quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ha de ser

 

VII conferência. Lisboa 2008. VII Conferência da CPLP. Lisboa. 2008.

 

 

Estamos já em plena fase de transição para o novo Acordo Ortográfico. 2015 é o ano em que esse acordo entrará em pleno. Em Portugal o ano lectivo que agora começa ficará marcado pela sua aplicação no nosso sistema educativo e os documentos oficiais da nossa república serão, em 2012, já adaptados às novas normas.

Fica-nos sempre, eu sei, uma saudade das palavras que agora se reescrevem. É natural um certo snobismo da nossa parte quando a “cópia” se sobrepõe ao “original”, quando o Brasil se sobrepõe a Portugal. Mas a bem da internacionalização da língua portuguesa, dizem os defensores do acordo, tivemos que ceder e perceber que o Brasil representa três quartos daqueles que a falam e lhe dão por isso a força que hoje tem.

 

Por isso é a altura de dar uma saudação de bem-vindo ao alfabeto às letras k, w e y. E um bem-vindo com hífen, já que a seguir a bem ou a mal vai continuar a haver sinal. Vamos poder finalmente fazer, em português, kytesurf, afirmarmo-nos convictamente newtonianos ou chamar kafkiano ao vizinho do lado sem estrangeirar a língua.

E todos os que agora me lêem já não me leem com acento circunflexo. Perdem-se também os acentos na jiboia, em heroico, na boia, porque o ditongo está na penúltima sílaba. Assim o herói mantém-se mas o paranoico não. As consoantes mudas são arrasadas sem exceção no novo acordo: a fração, a confeção, o diretor, a seleção, nem mesmo a reação passará novamente … pelo menos com o seu c a meio. Alegremo-nos entretanto com as valorosas consoantes que ainda ficam intactas à força de as pronunciarmos em Portugal: salva-se a bactéria convicta, a secção intelectual, o egípcio estupefacto pelo Egito ter perdido o seu p. O malfadado eucalipto continuará ainda pujante na flora e na ortografia nacional.

Manter-se-á, no entanto, muita da dupla grafia entre Portugal (e outras países de língua oficial portuguesa) e o Brasil. Nós continuaremos a vestir os nossos fatos que para eles não são roupas mas evidências. Eles serão sutis e nós subtis. Eles com decepções e nós com deceções. Os anticoncetivos do lado de lá ou os anticonceptivos do lado de cá continuarão a aniquilar espermatozoides (sem acento). E o oxigénio deles continuará a ser ligeiramente diferente: oxigênio. Mas os brasileiros também perdem o trema e vão ter de aguentar sem o agüentar, o seqüestro ou a seqüência, passando a escrever como nós já o fazemos. Sejamos então atentos espectadores, ou espetadores (no Brasil), destas diferenças.

 

O hífen dá contudo um pouco mais de feitio.

O acordo tenta arrasá-lo. O novo acordo não gosta do hífen e suprime-o sempre que possível. Poderemos ser agora convictamente antirreligiosos, ou olhar a minissaia enquanto fazemos um contrarrelógio ou pintámos o autorretrato, esperar aumentos nas portagens da autoestrada que um dia há de ser paga. Tudo sem hífen! E há coisas estranhas como o cor de laranja perder todos os hífens mas o cor-de-rosa não. O mandachuva perde mas o guarda-chuva resiste.

Mas nem tudo são más notícias para o famoso tracinho, nas palavras em que o fim do prefixo e o início do elemento têm a mesma letra poderemos mantê-lo: em anti-inflamatório, em micro-ondas, em inter-regional ou em inter-resistente, se bem que no extrarresistente já não o poderemos resgatar. Mas o ex-marido continuará separado do seu bem-estar apesar da má-língua, assim como o além-mar e a pós-graduação.

Despromovamos entretanto este débil verão de setembro para a insignificância das minúsculas e o doutor também. Já chega de doutores ou presidentes maiúsculos. Adeus à pêra com acento e ao pára com acento; e ao pêlo também já que deveremos aceder à loucura de escrever que nos passaram a mão pelo pelo. Estranho, sem dúvida. Salvou-se, na razia, o pôde.

É a fatura da internacionalização da nossa língua portuguesa. Uma joia de língua, diga-se.

 

 

Publicado n´O Comércio de Guimarães

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