sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os ladrões de corações




Ser vigarista do coração é uma espécie muito própria do género mais alargado dos vigaristas (que tem em Alves dos Reis um notável exemplo), ligando-se por taxonomia à família mais vasta - e pouco recomendável -  dos criminosos.

Ao ler a notícia do Público de hoje não fiquei particularmente espantado pela postura dos acusados:


‹Durante sete anos e três meses, o então foragido à Justiça Lorosa de Matos terá conseguido enganar as duas ex-magistradas do Ministério Público com quem se envolveu, sem que estas tivessem percebido a sua verdadeira identidade. Lorosa de Matos, que foi ouvido nesta quinta-feira no tribunal em Lisboa, garante que as antigas procuradoras nunca fizeram pesquisas por ele, nem lhe entregaram dados confidenciais. “Elas foram sempre iludidas”, defendeu, alegando que a única pessoa que estava a par de todas as identidades falsas seria um amigo que entretanto também se envolveu com uma das ex-magistradas.
(...)
Apesar de continuar a ser ouvido para a semana, Lorosa de Matos tentou justificar que, embora tenham partilhado hotéis, viagens e computadores, as antigas procuradoras nada sabiam. “O falso convencimento delas advém duma grande mentira, uma grande história, porque necessitava dela e pela forma como lhes eram transmitidas as coisas”, disse. E acrescentou: “Se calhar às vezes duvidavam que alguma coisa não batia certo.” Porém, Lorosa de Matos e o amigo tentavam contornar a situação. “Se em algum momento souberam, então enganaram-me bem elas a mim”, afirmou. As ex-magistradas pensariam que se chamava Vasco Chambel e seria inspector da Interpol. Este foi apenas um dos nomes usados, outros foram Eduardo Carqueja e Ricardo Moreira.›


Os vigaristas do coração encarnam normalmente a mentira que engendram. São verdadeiros na mentira que criam, daí serem tão profundamente eficazes. Quando, finalmente descobertos, são confrontados com a verdade, recuperam a ética que (só por momentos, assim o julgam) perderam.




Fotos_Rudolfo Valentino (wikipedia)

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