quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Da moda



“Nunca a via sem os óculos escuros, sempre bem arranjada, a simplicidade das suas roupas exibia um bom gosto discreto, os azuis e cinzentos e a falta de brilho, que faziam com que ela, por si, irradiasse toda a luz.”

Truman Capote. Boneca de Luxo. 1958.




Sempre gostei (e gosto) de ver pessoas, especialmente as mulheres, bem vestidas. A elegância é uma vantagem não verbal extraordinária. E para quem, como eu, gosta especialmente de basear o seu prazer de vida numa boa conversa, ou mesmo numa dura discussão, o bem vestir é um complemento certo, mesmo que paradoxal, para o pacote completo que os outros me podem oferecer.



Não gosto, contudo, de indumentárias ostensivas. Como nas conversas as roupas devem ser bonitas mas discretas E se possível individualizadas pelo gosto de quem as veste e não normalizadas a uma moda de ocasião. Ser-se particular a vestir, como ser-se particular a falar é um dom especial. Gosto que tudo se harmonize, que a pulseira bata certo com o sapato, ou que o brinco exista só porque um determinado cinto fez a sua aparição naquele dia. As mulheres, algumas mulheres, passam muitos dos seus minutos de hoje a pensar na combinação que farão no dia seguinte, ou mesmo até depois. E isso chega a ser, para mim, comovente. A estética é, sem dúvida, um valor e uma graça civilizacional num quadro, numa escultura, numa mulher.

Casa de ferreiro, espeto de pau, é o aforismo certo para esta minha fraqueza. Muitas vezes ficamos presos naquele purgatório espiritual entre aquilo que pensamos e queremos e aquilo que efetivamente somos capazes de fazer. Não consigo, nem nunca consegui, vestir-me sozinho de forma adequada. Há qualquer coisa em mim da síndrome do Vasco Pulido Valente. Tal como ele escreve maravilhosamente e fala de forma absolutamente sofrível, assim eu gosto da estética de vestir e não o consigo fazer, individualmente, de forma minimamente satisfatória. Por isso quando consigo acertar numa combinação mais razoável, esgoto-a pelo uso, vulgarizo-a até à náusea e terei, mais à frente, que a reconstruir com imensa dificuldade. No entanto, julgo, para os homens tudo é mais fácil, ou pelo menos tendemos a torna-lo mais fácil. A repetição é a nossa forma de dizer que gostamos de estar assim, enquanto as mulheres sabem buscar, continuamente, novos patamares, como os equilibristas que arriscam sempre um pouco mais alto quando sentem a necessária confiança. Nós, pelo contrário, estamos cá em baixo, pois pior que uma mulher mal vestida é um homem mal vestido. Chega a ser doloroso de se ver.




As compras de roupa sempre foram para mim uma tortura. Se compro à primeira faço asneira, se perco tempo na escolha fico exausto e mal disposto. A minha mulher ajudou-me a perceber que existem mais lojas para além da loja a que, por comodismo, me afeiçoei, e que o que é caro não é necessariamente o mais adequado. É pela mão dela que entro agora, bem mais confiante, na selva das compras. Ela é o meu indispensável GPS. Agora já conheço quatro lojas. Começo a ter pena da Massimo Dutti pela sua fixação na roupa slim, só ainda não a risquei do meu mapa porque tenho esperanças que, um dia, tornem a fabricar roupas para homens com mais de 25 anos. Deliro com a H&M e com a concepção democrática do tamanho dos suecos, há mesmo ocasiões em que consigo que me sirva um L. A Massimo Dutti está na fase em que me obriga a pedir um XXL e isso não se faz a ninguém. Conheci há pouco a Zara e a sua pequenina salinha para roupa de homem num cantinho da infindável estepe de roupa feminina. Gostei do conceito de arrumarem num espaço manejável a nossa pobre escolha. Simpatizo ainda com a Eureka, a loja de sapatos na Paio Galvão, mesmo ao lado dessa instituição cultural que é a Sapataria Mimosa, da minha tia Fatinha, onde cresci. A Eureka consegue ter, no meio de propostas absolutamente delirantes de sapatos de homem, uns quantos pares com um toque de modernidade que não arrasa o sentido clássico dos sapatos. E tem, frequentemente, números de homem, 43 ou 44.
Estou finalmente a passar a fase 1 da moda masculina: serve ou não serve. E sinto-me medianamente confiante.



Publicado in O Comércio de Guimarães (17.09.14)

Fotos Breakfast at Tiffany’s 1961. Blake Edwards.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

E se eles jogassem sozinhos?



O desporto de alta competição é acima de tudo, além de um popular entretenimento, um negócio. Há por isso gente inteligente que sabe que a competitividade das modalidades traz mais emoção ao desporto e que tudo faz para que ela efetivamente exista. Assim acontece na popularíssima NBA nos EUA ou atualmente no campeonato de futebol alemão. Tanto uma como outra competição têm um enquadramento que lhes garante uma competitividade saudável. Nos EUA as piores equipas de basquetebol de uma determinada época têm o direito de escolher os melhores novos jogadores para a época seguinte, na Bundesliga, a liga de futebol com mais assistência ao nível mundial, o dinheiro que ela gere é distribuído equitativamente para que as equipas menos apetrechadas possam ir construindo melhores equipas que, de uma forma geral, reforçam a atratividade do campeonato alemão.

Em Portugal existem efetivamente dois campeonatos. Um do Porto, Benfica e Sporting, onde se escalpeliza até à náusea os problemas ou feitos dessas equipas e um outro campeonato com as outras equipas que mais não são que uma espécie de “paus de cabeleira” cuja função pretendida é a de, fundamentalmente, não atrapalhar o percurso das referidas três equipas. Quando porventura atrapalham, como sucedeu no último jogo do Vitória, cai o “Carmo e a Trindade”.



Parece-me evidente que esta perspetiva vem sido construída há anos e os espíritos mais volúveis não resistem a esta lógica mediática plantada pelos sargentos de ocasião e escolhem, inevitavelmente, torcer por um dos três clubes referidos. Infelizmente, à exceção do Vitória, a maior parte dos clubes tem adeptos que não resistem em ter um dos três clubes como segunda opção, ou por vezes ser o clube da sua terra a segunda opção. Daí que por exemplo se tenha assistido o ano passado na final da Taça os bilhetes que pertenciam ao Rio Ave foram, por iniciativa dos próprios sócios do clube de Vila do Conde, parar à mão de ocasionais benquistas.



Mesmo assim seria preferível dividir a liga portuguesa em duas. Uma importante com três clubes a – digamos – 10 voltas, onde eles poderiam discutir à vontade os fora de jogo, as incontinências verbais dos seus treinadores, as rixas de ocasião. E outra liga – a liga má, sem troféu não fossem os três ficar ciumentos – onde o resto de Portugal se poderia divertir sem que a comunicação social instrumentalizada rasgasse as vestes a qualquer contrariedade.

Já agora, para que os três não sofressem de ocasionais sentimentos de culpa,  proibiam-se na liga boa os jogadores nacionais. Assim talvez conseguíssemos construir uma seleção nacional minimamente decente e os três continuassem a alimentar, na liga boa, com particular competência e generosidade, as grandes seleções argentina, brasileira, colombiana, argelina e outras que se achasse por bem fomentar.



Fotos em: