quarta-feira, 24 de maio de 2017

Fintar com a alma


“Vou sem desassossego ao que vier/ Como o jogador de cartas/ Que por tanto partir e bater/ Já conhece de cor o acaso.”
João Almeida. Hotel Zurique. 2017.

Como na encantadora música nós, os vitorianos, estamos sempre dispostos a amar por dois. Amamos por nós próprios e pelo clube. Mesmo que o Vitória nos arrelie nós continuamos ali, fiéis como sempre fomos. Só assim se compreende a resiliência desta paixão clubística. Se o Porto, ou o Benfica, ou o Sporting passassem pelo que nós passamos bater-se-iam certamente com o Cova da Piedade no número de adeptos e no fervor clubístico. Nós não queremos – qual emplastro - meter a cabecinha só para aparecer, só para fazer parte daquilo que ganha. Preferimos o ser ao parecer. Os outros fintam com os pés, nós com a alma. E a coisa transmite-se na genética como as coisas boas.








A percentagem de jovens vitorianos nascidos em Guimarães é, atualmente, avassaladora. E isso é um trabalho de educação metódica e notável que várias gerações diligentemente efetuaram e que perdura no tempo. Ou seja, em Guimarães, é natural comportarmo-nos como europeus que somos e, assim, as pessoas de uma terra são pelo clube que representa a sua origem como, aliás, acontece no mundo civilizado.
Apoiar o Vitória é tão importante como saber quem é a D. Teresa ou a Mumadona, é educação e cultura. O facto de não termos sucumbido ao facilitismo pimba fez com que o Vitória se implantasse granítico nos jovens. Pois o futebol não se resume ao prazer de ganhar, mas sobretudo à honra em pertencer. E perceber isso é perceber a essência daquilo que torna o futebol tão apaixonante. O que não é nada do que se passa hoje em Portugal, onde continuamos submersos por um mediático e enjoativo ódio a três que, diga-se, não tem jeito nenhum!

A nossa paixão forjou-se mais na densidade do sofrimento e da injustiça do que na inconsequência festiva da celebração. Por isso nunca precisámos de títulos para sermos indefectíveis do clube. Por isso sobrevivemos estoicamente a impensáveis derrocadas, chateados, tristes, mas irmanados em algo maior. Aguentamos porque o que é nosso é nosso. E, sabemos, a paixão pressupõe sofrimento, no futebol ou na vida.



O Vitória está para além do imediato, do descritível, é mais poesia que prosa. Ser Vitória não se forjou na cobardia de adoptar um amor ganhador. O amor não é aritmética, quem assim pensa ou não percebe nada de matemática ou não percebe nada de amor. O Vitória é o mito de Sísifo:  a pedra que carregamos com esforço até ao cume para a ver rolar novamente para baixo. E recomeçar sempre com uma convicção que se rejuvenesce no esforço coletivo. Ser Vitória é uma tarefa que por tão metódica se transformou em vício sem solução.

E o nosso estádio sempre foi um estádio com gente. Gente que aplaude, gente que apupa, mas gente, sempre gente a fazer de conta, naquela hora e meia, que o futebol é a coisa mais importante do mundo, mesmo não o sendo. Ver o nosso estádio assim pintado de pessoas com a precisão, a cor e o volume de um quadro pontilhista dá o prazer de uma pertença, de sentir uma juventude que não se cansa de o ser. Uma juventude que percebeu a paixão dos pais e dos amigos, o orgulho nas origens, e que dá uma força homérica para rolarmos em conjunto a pedra até ao cimo e, se calhar, um dia, até ao equilíbrio que a mitologia grega não previu. Enquanto isso o pai segura o miudito pelas pernas e ele canta Ó Vitória e olha o pai, de soslaio, gratificado por aquela comunhão particular.

Estabilidade é o que é preciso ... para a pedra e para o clube. Mais do que títulos precisamos de saber que a paixão pode continuar. É isso o que eu espero dos dirigentes e do bom trabalho que têm feito em prol de uma causa e de um amor comum.




Uma devoção assim tão inevitável não precisa de trocas. Ganhar é bom e gratificante mas episódico, pois este é um amor que não tem outro propósito que não o de existir, como todos os grandes amores. Vamos lá então para o Jamor sem desassossego como no poema. Nós: os que conhecem já de cor o acaso.


Fotografias (de cima para baixo) de Miguel Oliveira, Ricardo Rodrigues e Ricardo Leite para a exposição O DIA V (2014)

Publicado in O Comércio de Guimarães (24.05.17)