quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Malta porreira

 

Não é difícil perceber as responsabilidades e erros do atual governo na condução política das medidas de austeridade. Mas não é igualmente difícil perceber que a situação insustentável a que chegamos em Portugal requer medidas concretas e difíceis e que pela sua dimensão não serão certamente isentas de erros. Não as tomar significará, suponho, o isolamento de Portugal em termos políticos, sociais e económicos com a eventual saída do euro e da união europeia.

Por isso espanta-me a candura dos responsáveis políticos quando dizem que não se pode cortar no apoio fundações, não se pode privatizar a Caixa ou a RTP, não se podem aumentar impostos, não se pode isto ou aquilo. E, estou certo, que quando o Governo começar (e terá que o fazer) a cortar nas PPP (apesar do imbróglio jurídico que tal decisão acarretará), virá sempre um “responsável” político de um planeta distante dizer que é absurdo cortar-se naquela PPP pois irá prejudicar seriamente a população de Saturno.

Assim não dá.

Louva-se no entanto a postura serena, realista e cooperante de alguns parceiros institucionais como a UGT que consegue ver para além da luta político-partidária.

sábado, 22 de setembro de 2012

Dérbie minhoto?

0_DESPORTO_Vitoria_12-13_jogos_addy_grande_detalhe

Foto_Guimarães Digital

 

A vitória do Vitória ontem em Moreira foi um resultado mais importante do que aquilo que seria espectável. À quarta jornada o Vitória, equipa frágil apesar de promissora, precisava de uma vitória para receber o Braga com outro ânimo e conforto. Consegui-o. De forma difícil, pois o Moreirense tem uma boa equipa que espelha a sua excelente organização e o bom trabalho de Vítor Magalhães, mas inteiramente justa.

Irrita-me chamarem, como a comunicação social o fez, a um dérbie vimaranense um dérbie minhoto. Talvez a partir de hoje começem a designar o Sporting-Benfica como um dérbie da Estremadura e não como desafio lisboeta.

Haja paciência para tanta ignorância, parte dela, diga-se, inteiramente propositada no sentido de fragilizar o Vitória e o trabalho hercúleo que está a ser feito. Um trabalho que só dará frutos se todos ajudarmos. A situação financeira é muito pior do que aquilo que o mais pessimista dos vitorianos possa imaginar. União, paixão e responsabilidade é o que se nos pede.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O difícil equilíbrio

thugs-and-killers-dont-represent-benghazi-nor-islam

A histeria que se estabelece no mundo islâmico sempre que algum palerma decide achincalhar Maomé é uma verdadeira loucura.

Há uma semana atrás, em Bengazhi na Líbia, o embaixador norte-americano e mais três elementos do consulado foram brutalmente assassinado por uma turba de facínoras que emboscaram a representação norte-americana.

O pretexto foi um filme, com o qual os EUA nada têm a ver.

A intolerância tende a gerar intolerância e compreendo que, no Ocidente, tal selvajaria e a miríade de manifestações no Egito, na Indonésia, e noutros países muçulmanos, gere sentimentos de náusea perante tão primárias manifestações.

 

Mas vamos ter que ter paciência para nada fazer que “dê razão” aos promotores do ódio contra o ocidente. Tenho a certeza que a larga maioria dos muçulmanos são gente decente que espreita a oportunidade de viver em sociedades mais democráticas, livres e justas. Qualquer erro ocidental, mesmo que compreensível, isola-os.

E é esta paciência e uma infinita diplomacia que deve guiar, a Europa ou os EUA, neste campo de minas que existe hoje entre o Ocidente e o Oriente.

O tão criticado Bento XVI fez, no Líbano, uma parte simbólica, mas importante, na conciliação entre povos e religiões.

 

 

Foto_http://globalvoicesonline.org

Paixão

Klimt_the_kiss_1907_8

O beijo Gustav Klimt (1908-09)

A paixão é uma palavra demasiadamente feia para encerrar tão forte e importante significado. É uma palavra com sonoridade de caixão ou puxão, ambas também horríveis. Uma língua tão bonita quanto a língua portuguesa não teve aqui a arte de arredondar delicadamente o termo latino passio para a rendilhada passione como fizeram os italianos, ou a delicada passion dos franceses. Já os espanhóis carregaram-na de intensidade na pásion, como é aliás seu hábito.

Não tivemos em conta a paixão dos gregos (pathe), que era o de sentir, seja lá o que fosse, e seguimos estritamente a passio latina que quer dizer sofrimento. Daí a aspereza da palavra.

No entanto enquanto povo latino que somos nunca consideramos a paixão como um mal. O sofrimento que ela induz é bom, é necessário. Achamos nós ser uma ventura imensa apaixonarmo-nos, mesmo que isso implique sofrer. Mesmo que isso nos desassossegue permanentemente. Tenho dúvidas até que se possa arrumar a paixão na classe dos sentimentos: o sentimento é uma consciência íntima, enquanto a paixão é uma inconsciência declarada.

A paixão tem prazo de validade. Se chegarmos a uma altura adiantada da nossa vida e nunca nos tivermos verdadeiramente apaixonado por ninguém, é melhor esquecer. O cinismo que se ganha forçadamente com a idade impede-nos de sentir a paixão. Torna-nos impermeáveis à loucura. Um afeto tão violentamente arrebatador exige uma perfeita forma física e uma imperfeição nas regras de comportamento. É uma pena, eu sei, mas é mesmo assim. A paixão tendo mais de doença – uma doença boa – que de sentimento. A paixão é sarampo, pois como o sarampo só se apanha uma vez. Fica-se imune aos restantes ataques. Condescendo aqui um pouco para duas, três em casos raros de grandes corações, mais do que isso não é paixão o que dizem sentir. É amor piegas. Serão afetos talvez, coisas quantificáveis portanto, nada mais que isso.

 

E se somos daqueles cuja sorte ou arte nos permite hoje trocar olhares com a nossa paixão, fiquemos aí. Pois passada a borrasca caótica da paixão, sente-se ainda, cuidadosamente, por baixo da aparência mundana, com várias mãos de tempo, o sorriso, o olhar, o recanto de pele, a expressão nos lábios que um dia julgámos que nos matariam … só de os olhar.

Paixão II

Essa imagem está a correr nas redes sociais e alguns até consideram que se tornou um símbolo

Foto_José Manuel Ribeiro

 

Não me apetecia nada falar da realidade mundana. Além de ser chata, é triste. E ainda por cima de política!

(Apesar do meu processo de desintoxicação da política partidária ter corrido bastante bem – os médicos são nesse ponto unânimes – não há nada que mais me irrite do que a demagogia de atirar apenas para cima dos políticos tudo o que há de mau. Ninguém tem culpa de nada à exceção dos políticos, esses malandros! Quando a política precisa apenas que, à imagem do que fazemos em nossa casa, deixemos à porta os escroques. Nada mais.)

A comunicação do Primeiro-Ministro há uma semana atrás iniciou, estou em crer, e para muita pena minha, o processo de greicização de Portugal. O neologismo de ficarmos gregos.

Chegou a altura de rasgar as vestes agora, já que não são apenas os malandros dos funcionários públicos a penar! Só falta um bocadinho de violência policial para isto ficar au point. Falta sangue e vai havê-lo com certeza, é só esperar. Os jacobinos do costume, de tanto clamarem contra a passividade dos seus concidadãos, estão prontos a tomar a dianteira do ódio mas não a do realismo das soluções para a situação desesperada em que nos encontramos.

Passos Coelho ajudou a criar esta malfadada oportunidade pois perdeu grande parte do seu capital de credibilidade ao manter Miguel Relvas depois de tudo que se soube. Passos tinha crédito e decidiu proteger o lixo. Contaminou-se, e só não digo que “é bem feito” pois o assunto é trágico para o país. O irritante tom messiânico que Passos tem adotado para falar das más notícias, como se fosse a providência divina e não o raciocínio humano a ditá-las, fez o resto.

Se a estes passos da paixão/sofrimento adicionarmos a excitação juvenil de Seguro e a hipocrisia política de Portas é fácil adivinhar que nada de bom nos espera.

Valham-nos outras paixões.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Messianicamente falando

ppc paulo cunha

Foto_Pedro Cunha (Público)

 

Mesmo considerando que a margem de manobra do país é, face ao alegre endividamento que fomos consentindo, praticamente nula, deixando assim o Governo no ingrato papel de mensageiro da desgraça, há algo que não vai bem…

Continuo a não duvidar da seriedade e caráter do Primeiro-Ministro e do seu Ministro das Finanças, começo a duvidar, isso sim, do realismo de cada um dos dois.

Insistir em medidas que por via da redução do consumo colocam a nossa balança de pagamentos em alta (pela primeira vez desde os anos 40), mas o défice e o desemprego em números desanimadores, começa a ser preocupante. A que acresce o tom messiânico com que falam, como se à imagem de Moisés Deus falasse diretamente com eles … e eles apenas se dessem ao trabalho de nos retransmitir essa mensagem divina. Assim não: democratize-se Deus!