quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Apocalypse

 

… é o mais recente disco do norte-americano Bill Callahan, ex-Smog.

O tema free é um vício:

 

O longo braço da lei

 

202

 

A extraordinária história de George Wright, detido há poucos dias pela polícia portuguesa depois de estar há 41 anos fugidos à justiça norte-americana, é absolutamente deliciosa.

Tem tudo para dar um filme. E impressiona-me a pertinácia das autoridades norte-americanas que, mesmo depois de 40 anos, ainda se deram ao trabalho de escutar a irmã de George.

Fez-me lembrar esse magnífico filme de Sidney Lumet Fuga sem Fim (Running on empty, 1988) que retrata a saga da família Pope e sobre o qual choro … sempre que o revejo.

 

 

Uma beleza de filme.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Não descer

 

Imenso desconforto afasta Passos Coelho de Jardim

Foto_António Cotrim_Lusa

 

A entrevista de Passos Coelho à RTP deu-me a noção ainda mais precisa do estado em que estamos. Vulneráveis como nunca, com grandes dificuldades em controlar a despesa muito por via dos empréstimos irresponsáveis que fomos contraindo para entreter as massas e darmos a falsa noção de país rico com que alegremente convivemos nos últimos anos.

Tentou ser claro e consegui-o. Falou verdade medindo apenas as palavras para evitar qualquer deslize mediático.

No entanto o país assemelha-se a um clube de futebol que evita desesperadamente a “descida de divisão” e o treinador tem que conviver, de cabeça levantada, com as surpresas desagradáveis que vamos tendo (como a Madeira, que infelizmente não será caso único), com os resultados de terceiros (a desorientação do directório europeu ou o afundanço progressivo da Grécia) e com a compreensão dos adeptos (que existe hoje claramente).

O trabalho do Governo não é nada fácil. Mas tem de ser feito … e muito bem feito.

domingo, 18 de setembro de 2011

Os inimputáveis

miguel silva Foto_Miguel Silva_Público

 

A dívida escondida debaixo do tapete pelo governo regional da Madeira deixa-nos, a todos, um sentido de profunda indignação e nojo.

O Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças que nos meses que levam de governação só têm tido destas surpresas, no desporto, nas obras públicas, na Madeira, foram até onde o sentido de Estado lhes permite ir. A inexistência chamada Procurador Geral da República acordou da letargia onde cobardemente se havia refugiado desde que tomou posse …

Fala-se em multas a esta gente.

Mas se procurarem bem nas leis que regem os titulares de cargos políticos certamente irão encontrar a possibilidade de criminalizar estes comportamentos. Infelizmente iremos ainda encontrar, nas câmaras ou em organismos públicos, mais comportamentos criminosos como este.

Mas é necessário julgar esta gente. A começar por Sócrates. Não politicamente claro, mas em termos da responsabilidade pela mentira e pelo descaramento.

Pode ser que as coisas melhorem para futuro…

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ha de ser

 

VII conferência. Lisboa 2008. VII Conferência da CPLP. Lisboa. 2008.

 

 

Estamos já em plena fase de transição para o novo Acordo Ortográfico. 2015 é o ano em que esse acordo entrará em pleno. Em Portugal o ano lectivo que agora começa ficará marcado pela sua aplicação no nosso sistema educativo e os documentos oficiais da nossa república serão, em 2012, já adaptados às novas normas.

Fica-nos sempre, eu sei, uma saudade das palavras que agora se reescrevem. É natural um certo snobismo da nossa parte quando a “cópia” se sobrepõe ao “original”, quando o Brasil se sobrepõe a Portugal. Mas a bem da internacionalização da língua portuguesa, dizem os defensores do acordo, tivemos que ceder e perceber que o Brasil representa três quartos daqueles que a falam e lhe dão por isso a força que hoje tem.

 

Por isso é a altura de dar uma saudação de bem-vindo ao alfabeto às letras k, w e y. E um bem-vindo com hífen, já que a seguir a bem ou a mal vai continuar a haver sinal. Vamos poder finalmente fazer, em português, kytesurf, afirmarmo-nos convictamente newtonianos ou chamar kafkiano ao vizinho do lado sem estrangeirar a língua.

E todos os que agora me lêem já não me leem com acento circunflexo. Perdem-se também os acentos na jiboia, em heroico, na boia, porque o ditongo está na penúltima sílaba. Assim o herói mantém-se mas o paranoico não. As consoantes mudas são arrasadas sem exceção no novo acordo: a fração, a confeção, o diretor, a seleção, nem mesmo a reação passará novamente … pelo menos com o seu c a meio. Alegremo-nos entretanto com as valorosas consoantes que ainda ficam intactas à força de as pronunciarmos em Portugal: salva-se a bactéria convicta, a secção intelectual, o egípcio estupefacto pelo Egito ter perdido o seu p. O malfadado eucalipto continuará ainda pujante na flora e na ortografia nacional.

Manter-se-á, no entanto, muita da dupla grafia entre Portugal (e outras países de língua oficial portuguesa) e o Brasil. Nós continuaremos a vestir os nossos fatos que para eles não são roupas mas evidências. Eles serão sutis e nós subtis. Eles com decepções e nós com deceções. Os anticoncetivos do lado de lá ou os anticonceptivos do lado de cá continuarão a aniquilar espermatozoides (sem acento). E o oxigénio deles continuará a ser ligeiramente diferente: oxigênio. Mas os brasileiros também perdem o trema e vão ter de aguentar sem o agüentar, o seqüestro ou a seqüência, passando a escrever como nós já o fazemos. Sejamos então atentos espectadores, ou espetadores (no Brasil), destas diferenças.

 

O hífen dá contudo um pouco mais de feitio.

O acordo tenta arrasá-lo. O novo acordo não gosta do hífen e suprime-o sempre que possível. Poderemos ser agora convictamente antirreligiosos, ou olhar a minissaia enquanto fazemos um contrarrelógio ou pintámos o autorretrato, esperar aumentos nas portagens da autoestrada que um dia há de ser paga. Tudo sem hífen! E há coisas estranhas como o cor de laranja perder todos os hífens mas o cor-de-rosa não. O mandachuva perde mas o guarda-chuva resiste.

Mas nem tudo são más notícias para o famoso tracinho, nas palavras em que o fim do prefixo e o início do elemento têm a mesma letra poderemos mantê-lo: em anti-inflamatório, em micro-ondas, em inter-regional ou em inter-resistente, se bem que no extrarresistente já não o poderemos resgatar. Mas o ex-marido continuará separado do seu bem-estar apesar da má-língua, assim como o além-mar e a pós-graduação.

Despromovamos entretanto este débil verão de setembro para a insignificância das minúsculas e o doutor também. Já chega de doutores ou presidentes maiúsculos. Adeus à pêra com acento e ao pára com acento; e ao pêlo também já que deveremos aceder à loucura de escrever que nos passaram a mão pelo pelo. Estranho, sem dúvida. Salvou-se, na razia, o pôde.

É a fatura da internacionalização da nossa língua portuguesa. Uma joia de língua, diga-se.

 

 

Publicado n´O Comércio de Guimarães

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O gozo de espreitar

Foto_Jornal de Negócios

 

A ampla divulgação do património e rendimento dos ministros e secretários de estado, a organização dos respectivos rankings de riqueza nos jornais nacionais é um exercício de voyerismo nojento a que pouca imprensa resistiu.

A lei é importante para controlar o enriquecimento ilícito. Mas não é isso que está a acontecer. O que realmente acontece é que as declarações dos políticos no Tribunal Constitucional servem, fundamentalmente, para que se espiolhe a vida de quem aceitou um cargo de Estado.