ela volta à carga – esperta – e pergunta-me pelo número de utente. Eu no carro, sem acesso ao cartão de cidadão, e sem espaço na memória para mais um número, balbuciei que não sabia. Fez-se silêncio e do lado de lá senti um sorriso de vitória. É por isso que se demora tanto tempo a atender as chamadas, vá lá diga-me a data de nascimento condescendeu a funcionária, e eu disse-a, a medo, tremendo de gratidão.



culpa é sempre, habituamo-nos, do funcionário público. Por isso as suas lutas são uma maçada para o resto do povo envenenado, a preceito, pelos poderes de ocasião.
Neste país o deficit público depende mais das obras faraónicas a que se deitou a fazedora mão, e do serviço da dívida que com elas nasceu, e não propriamente do funcionário público. Neste país a dívida das empresas é superior à dívida do estado, e algumas delas endividaram-se sob a influência dos poderes políticos e hoje nada pagam e deixam a fatura a todos, neste país injetaram-se 15 mil milhões de euros desde 2008 no sistema financeiro, neste país não fora os desmandos das PPP´s e o deficit público seria (mais) controlável ... mas a culpa casa sempre bem com o funcionário público. Num país em que a educação pública permite, ainda, através do mérito e do esforço a mobilidade social daqueles que não tiveram a sorte de nascer em famílias com dinheiro ou cultura, num país em que os mais pobres não ficam barrados, como noutros países, às portas do hospital público, a culpa será sempre dos professores, dos médicos, dos enfermeiros. Porque há quem jure que somos todos uns malandros e o bom era quem tem tem e quem não tem não tem, paciência. E este medieval pensamento vai ganhando raízes no populismo (supostamente) liberal e concorrencial dos dias que vivemos.
Talvez a expressão não seja a melhor, talvez. Os ingleses têm o public servantque, parece-me, tem uma fonética mais adocicada: servidor público, nós não, temos a palavra funcionário para nos funcionalizar e tirar assim qualquer pretensão de serviço ao outro.
Eu, professor, funcionário público, estou em greve. Admito que sou um felizardo por poder lidar, todos os dias, com jovens espertos que me obrigam a estudar e a andar em frente para os conseguir ensinar e liderar. Isso bastaria para que eu dispensasse o salário ou a carreira, mas não. Egoísta me confesso. Que heresia esta a de fazer uma greve que dói. Eu, um inconsciente adolescente, com licenciatura e um mestrado em Educação estou já, apesar de tão jovem, no 4º escalão de uma profissão que tem 10 escalões. E como só penso em mim, não consigo ver a diáfana possibilidade de chegar ao topo da carreira aos 112 anos de idade e poder gozar ainda, vá lá, uns oito anos de reforma no pico supremo da minha forma intelectual.
A educação é a paixão de todos. Mas uma paixão platónica, assim a modos que. A educação ficaria muito mais tranquila sem os malandros dos professores, admito. Respeitar compromissos e expectativas, motivar os professores é uma maçada e não interessa nada para a qualidade da educação, nada. Aliás há computadores ... e esses não fazem greve!



prédio que se agiganta hoje, visivelmente, nas barbas do vetusto Mosteiro da Costa é um atentado à paisagem e ao cuidado dos vários Planos que Guimarães urdiu pacientemente ao longo de décadas e que lhe deram até hoje um urbanismo aceitável. A celeuma levantada nas redes sociais e nas opiniões a propósito é – como já aconteceu noutras casos – um bom sinal. Uma cidade que não baixa os olhos ao seu destino é uma boa cidade. E continua a ter futuro, independentemente das asneiras que se cometem. Dificultar o erro – chamemos-lhe eufemisticamente assim – é uma tarefa de todos. Em especial dos (mal amados) funcionários públicos. 


Publicado in O Comércio de Guimarães, 4 de julho de 2018
Imagens (de cima para baixo): canadianstage.com+abc.net.au+sciencehistoryinstitute

terça-feira, 5 de junho de 2018

Convicções


“Convicção é a crença de estar, em algum ponto do conhecimento, de posse da verdade absoluta. Esta crença pressupõe, então, que existam verdades absolutas (...).”
Friedrich Nietzshe.Humano, demasiado humano.1878/1886.

Vivemos tempos em que toda a gente tem fortes convicções. Faz parte do pacote do opinante apresentar publicamente as suas inabaláveis convicções. Eu, com a idade, vou-as perdendo. Sem particular pena, diga-se. Em termos ideológicos, na avaliação de personalidades, em questões de ordem moral – apesar da minha forte costela liberal-, tenho hoje mais dúvidas que certezas, e isso não me angustia, pelo contrário dá-me a bovina tranquilidade da não certeza. Viver obcecado nas convicções é meio caminho andando para a imobilidade das trincheiras ... morais, políticas, filosóficas. 



Tenho, mesmo assim, algumas convicções inabaláveis: a exata quantidade de sal grosso que o camarão da costa acabado de cozer deve levar, que os sopradores de folhas deveriam ser proibidos, que nunca dançarei zumba, e que Sócrates é a vergonha do Portugal político não pelo que ele fez, mas pelo que se calou enquanto ele o fazia.
E mesmo tendo em conta que as convicções me irritam – ou talvez por isso – deixo mais algumas...



Isto não está nada bem. Não me lembro das grandes potências mundiais terem dois loucos – simultaneamente - ao leme. Para um Reagan existiu um sensato Gorbatchev, para um Ieltsin existiu um comunicativo Clinton. Agora para o fanfarrão Trump existe outro fanfarrão: Putin e em tronco nu. Até o presidente da fechada China parece um senhor ao lado destas peças. Era aqui que a Europa deveria entrar, como garante de democracia e sensatez. E há gente boa a liderar esta Europa que perde dia a dia a sua oportunidade de ser um sólido farol do mundo democrático e económico, porque não se entende enquanto comunidade, porque o populismo e o separatismo vão consumindo a Espanha, a Itália, a Bélgica, o Reino Unido que se apartou, porque o populismo, a censura e a intolerância vão moldando a Polónia, a Hungria. Quando o mundo mais precisava de nós não estamos prontos, estamos com as calças na mão e isso é uma pena para a Europa e para o Mundo. 




Estou convicto aliás que o populismo é a maior das pragas atuais que se agiganta hoje devido à facilidade com que a mentira é divulgada diariamente nas redes sociais, ao desinteresse generalizado das populações pela imprensa e à facilidade com que se geram convicções. Aliás o populismo é um fazedor nato de convicções de pacotilha. Numa entrevista recente Tony Blair refere que o forte fenómeno do populismo se alimenta da raiva das pessoas, sem nunca oferecer soluções para os problemas reais do coletivo. E é isso mesmo: o populismo é um cão raivoso que trinca qualquer um, que mina, que destrói, só porque somos de uma origem diferente, temos um pensamento diverso, no fundo só porque sim, nem que em troca não haja nada, mesmo nada. Só a raiva e o ódio que, diga-se, não nos fazem falta nenhuma.




Valha-nos o mundial de futebol agora para distrair, já que o nosso campeonato é a vergonha que se conhece. A insanidade do Bruno ainda distrai, mas o resto da escandaleira é demasiadamente grotesca para não nos meter nojo, a todos. Os campos vão continuaram inclinados contra o nosso Vitória e os outros como nós, como sempre estiveram aliás. Pelo menos, por aí, não haverá novidade que nos surpreenda.
É por isso sempre refrescante ter na próxima época um treinador como o Luís Castro. Alguém que fala em vez de vociferar, alguém que se apresenta com um trato pouco usual no meio em que se move e que, julgo, percebe de futebol e da sua organização.
Estou com esperança que as coisas corram bem ao nosso Vitória e que, nem que por momentos, consigamos ludibriar todas as armadilhas que nos vão colocar. E se a essa esperança juntarmos a nossa paciência coletiva (aqui já tenho dúvidas...) então estarei convicto que vamos, no Vitória, ser felizes. Como merecemos aliás.

Publicado in O Comércio de Guimarães (6 de junho de 2018)

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Os penetras



“Quando a caravana se pôs em marcha, segui-a até à estrada. (...) Não é todos os dias que aparece nas nossas vidas um elefante.”
José Saramago.A viagem do elefante.2008.




Há histórias que melhoram com o tempo. Muitas das minhas história de juventude, à força de tantas vezes serem contadas e partilhadas, vão ganhando hoje ressonâncias sempre novas. Penso que isso se passará com muitos de nós. Há sempre um pormenor que se acrescenta à história, não sei se por um capricho de memória ou pura e simplesmente pelas nuances que, muitas vezes, a imaginação acrescenta à realidade.
No início dos (gloriosos) anos 80 acontecia – não sei se apenas em Guimarães, mas em Guimarães certamente – o hábito de ir a festas para as quais não se era convidado: uma das coisas mais excitantes que se podia fazer! Foi (para mim) um breve e louco período entre os meus 16 e 18 anos e funcionava por paradoxo: quando alguém nos convidava para uma festa de anos era um desprazer, quando alguém se atrevia a não nos convidar, aí sim, era o desafio pelo qual ansiosamente esperávamos.



Penetrar nas festas não era – apesar daquilo que a idade poderia indiciar – uma aventura sem plano, não. Penetrar significava ter uma estratégia bem delineada e um calendário bem estruturado. Tudo começava pelo bufo. Existia alguém no grupo de amigos que era convidado e que funcionava como Cavalo de Tróia. O pessoal escolhia a hora do assalto e o modus operandi que, geralmente, passava pela boleia de amigos um pouco mais velhos que nós, mas já com carta e carro e a lata suficiente na arte do penetrar. Apesar de tudo entrava-se em bando, pois muitas vezes as coisas podiam correr mal e um grupo ... é sempre um grupo. O bufo era sempre denunciado pois depois do 14º croquete e de 5 cervejas era com ele que desabridamente se socializava. O bufo tinha a festa estragada e os olhares dos convidados inevitavelmente sobre ele, ou alinhava na deriva alcoólica (perdido por cem, pedido por mil) ou então recolhia a um canto sob o peso dos olhares reprovadores.
Lembro-me ter combinado com um grupo de amigos quando estudava no Porto, no meu 12ºano, penetrar numa festa em Vizela de uma rapariga que fazia anos. Ainda hoje me pergunto como era possível combinar alguma coisa à falta de telemóveis, mas combinavam-se coisas. Incrível! Era uma sexta-feira à noite e eu cheguei tarde do Porto e já não apanhei os meus amigos. No tempo em que não havia telemóveis assumiam-se as coisas, não está não está, vamos nós andando. Restava-me apanhar a última camioneta da Transcovizela, caso alguma coisa corresse mal teria que fazer Power Walking no regresso. E lá fui eu. Entrei já os meus amigos penetras e o bufo dançavam num anexo da casa preparado para o efeito. Ela deitou-me um olhar furioso do tipo: outro, quando é que isto vai acabar?E lá fui eu dando uns passos de dança ao som de September dos Earth, Wind and Fire até que um adulto que eu conhecia – e que se divertia com outros adultos numa festa paralela – me resgatou aos croquetes e me pôs a comer e a beber coisas muito mais interessantes do que aquelas que se disponibilizavam no anexo. Ser penetra era também isso, era estar preparado para mudar a agulha se isso nos garantisse maior tempo de permanência na festa para a qual ninguém nos convidou.



Acoisa terminou por aí, 1981, 1982, mas o bichinho ficou. Em Coimbra subi o nível da penetração e fui a dois casamentos sem ser convidado. Num deles de gente que hoje conheço vivamente pelo facto de ter penetrado no seu casamento. Boa gente claro, que quando me veem hoje me chamam de penetra, nem sei bem porquê. Noutro não conhecia ninguém tirando o convidado que me levou. Foi na Mealhada e acabei a festa a dançar com a noiva. Os casamentos tinham o dom de matar o vício de penetrar e (ainda) o de poupar o almoço e jantar de domingo ... e (quem sabe) até mesmo o almoço de segunda feira. Foi durante a segunda intervenção do FMI em Portugal, compreende-se.
Já depois de casado (ainda de fresco) um grupo de amigos meus – que estavam em minha casa – decidiu penetrar numa festa em frente. Eu não fui pois era uma festa dos meus vizinhos e há que pugnar por uma boa vizinhança. No entanto estive solidário e recebi-os condignamente depois da inevitável expulsão, pois já tinham passado mais de dez anos sobre a época áurea dos penetras. E a arte perde-se.




Quando D. Manuel I quis impressionar o papa Leão X enviou uma delegação a Roma, chefiada por Tristão da Cunha, que partiu de Lisboa levando pedras, joias e animais exóticos como elefantes, leopardos, e um rinoceronte que (imaginem lá a desfaçatez do bicho) morreu no trajeto. A delegação chegou a Roma a 12 de março de 1514 e foi recebida uns dias depois pelo Papa que de tão impressionado com o gesto diplomático decretou que os portugueses poderiam entrar em qualquer uma das festas romanas. É o que se diz. Outra versão atira para o séc.XVIII e para os espetáculos organizadas pela embaixada de Portugal em Roma, nas quais os portugueses podiam assistir de borla, bastando para isso que, à entrada, referissem io sono portoghese. A expressão ficou e hoje em Itália fare il portoghese é entrar num sítio para o qual não se pagou, para o qual não se foi convidado. Mas fare il portoghese sendo portoghese é estar num outro nível: a estratosfera da penetração.

Imagens: amici miei (1975) Mario Monicelli, imagens de Rafael e Durer

Publicado in O Comércio de Guimarães, a 9 de maio de 2018

terça-feira, 10 de abril de 2018

Ter a mania

“Cada um de nós inevitável (...)/ Cada um de nós aqui tão divino como qualquer outro.”
Walt Withman. Folhas de ervas.1855.





Maníaco é uma palavra terrível, diabólica direi mesmo. Já mania é uma palavra bonita, curta e elegante. No entanto o maníaco é, literalmente, aquele que tem a mania. Entre o adjetivo e o substantivo existe assim um fosso enorme de significado. Talvez à falta de um adjetivo intermédio e adequado os portugueses inventaram o “ter a mania” quando se referem a indivíduos vaidosos de uma qualquer característica pessoal. O armanso também serviria o propósito, mas nos meus dicionários não existe essa palavra, só mesmo no vocabulário popular nortenho. Em Guimarães certamente pois o armanso sobreviveu até hoje na nossa linguagem particular: o armanso é aquele que se está a armar (em bom).

Voltemos então à palavra mania, uma palavra com uma sonoridade agradável, que se prestava a ser nome de cadela fofinha ou, então, designação de uma dança latino-americana, hoje vou dar um pé de dança, é dia de mania, rumba e mambo, ou até de fruta tropical que combina bem numa salada com maracujá, ananás e ... mania.
No entanto ter a mania é outra coisa. E nada irrita mais do que aturar pessoas que têm a mania.



Ter a mania de que se é bonita ou de que se é bonito é frequente. Irrita um bocadinho, mas não exaspera. Pois, como sabemos, é uma coisa que passa com o tempo e a assunção – pelos outros - desse cinismo pode ser particularmente tranquilizante. Ai tens essa mania? espera uns aninhos e vais ver onde vão parar essas carnes e esses ossos que tu, pobre tonta, julgas hoje poderem escapar à persistente teimosia da gravidade.
Ter a mania de que se é inteligente é bem mais grave. Ora vocês não sabem mas isto é assim, já não irrita, exaspera. Ter a mania de que se é inteligente não é de pessoa inteligente. A inteligência não se propala, descobre-se ... e no fundo a beleza, apesar de característica física, também funciona um pouco assim. Ter a mania de que se é inteligente é, paradoxalmente, a mais estúpida das manias. Só um pascácio (outra interessante palavra que sempre ouvi dos meus amigos da Póvoa de Varzim) se deixa impressionar por aqueles que têm a mania que são inteligentes. O resto da malta fica logo de sobreaviso e quem tem a mania de que é inteligente sai logo a perder.
Ter a mania de que se é rico está, por graça e obra da fiscalidade, a perder força. No tempo em que os impostos eram uma abstração a mania de que se era rico era bem mais frequente. Atualmente a coisa está mais contida. Os carros e as casas ainda são um sinal disso mesmo, mas disfarçam-se mais. Resta-nos o vinho caríssimo a que um pascácio qualquer explica pormenorizadamente o preço e a proveniência, ou o relógio incrustado de pedras que tem os mesmos ponteiros que o nosso e dá exatamente as mesmas horas que a nossa cebola. Este é o mundo das marcas que tanto consome, desde cedo, e escusadamente, os nossos adolescentes.
Já ter a mania de que se é de família está nitidamente a ganhar força, pois a época que vivemos é de intensa normalização e nada poderá ser mais distintivo do que falar das origens. Já que nem todos podemos ser de Bettencourt e Albergaria o ter a mania que se é de família exige, desde logo, um bom sobrenome. Eu, coitado, nem que quisera inventar um passado de família estava tramado: o Costa é como uma âncora que me afunda na cruel realidade da onomástica. O Poeiras e até mesmo o Lobo poderiam, quiçá, fazer-me flutuar no mundo cruel dos apelidos, mas ficaram entalados entre os nomes próprios e a vulgaridade do Costa (valha-me por agora o primeiro-ministro!). Os que têm a mania que são de família adoram falar entre eles. Têm um jargão próprio impermeável aos Costas, aos Silvas, aos Pereiras. E é o que nos vale senão teríamos que gramar umas horas a (ouvirmos) falar das joias da avó Ricardina ou das práticas lá de casa ou das impertinências do pessoal doméstico ou dos cavalos das toiradas ou das quintas ou do Dom Pedro qualquer coisa. 




Quando escrevia mentalmente esta crónica passei por um desses sítios em que - como um jornal de parede – se alinham necrologias. O túnel da Gil Vicente é um dos mais populares e quando passava – escrevendo – dou com uma boa meia dúzia de transeuntes perscrutando novos mortos ou missas de aniversário, ou de mês, ou de sétimo dia. Desviei o olhar não fosse alguém pensar que, também eu quanto eles, tinha (afinal) a mania de estar vivo. Nunca confiando.




Publicado in O Comércio  de Guimarães (11 de abril de 2018)

Imagens de ilustrações de João Abel Manta in Almanaque (1960-1961)

quinta-feira, 15 de março de 2018

Toponímia de género


“(...) as mulheres falam muito/ têm o riso arguto nos lábios acesso pelo anis/ sempre que os homens as desejam/ noite adiante ... calados.”
Al Berto. Filmagens. 1980.




O jornal Público aquando do dia 8 de março publicou um artigo sobre o nome das ruas de Portugal concluindo, sem espanto nosso, que em cada vinte ruas com nome próprio dezassete referem-se a nomes de homens. Percebe-se ainda do artigo que nas ruas com nomes prevalece o factor religioso, mais significativo nas mulheres. É a vida, dir-se-á, apesar dos dias internacionais da mulher que se repetem, como as estações.




Utilizando o mesmo “método científico” da jornalista que escreveu a peça - os códigos postais dos CTT - se bem que de forma certamente mais apressada, reparei que em Guimarães há uma tendência muito maior do que o resto do país para dar nomes de pessoas às ruas. Em vez do terço que a peça refere em que as ruas têm nome de pessoas em Guimarães, nas freguesias centrais, dá-se muitos nomes de pessoas (mais de metade nas freguesias da cidade). No entanto ao nível de mulheres ainda conseguimos ser mais raros que o país: São Sebastião não tem nenhuma, nem santa sequer, São Paio só tem o Largo Condessa do Juncal, ainda por cima quando nós o tratamos por Feira do Pão, e só a Oliveira é generosa (e se aproxima assim da média nacional) com a Mumadona, a senhora Aninhas (travessa e rua), algumas santas e muita realeza (Constança de Noronha, e a família direta do nosso rei: Dona Mafalda, Dona Urraca e Dona Teresa que vai também a Aldão). Creixomil ainda nos traz a Oneca Mendes, a inevitável Senhora da Luz, e a prof.ª Maria Amélia Maia, a Costa vai para as santas e Azurém também, apesar da poética Travessa Rua Inês. No resto do concelho, dominado, e bem, pelos nomes dos lugares, a Florbela Espanca mesmo assim esforça-se (em Gonça, S.Torcato, Fermentões e Serzedelo) mas não chega aos calcanhares de um Camões (Cidade, Brito, Infantas, Lordelo, S.Torcato, Vila Nova de Sande, Sto Estevão de Briteiros e Serzedelo), apesar de ultrapassar o Pessoa (Fermentões, Serzedelo, Sto Estevão). Serzedelo apresenta a mais feminista das toponímias pois, além da poetisa, consagra a Maria da Fonte, a Emília Costa e a Dona Leonor Baião. A Virgínia Moura espreita-nos em Mesão Frio e, claro, em Conde. Mas a verdade é que as mulheres pontuam muito timidamente nas várias freguesias de Guimarães. No entanto a única rua de Gominhães com nome de pessoa tem nome de mulher: rua Adelaide Carvalho!



Gominhães é aliás a freguesia com mais nível. Não está cá preocupada com nomes de pessoas, não vá descobrir-se que afinal o Coronel batia na mulher, que o Arqueólogo era fascista, ou que o Comendador (enfim) havia comprado a comenda, a bom preço, na feira da Vandoma, não. Gominhães é sensata, não vai também em santos apesar do Bom Despacho, prefere coisas simples e facilmente verificáveis como a rua do Alto, a rua do Largo, a rua da Estrada Nova, a rua da Bouça ou a rua do Ribeiro, ou mesmo a rua dos Pinheiros e da Portelinha. Simplifica e dá futuro aos nomes que escolhe. A rua, travessa e largo do Património repartida por Serzedo e Calvos é igualmente um achado e dá, pelo nome, dignidade ao ato toponímico.




Mas Briteiros São Salvador também não brinca em questões de género, para a rua do Lombo tem a rua da Lomba, não vá ninguém ficar chateado na travessa da Arte da mesma freguesia. E na rampa da Preguiceira, em Gandarela, não há lugar à preguiça, é sempre a subir. Pode-se ouvir bossa nova na rua da Bouça Nova em Barco, ou mesmo outro fado na rua da Saudade que pontua em Arosa, Creixomil, Pencelo, Polvoreira, Pevidém e Souto Santa Maria. Estas ruas sim não olham ao género, olham à vida. E celebram-na com gosto: há rua do Bom Viver em S.Faustino, Calvos, Abação, Urgezes e Infantas, há a travessa do Riso em S.Martinho de Candoso, a rua da Prainha em Gondar, e muitas Alegrias (Rendufe, Aldão, Lordelo, Nespereira, Polvoreira, Pencelo, entre outras) e na travessa dos Casais em Atães não entram solteiros. E a rua das Cartas há em Guardizela e Ronfe, com a rua Campo das Cartas em Fermentões, pode ser que tragam novas do Além de Figueiredo, Corvite, Taipas, Vila Nova de Sande. Entre-Latas de Figueiredo e Entre-Paredes em S.Torcato é que não, prefiro a rua Entre-Águas em Longos ou mesmo a bucólica Entre-Vinhas da Abação.

Dar nomes a ruas só é uma maçada se a gente se puser a olhar para as pessoas em vez de olhar para as coisas que as ruas, todas, têm. E para a alma das ruas já agora.


Publicado in O Comércio de Guimarães (14 de março de 2018)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

CONTIGO VITÓRIA SEMPRE NOVO


Sempre me irritou a maneira como algumas pessoas usam as redes sociais: umas vezes “de cima da burra” dando opiniões como se fossem dogmas inquestionáveis, outras vezes “debaixo da burra” atacando tudo e todos, porque ou são uns mamões, ou uns incompetentes, ou uns interesseiros. Outros intervalam o de cima e o debaixo com sabedoria para semear a discórdia tal e qual essa deliciosa personagem da banda desenhada Astérix – o Detritus – que armava a confusão, punha todos uns contra os outros e sorrateiramente saía do local: os mestres da intriga. Eu vou procurar dar a minha opinião sobre o Vitória e o próximo ato eleitoral ao “lado da burra”. Assim o consiga.




O Vitória irrita o futebol nacional, sempre irritou, apesar daqueles que nos passam ocasionalmente a mão pelo pêlo. Num sistema de interesses económicos montado para favorecer o Benfica, o Porto e o Sporting, ter (já que falei do Astérix) uma “aldeia gaulesa” inexpugnável a todos esses interesses é uma realidade que incomoda e irrita os agentes desses mesmos interesses. Os clubes do sistema ainda toleram outros parceiros cujos sócios e simpatizantes têm o clube da terra e torcem também por um deles, não mais. Há coisas que um vitoriano não consegue entender, lembro-me de uma conversa que tive com um taxista madeirense que tinha um pendão do Marítimo no seu táxi, meti conversa com ele sobre o futebol e espantei-me quando percebi que nesse fim de semana ele ia torcer pelo Benfica já que a vitória sobre o Marítimo garantir-lhe-ia o título nacional. Fiz de conta que não ouvi e mudei o rumo da conversa, pois um vitoriano não consegue sequer perceber como funcionam aquelas cabeças. Por outro lado, apesar de haver em Guimarães cada vez menos pessoas a gostarem de um dos três clubes do costume, nós irritamos profundamente esses nossos concidadãos pois não temos a fraqueza deles. Para nós o Vitória é uma identidade, assim como o é o nosso Castelo, a nossa Senhora da Oliveira, a nossa história milenar enquanto brava gente que sonhou um país e que o conquistou e que lhe deu o nome de Portugal. E alguns desses vimaranenses meus conhecidos que têm essa fraqueza reconheci uma subtil satisfação quando descemos de divisão. Pensariam talvez que a gente ia mudar de clube ou ia ter uma paixão bipartida (como se a isso se pudesse chamar paixão) mas obviamente que não, só consegue pensar assim quem não é vimaranense por inteiro. Nem que fossemos até ao regional seríamos vitorianos e se o clube, por qualquer aventura mal calculada, um dia desaparecesse, tenho a profunda convicção que iríamos todos deixar de gostar de futebol. Do nacional pelo menos. É por isso que o nosso desânimo coletivo atual ou - pior - uma eventual divisão profunda entre os associados do Vitória deixaria certamente radiantes os três clubes do costume e os seus mais fiéis apaniguados.



A nossa paixão pelo Vitória – que tanta inveja causa a tanta gente cujos clubes têm melhores resultados desportivos – não cai, claro está, no domínio do comum. Essa é, sempre foi, a natureza da nossa paixão que sempre nos manteve fiéis apenas pelo orgulho de sermos nós próprios independentemente dos títulos. Apesar disso todos deveremos ser capazes da lucidez suficiente para ter a noção de que este clube centenário tem, no mínimo, a obrigação se perpetuar. De zelarmos para que os nossos netos e bisnetos e trinetos tenham outras alegrias (e outras tristezas certamente) que distingam o Vitória, que o engrandeçam e o tornem mais forte e único e identitário como é.
É muito difícil encontrar solução para travar uma camioneta desgovernada por uma ladeira abaixo e o Vitória já foi uma camioneta desgovernada por uma ladeira abaixo e não há muito tempo. Em 2012 o passivo do clube era de 24 milhões de euros hoje, passados 6 anos, é de 9 milhões! E isso é uma obra notável das equipas que estiveram à frente do clube, em particular do presidente da Direção, nestes dois mandatos e que contou com uma voz atenta e construtiva de um Conselho Fiscal que nunca se inibiu de o ser. Ganha jogos esse esforço de gestão? Diretamente é capaz de não os ganhar mas garante o principal: que haja futuro. Desmerecer esse esforço, troçar desse esforço, ou pior, duvidar desse trabalho diligentemente efetuado é falar “de cima da burra” de forma muito pouco responsável. E apesar das direções que passaram pelo Vitória nos dois mandatos anteriores terem todo o mérito nós, os sócios, também tivemos mérito pois aguentamos e apoiamos equipas com jogadores com salários modestíssimos, demos-lhe alma e permitimos que alguns desses bravos rapazes que envergaram a nossa camisola tivessem aqui a oportunidade da sua vida. Fizemo-los jogadores e lucramos, eles cresceram e afirmaram-se aqui e deram ao clube o retorno financeiro que nos ajudou enquanto clube. E o mesmo se passou com o grande treinador que aqui tivemos. Foi a nossa profunda união num momento difícil que nos permitiu não ficar desgovernados, não afundar sob o peso das dívidas em que irresponsavelmente nos mergulharam e, vejam lá, até ganhámos uma Taça de Portugal. Superámos, todos juntos, a humilhação de estarmos nas páginas dos jornais por não ter dinheiro para pagar a jogadores, para pagar a água, para pagar a luz, gozaram connosco como se fossemos um clube de aldeia, irresponsável e não confiável e engoliram o despautério passado pouco tempo. Qualquer dirigente de um clubezeco fazia então gala de nos chamar caloteiros e de nos apoucar pela situação em que estávamos, sem qualquer respeito pelo nosso imenso historial enquanto clube de primeira. Nós fizemos esse esforço comum, mas quem esteve à frente do clube nesses anos de brasa lidou cara a cara com as situações de incumprimento, com a necessidade de arranjar financiamento quando ninguém confiava no nosso clube, dos imensos nãos que receberam, de à noite se deitarem sem resultados visíveis de todo o esforço, de aguentar o escárnio dos outros sem titubear, de conseguir travar por artes mágicas o plano inclinado em que nos encontrávamos. Por mais apaixonados que sejamos convém não esquecer que a camioneta tem travões e que cada um de nós deve dar o seu contributo para que o grande coletivo que somos não perca nunca os travões. Como manifestamente há pouco tempo os perdeu e como pode, se formos na conversa dos Detritus, voltar a acontecer.



Os processos democráticos podem ter muitos defeitos, o principal é o de obrigar quem nos governa decidir não em função do que está certo, mas em função do que dá certo eleitoralmente. Vemos isto na política, vemos isso também no futebol. Mas os processos democráticos são aquilo que de mais civilizado existe. É dar ao coletivo a voz e a possibilidade de escolha em que cada um é cada um e tem o seu voto como a sua palavra mais imediata. O facto de aparecer uma lista concorrente à atual direção é de saudar pela disponibilidade de alguns vitorianos em procurarem dar o seu contributo para o nosso clube. De algumas pessoas que nela conheço tenho a melhor das impressões pessoais, algumas mesmo amizade, independente do juízo que delas faça sobre a capacidade de gerir um clube como o nosso. É sempre bom haver um contraponto, uma visão diferente da atual. Mas os processos democráticos exacerbam posições e tornam emotivo aquilo que deveria ser um exercício de sensatez. Não posso deixar de lamentar que, além da verborreia louca que sobre estas eleições circula, o candidato do movimento Novo Vitória atire em todas as direções sobre pessoas que eu conheço e cuja honorabilidade e dedicação ao Vitória é inatacável. E como os conheço posso, sem reservas, sobre eles falar. Dizer-se que Isidro Lobo não devia conduzir o processo eleitoral é venenoso e injusto (ele assumiu que não o deveria fazer sem ter que o fazer, pois só com uma tremenda má-fé é que alguém poderia duvidar da sua isenção no ato eleitoral), ou que José João Torrinha não deveria declarar o seu apoio a uma das candidaturas (ele é vitoriano muito antes de ser presidente da Assembleia Municipal e certamente antes de ter filiações partidárias, tentar coartar a opinião desse vitoriano é descabido e tonto), ou ver fotografias de amigos meus que sempre colaboraram no Vitória de forma genuína e graciosa aparecerem em montagens divulgadas nas redes sociais como se tivessem cometido crimes por terem dedicado tempo ao Vitória é contribuir para perdermos os travões coletivamente. Impedir o sócio e meu amigo Belmiro Jordão de ir para a tribuna presidencial também não me pareceu nada bem e foi uma atitude estúpida e sobretudo escusada. No Vitória não falta gente sem travões, faz parte do pack ser vitoriano, mas importa sobretudo que as candidaturas e os candidatos não deem exemplos disso mesmo.
Nestas alturas há a popularucha tendência de medir o vitorianismo pelo número de sócio. Esse é um dos absurdos propalados em altura de eleições. Eu, por exemplo, não me acho mais vitoriano do que as minhas filhas nem do que os meus alunos. Pelo contrário muitas vezes vejo neles aquela paixão incontrolável e desmedida que cria, como em mim criou, as raízes de uma identidade forte como a nossa. Ataca-se o atual presidente do Vitória por isso mesmo, por não gritar, por não ter um número de sócio mais baixo, por não ser tão apaixonado como os adeptos nas bancadas. E ainda bem. Eu acho que o papel que o papel do presidente não é o nosso papel. Um presidente precisa de ser frio para não desesperar nos momentos desesperados pelos quais passamos, precisa de ser calculista e hábil para sobreviver num sistema montado para que só três clubes possam ganhar, precisa de ser paciente para levar uma estratégia de sustentabilidade a médio e longo prazo. Um presidente de um clube como o nosso precisa acima de tudo de saber gerir e ter a tarimba para, como Indiana Jones, contornar as víboras que nos ameaçam constantemente. E isso ele, em minha opinião, tem.



Eu tinha um trauma futebolístico de infância e que era, como não poderia deixar de ser, uma derrota com o Braga por 0-4 no nosso estádio há cerca de quarenta anos atrás para a Taça de Portugal. Lembro-me de ser miúdo e estar enregelado até aos ossos na bancada lateral pois os guarda-chuvas dos homens faziam com que a chuva pingasse por mim abaixo imóvel perante aquela humilhação, chorei depois em casa enquanto me secavam o corpo na impossibilidade de me secarem a alma. Penso que foi nessa altura que entrei para sócio pois apesar de ser vitoriano desde que me conheço fiz parte – como muitos rapazes da minha geração – daqueles que quando o pai não tinha oportunidade ou a pachorra para o levar ao futebol iam para o estádio à espera que um “tio” nos pusesse a mão no ombro para entrarmos sob o olhar complacente dos porteiros. Nunca fiquei cá fora, se ninguém me viesse buscar ou faltasse ao combinado eu ia para a porta e entrava. No último jogo no nosso estádio perdi finalmente esse trauma. Temos que ver as coisas sempre pelo lado positivo e sempre convencidos que um vitoriano a tudo resiste. As dificuldades tornam-nos, ao contrário de outros, mais fortes.



Há um aforismo com o qual eu simpatizo e que diz que “não se deve atirar fora o bebé com a água do banho”. E é isso que eu pretendo fazer no dia 24 de março ao confiar novamente na atual equipa diretiva.
Se o Vitória foi bem conduzido nestes seis anos do ponto de vista financeiro, poderia eventualmente ter sido melhor conduzido do ponto de vista desportivo, apesar de – não esqueçamos - termos conseguido o primeiro grande título do clube na sua longa história; mas só se consegue atingir o segundo objetivo depois de atingido o primeiro. Estou convencido que a atual direção tem condições para prosseguir para o segundo objetivo de uma forma mais sustentada. No entanto é preciso pensar muito bem nos passos a dar, por isso vou dar não uma de “treinador de bancada” mas uma de “presidente de bancada”.
Não vou, já se percebeu, no cântico da Champions League, preferia antes ir numa simples balada de projeto. As pessoas que têm dado o seu melhor pelo Vitória e que aguentam (com uma inacreditável resiliência) serem chamados de todos os nomes possíveis e imaginados por pessoas que não têm o mínimo de decência pessoal ou empatia, e não conseguem ver os inúmeros obstáculos que um clube com as características do nosso sempre encontra, precisam a meu ver de uma estrutura de futebol profissional que tenha um conjunto de pessoas competentes e experientes que trabalhem dia a dia por um objetivo ambicioso mas, sobretudo, exequível, para além naturalmente das que já existem. A maioria dos vitorianos gosta de um futebol bonito e de ataque, a maioria dos vitorianos quer acabar com estas oscilações classificativas e afirmarmo-nos como o quarto clube mais forte (apesar de sabermos que existem outros com as mesmas ambições), a maioria dos vitorianos não gosta muito de jogadores emprestados (e esta direção fez este ano um esforço enorme nesse sentido, apesar de desportivamente não ter compensado não quer dizer que a política seja errada), a maioria dos vitorianos gosta de profissionais briosos. Tendo em conta estas premissas temos de trabalhar sobre isso mesmo na escolha de um treinador que tenha capacidade para levar a bom porto esses objetivos e que aguente estoicamente a má disposição crónica de alguns associados (lembro-me perfeitamente de o Rui Vitória ter levado com lenços brancos quando as coisas correram menos bem), de ter jogadores que encaixem no modelo de jogo definido e que, muito mais do que o perfil técnico, tenham um perfil psicológico certo para saber jogar no Vitória, para aguentar a pressão, para saber liderar, para não baixar a cabeça quando um bando de energúmenos lhe vandaliza o carro ou lhe chama nomes. E isso não pode ser cada um de nós a definir porque dá mau resultado. Não acredito que a maioria dos vitorianos não tenha apreciado a compra de jogadores que se fizeram nos últimos tempos. O Wakaso, os promissores Sturgeon e Francisco Ramos, a compra definitiva de uma muralha como Pedro Henriques ou de um criativo como o Hurtado, agora o Whelton. No entanto alguém por nós tem de saber se os jogadores encaixam, se têm caráter para resistir, se se consegue arranjar um núcleo de jogadores que sem serem craques saibam ser líderes, saibam transmitir confiança aos outros colegas craques para jogarem. O Vitória tem de saber o que quer para não se transformar num cemitério de jovens talentosos como o Kiko, o Hélder, o João Afonso, o Marcos Valente, que saltam da A para a B, da B para a A, de empréstimo para empréstimo. E para isso é necessário organização e alguém que pense por nós qual o jogador adequado, qual o treinador adequado, se este jogador tem condições para agarrar a oportunidade na equipa principal ou se a sua juventude e inexperiência aconselha a esperar. É esse, creio, o salto que falta dar. O problema desta época não foi o de termos jogadores pouco talentosos (ao contrário de muitos vitorianos eu acho que temos um bom plantel) foi o de não termos um núcleo de jogadores fortes que se impusessem e fossem capazes de construir um balneário forte. Eu acho que se pode construir uma grande equipa à volta de um jogador como por exemplo o André André, não porque ele seja um craque mas sobretudo porque é um jogador inteligente e determinado. E tem de haver uma estrutura profissional a pensar isso: o fulano A é muito bom mas é burro, não serve, o fulano B é habilidoso mas é indisciplinado também não dá, já o jogador C é um rapaz calmo e que se sabe impor e que é capaz de servir para o Vitória. Mesmo nunca havendo certezas há certamente gente que conhece estes meios, os jogadores e os seus perfis. Esse salto pode ser dado e a atual direção tem, parece-me, que potenciar o que alcançou refletindo nas coisas que fizeram para que corresse bem mas, afinal, não correram. Apesar do período eleitoral não ser dado, infelizmente, a grandes reflexões estratégicas os atuais dirigentes devem aprender com os erros e perceber que o sólido trabalho que fizeram nas finanças e na credibilidade do clube pode também ser consolidado plenamente na parte desportiva. Sem a loucura de que vamos conquistar o mundo a partir de Guimarães, mas que, com paciência e método, conseguiremos conquistar o país, como já o fizemos outrora. Não vamos é inchar como o sapo e julgarmos que somos o boi, porque não o somos.



Atrever-me a partilhar uma opinião através de uma rede social em tantas linhas é certamente uma temeridade ingénua. Quando o que está a dar é o insulto curto, ou o insidioso veneno, é possível que o que eu quis dizer se transforme, afinal, numa entediante homilia. É possível. Mas quanto mais não seja estou mais aliviado e a torcer para que este ato eleitoral não dê aos inúmeros adeptos de outros clubes que nos detestam o alento de nos ver divididos, nem às larvares casas do Benfica, ou do Porto, ou do Sporting, a coragem que lhes falta para eclodirem e nos envergonharem. Estou convicto, pelo menos pelas pessoas que conheço, que me vou sentar no estádio, após o ato eleitoral, irmanado como sempre com as pessoas que não partilham atualmente da minha opinião porque somos acima de tudo vitorianos. Recuso-me em atirar para aqui o meu número de sócio exatamente por não me sentir menos sócio do que os que me antecedem na numeração, nem superior em vitorianismo aos que me sobrevêm. Porque no fundo dentro de mim, como em muitos de nós, resiste inamovível a identidade de uma pertença a uma história e cultura comum corporizada no amor ao Vitória, e isso é o mais importante. Porque no fundo em todos nós ainda resiste o rapazinho que ultrapassava a timidez por amor ao seu clube quando dizia “ó senhor importa-se que entre consigo?”.



As imagens utilizadas neste artigo pertencem ao magnífico O DIA V e tem a autoria dos inspirados fotógrafos Miguel Oliveira (preto e branco), Ricardo Leite  e Ricardo Rodrigues (a primeira e a última). A exposição e livro que O DIA V corporizou em 2013 resultaram de uma parceria entre a  Muralha, o Cineclube e o Conselho Vitoriano, um projeto inesquecível no qual tive grato privilégio  de o pensar e coordenar.