quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A vida sem direção assistida



“… os pobres sonham em ter o suficiente para comer e ficar parecidos com os ricos. E os ricos o que é que sonham? Como perder peso e ficar parecidos com os pobres”
Aravinda Adiga. O tigre branco. 2008.

O meu carro brindou-me, a passada semana, com um problema que me deixou apeado nas situações mais inoportunas. O terror dos carros modernos são os problemas elétricos. E lá vão eles obedientes e silenciosos ao rastreio por computador. Se o computador acusa a maleita é tudo rápido e eficiente, se assim não acontece é ver os mecânicos impotentes tentando adivinhar o que se passa para além da informação digital debitada na célula central. Olhando absortos para os componentes do veículo como olhariam para a carcaça de um ser alienígena que caísse, surpreendente, do céu.
Já não existem mecânicos como dantes. Já não existem homens pintados a negro pela viscosidade dos óleos e fluidos dos carros, com panos imundos pendendo dos macacões igualmente sujos como a pele. Esse quadro é de um tempo que se foi. O raciocínio apurado dos mecânicos, os seus sentidos alerta para detetar um ruído ou uma faísca despropositada, deixaram de fazer sentido pois tudo hoje no mundo da mecânica é asséptico e depende de ligações estudadas entre os componentes do carro e um computador que diz, quando diz, o que está a funcionar mal. A avaria não se deteta pelos sentidos, nem se adivinha, imprime-se em papel.

Voltei por necessidade a um carro com “ar” (poético propósito este!). E “puxei o ar” ao carro, arrancando-o à imobilidade e ele roncou de prazer e encheu de gasolina os meus pulmões. Voltei a rodar o volante com muita força como se conduzisse um barco, ou pelo menos a ideia que eu faço do que seja operar o leme de um barco. Nos carros antigos por mais pequenos que sejam, e este era-o, tudo é duro, másculo, vibrante, muito mais próximo da condução de um animal, ou pelo menos da ideia que eu faço do que será conduzir um animal. A marcha no carro que usei para substituir o meu é mais lenta e nervosa e as curvas “desfazem-se” mesmo, tal a força utilizada para as “fazer”. O paralelo comunicou-me diretamente com os ossos e a condução passou a ser um exercício físico, musculado e ostensivo como se operasse uma pandeireta gigante, ou pelo menos a ideia que eu faço do que será tirar som de uma pandeireta gigantesca.




Quando o meu carro regressou, envergonhado e cabisbaixo, de mais uma operação electrónica eu já não o sabia conduzir tão bem. Pareceu-me estranho e desajustado, grande e tão leve que dei por mim a exagerar nas curvas, tentava “desfazê-las” quando a direção assistida, agora de volta, apenas queria que eu as contornasse, suavemente. Havia-me habituado, afinal, e mais decisivamente do que eu pensara, ao desconforto.

Perdemos, por vezes, na vida a direção assistida. Por mais sólido que nos pareça o carro em que caminhamos pelo tempo adentro há sempre qualquer coisa, inesperada, à nossa espera. Não devemos, nunca, viver no terror do inesperado, mas deveremos, humildes, viver na incerteza do possível. É mais cómodo e avisado.





Ao que parece o meu carro não sofria afinal de nenhuma impossibilidade electrónica profunda. Oxalá tudo se tenha resumido, como me disseram, a um fio mal conetado com o motor de arranque. Uma avaria simples, prosaica e entendível, até por mim, mas que escapou impune ao software da viatura. Quando o carro, ou a vida, pára ao peso de um fio lasso tudo é, confortavelmente, mais simples e entendível. É só ligar.


Imagens_Ladrões de bicicletas___Vittorio De Sica_1948



Publicado in Comércio de Guimarães. 30.10.13.

domingo, 27 de outubro de 2013

Cercado


Fotos: Marca


Iniesta é um excecional jogador de futebol, ontem no clássico com o Real Madrid em Camp Nou (2-1 para o Barça) tornou a sê-lo, muito mais em jogo que Messi ou Xavi.

As fotos são a prova plástica do terror e atenção dos adversários quando o mago pega na bola: o seu escudo invisível contra o mundo.

Iniesta é jogador do Barcelona desde os doze anos.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O dia de anos







“(…) Ele deixará a tabuleta e eu deixarei os versos/ A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também/ Depois a certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,/ E a língua em que foram escritos os versos./ Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. (…) ”
Álvaro de Campos. Tabacaria. 1928.



Escrevo este artigo no meu dia de anos. Na quinta-feira que precedeu a publicação desta crónica. E sinto-me ligeiramente confortado por, no dia de anos, ter tempo e disposição para falar do meu dia de anos.

Sinto, talvez desde que completei 30 anos, uma certa surpresa pela quantidade de anos que cada meu aniversário traz. Trinta e quatro, meu deus, trinta e nove, já (?), quarenta e três, não é possível, e por aí adiante até aos quarenta e nove. E recordo hoje com saudade a surpresa numérica dos aniversários anteriores, desejo-a de forma tonta e irresponsável. A angústia do tempo dá à barriga um friozinho de aflição. Molda-a ao susto na cadência dos aniversários. No entanto isso é bom: significa que podemos sentir. Haverá um dia em que isso não acontecerá e isso é que será realmente mau. Apesar de “em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente/ Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas (...)”. Mas não serei eu e isso é o bastante para ser, no mínimo, inoportuno.

Apesar de tudo o que possa incomodar na passagem dos anos continuo com o desejo infantil de os comemorar. Através de uma histriónica festa,  de um jantar mais íntimo, de uma conversa mais alargada, tudo deverá ser uma bom meio de enformar o pretexto que os aniversários nos oferecem. Agora que os aprendizes de Lutero que nos governam já arrumaram com uma data de feriados que comemoravam datas importantes como a implantação da República e a restauração da nossa independência, é bom termos um feriado só para nós. Mesmo trabalhando nesse dia podemos cortar a fita do monumento que de nós fizemos e pôr a nossa banda musical interior a tocar a nossa marcha, sincopada e ordenadamente. Merecemos um feriado pessoal por ano. É uma boa cadência. Desde que nasci a Terra deu já 49 voltas ao Sol. Nada mau. Se vivesse em Júpiter ter-me-ia comemorado apenas 4 vezes, em Saturno estaria apenas a caminho do segundo aniversário o que seria, notoriamente, um tremendo aborrecimento.



A expressão “fazer anos” é deliciosa. Dá-nos o controlo absurdo do tempo. “Fazer” como se o fizéssemos, como se trabalhássemos a idade que temos, como se a construíssemos. A ilusão de “fazer” é por isso boa e o melhor é persistir nesse erro. “Fazer anos” como se faz um filho, ou um cabrito assado, ou uma crónica, é suficientemente reconfortante para não deixar de se fazer. Daí que a opressão numérica da idade, as falhas visíveis que o tempo cava no corpo, o facto de nos lembrarmos de coisas que outros já sabem apenas através dos livros de História, não é algo que nos deva preocupar pois ainda nos estamos a “fazer” e esse é um trabalho que não pode ficar incompleto e que exige a nossa mais absoluta dedicação, sem angústias. A ilusão de nós fazermos o tempo e não deste nos fazer a nós é algo que não podemos desperdiçar, já que tudo é relativo. Até o tempo o é.

Espero vir a ter saudades de quando fiz quarenta e nove anos e pensar, como um fraco, de como era feliz então.
No dia de hoje, que não é efetivamente o hoje de quem me lê, antecipo apenas em alguns anos essa ideia de felicidade. Transporto-a para hoje, recusando-me a espartilhá-la em duodécimos de felicidade futura.
Parabéns para quem hoje faz anos. Seja qual for o hoje.



Publicado in Comércio de Guimarães