quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Baratas tontas

metamorphosis_after_kafka_2002 paula rego Paula Rego. Metamorfose.

“Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos (…) Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.

Que me aconteceu? — pensou.”

Franz Kafka. Metamorfose. 1915.

 

 

 

Continuo hoje, mais do que nunca, absolutamente entediado com a avalanche de notícias sobre a crise, os cortes, as enésimas cimeiras de franceses e alemães, as vidências dos economistas do regime que há uns meses atrás não viam a realidade espalmada à frente do nariz, os debates televisivos sobre coisas que deveriam ter sido discutidas há décadas atrás. E essa tontura de tédio só é contrabalançada pelo gelo das evidências. Como chegamos aqui? Que me aconteceu? Perguntamos hoje espantados como o caixeiro-viajante do livro de Kafka que de um dia para outro se viu acordado e irreconhecível na forma de um inseto.

 

De repente, porém, tudo parece estranhamente claro. A generalidade dos países europeus e os Estados Unidos perceberam (apesar de ainda estarmos na fase do espanto boquiaberto e não ainda, infelizmente, na fase das soluções) que andamos a viver acima das possibilidades. Isto é, tornou-se hoje claro para todos que os estados gastam mais do que aquilo que conseguem arrecadar, pois o dinheiro que se gastou não teve a ver com a riqueza que cada país produzia, mas com espectativas ou, pior do que isso, com o comprometimento do trabalho das gerações futuras. As dívidas soberanas dos países mais não são do que, comparando com as famílias, dívidas que um casal assume sem que o seu salário dê alguma vez para as pagar e que a deixam como herança para os filhos ou netos pagarem, pois a dimensão é tal que morrerão muito antes da dívida ser liquidada.

Toda a máquina do estado dos países ocidentais tinha, até há trinta anos atrás, um peso na economia do país de 20 ou 30%. Hoje esse peso passa os 50%. Ou seja aquilo que cria riqueza, como a indústria ou a agricultura, tem cada vez menos gente e menos espaço e é cada vez mais sobre eles que o estado se apoia para ir sobrevivendo. A dívida pública e privada dos países ocidentais passa quase sempre aquilo que esses países são capazes de produzir num ano – os EUA por exemplo – havendo casos como o da Irlanda (10 anos), Reino Unido (4 anos) ou Portugal e França que teriam que trabalhar durante dois anos sem nada gastar para pagar o que devem. Nos países mais vulneráveis como a Grécia, Portugal ou a Irlanda o problema é visível, mas nas grandes potências ele também existe só que fica mais escondido pela dinâmica das suas economias.

Os horrores da última grande guerra na Europa forjaram no carácter dos seus habitantes a evidência de que os europeus juntos estão melhores do que separados. Assim se criou e alargou a então CEE. A par disso os estados ocidentais criaram um conjunto de mecanismos de apoio às populações compatível com as democracias modelo que implementaram. No entanto já há um bom par de décadas que a conquista democrática do poder nos vários estados se fez fundamentalmente à custa de acenar às populações um conjunto fantástico de direitos e de esquecer sistematicamente de lhes lembrar os respetivos deveres. É fácil hoje atirar para a política o odioso, mas foram as pessoas que assim o quiseram. Basta relembrar em Portugal as recentes legislativas de 2009 em que o otimismo megalómano venceu o pessimismo realista. A ilusão é sempre o caminho mais fácil apesar de ser o que mais feridas deixa.

 

 

Apesar dos líderes europeus que temos é bom sabermos que a Europa acolhe, ainda hoje, o melhor da democracia. Somos uma civilização (ou um conjunto delas) invejável. Respeitam-se os direitos humanos e é-se livre. E esses valores são preciosos sobre todas as coisas. Um pedaço de terra onde nasceu Einstein, Churchill ou Cervantes, onde nasceu o renascimento italiano ou a alma teimosa, sonhadora e solidária dos portugueses, consegue com certeza reerguer-se sem atropelar princípios básicos de cidadania. É bom estar atento e dar um pouco de tempo para que esta desorientação governativa no espaço europeu se desvaneça e comecemos a pensar e a trabalhar em conjunto. Esse é o único caminho possível apesar do perigo real dos nacionalismos.

Mas sempre atentos e sobretudo realistas.

 

Publicado in O Comércio de Guimarães

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