segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Dentro da caixa

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Carnage – o Deus da carnificina – é um filme sobre uma obra de Yasmina Reza que passou por vários palcos antes de chegar ao cinema pela mão de Polansky.

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E em boa hora o realizador o fez juntando dois pares de notáveis atores: Kate Winslet, Jodie Foster, John C.Rilley e  Christoph Waltz (absolutamente notável).

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É um filme interessantíssimo e um retrato inteligente dos pais de hoje.

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sábado, 28 de janeiro de 2012

Paris in the rain

 

 

Meia-noite em Paris é uma espécie de regresso à magia da Rosa Púrpura do Cairo e é absolutamente delicioso por isso. Apesar de uma data de inutilidades que o realizador tem produzido na última década e meia – que se veem mas que não adiantam nem atrasam – ele é absolutamente incontornável a quem gosta do estilo e do humor que lhe faz o estilo.

Woody Allen é uma espécie de amigo que se vai acompanhando. Umas vezes com gozo, outras com desilusão e outras, como esta, com prazer.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A pose

 

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A pose é uma das características humanas que mais me irrita. Poder-se-ia referir a estupidez, a ganância, a inveja ou a falta de educação, mas a pose mexe com os meus nervos mais profundos e tolda-me frequentemente qualquer bom senso que posso ter. Deixa-me a pele eriçada e atiça-me o desprezo.

A pose é uma combinação espúria de arrogância e falta de humildade fraternal absolutamente demolidora. E irrita-me ainda mais quando aquela, no meio da populaça ou numa conversa a dois, obtém os resultados pretendidos. A pose aproxima-nos do mundo animal, aproxima-nos da altivez mesquinha do galo que passeia entre as galinhas de peito feito e dá uma bicada higiénica num ou noutro galináceo mais distraído. A pose é por isso um retrocesso na evolução humana.

Talvez a pose me irrite sobretudo por ser o contrário daquilo que aprecio nas pessoas, daquilo que, julgo, lhes dá charme. A timidez é uma dessas qualidades que aprecio quando conheço alguém. Ser capaz de ter uma atitude contida, humilde e atenta é um sinal de inteligência e de respeito pelos outros.

A pose continua a existir pois dá, em alguns casos, efeito. Precisaremos ainda de evoluir mais um bocadinho para condenar a pose e, sobretudo, porque ela merece, para a gozar.

O pessoal da pose chega atrasado, sempre. Chegar atrasado faz parte da pose. Cumprir o horário combinado, nem pensar, isso é para os outros, é demasiado respeitoso para ser levado a sério.

O pessoal da pose não olha nos olhos, arranja sempre maneira de olhar enviesadamente, de preferência por cima.

O pessoal da pose não ri. Quem é da pose poderá sorrir com tiques de esgar, mas rir do fundo da alma nunca. Isso descompõe e a gargalhada torna humano quem a constrói.

A pose é mais masculina que feminina, pois para manter por longos períodos uma pose à altura é preciso não pensar em nada … e as mulheres têm uma reduzida capacidade de abstração, são demasiadamente cheias para ficarem vazias de repente. Aqui as vazias levam vantagem.

A pose não é aristocrática é ciática: faz doer o bom senso. A pose é uma treta (ainda) não desmascarada.

 

Publicado in Comércio de Guimarães 25.01.12

Foto in http://www.shaolintiger.com

Os animais “meus amigos”

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Sinto sempre um arrepio na espinha quando alguém profere a conhecida frase “quem não gosta de animais não pode gostar de pessoas”. Sinto-me sempre atingido e culpado, como se quem a profere soubesse perscrutar no fundo de mim a enorme distância que de pequeno sempre senti com os animais.

Não é que lhes faça mal – penso que além de moscas ou formigas nunca matei nenhum animal – mas a generalidade dos animais são para mim um incómodo. À exceção dos peixes de aquário de quem sempre gostei, mas que acabaram inevitavelmente por morrer por falta de cuidado meu – e eu a dizer que não matei…- os animais acabam por exigir de mim uma pachorra que para eles não tenho e que guardei para assuntos mais sérios.

Até poderia gostar mais de animais, nomeadamente cães, se eles se portassem como 1% dos cães que conheço. Sossegados e dóceis, sentados ao lado do dono como cães de porcelana. Mas não, o cão é um bicho demasiado vivo, ou late, ou morde, ou dá cabo do tapete. E essa falta de neutralidade incomoda-me. E quando o bicho é mais feroz, como aqueles que obrigam os donos a fazerem ski terrestre pela trela, sente sempre que eu sou uma vítima em potência. E rosnam-me apesar da pose que julgo fazer mas que não os engana. É a brincar diz o dono enquanto a besta me mostra os dentes. É a brincar é, penso eu enquanto vejo a trela a esticar. São todos uns brincalhões mesmo quando espalham as fezes pelos passeios e jardins dos outros. Eu é que não os entendo.

Pudera eu ter uma relação mais national geographic com a bicharada, mas não dá. Aos sete ou oito anos tive de fugir de uma vaca. Vejam lá: uma vaca daquelas que sorriu ao Presidente da República. Como posso eu confiar afinal nos ditados e dogmas do mundo animal?

Só longe. E mesmo assim à cautela.

 

 

in O Comércio de Guimarães 25.01.12

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O regresso

 

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O feliz regresso do Cineclube de Guimarães ao S.Mamede coincidiu com o regresso de Nanni Moretti aos excelentes filmes.

Temos Papa (2011) só não é, para mim, uma obra maior como Palombella Rossa (1989) ou Querido Diário (1993), pois Moretti não lhe soube dar um grand finale como a obra merecia. Do resto: perfeito.

 

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O states … de Coimbra

 

Foi com enorme surpresa que li hoje que o lendário dj do States de Coimbra, António Cunha, tinha morrido.

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O States foi uma discoteca fundamental em Coimbra que apanhei – vibrante e de um inquestionável bom gosto musical – na segunda metade dos anos 80.

A alma do espaço era o António Cunha e o gosto que tinha em correr o “risco” – que ele sabia não ser risco nenhum - de passar, dia após dia, boa música no espaço que liderou. Talking Heads, Cure, Primal Scream, eram, como eu, clientes habituais do espaço.

Uma pena a morte do António Cunha.

 

Dada a falta de imagens do States fica um vídeo dos Tiguana Blues que mostra o espaço, muito semelhante ao que era.

sábado, 14 de janeiro de 2012

O segundo

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Entalado entre dois notáveis presidentes dos EUA (George Washington, o 1º, e Thomas Jefferson, o 3º), John Adams sempre foi uma espécie de patinho feio, ou pelo menos ignorado, que a história comum nunca relevou.

 

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Tom Hooper (realizador do Discurso do Rei) realizou uma série para a HBO - que descobri no TV Cine Séries – em 2008, que me revelou uma história interessantíssima do nascimento dos EUA. John Adams é uma belíssima série (ficará por uma temporada!) servida por dois magníficos atores: Paul Giamatti (John Adams) e a fantástica Laura Linney (Abigail Adams).

A ver e a rever.

Natália

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Bottelho in Wiki

 

Lembrou-me o Nuno Markl de um episódio magnífico na Assembleia da República, em 1982, que envolveu João Morgado do CDS – para quem o ato sexual era exclusivamente para procriar – e a deputada Natália Correia (eleita nesse mandato nas listas do PPD) sobre o aborto.

A esse propósito Natália Correia escreve o humorado poema:

 

"Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca;
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado."

 

 

Que saudades de uma inteligência assim.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Enquanto o pau vai e vem

 

O problema nuclear do momento – a eventual capacidade do Irão desenvolver armas nucleares – sofreu mais um revés com o assassinato de um dos seus cientistas nucleares.

Os líderes iranianos não têm qualquer dúvida em apontar os “imperialistas” e os “sionistas” como os autores do crime.

Este não é o primeiro assassinato do género.

 

Trabalhar menos

 

O jornal i refere hoje a decisão do primeiro-ministro britânico, o conservador Edward Heath, de reduzir no ano de 1974 para três dias a semana de trabalho na Grã-Bretanha.

 

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Os  motivos foram dois: a guerra de Yum Kippur entre Israel e alguns países árabes, o que levou a um aumento sem precedentes dos preços do petróleo, e as greves dos mineiros britânicos o que pôs a Grã-Bretanha à beira da rutura energética.

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Por isso Edward Heath decidiu que as empresas trabalhariam apenas três dias por semana (seguidos) para poupar o petróleo e o carvão. Estranhamente, quando se esperaria que a produtividade caísse de forma proporcional, ou seja 30-40%, caiu apenas 6% no período em que durou esta dura campanha. Será importante lembrar que tais medidas foram acompanhadas com descida de salários … o que garantiu a Heath pouco tempo no poder.

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Fotos:

Edward Heath (wiki), Mulheres apoiam os mineiros e panfleto (http://www.llgc.org.uk), Guerra israelo-árabe (1973) (http://www.militaryphotos.net)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O momento

 Harold Eugene Edgerton (1903-1990) é um engenheiro americano notabilizado em captar a espetacularidade de alguns fenómenos físicos através da fotografia estroboscópica.

 

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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

oh Jerónimo

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A venda de 56% da Jerónimo Martins à sua subsidiária holandesa, por questões fiscais, levantou um enorme coro de protestos no país e levou inclusivamente o CDS-PP hoje, na Assembleia da República, a sugerir um boicote ao Pingo Doce.

No atual momento de dificuldades dos portugueses a decisão é tudo menos simpática. É um facto.

No entanto uma empresa preferir um país cuja carga fiscal é 10 pontos percentuais menor do que a nossa é um ato de gestão compreensível. O mesmo se passa com muitas empresas americanas que, para desconsolo do fisco americano, passaram os seus interesses para a Irlanda.

Rasgar as vestes pelo ultraje nacionalista pode ser popular mas não resolve nada. O que seria importante era procurar criar as condições que tornem apetecível o investimento em Portugal. O caminho será esse.

E ainda por cima os patrões da Jerónimo Martins têm de pé a Fundação Francisco Manuel dos Santos que faz muito e bom serviço público!

Consumos de energia eléctrica caem em Portugal

 

Foto: Alqueva (EDP)

 

Segundo a associação Quercus 2011 trouxe uma diminuição no consumo de energia elétrica em Portugal, não especificando contudo se a redução se deveu ao sector industrial ou aos consumidores domésticos. Segundo o jornal Público as quebras anteriores ficaram a dever-se fundamentalmente à indústria:

“O arrefecimento da economia terá tido também um efeito. Entre 2008 e 2009, quando também houve uma redução no consumo de electricidade (-1,4%), a indústria teve um peso central na queda. O consumo da indústria transformadora caiu 8,7% nessa altura, enquanto o residencial subiu 5,4%, segundo dados da Direcção-Geral de Energia e Geologia. Entre 2007
e 2008, ambos tinham tido reduções semelhantes (3,0% e 2,9%). Ainda não há dados detalhados para 2011.” Público de hoje.

 

No entanto, devido à quebra de produção de energia por via hídrica, houve também um abaixamento da produção de energia de fontes renováveis (46,8% em 2011 comparando com os 53,2% em 2010).

Ver nota da Quercus.

Valores realmente impressionantes (pela positiva) e animadores para o futuro, apesar das pertinentes polémicas sobre a fatura que algumas energias renováveis, nomeadamente a eólica, nos deixam.

O interesse dos chineses na compra de parte da EDP compreende-se perfeitamente face a estas impressionantes performances e à necessidade da China em enfrentar o seu crescimento económico numa base energética com futuro.