quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Balizas imaginárias


“É que o problema das balizas invisíveis é que elas estão sempre a mudar de tamanho. E a realidade das  acções naquilo que está em jogo é sempre deixada à imaginação do espectador.”
Blogue “Mundo hipoético dos ses”. http://mundohipoteticodosses.blogspot.pt. 2013.


Apenas precisar daquilo que existe é uma boa medida de equilíbrio individual. A imaginação cobre o resto. Preenche as frinchas por onde o frio da impossibilidade poderia entrar. Calafeta a angústia do não ter.
Lembro-me a este propósito do futebol de rua que joguei e que outros, que agora me leem, também jogaram. Nesse jogo de crianças a ausência física das balizas nunca impediu nenhum desafio. Definida a base de uma baliza com uma pasta, uma pedra, um monte de areia, ou outro objeto suficientemente visível, toda a estrutura se construía, imaginada, para que o jogo se desenvolvesse. Media-se, com inusitado rigor, a distância entre os postes, ou melhor entre as suas bases, e a coisa construía-se de forma completa e eficaz a partir daí. Enquanto a barra horizontal da baliza não merecia grandes discussões, pois a sua altura dependia da altura do guarda-redes, e isso era facilmente verificável pela visão e pela ética, os postes verticais eram, muitas vezes nos jogos mais disputados, razão para intensas discussões e uma retórica infantil muito prospetiva sobre a efetiva perpendicularidade do poste em relação ao solo que suportava a bola e os jogadores. É golo gritavam uns, enquanto outros, contrariados, juravam que a bola bateu no poste e por isso não entrou. E isso podia continuar. Nesses jogos em que as balizas eram imaginadas não era só a habilidade do corpo e dos pés que contava, era também a boa explicação da trajetória da bola que determinava o golo. A um nível retórico mais elevado havia quem, de forma surpreendente, não negasse que efetivamente a bola bateu no poste ... bateu no poste mas entrou, explicava então aos adversários ocasionais o jogador mais consistente. E desenhava no espaço, com o dedo, a real trajetória da bola, sem recurso a um replay que não existia e por isso não era necessário. Foi assim que a bola entrou, explicava, bateu deste lado do poste e o resto era eloquência de quem desenhava no ar e na cabeça dos adversários a trajetória (imaginada) do remate. E das duas uma: ou o consenso imperava ou o dono da bola resolvia a questão levando-a para casa. Pronto deixa lá, a bola bateu no poste e entrou, acediam, pragmáticos, os que há pouco juraram ver a bola saindo (imaginada) da zona da sua baliza.

Hoje há mais balizas. Nas escolas, nos parques, nas associações recreativas muitas balizas foram plantadas neste país. Imagino, mesmo sem precisar, que existirão centenas de vezes mais balizas do que há trinta ou quarenta anos atrás. Talvez mesmo milhares de vezes, exagero. Recordo hoje a chegada de algumas balizas aos átrios das escolas, zebradas de vermelho e branco, que permitiram então tornar reais as trajetórias da bola por nós imaginadas. Mesmo assim, na ausência de redes, discutia-se então se a bola entrou por dentro ou por fora da rede agora imaginada. Depois inventamos os árbitros e aí foi o descalabro: monopolizaram a nossa imaginação definindo pelo apito e pelos gestos a “verdade”.



As balizas imaginárias saíram hoje das ruas e dos campos para outros sectores. Para a política por exemplo. O que hoje assistimos entediados, em Portugal, é à discussão se a crise bateu no poste e saiu ou se, pelo contrário, bateu no poste e entrou, enquanto outros juram que nem no poste do Tribunal Constitucional tocou a bola e que só é possível agora tentar perder por poucos. Os jogos políticos são hoje entediantes, mastigados, com mais discussão retórica do que arte na finalização e na conclusão. Os jogadores que hoje ocupam o campo nunca jogaram na rua. Vejo mesmo assim com bons olhos outros jogadores e outras plataformas e, mesmo da bancada, não me importaria de ajudar a construir um futebol mais direto e objetivo que eliminasse o tédio do tiki-taka inconsequente que hoje vivemos.




O Natal recupera, com doce cadência, as linhas imaginárias da infância. Constrói, por outro lado, nas crianças de agora as balizas da memória. É assim tempo de viver e recordar, de fundir a trajetória desses sentimentos numa única reta sem princípio nem fim. Infinita por imaginação. Feliz Natal.



Publicado in O Comércio de Guimarães

Fotos obtidas em (de cima para baixo): Daily Mirror, Zimbio.com e robhubbard.wordpress.com
Foto do Facebook in panoramio.com

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