domingo, 29 de dezembro de 2013

O homem que não gosta de ninguém


Gosto imenso da escrita de Vasco Pulido Valente - o homem que não gosta de ninguém - e a fórmula que de há alguns anos tem experimentado no Público é a ideal. Crónicas curtas, exageradas e algumas vezes com particular propósito e acerto são a sua marca. Lêem-se com o devido desconto que se deve dar aos rezingões. São ácidas, mas geralmente perspicazes (como a de hoje):





"(...) Agora apareceram dois bandos: o Livre e o Pólo. O Livre quer organizar uma gritaria institucional, onde toda a gente seja livre de participar. O Pólo produziu uma ladainha sem sentido, que serve com certeza para o consolo do espírito e o alívio da alma. Julgam os seguidores destas duas seitas que o seu zelo acabará por transformar o PS e o PC e juntar a esquerda num grande e alegre manicómio. Mas nem o Livre, nem o Pólo têm razão. Na balbúrdia em que vivem, as pessoas precisam de ordem, não precisam de “ideias”, que já as confundem quanto baste, e provavelmente irão votar nos partidos do costume, com porta aberta e licença da câmara. E daí brotará, pelo velho ódio entre o PC e o PS, uma nova edição do antiquíssimo “bloco central”, para continuar imperturbável as fantasias de Passos Coelho. "
Público 29.12.13



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Construtores de capas #2


Daniel Ash, guitarrista dos Bauhaus, desenha a extraordinária capa do segundo álbum da banda: Mask de 1981, para a editora Beggars Banquet de West London.

Uma capa magnífica que se reproduz aberta e fechada:






Num registo mais sóbrio sempre me encantou a capa de Hunky Dory (1971). O meu álbum intemporal de David Bowie.



Segundo a wikipédia esta pose, fotografada por Brian Ward e trabalhada por George e Terry (são apenas as referências do álbum, baseia-se numa foto de Marlene Dietrich em posse de Bowie aquando da sessão fotográfica. Muito provavelmente uma foto de Marlene no filme Shangai Express (1932), de Josef von Sternberg:



A simplicidade e a surpresa foi a marca do álbum de estreia dos U2, Boy (1980). Bem longe ainda da fama que a esperava a banda irlandesa colocou na capa uma extraordinária fotografia de um rapazinho de seis anos, Peter Rowen, hoje fotógrafo, que repetiriam 3 anos mais tarde numa pose mais dura no álbum War (1983).



Os Talking Heads produziram capas fantásticas para os seus álbuns. A minha preferida - e a única com textura - pertence ao terceiro LP da banda, Fear of Music (1979), fruto do trabalho gráfico de Jerry Harrisson (guitarrista e teclista da banda), com a colaboração de David Byrne, Jimmy Garcia e Philip Strax...



.. não desfazendo do álbum que se lhe seguiu - o imenso Remain in Light (1980) - também produzido por Brian Eno, e tão estranha e absorvente como o seu conteúdo musical. A capa foi concebida pelos restantes músicas da banda: Tina Weymouth e Chris Frantz.



Por último, de um álbum que nunca tive, e da lavra do inevitável Peter Saville, o álbum de estreia dos Orchestral manouvers in the Dark (1980), numa fotografia ilustrativa do design utilizado.





quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Construtores de capas #1


Os discos de vinil tinham mais qualquer coisa do que música. Sendo objetos físicos reais e dimensionados, ao contrário dos atuais ficheiros digitais, eles constituíam muitas vezes uma afirmação estética das bandas e, também, daqueles que compravam a sua música. Passear o disco era uma atividade regular e um statement.

Peter Saville foi, neste campo, o maior. Pelo menos na minha geração e numa tendência dos anos 80 ligada à Factory Records, à música e à estética de uma cidade de Manchester resgatada assim do seu cinzento absoluto.

A clique de Saville dá-se ao ver a edição britânica do álbum Autobahn dos Kraftwerk (1974) (mais info):


A edição alemã é vulgar.

A partir daí Saville sabia o que queria e produz para a Factory Records e para os Joy Division uma das mais fabulosas capas de sempre, Unknown Pleasures:



Inspirado na imagem detecção de ondas eletromagnéticas emitidas na fase final de evolução de uma estrela muito densa (Pulsar), Saville fez a sua primeira capa de LP (1979). (vídeo)


Merece em outros álbuns dos Joy Division ainda destaque o álbum Still (1981) uma peça absolutamente fabulosa de design que conservo com particular religiosidade.





E outras que mantenho na memória e na proteção do plástico:


She´s lost control/Atmosphere (12'', o maxi-single, 1980)


Love will tear us apart (12", 1980)


Movement, New Order (LP, 1981)


Temptation, New Order (12", 1982)



Ultravox, One small day (12", 1984)

A surpreendente capa dos Wham! de 1986 (Music From the edge of heaven):


Infelizmente conhecida assim:



Um sacrilégio!


Fontes:
http://www.hardformat.org/designers/peter-saville-designer/
http://www.petersaville.info/sleeves






Balizas imaginárias


“É que o problema das balizas invisíveis é que elas estão sempre a mudar de tamanho. E a realidade das  acções naquilo que está em jogo é sempre deixada à imaginação do espectador.”
Blogue “Mundo hipoético dos ses”. http://mundohipoteticodosses.blogspot.pt. 2013.


Apenas precisar daquilo que existe é uma boa medida de equilíbrio individual. A imaginação cobre o resto. Preenche as frinchas por onde o frio da impossibilidade poderia entrar. Calafeta a angústia do não ter.
Lembro-me a este propósito do futebol de rua que joguei e que outros, que agora me leem, também jogaram. Nesse jogo de crianças a ausência física das balizas nunca impediu nenhum desafio. Definida a base de uma baliza com uma pasta, uma pedra, um monte de areia, ou outro objeto suficientemente visível, toda a estrutura se construía, imaginada, para que o jogo se desenvolvesse. Media-se, com inusitado rigor, a distância entre os postes, ou melhor entre as suas bases, e a coisa construía-se de forma completa e eficaz a partir daí. Enquanto a barra horizontal da baliza não merecia grandes discussões, pois a sua altura dependia da altura do guarda-redes, e isso era facilmente verificável pela visão e pela ética, os postes verticais eram, muitas vezes nos jogos mais disputados, razão para intensas discussões e uma retórica infantil muito prospetiva sobre a efetiva perpendicularidade do poste em relação ao solo que suportava a bola e os jogadores. É golo gritavam uns, enquanto outros, contrariados, juravam que a bola bateu no poste e por isso não entrou. E isso podia continuar. Nesses jogos em que as balizas eram imaginadas não era só a habilidade do corpo e dos pés que contava, era também a boa explicação da trajetória da bola que determinava o golo. A um nível retórico mais elevado havia quem, de forma surpreendente, não negasse que efetivamente a bola bateu no poste ... bateu no poste mas entrou, explicava então aos adversários ocasionais o jogador mais consistente. E desenhava no espaço, com o dedo, a real trajetória da bola, sem recurso a um replay que não existia e por isso não era necessário. Foi assim que a bola entrou, explicava, bateu deste lado do poste e o resto era eloquência de quem desenhava no ar e na cabeça dos adversários a trajetória (imaginada) do remate. E das duas uma: ou o consenso imperava ou o dono da bola resolvia a questão levando-a para casa. Pronto deixa lá, a bola bateu no poste e entrou, acediam, pragmáticos, os que há pouco juraram ver a bola saindo (imaginada) da zona da sua baliza.

Hoje há mais balizas. Nas escolas, nos parques, nas associações recreativas muitas balizas foram plantadas neste país. Imagino, mesmo sem precisar, que existirão centenas de vezes mais balizas do que há trinta ou quarenta anos atrás. Talvez mesmo milhares de vezes, exagero. Recordo hoje a chegada de algumas balizas aos átrios das escolas, zebradas de vermelho e branco, que permitiram então tornar reais as trajetórias da bola por nós imaginadas. Mesmo assim, na ausência de redes, discutia-se então se a bola entrou por dentro ou por fora da rede agora imaginada. Depois inventamos os árbitros e aí foi o descalabro: monopolizaram a nossa imaginação definindo pelo apito e pelos gestos a “verdade”.



As balizas imaginárias saíram hoje das ruas e dos campos para outros sectores. Para a política por exemplo. O que hoje assistimos entediados, em Portugal, é à discussão se a crise bateu no poste e saiu ou se, pelo contrário, bateu no poste e entrou, enquanto outros juram que nem no poste do Tribunal Constitucional tocou a bola e que só é possível agora tentar perder por poucos. Os jogos políticos são hoje entediantes, mastigados, com mais discussão retórica do que arte na finalização e na conclusão. Os jogadores que hoje ocupam o campo nunca jogaram na rua. Vejo mesmo assim com bons olhos outros jogadores e outras plataformas e, mesmo da bancada, não me importaria de ajudar a construir um futebol mais direto e objetivo que eliminasse o tédio do tiki-taka inconsequente que hoje vivemos.




O Natal recupera, com doce cadência, as linhas imaginárias da infância. Constrói, por outro lado, nas crianças de agora as balizas da memória. É assim tempo de viver e recordar, de fundir a trajetória desses sentimentos numa única reta sem princípio nem fim. Infinita por imaginação. Feliz Natal.



Publicado in O Comércio de Guimarães

Fotos obtidas em (de cima para baixo): Daily Mirror, Zimbio.com e robhubbard.wordpress.com
Foto do Facebook in panoramio.com