quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A paciência do chinês

imperador-China

 

“Quase todos os impérios foram constituídos pela força, mas nenhum pode ser sustentado por ela. O domínio universal, para durar, tem que traduzir a força em comprometimento.”

Henry Kissinger. Da China. 2011.

 

 

O interessante livro do qual fiz a citação é escrito por uma notável figura da segunda metade do séc.XX, Henry Kissinger, Secretário de Estado dos presidentes americanos Nixon e Ford, que há quarenta anos, na administração Nixon, construiu uma ponte diplomática entre os Estados Unidos e a República Popular da China, que se mantém firme até hoje. Interrogo-me, à luz da atualidade, como foi possível que a China comunista, atrasada e repressora, seja hoje a potência económica que efetivamente é?

Quando Kissinger visitou a China a estratégia era a de isolar e enfraquecer a União Soviética que, passadas duas décadas, cairia estrepitosamente com o Muro. Nem a ele lhe passaria pela cabeça que a China detivesse hoje grande parte da dívida americana e que tivesse, como tem hoje, a Europa prostrada a seus pés à espera que o antigo Império do Meio lhes compre mais dívida também.

A China é mais do que um país: é uma civilização, que se tem pulverizado e reabilitado ao longo dos últimos quatro milénios. Ao contrário de nós, os ocidentais, a China nunca teve grandes pretensões de colonizar. Talvez porque já é em si demasiado grande, não sei. Mas a verdade é que com paciência a China, ao longo das últimas décadas, colonizou-nos economicamente enquanto nos entretivemos a olhar para a nossa bonita imagem refletida num espelho.

 

E a nossa imagem é tão importante que, cá no país, nos deixamos tolher quando a demagogia política da Madeira nos chamou colonialistas.

Só muita miopia e um complexo tardio permitiram que Alberto João Jardim estivesse à solta durante tanto tempo. Mesmo hoje, em campanha, compara sem qualquer espécie de vergonha a dívida da Madeira à dívida de Portugal. É menor: matematicamente era impossível que não o fosse.

No entanto já seria honesto comparar a Madeira com Guimarães e Famalicão, sendo que estes concelhos têm em conjunto, mesmo assim, mais 40.000 habitantes que o arquipélago. E se assim compararmos poderemos perceber que a dívida de curto prazo da Madeira (compromissos a pagar até 2015), e só isso, representa aquilo que os municípios de Guimarães e Famalicão gastariam nos próximos 20 anos caso os atuais orçamentos municipais se mantivessem. E sobre esse facto não há paciência ou complexo que apaguem tamanho desplante.

 

Numa altura em que Guimarães respira criatividade (noc noc!) o nosso Vitória é um triste contraponto. A coisa não arranca muito à custa de um pequeno grande detalhe que tem arrasado as suas prestações: a equipa é uma equipa burra. Só assim se percebe que um jogador que teria grandes dificuldades para me fintar a mim, que tenho mais do dobro da idade dele, julgue poder fintar dois rápidos avançados leoninos, ou que quem tem grandes dificuldades para efetuar um passe a cinco metros pense plausível fazer passes a cinquenta metros sem errar, ou que quem não tenha jeito para chutar à baliza o faça quando tem companheiros melhor colocados. O futebol não é um jogo exclusivamente de habilidade ou de força, o futebol é um jogo de inteligência por isso pode ser tão bonito. Dar inteligência à equipa é uma tarefa difícil, muito mais que dar-lhe força ou treinar a habilidade. Como em qualquer profissão as equipas valem por aquilo que cada um, reconhecendo as suas limitações e as potencialidades, pode fazer para o colectivo, mas é necessário perceber isso (o que não está manifestamente a acontecer). E não quero sequer pensar o que será da equipa se um jogador habilidoso como Nuno Assis perder um dia a paciência para ser o inteligente de serviço.

 

Há coisas difíceis de entender. No trânsito, por exemplo, a obrigatoriedade de cortar à direita nos Palheiros, para quem vem da Mumadona, é uma inutilidade cara em tempo e em combustível. A recente experiência com a retirada dessa obrigatoriedade revelou-se positiva necessitando apenas, durante curtos períodos mais críticos, que a Polícia Municipal ordene o trânsito como o fez e bem. Já não estamos em tempos de passeios de carro pela cidade, por amor ao ambiente, à carteira e à paciência que não se pode gastar em semelhantes inutilidades.

 

Publicado in O Comércio de Guimarães

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