quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ginásios



"Nunca fumei, fiz sempre exercício físico e durmo bem todas as noites" afirma Montgomery. Churchill responde: "Pois eu cá, o meu segredo é que sempre fumei, nunca fiz exercício físico e só durmo bem à tarde".


(Winston Churchill com o Marechal Montgomery em 1945 em www.nam.ac.uk)



Entrei para o ecossistema dos ginásios já bastante tarde na minha vida, por volta dos 40. Entendi mal, durante muito tempo, a expressão “tratar da saúde”. Entendia-a até muito tarde pelo lado irónico e não pelo lado literal. E perante a epifania de entendimento de que “tratar da saúde” era efetivamente cuidar dela e não dar cabo da dita, inscrevi-me então num ginásio.
Poderá parecer, a quem não os frequenta, que há uma certa uniformidade na clientela, mas não há. Um ginásio é um ecossistema de saúde e preocupações com o corpo onde convivem indivíduos completamente diferentes que, com o tempo, se vão agrupando em comunidades distintas. E essa realidade diversa é uma das suas virtudes, pelo menos para mim que gosto de faunas diversas.





A fauna autóctone mais vistosa é a do pessoal dos pesos, e quem não frequenta ginásios tem a errada noção de que o pessoal que está lá dentro pertence todo a essa comunidade. Mas não. Existem mas não dominam, têm aliás uma pequena área de influência. O facto de não serem nómadas confina-os. O pessoal dos pesos é constituído maioritariamente por homens que sonham ganhar a configuração de um armário, outros, mais ambiciosos, a de um guarda-vestidos daqueles antigos com três portas. É pessoal de conversa dirigida para a musculatura. Falam dos seus bíceps e peitorais como se de filhos se tratassem. Encontram-se geralmente, no seu estado nativo, organizados em tribos de gente vermelha e de carótidas salientes. Olham para os outros machos que lhes disputam, ocasionalmente, as máquinas com um profundo desprezo. Movem-se erectos como bonecos das Gualterianas. Muitas vezes deixo-os desviarem-se da máquina para reduzir o peso a 1/4 daquilo que eles testaram previamente. Agora já nem lhes disputo nada, sou um fã de aulas de ginástica. Não gosto de fazer, gosto que me digam o que fazer. Não tenho, a este nível, uma vontade própria muito ginasticada.





O pessoal das aulas constitui uma outra comunidade, à qual pertenço de forma tímida e controlada. A única altura em que verdadeiramente corremos é em direção às aulas, pois o atraso dos alunos que as frequentam é uma característica indelével desta tribo. Têm geralmente professores fantásticos que parecem ter bebido há minutos um litro de café. Nutro por eles uma reverência muito parecida à dos miúdos para com as suas professoras da primária. Admiro-os e acredito em tudo que dizem. São inesgotáveis em energia e paciência, enfrentando com um sorriso as hordas de alunos com a coordenação corporal de uma marioneta.
Como o mundo dos ginásios é mais complexo do que o que parece, temos aulas para tudo. Mais espirituais (yoga, pilates), mais musculadas (body pump, e outras coisas com body), mais amaneiradas (geralmente tudo que tem a ver com dança).
Prefiro geralmente as aulas mais “espirituais”, diz mais comigo. Fujo geralmente de tudo que seja amaneirado,  pois não tenho maneiras.





Mais discreta é a tribo da passadeira. Não gostam de pesos, não estão para suportar aulas, mas caminham até ao infinito sem sair do sítio. Por vezes sentem-se os seus pensamentos acima da música. Ouvem-se no ar os ensimesmamentos, as preocupações, a resolução de questões domésticas e profissionais. São uma fauna que gosta de isolamento porque está contrariada. Estão lá porque tem de ser e quanto mais rapidamente perderem calorias melhor. Têm a convicção forçada dos condenados.

No topo da pirâmide estão os profissionais que fazem de tudo. Passadeira, pesos, aulas. São espécimes absolutamente fundamentais no ecossistema, ligam todas as tribos. Eu, por exemplo, dificilmente sobreviveria sem os seus conselhos e opiniões, sem a precisão suíça dos seus horários. A aprovação deles é fundamental! São a opinião pública dos ginásios e por isso mesmo são temidos pelos profissionais.





O meu corpo é, geralmente, uma maçada. Gostaria de ter um para usar em casa e outro para usar na rua. Como isso não é, infelizmente, possível, dou-lhe uma espanadela ocasional no ginásio. Mas não demais, para não o puir.



Publicado in O Comércio de Guimarães (19.02.14)

Fontos (de cima para baixo): http://yorktown.lohudblogs.com, http://www.california-gym.hr, Sol, lifting weights

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A noite de cristal do disco sound


Em 12 de julho de 1979, ainda no auge da música disco, o DJ Steve Dahl promove uma manifestação contra a música disco no estádio de baseball dos White Sox de Chicago que se revela um autêntico sucesso ... de imensa confusão.





Aproveitando a promoção de bilhetes (98c) dos White Sox contra os Tigers milhares de pessoas acorrem ao estádio para a loucura total: invasão de campo, queima de singles enquanto fumavam marijuana ... no tempo em que fumar era permitido nos estádios.




Steve Dahl de 24 anos havia sido despedido de uma estação radiofónica pois o seu rock deixou de ter espaço e vingou-se de forma poderosa



Steve Dahl de 24 anos havia sido despedido de uma estação radiofónica pois o seu rock deixou de ter espaço e vingou-se de forma poderosa e aproveitou a euforia imprevisível das massas...


Foto: The history rat

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Listas para: PLAY

Everything But The Girl (1996)


Lorde (2013)


Haim (2013)


Lykke Li (2011)



Eleanor Friedberg (2013)



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A vitória das renováveis



Os números da produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis em Portugal tem sido uma das grandes notícias para amenizar o desconforto do mau tempo.

Em 2013 os números já haviam sido muito bons:

58% ENERGIAS RENOVÁVEIS
37% COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS
5% IMPORTAÇÃO


Em janeiro de 2014 os números são impressionantes: 91% da energia elétrica foi produzida por uma via renovável.

Ver notícia do Público
Ver relatório da APREN






Em termos nacionais, segundo a APREN, o aumento de produto de energia elétrica, fundamentalmente pela via hídrica e eólica, permitiu ao país a poupança de cerca de 850 milhões de euros.

Boas notícias por isso.

Há que trabalhar, de futuro do ponto de vista tecnológico, nas possibilidades de armazenamento da energia elétrica que permita uma melhor versatilidade nas eólicas.


Foto_Raquel Esperança (Público)
Gráfico_Público

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os ladrões de corações




Ser vigarista do coração é uma espécie muito própria do género mais alargado dos vigaristas (que tem em Alves dos Reis um notável exemplo), ligando-se por taxonomia à família mais vasta - e pouco recomendável -  dos criminosos.

Ao ler a notícia do Público de hoje não fiquei particularmente espantado pela postura dos acusados:


‹Durante sete anos e três meses, o então foragido à Justiça Lorosa de Matos terá conseguido enganar as duas ex-magistradas do Ministério Público com quem se envolveu, sem que estas tivessem percebido a sua verdadeira identidade. Lorosa de Matos, que foi ouvido nesta quinta-feira no tribunal em Lisboa, garante que as antigas procuradoras nunca fizeram pesquisas por ele, nem lhe entregaram dados confidenciais. “Elas foram sempre iludidas”, defendeu, alegando que a única pessoa que estava a par de todas as identidades falsas seria um amigo que entretanto também se envolveu com uma das ex-magistradas.
(...)
Apesar de continuar a ser ouvido para a semana, Lorosa de Matos tentou justificar que, embora tenham partilhado hotéis, viagens e computadores, as antigas procuradoras nada sabiam. “O falso convencimento delas advém duma grande mentira, uma grande história, porque necessitava dela e pela forma como lhes eram transmitidas as coisas”, disse. E acrescentou: “Se calhar às vezes duvidavam que alguma coisa não batia certo.” Porém, Lorosa de Matos e o amigo tentavam contornar a situação. “Se em algum momento souberam, então enganaram-me bem elas a mim”, afirmou. As ex-magistradas pensariam que se chamava Vasco Chambel e seria inspector da Interpol. Este foi apenas um dos nomes usados, outros foram Eduardo Carqueja e Ricardo Moreira.›


Os vigaristas do coração encarnam normalmente a mentira que engendram. São verdadeiros na mentira que criam, daí serem tão profundamente eficazes. Quando, finalmente descobertos, são confrontados com a verdade, recuperam a ética que (só por momentos, assim o julgam) perderam.




Fotos_Rudolfo Valentino (wikipedia)