quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A eternidade é horizontal



“Que farão as pessoas importantes num cemitério? Dormem, dormem como os outros, tal e qual as pessoas que não valeram nada. E todos na mesma posição: na horizontal. A eternidade é horizontal.”
Antonio Tabucchi. O tempo envelhece depressa. 2009.

O título que roubei a Tabucchi, uma das frases do conto “Os mortos à mesa”, pleno de um humor cínico e corrosivo, é hoje um pretexto para falar de coisas verticais, de realidades e decisões que têm a continuidade e consequência, que se alongam no tempo, que contam, que moldam o futuro na direção e na extensão.






Verticais são os rankings das escolas e horizontais as conclusões que deles, muitas vezes, se extraem.
Os dados que há cerca de uma década são públicos (e ainda bem que assim é) servem muitas vezes para distorcer a realidade. Meter no mesmo saco escolas com 10 exames, 20 exames, ou mesmo 100 exames, com escolas que têm mais de 500 exames é querer comparar a culinária caseira com a culinária de regimento. Em Guimarães houve apenas 3 escolas com mais de quinhentos exames: a Martins Sarmento (711), a Secundária das Taipas (734) e a Francisco de Holanda (1048), esta última num grupo restrito de uma dezena de escolas (públicas e privadas) com mais de 1000 exames realizados. Só estas seriam, em bom rigor, comparáveis (todas elas, diga-se, com uma média de exames superior à média nacional). Comparar estas escolas que têm cerca de 30 alunos por turma, com escolas com um terço destes alunos por turma, e às vezes menos, é um exercício fraudulento. Os 154 milhões de euros que vão servir este ano para financiar as escolas privadas não seriam melhor aplicados a melhorar a qualidade do ensino público? Mas, de forma tonta, não é isso que acontece. Pelo contrário. O atual Ministro da Educação, do qual  tinha excelente opinião, prepara-se para atacar com o cheque-ensino, uma forma velada de querer acabar de destruir o que ainda não foi destruído na qualidade da escola pública. O seu fundamentalismo, vindo dum homem que há décadas defendia pela esquerda ideias bem diferentes, faz-me lembrar o radicalismo dos ex-fumadores para com aqueles que atualmente fumam. Esses são sempre os piores, como sabemos.
E a leitura simplista dos rankings serve esse propósito: as escolas privadas tiram melhores resultados, diz-se, de forma bovina mas, frequentemente, propositada e malévola. Curioso é no entanto que tanto apregoado rigor não leve o Ministério a querer saber, como o quis há um ano a Universidade do Porto, como se comportam os alunos na Universidade e que é a melhor forma de aferir a qualidade do ensino secundário. Nesse estudo aos alunos das suas faculdades os resultados eram claros: das dez escolas secundárias que melhores alunos deram à Universidade, sete delas eram públicas! E uma dessas era a nossa Escola Secundária Francisco de Holanda - que este ano continuou a ser a secundária do concelho com melhores resultados - e que teve 8% dos alunos que entraram dentro dos 10% de melhores alunos daquela instituição de ensino superior.




Dolorosamente vertical e a pique é perceber que Portugal está a envelhecer desesperadamente e hoje é um dos países onde menos se nasce. 2013 prepara-se para ser mais um ano catastrófico com cerca de 8 nascimentos por 1000 habitantes, um dos piores registos da união europeia (o penúltimo) e cerca de metade do nosso registo de há 30 anos atrás.
Não ter filhos e destruir a educação é o que nos vai pôr, rapidamente, e se nada for feito para mudar este estado de coisas, na horizontal. O défice público é uma brincadeira quando comparado com esta realidade. O nosso futuro faz-se com portugueses e com a capacidade em lhes garantir a melhor educação. É esse o futuro desejado: na vertical, mas para cima.




V é, a outro nível, o DIA em exposição no Guimarães Shopping. Trazer para o espaço comercial público a arte fotográfica de Miguel Oliveira, Ricardo Leite e Ricardo Rodrigues, a propósito da paixão vitoriana, foi um desafio difícil que a Muralha, o Cineclube, o Conselho Vitoriano e o Guimarãeshopping enfrentaram. E com gosto e sucesso, digo-o eu. Suspeitíssimo. A visitar até 12 de janeiro, com livro à venda na FNAC.


Fotos: Alexandre Coelho Lima


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Ocupe o seu lugar



A iniciativa "ocupe o seu lugar" que hoje decorreu em Lisboa, no largo do Saldanha, é um grito de revolta pelo contínuo desrespeito de alguns automobilistas pelos lugares de estacionamento para deficientes.
Não é preciso ir a Lisboa para verificar esta triste realidade. Aqui em Guimarães, especialmente nas grandes superfícies, é absolutamente comum verificar a apetência de alguns "espertos" por esta prática. A falta de empatia de algumas pessoas deveria ser duramente punida. E este comportamento exigiria essa medida. Pois parece não haver outra solução para tamanha falta de civilidade.

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domingo, 10 de novembro de 2013

Cunhal artista plástico



Não tenho particular admiração por Álvaro Cunhal, basicamente porque não o tenho por ninguém que tenha defendido regimes totalitários e a opressão, como ele próprio gostava de dizer, do "homem pelo homem". O valor da liberdade é, para mim, um valor fundamental.



A história de Álvaro Cunhal é, no entanto, uma grande história de vida e a biografia de Pacheco Pereira - os 3 volumes até agora editados - aproximou-me do conhecimento da extraordinária coragem e determinação deste homem.


Em termos artísticos os seus desenhos da prisão são obras notáveis e o seu traço é algo que me encanta a ponto de ter duas das reproduções do Avante em minha casa, com a dignidade que merecem. Pelo menos assim o julgo.


A extraordinária força do seu traço é, provavelmente, uma das características da sua personalidade. É um enorme prazer ver e rever estes desenhos.


Imagens do site do PCP


O homem



José Albino Silva Peneda, atual presidente do Conselho Económico e Social, é um homem de uma extraordinária capacidade política que não tem, em minha opinião, a visibilidade que mereceria ter. Silva Peneda plana, bem alto, acima dos tecnocratas que servem Governo e a oposição. Tem uma capacidade rara de perceber que qualquer política só se faz com as pessoas e um perfil humanista que caracterizou o PPD e o PSD e que agora se vai, de forma assustadoramente galopante, perdendo.
A sua opinião equilibrada e prospetiva sobre a Reforma do Estado, hoje impressa nas páginas do jornal Público, é apenas mais um dos muitos contributos que tem dado à sociedade portuguesa. Que assim continue.




Foto_ Artur Machado

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Santa aspirina


Depois de um jogo de futebol como o de ontem, em que o que correu mal não era difícil de prever que assim acontecesse, era necessário mudar de tática. Fui ver Chano Dominguez com uma Big Band de Colónia ao CCVF. Não me apetecia nada, mas fui. E ainda bem. Foi fantástica a mistura de jazz, flamengo, swing e música latina. Lindo e competente, taticamente perfeito. Sem substituições tontas. Obrigado Chano por me fazeres esquecer os teus conterrâneos ... e os meus.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Benção de outono



Quando o tempo fica triste - como acontece agora - há alguns bons motivos mesmo assim para o apreciar: o cheiro a lenha e a castanhas ... e o sabor do diospiro. Ou se ama ou se detesta. Faço parte do primeiro grupo e tento guardar o prazer do seu sabor exagerando, agora, no seu consumo.




Foto: http://www.secondskinstyling.com